sexta-feira, 15 de março de 2024

Recuperar o Humanismo. José Mauricio de Carvalho



Não é novidade dizer que passamos por uma crise de cultura. Dezenas de intelectuais repetem isso desde o século passado. Zygmunt Bauman entrou nesse assunto mostrando que a sociedade de massas, descrita por diversos autores sendo Ortega y Gasset é o mais conhecido, era alegoricamente descrita como: 'leve', 'líquida' e 'fluida'. O que ele queria dizer? Que vivemos dias em que a sociedade se ajusta a forma do momento, sem manter antigas configurações. Não há formato ou fatores estruturantes no meio social, disse Bauman, a sociedade funciona como um líquido que assume a forma do recipiente. O diálogo com o passado é fraco ou inexistente, especialmente com os valores. Tudo é passageiro nesses nossos dias, dos bens consumidos aos amores vividos. Amores duram o tempo do prazer e desaparecem nas primeiras dificuldades. O que é trágico para tantos pode ser traduzido na singela fórmula do ficar e resulta nas relações ou casamentos em série. Essas mudanças bruscas produzem dificuldades e sofrimento pessoal e elas são maiores para aqueles que mais precisam do apoio dos costumes e instituições. 

A crise foi tema de muitos livros de Bauman. Em Babel Bauman e Mauro, coautor da obra, olharam a depressão econômica de 2008, perceberam que ela acelerou as mudanças que já estavam ocorrendo. Ela acelerou os processos: estimulou a competição em detrimento da solidariedade, enfraqueceu os sistemas de proteção social e de garantias do trabalhador, atribuiu os fracassos profissionais unicamente à falta de talento ou capacidade dos indivíduos, reduziu o planejamento de longo prazo e o poder econômico se afastou e se sobrepôs à política, os estados nacionais perderam força e a violência se reproduziu dentro e fora dos Estados Nacionais. 

As mudanças deixaram de lado os valores e a tradição humanista que funcionavam como a coluna vertebral do ocidente. Porém hoje, os movimentos da economia, a tecnologia e a revolução da comunicação nesse mundo global não dependem mais nem da linguagem escrita, nem da tradição intelectual, nem dos valores, nem da história que identifica essa cultura. Não precisa de nada disso para justificar a formação dos Estados Nacionais e da produção econômica. Por isso todos esses elementos, que tínhamos como identificadores do que éramos, caíram em desprestígio sendo retirados do sistema educacional oficial de muitos países e colocados no altar do desprestígio. 

No entanto, sabemos que aquilo que fornece identidade ao homem é o seu passado, não como um presente eterno, mas como aquilo que mostra do que fomos feitos, do que nos construiu e forneceu matéria-prima para enfrentar as novidades que a vida vai trazendo. E assim, a forma que temos para enfrentar os desafios das situações-limite (sofrimento, doença, culpa e morte), ou ainda a barbárie e a ignorância, que andam para além das rotinas do dia a dia é o diálogo com isso que nos teceu. 

A compreensão de quem somos nos faz perceber que a consciência de nossos limites naturais aponta para os valores historicamente elaborados, o que significa na prática considerarmos o respeito ao outro e sua dignidade como objetivo de vida e a fraternidade como possibilidade. Disse-o Immanuel Kant de forma singela. E deixou-nos o desafio de criar a defesa da humanidade como um valor para nos salvar da barbárie, das ilusões, da ignorância, do fanatismo, esses filhos de nossos dias. Esses filhos nos deram netos que se denominam: anticiência, antirracionalidade, fundamentalismo religioso e político, nacionalismo apodrecido e anacronismo. 

O humanismo é uma forma de referir-se à humanidade como valor e realçar a capacidade que temos de amar. 

Postagens mais vistas