sexta-feira, 23 de junho de 2017

NOVE PRINCÍPIOS PARA “MANTER-SE COM O FUTURO”. Selvino Antonio Malfatti




Há um instituto de pesquisa, nos Estados Unidos, chamado Escola de Arquitetura e Urbanismo do Massachutts Institute ol Technology – o Media Lab.  Neste, os mais renomados cientistas das várias áreas tecnológicas desenvolvem pesquisas para melhorar a vida humana: aperfeiçoar o que existe e suprir as deficiências. Procura constantemente avançar nos conhecimentos tecnológicos. O Instituto parte da premissa de que a tecnologia pode trazer mais felicidade ao homem.  Nos últimos dez anos, o Media Lab avançou sobremaneira nos conhecimentos da “revolução digital” e na expressão humana. Dele saíram as pesquisas sobre cognição e aprendizagem, música eletrônica e holografia, mas também em pesquisas que facilitam e suprem as deficiências humanas como Alzheimer, depressão e socialização .
Recentemente foi editado um livro de Joi Ito  - Mantendo-se com o Futuro - no qual apresenta Nove Princípios para se manter nos próximos anos. Estes são uma pauta filosófica para poder viver inserido no que vai acontecer proximamente.

OS NOVE PRINCÍPIOS

I – Emergência de base substitui Autoridade de cima.

Autoridade.

Sistema que abrange produção, organização e distribuição do conhecimento de cima para baixo. O pressuposto é que o conhecimento resida ao alcance de poucos e que sua socialização depende de sua decisão.
Emergência
Graças à internet o conhecimento emerge de baixo para cima. As ferramentas das redes fazem com que você mesmo decida provocando um movimento de disseminação coletiva do conhecimento.

II – Puxar substitui empurrar (Pull X push)

Empurrar

Modelo de gerenciamento pelo qual se adquirem e se armazenam recursos. O controle é global e se emitem ordens de centro para margens.

Puxar

Os recursos são exauridos do interior do projeto somente enquanto necessários. A partir daí afluem das bordas através de redes de relações amparadas nas novas tecnologias das comunicações.

3 -  Bússola substitui cartografias

Cartas

Modelo segundo qual, antes de agir, apresenta uma compreensão detalhada da situação e um trajeto pré-definido. Deparando-se com obstáculos, é redesenhado o mapa.

Bússola

Num mundo veloz e repleto de imprevisibilidade é necessário valer-se da criatividade e estar prontos para mudar a rota.  Diante de obstáculos se os contorna e prossegue.

4- O risco substitui segurança

Segurança

Para se ter segurança, quando o custo for elevado para se colocar um produto no mercado ou disseminar uma ideia ao grande público, é preciso conseguir um projeto com protocolos e aprovações.

Risco

Com ferramentas 3D, os processos de produção são rápidos e seu custo baixo. Por isso, esta opção é preferível para ideias e objetos embora sujeitos a falhas eventuais.

5– Desobediência substitui concordância

Concordância

Na sociedade industrializada e voltada para a produção acredita-se que somente um número restrito de pessoas tenha capacidade criativa. Os demais devem se concordar com as ordens vindas deles.

Desobediência

Novos processos, mormente os de automação, abrem-se novos cenários do trabalho. Diante deste quadro terá mais sucesso quem se fizer perguntas, fia-se no instinto e se nega a seguir as regras quando são empecilhos.

6- A prática substitui a teoria

Teoria

Abordagem assentada sobre rigorosas previsões e monitoramento dos processos concluídos. Nenhuma proposta será aprovada senão após rigoroso estudo.

Prática

Num futuro de alta velocidade, esperar acarreta custos mais elevados que improvisar. Por isso é melhor produzir imediatamente novos protótipos e mudar de rota, calcados no princípio “aprender fazendo”.

7 - Diversidades substitui capacidade

Capacidade

Acredita-se que as pessoas mais inteligentes e melhor qualificadas numa disciplina também são as mais preparadas para resolver os problemas de seus setores.
Diversidades
Em tempos complexos os grupos variados são os mais produtivos. A delegação de tarefas não segue o critério do título, mas a demonstração de maior aptidão para qualidades cognitivas.

8 – Resiliência substitui força

Força

Tradicionalmente as grandes empresas se blindam para s protegerem de possíveis falhas. Para tanto, rodeiam-se de recursos extras, programam estruturas de gestão hierárquicas e processos impenetráveis para terceiros.

Resiliência

As empresas empregam um investimento tal que, se falhar, no máximo não há grandes prejuízos, mas um aprendizado das falhas. Por isso, se pensa que é mais lucrativo desistir do que resistir.

9- O sistema substitui o objeto

Objeto

O quadro tradicional industrial calca-se sobre preços de produtos individuais e o lucro é uma consequência do valor individual ou corporativo.

Sistema

Hodiernamente é sempre mais urgente considerar o impacto de um objeto como um todo num sistema de relações entre as pessoas, suas comunidades e os ambientes culturais que vivem.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A falta do mestre Reale.. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei




O julgamento no TSE da chapa Dilma-Temer terminou com frustração daqueles que desejam um país sem corrupção e, especialmente, onde valor e justiça caminhem juntas.
O raciocínio seguido pelos juízes que votaram pela absolvição da chapa vencedora no último pleito presidencial foi a desqualificação da denúncia inicial, para que o processo ficasse ao ponto da absolvição, ainda que para isso fosse necessário fechar os olhos para o enorme conjunto de provas agregadas ao processo com as gravíssimas denúncias dos executivos da JBS. Ainda que as provas contidas na petição inicial não fossem suficientes para condenar a chapa, o que é bastante duvidoso, o conjunto de provas agregadas ao processo seria certamente mais que suficiente para conduzir o julgamento nessa direção.
O caminho seguido pela maioria dos juízes foi desconsiderar os fatos na sua integralidade em nome, provavelmente, da estabilidade econômica. Esse parece um raciocínio limitado, somente válido para os superficiais e oportunistas, porque não parece que a aberta mentira possa assegurar a legitimidade e a estabilidade econômica no médio prazo. Se não tiver efeito ruim imediatamente o terá no futuro, no momento dos próximos pleitos quanto o eleito deverá assegurar apenas que governará, não importa o modo como atinja o poder. Essa atitude dos juízes provoca uma grande saudade do mestre Reale, que para além de jurista era filósofo e fazia com que fato, valor e norma estivessem atadas pela força da consciência histórica. Valores que a consciência nacional reconhece como fundamentais para a convivência pacífica e justa dos cidadãos como honestidade, integridade e coerência não podem ser desprezados, mesmo que provoquem dor no momento.
No livro Miguel Reale, ética e filosofia do direito pode-se ler (Carvalho, 2011, p. 186/7): “A compreensão tridimensional do Direito sugere que uma norma adquire validade objetiva integrando os fatos nos valores aceitos por certa comunidade num período específico de sua história. No momento de interpretar uma norma é necessário compreendê-la em função dos fatos que a condicionam e dos valores que a guiam. A conclusão que nos permite tal consideração é que o Direito é norma e, ao mesmo tempo, uma situação normatizada, “no sentido de que a regra do Direito não pode ser compreendida tão somente em razão de seus enlaces formais” (p. 242).
A questão essencial desse tridimensionalismo jurídico para Reale não é, portanto, mencionar a aproximação entre a norma e valor numa certa circunstância dada. Isso foi feito de muitos modos ao longo da história do Direito. O que há de inovador na contribuição de Reale é tratar fato, valor e norma como partes integrantes de um processo histórico unificado, conforme ele explicou no livro Fundamentos do Direito (1940).
Nessa visão tridimensional elaborada por Miguel Reale o modelo jurídico não é pensado apenas pela coerência interna da lei, sem comparação com outras normas que, estando em vigor, possam alterar a sua significação. Ao serem posicionadas ao lado das normas já existentes, as novas normas dão um outro entendimento ao modelo jurídico em vigor. Para que a elaboração de novas leis não crie um instituto incoerente é preciso entender o tridimensionalismo jurídico como uma relação dialética entre norma, fato e valor. Para nosso pensador, não é suficiente pensar o tridimensionalismo como o faz Gustav Radbruch ou Julius Stone, que estudam separadamente fato, valor e norma”.
Para o julgamento em questão fica-nos aquela lição, naturalmente esquecida, de que a regra do Direito não pode ser compreendida somente pelos seus laços formais e a decisão judicial não pode criar um instituto incoerente firmado em jurisprudência.
                                  


sexta-feira, 9 de junho de 2017

ISMAEL E ISAAC – IRMÃOS BRIGUENTOS. Selvino Antonio Malfatti.












Causa estupefação a narrativa bíblica sobre os filhos de Abraão. Diz o texto que os irmãos Isaac e Ismael brigavam muito e por isso Abraão resolveu pedir para Ismael e Agar irem embora.  Da descendência de Isaac veio a civilização judaico- cristã. Da descendência de Ismael, a árabe, e dela o islamismo. Os dois irmãos tinham a mesma identidade, eram filhos de Abraão, mas com certeza tinham as suas diferenças senão não brigariam. É o paradoxo das duas culturas judaico-cristã e árabe: conflitam pelas diferenças sem se lembrarem de suas identidades. O mesmo acontece analogamente entre as civilizações cristã e árabe, especificamente: europeia e complexo árabe.
Alguns salientam as diferenças entre as duas culturas. No entanto, não se dão conta de que, se existe diferença, é por que existe alguma identidade. Quando se pensa o Dois e o Múltiplo, no fundo ambos provém de suas identidades por que estão alicerçados no mesmo princípio:  o Um.  Da mesma forma há diferença entre um e outro por que há uma identidade. Somente posso me referir ao outro se houver algo que os une. Sempre é necessária a ponte para transitar de um para outro.
Isto vale para o cristianismo e islamismo. Quem será capaz de negar a importância para o ocidente da tradição árabe na matemática, arte, ciência, e filosofia? Platão e Aristóteles estavam mortos e sepultados se não fosse a contribuição da filosofia árabe. Nossos conhecimentos sobre estes dois pensadores chegaram à Europa através do árabe Averrois, culminando cinco séculos depois com o Iluminismo e anteriormente com a Renascença, com a volta às origens.
Contudo a noção de identidade e diferença persiste. A matéria de uma escultura pode ser a mesma, mas o que diferencia é a forma. A pedra bruta – matéria – é a mesma daquela da escultura de Davi. A matéria é a mesma, o que os que diferenciam –pedra e escultura - é a forma.
Da mesma forma as duas culturas, europeia e árabe, podem ter tido uma origem comum. No entanto, o resultado, a diferença as separa abissalmente. Somente para ilustrar, o humanismo ocidental, a concepção de humano, os distancia de tal forma que praticamente não se reconhecem mais. Os mistérios dos sentimentos e da própria consciência, âmago da civilização europeia, oriunda de uma vertente grega, a tragédia e a poesia, desprezadas pela cultura islâmica, relegando-as ao secundário. A afirmativa de que a cultura oriental, mormente a islâmica, é o coração da ocidental tropeça quando buscamos nela o direito e o logos. Ou que o peso da teologia islâmica tenha sido tão importante para Europa como a teologia hebraica e cristã. Embora possa se encontrar traços da filosofia de Averrois em Dante, não é o essencial em Dante que se apreende, por que onde está a Comédia em Averrois? Completamente ausente. São duas realidades de intensidade diversa.
Além disso, onde encontramos no Corão a coexistência dos distintos, o profundo significado da Trindade cristã? Não é por acaso que toda cultura ocidental reflete a presença simultânea dos opostos: do cosmos e do caos, da forma e do disforme, do finito e do infinito.
Nas diversas ramificações do conhecimento europeu como história, filosofia e política, todas se apoiam na ideia de limite, distanciando-se do ilimitado, do senso comum de que a decisão nasce do consenso. Ainda, a possibilidade da convivência civil, calcado sobre a ideia de limite, mormente no aspecto político. E neste caso a teoria do direito natural como farol e guia político. Disso nasceram as grandes distinções próprias da cultura europeia: entre poder, saber e lei, entre teologia, moral e política. Isto não é nada mais e nada menos que a criação do estado laico, da democracia. E aqui está o nó górdio: a separação da teologia da política. Confrontando-se com o islamismo, não só a dita política radical como a moderada, deitam suas raízes islâmismo.
Por isso, pretendendo-se explicar a cultura europeia por raízes islâmicas é uma aberração. Temos uma mesma identidade originária, qual seja o mesmo Pai Abraão, ou a Humanidade, mas a partir daí emergiram as diferenças, radicais e profundas, que surgiu algo novo: a cultura europeia diferente da árabe, embora se reconheça os traços de sua presença.
A convivência entre árabes – muçulmanos e europeus – cristãos – não teve nada de idílico. Sabe-se que a Europa, na península ibérica, foi ocupada pelos árabes por quinhentos anos. No Levante Mediterrâneo assistiu-se a um prolongado e sangrento conflito de Veneza com os turcos. As rapinas sarracenas no início do século XVIII nas costas italianas. A caça às mulheres, homens e saques. A ocupação otomana semi-milenar nos Bálcãs com opressões contra os cristãos, obrigados todos os anos entregar parte de seus filhos que seriam constrangidos a converter-se ao islamismo e educados em Istambul para servir os sultões.
E Infelizmente continuam os ataques terroristas na Europa por parte do mundo árabe: Paris, Londres, Roma, Bruxelas, Berlim, Madri entre outros. Ismael e Isaac continuam se agredindo.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Alimentando a esperança. José Mauricio de Carvalho




Ainda outro dia li um comentário que o Dr. André Dornelles Dangelo escreveu sobre políticos e filósofos inspirado em Olavo de Carvalho. Não pretendo polemizar com o amigo. Apenas tomei a inspiração para voltar ao tema.
Se for para ouvir filósofos, encontro melhor inspiração em Immanuel Kant e José Ortega y Gasset.  O primeiro o filósofo de Königsberg, que num pequeno ensaio intitulado Sobre a discordância entre a Moral e a Política, a propósito da paz perpetua, (Vozes, 1985) esclarece a diferença entre a moral e a política e com a experiência da modernidade supera a visão grega (platônica) e medieval (Santo Tomás) de que o dirigente político devia ser virtuoso.  Kant esclarece que se é inocência acreditar que A honestidade é a melhor política, é adequado assumir que (1985, p. 130): “a honestidade é melhor do que qualquer política (...), sendo mesmo condição indispensável da política”. Assim, ao mesmo tempo que descarta o governo de um moralista político (ao modo de Platão e dos moralistas católicos) já que não se pode ajustar a moral aos interesses do Estado, por outro lado é necessário o político moral, que concebe os princípios do Estado e do bem da sociedade fazendo-os coincidir com os interesses da moral. Desse modo, ele superou definitivamente a posição maquiavélica de que a Política é espaço contrário à moral, explicando que os princípios maquiavélicos: faz primeiro e desculpa depois, se fizer negue, divide e impera, etc. são (p. 140): “máximas políticas que (usadas por nossos políticos) não enganarão ninguém, pois são universalmente conhecidas”. Assim Kant recompõe as coisas. Se não é possível um governo de filósofos como queria Platão, também não o é o de um político que marche abertamente contra a moralidade e as leis.
Por sua vez, Ortega foi professor na Universidade de Madrid. Ele esclarece que a Política não é apenas espaço do pensamento, mas da ação. E num pequeno ensaio denominado Mirabeau o el político (O.C., Alianza, v. III, p. 601-637) mostra que esse personagem da Revolução Francesa conseguiu, com seu vigor, encontrar um caminho para a crise revolucionária da França. Por isso, Ortega descarta a presença do filósofo na vida política, pois o filósofo não é homem de ação. Em política não se pode ser como filósofo que contempla e analisa atos, quando é preciso agir. E, em seguida, diz (p. 622): “A vida de um grande homem político muda de aspecto no momento em que começa a atuar como homem público”. Porém, se ao agir o político é filósofo, sua missão é resolver as crises de seu povo e do seu tempo.
Nenhum dos dois filósofos patrocina a imoralidade, a corrupção contra os interesses da sociedade. Ou nenhum filósofo proclama o roubo da coisa pública não importa a ideologia. E ao voltar aos dois, pretendo primeiro dizer que todos os políticos corruptos devem ser presos e o dinheiro da propina devolvido integralmente aos cofres públicos. E para isso os corruptores que os levaram ao poder seriam os fiadores da dívida e companheiros de cela.
Por sua vez se não enterro a esperança de um país melhor sei que ele não virá sem algumas condições. Quando a elite sócio-econômica quis fazer entender que a culpa da crise era do PT, afirmei que a questão era mais ampla. O PT é parte do esquema, apenas não fazia o interesse dessa elite queixosa. E agora é hora de dizer, afastar Temer e colocar lá o Presidente da Câmara ou Senado adiantará pouco. Eleições diretas com as regras que aí estão não mudará nada: (dezenas de partidos, eleição cara, sem voto distrital, sem fidelidade partidária, sem uma lei dura contra a corrupção) 1. ou levará um novo ladrão à Presidência ou 2. alguém que, agindo honestamente, não governará. Portanto, é preciso acabar com o conluio entre maus empresários e políticos com uma duríssima lei anticorrupção, fazer novas regras eleitorais para a próxima eleição direta (que desencoraje a roubalheira) e ter um governo de transição com especialistas nas respectivas áreas e descolado da atual classe política. Tudo isso sem fugir da Constituição e do Estado de Direito. Nomes para liderar esse governo não faltam.



sexta-feira, 26 de maio de 2017

CULPA. Selvino Antonio Malfatti





Um dos sentimentos humanos mais intrigantes é a Culpa. Como se manifesta? Uma aflição que aperta o coração. Seca a garganta. Uma dor vaga perpassa o interior. Persiste apesar de tentar esquecê-la ou afastá-la. Não estorva. Pode-se fazer o que se quiser. Mas ela fica, fica, fica. É como um perfume não desejado. É a sensação de culpa. Pode ser numa relação com Deus. Mas, quem é Ele? Por que não existe se existe? Se tem presença porque não está presente? É culpa de quem é que não é? E a culpa persiste porque o culpar-se por aquilo que se não é culpado é uma culpa.
É moral? Um e os outros? Uma infinidade de possibilidades. Supõe-se a mais radical: ter o necessário e secundário e faltar o essencial. Alguém possui não só o que necessita de essencial como dispõe do supérfluo. O outro estar privado do necessário. O primeiro pode sentir culpa desta relação. Como desfazer a culpa? Dando o essencial e viver do supérfluo? Dando o supérfluo e vivendo do essencial? Mas para quem tem o essencial o próprio supérfluo já se tornou essencial. Neste caso a única solução é continuar como está e rezar para que o outro consiga no mínimo o essencial. A oração acalma a consciência e traz a paz à alma. Deus providenciará. O discurso é humanitário e o agir impiedoso, mas sem culpa porque foi transferida para Aquele que é responsável pelo essencial e supérfluo entre os homens. À noite, no travesseiro da consciência, peço a Deus que dê a todos o necessário e durmo em paz.
A culpa é legal? As alternativas são reparação ou ocultação. A reparação pode trazer de volta a culpa. Por que se reparou quando se podia ocultar? A ocultação, por sua vez, continuamente remete à reparação e por isso se cai no círculo vicioso: se repara porque não oculta e se oculta porque não repara?
Se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Se a culpa for da estrutura como solucionar com a conjuntura? Se a culpa é institucional como posso eliminar a solução?
Contudo, embora não se tem dívida com alguém e nem tenha causado algum desagrado a alguém, mesmo assim persiste a culpa, A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata, por dentro, a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído de remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se pode desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou a sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões, entregar-se à felicidade da vida, sem culpa, se não fosse a sociedade. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.
Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Mas todos estão mortos: monarcas, nobres,inclusive Deus. Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.
Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.
E nos filósofos da existência, como vêem a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.

Entretanto, a culpa existencial é uma falsa culpa, ou culpa contraditória. Se é culpado porque se é um ser-aí. E este ser-aí é um fundamento do nada. Isto significa que ninguém o colocou aí. Não foi o indivíduo o autor deste ser-aí, nem outro. Logo, ele é um ser aí produto do nada. Como o nada dá origem a nada, logo ele, homem, não está aí. E sendo assim não tem culpa de nada porque não é nada. Por isso o ser-aí não pode ser causa de culpa e nem mesmo ser-aí é uma culpa.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A pátria, a humanidade e a esperança. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



O homem nasce ligado à uma terra e à humanidade. Ele tem esses dois vínculos. O primeiro é uma circunstância espaciotemporal e o segundo uma comunhão espiritual. Não se deixa de ser cidadão do mundo porque se nasceu num terminado território, mas a vida nesse país somente ganha densidade quando se comunica, pelas criações do seu espírito, à comunidade humana. Em outras palavras, o alcance das questões e realizações universais passa pelo fortalecimento das criações nacionais. É com o desenvolvimento das nações que a humanidade se consolida, pois cada povo tem seu papel, maior ou menor, na construção dessa história comum. Parece que foi o que Georg Hegel escreveu em sua Introdução à História da Filosofia (4ª ed., São Paulo, Nova cultural, 1988, p. 121): “A forma particular de uma filosofia é sincrônica com uma constituição particular do povo, onde ela aparece, com as suas instituições, com as suas formas de governo, com a sua moralidade, com a sua vida social, com as atitudes, hábitos e preferências, com as suas tentativas e produtos científicos, com sua religião, com seus êxitos militares, com todas as circunstâncias externas, (...) nos quais surge e se desenvolve um espírito mais alto”. Esse espírito mais elevado era, para Hegel, uma razão universal, ou melhor a cultura humana em toda sua expressão.
Nesse sentido, um nacionalismo radical e isolacionista como o defendido pelos partidos de extrema-direita em diversas nações ocidentais é exemplo de caminho a ser evitado. A Frente Nacional, que concorreu recentemente às eleições francesas com Marie Le Pen é um pobre projeto nacional, porque pensa a nação isolada dos outros povos. Esse partido proclama um nacionalismo fechado, com fronteiras bloqueadas aos produtos estrangeiros e ao próprio estrangeiro. Nesse sentido, essa direita não é liberal como se pensa, ela é antiliberal, mas o pior é que não se enxerga parte de uma humanidade comum.
Em contrapartida, não penso que se possa, pelo menos no atual momento da civilização, deixar de lado o cuidado com as coisas nacionais, especialmente com a produção espiritual e o progresso nacional. Se, como Hegel disse, o espírito universal (1988, p. 88): “se vai enriquecendo com novas contribuições à maneira do rio que engrossa o caudal à medida que se afasta da nascente”, o equilibrado crescimento mundial depende do desenvolvimento das nações. Assim, é triste quando as minorias de um país como o nosso se descomprometem de seu destino. Boa parte da nossa elite econômica, para garantir miserável e ilegalmente o próprio enriquecimento subornou a elite política. Essa por sua vez, ocupada com seus privilégios e cômodos da vida, descomprometeu-se do destino nacional. E o problema não é de uma única empresa ou de um único partido, está generalizado nessa imoralidade de 40 partidos e um patrimonialismo que associa ilegalmente altos funcionários aos ricos empresários.
E parte dessa elite que espolia, sonega, furta, corrompe e é corrompida, nos momentos de dificuldade corre à busca de lugares para onde fugir, lugares que hoje avalia bons porque não permitem que se faça o que aqui eles praticaram. Os últimos fatos da política nacional mostram um conluio de empresários, marqueteiros e políticos para assegurar o enriquecimento próprio à custa da sociedade e do seu progresso, ameaçando a felicidade coletiva, o progresso e a sobrevivência do povo.
Por que a inserção no mundo somente se fará pela sociedade a que legitimamente se pertence, entendo que somente contribuiremos verdadeiramente para o futuro da humanidade e para o nosso pessoal, trabalhando honestamente pela nação a que pertencemos.

José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

FRANÇA SÉJOUR , INGLATERRA EXIT. Selvino Antonio Malfatti.
















Se há dois países que não se bicam é Inglaterra e França. Admiro os ingleses nas ciências práticas, os franceses nas teóricas. Detesto a monotonia dos filmes ingleses, vibro com o raciocínio dos franceses. Detesto que os ingleses acolhem somente a quem se adapta a eles, admiro a abertura dos franceses. Admiro o humor inglês e detesto a secura francesa. Prezo a lisura francesa e abomino o portunismo ingles.
Tudo isso pelo Brexit da Inglaterra e o sèjour proposto por Emmanuel Macron. A União europeia foi uma conquista difícil, a qual a Inglaterra nunca aderiu de corpo e alma. Sempre com o pé atrás, a começar pela moeda. Aliás, sempre foi assim. A Europa introduziu o sistema métrico, a Inglaterra continuou com suas milhas. A Europa adotou mudou o sistema de pesos, a Inglaterra continua com polegada, pé, jarda etc. A Europa adota a medida de velocidade em quilômetros por hora, a Inglaterra usa nós e milhas. Sem falar na religião que a Europa tem como capital religiosa Roma, a Inglaterra Londres sua própria capital. A Inglaterra sempre tergiversou em relação à comunidade europeia.
Com efeito, o embrião da integração europeia começa se pode afirmar, em 1951 com o Tratado de Paris quando foi instituída a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço - a CECA. Assinaram este tratado Bélgica, França, Alemanha Federal, Itália, Luxemburgo e Holanda. Para a Assembleia da CECA, em setembro de 1952, os representantes designados pelos parlamentos de seus respectivos Estados, se dividiram em três grupos políticos: democratas cristãos, socialistas e liberais. Em Roma, em 1957, são assinados por França, Itália, República Federal da Alemanha, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo os tratados que dão origem a Comunidade Econômica Europeia, a qual dará vida, em 1958, ao Mercado Comum Europeu – MEC e à Comunidade Europeia para a Energia Atômica- EURATOM. Também para o Parlamento Europeu compareceram os representantes do parlamento de seus países, mantiveram sua divisão em grupos políticos. Com as primeiras eleições para o Parlamento europeu, a primeira ocorrida em 1979 e com de cinco em cinco anos, vão se definindo os quesitos para formação de um grupo político, bem como sua definição dentro do Parlamento. A Inglaterra começou ausenta, evoluiu para meio presente e finalmente se retirou.
Com a vitória de Emmanuel Macron, na eleição presidencial de abril/maio de 2017, no segundo turno, não somente tranquilizou a Europa como as esperanças de uma Europa unida se reacenderam. 
O final do pleito foi polarizado entre os que eram contra a globalização, a União Europeia e a Abertura, posição esta assumida pela candidata de direita, Marine Le Pen e Emmanel Macron, centrista, que se opunha a estas posições.  Já o representante socialista, Benoît Hamon, havia sido derrotado no primeiro turno.
Macron age e promete um governo liberal ao assinar o livre comércio da União Europeia e o Canadá. Afasta o protecionismo e defende uma Europa que proteja a globalização. Consta também como promessa de governo à implementação dos direitos sociais europeus que garantam padrões mínimos, como formação, saúde, saúde desemprego e salário mínimo. Na verdade, Macron se propõe a aprofundar o que já existe fazendo com que a União europeia funcione melhor, na opinião da cientista política Amandine Crespy, do Instituto de Estudos Europeus da Universidade Livre de Bruxelas.

Ao que indica, Macron aceitou o desafio de a França ser o Carro-chefe da União Europeia.