quinta-feira, 24 de junho de 2010

GIULIA, FELIZ ANIVERSÁRIO - Selvino Antonio Malfatti


GIULIA

Era uma tarde fria. Todos na rua se apressavam para chegar à casa, esconder-se do frio junto à lareira ou ao fogão à lenha.
Giulia, eu estava lá com tua mãe e o irmãozinho, o Nani. Este não parava: corria, chutava bola, pulava pelos móveis. Tua mãe ralhava com ele:
- Nani, daqui a pouco me acertas uma bolada na barriga...
Que nada. Tudo a mesma coisa.
Pensava comigo mesmo:
- Hoje vamos nos recolher cedo.
De repente o Nani diz que quer ir à festa junina do colégio.
- Meu Deus, que loucura, pensei. Tu estavas prestes a nascer. Tua mãe com aquele barrigão.
Fomos. Era um povaréu que não terminava mais. A música não tinha nada a ver com festa caipira. Era um rock de rebentar os tímpanos. Teu irmão corria no meio do povo, se perdia, eu corria a atrás. E tua mãe carregando aquele barrigão. Uma hora cheguei para ela e disse.
- Vamos embora.
- Não, está cedo. Estou me divertindo - dizia ela.
Eu começava a ficar agoniado. Sabe, tu poderias nascer a qualquer momento, lá no meio da multidão. Felizmente daí a pouco se resolveu e fomos para casa.
Mal chegáramos, tua mãe disse que estava sentindo alguma coisa. Então eu disse:
- Pegue as trouxas e vamos embora. Mal deu para chegar ao hospital. Rapidamente tua mãe foi encaminhada para a sala de parto. Tua mãe queria esperar outro dia. Eu sabia por quê. Era 24 e tua mãe não queria que nascesses neste dia.
- Pura bobagem - pensei comigo.
Quando virou a meia-noite ela disse:
- Agora, a hora que quiserem.
Eu fui para casa pedindo para que me chamassem quando estivesse na hora. Não me chamaram e só de manhã soube que tinhas nascido quando liguei para o hospital. Fui correndo para lá. Lá estava tua mãe e tu. Olhei para ti. Eras linda como ainda és hoje. Te peguei nos braços e disse:
- Seja bem vinda, Giulia.
Após dar os parabéns à mãe, saí e fiquei me perguntando:
- Por que os netos são tão caros aos avós?
Penso que, no fundo, seja uma compensação por não termos sido os pais que queríamos ter sido e não pudemos. A natureza nos dá os filhos na pior fase da vida. É o momento mais crucial da refrega pela sobrevivência. Eles chegam quando temos tudo para fazer e tudo ao mesmo tempo. É a profissão para desempenhar, crescer e subir. É o patrimônio a ser adquirido. É a adaptação da vida matrimonial. São os parentes, os compromissos sociais, presentes, padrinhos, festas. Neste burburinho nascem os filhos. Gostaríamos de estar com eles, vê-los crescerem, falar, caminhar, pensar. Mas não há tempo. Temos que andar senão nos atropelam. Para eles sobram apenas migalhas. Não é isto que os pais querem, mas são obrigados a isto e, por paradoxal que seja, para o bem dos próprios filhos. Eles vão precisar de alimento, vestuário, saúde, educação, lazer, um lar confortável. Mas se não criarmos as condições para isto, não poderemos dar nada disto a eles. Então nos lançamos à luta com tudo, de corpo e alma, e como conseqüência, aos filhos, as sobras. Desejaríamos dar-lhes carinho, presença, convivência. Mas não é muito que sobra não.
Com os netos, tudo isso já temos. Então podemos nos tornar pai ou mãe que sempre quisemos ser e não pudemos. A chegada do neto é como se a natureza, de repente, voltasse para trás e nos desse um filho, agora com todas as condições: estabilidade de econômica e patrimonial, problemas familiares resolvidos, paz muita paz. O neto é este filho de novo. Mas lembremo-nos: ele é apenas a alegria de filho, não filho. Por isso, ele terá que passar tudo aquilo que - como nós - nossos filhos passarão, para depois eles também terem a recompensa dos netos. Não nos é lícito permitir aos netos aquilo que proibíamos aos nossos filhos, como dormir sem banho, comer sem lavar as mãos, acender todas as lâmpadas ou acender e apagá-las, ficar discando no telefone, riscar a parece com lápis ou caneta, gritar quando as pessoas estão falando, interromper as conversas dos adultos e outras “artes”. Também não nos é permitido assumirmos o papel dos pais e exigirmos dos netos tudo o que exigíamos dos filhos. O máximo que podemos fazer é calar e no nosso interior apoiarmos os pais a agirem como convém.