sexta-feira, 18 de maio de 2018

SOCIEDADE HUMANA VERSUS SOCIEDADE UTÓPICA. Selvino Antonio Malfatti




Às vezes pensamos que as vicissitudes acontecem somente conosco. Que outros países tiveram uma história cor de rosa. Continuamente progredindo sem problemas. Pensamos o caso dos Estados Unidos que foram sempre bem sucedidos e sensatos, as instituições nunca sofreram arranhões. Mas não é bem assim. 

O escritor Walt Whitman (1819-1892) escreveu um livro intitulado: Leaves of Grass (Folhas de relva). Nele afirmava em 1870:
“Pois se acontecesse que a América tivesse que se render à queda e à ruína, o será de dentro para fora, e não de fora para dentro: vejo claramente que as forças combinadas do mundo externo não conseguiriam derrubá-la. O que me alarma são esses partidos selvagens e vorazes: sem outra lei senão seu capricho, cada vez mais agressivos e intolerantes com a ideia de união e fraternidade equitativa, a perfeita igualdade dos Estados. Estas ideias sempre foram dominantes da América: cabe a você não concordar e não se misturar em uma com eles, não se submeter cegamente a seus ditadores, mas mantê-los na posição firme de juízes e cavalheiros sobre todos eles.”
E arremata afirmando:

Por si só não se deve condenar as formulações de políticas ativas que levarão a um beco sem saída. Pode ser que determinadas políticas ativas levem a bom resultado, em que pesem as travessuras de partidos e líderes que mais por projeção pessoal do que por convicção, líderes de inteligência dúbia, charlatães e outros espertalhões. Apesar deles, pode ser que haja acertos e por isso não se pode descartar in limine.

Todos concordam que as consequências da guerra da secessão foram um período crucial, mas fazendo um balanço o período debitou um balanço íntegro segundo os parâmetros vigentes para tais situações.
Em contraste hoje, fins do século XIX, a América vive um período de rapina e de fofocas. Há crentes passivos, diz o autor, que querem demonstrar o próprio desmoronamento moral, a falência do empreendimento nacional, e há os crentes ativos que embora concordem com isso, mas com a diferença de que veem um vislumbre de esperança em uma liquidação apressada do patrimônio cultural.

Whitman acreditava na existência de um substrato democrático que conseguia controlar as piores lacunas da civilização, sito é, o ideal de manter-se sobre a rota certa ou ter a certeza de voltar e reencontrar o caminho certo, uma via nacional melhor e mais sã embora tudo demonstrasse que a política era irredimível.

Whitman dizia que a democracia é uma grande palavra, cuja história ainda estaria por vir por que antes teria que ser vivida. Acreditava com segurança  num espírito supremo da democracia que manteve controlável as piores lacunas da civilização. Com efeito, pode ser que tenha sido este ideal a manter a rota correta, ou insistência em buscar a estrada certa para voltar a uma vida nacional, melhor e mais saudável.

Onde reside o fundamento de uma saúde duradoura que garantiu até agora a prosperidade de progresso da América? Certamente foi o modelo humano e não a Utopia. O bom senso e não elucubrações irrealizáveis. O possível e não o ideal.



sexta-feira, 11 de maio de 2018

XII COLÓQUIO DE ANTERO DE QUENTAL. Organização pelo Dr. José Maurício de Carvalho













Acontece, entre os dias 07 a 11 de maio de 2018, na cidade de Mariana, o XII Colóquio de Antero de Quental. Contará, nesta edição, com a parceria da Faculdade Dom Luciano Mendes. O objetivo do evento internacional é estudar a historiografia luso-brasileira contemporânea como parte do exame dos temas e autores importantes no Brasil e em Portugal no século XX. Durante o evento, será examinado e debatido assuntos e autores fundamentais na construção da historiografia da filosofia luso-brasileira do século passado, e tem como propósito notar eventuais mudanças na forma como o problema foi abordado e funciona também como avaliação dos estudos relativos à filosofia brasileira. Durante XII Colóquio de Antero de Quental ocorrerá também uma homenagem para o Dr. e Professor António Braz Teixeira que é um profundo conhecedor do pensamento português, e nas últimas décadas, também tem dedicado trabalhos à filosofia brasileira. 

PROGRAMAÇÃO

0 h – Conferência de abertura: Primórdios da Historiografia da Filosofia Brasileira
Dr. António Braz Teixeira
11 h – A visão de José Marinho do pensamento português contemporâneo
Dr. Renato Epifânio – Universidade do Porto – IFLB
Debatedor: Dr. José Esteves Pereira – Universidade Nova de Lisboa
11:30 – Apresentação das Atas do XI Colóquio Tobias Barreto realizado em Lisboa no   ano de 2016.
Dr. Renato Epifânio – Universidade do Porto – IFLB

14 h – Historiografia e Historiosofia. A obra de José Silva Dias (1916-1994)
Dr. José Esteves Pereira – UNL
Debatedor: Dr. José Mauricio de Carvalho – UNIPTAN
15 h – O ensino no Seminário de Mariana no século XIX no período de Dom Viçoso (1844-1875)
Prof. João Paulo Rodrigues Pereira
         Debatedor: Prof. Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz
Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira

16 h – A filosofia no Brasil: a perspectiva de Ivan Domingues
         Prof. Bernardo Goytacazes de Araújo
         Debatedor: Dr. Ivan Domingues
17 – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Washington Vita
Dr. Adelmo José da Silva e Prof. Adelmo José da Silva Filho
Debatedor: Dr. Adelmo José da Silva
3ª-feira – 08/05/2018-
9 h – A Missão Francesa e a fundação do Departamento de Filosofia da USP
Dr. Ivan Domingues
Debatedor: Dr. Antônio Joaquim Severino
10 h – Ciência e Filosofia no projeto interdisciplinar da formação humana: a contribuição do pensamento de Hilton Japiassu
Dr. Antônio Joaquim Severino – USP/UNINOVE
Debatedor: Dr. Renato Epifânio – Universidade do Porto – IFLB
11 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Cruz Costa
Dr. Paulo Roberto Margutti Pinto– UFMG/FAJE
Debatedor – Dra. Cláudia Maria Rocha de Oliveira – FAJE

14 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Geraldo Pinheiro Machado
Prof. Paulo Roberto Andrade de Almeida – UFSJ
Debatedor: Dr. Silvio Firmo do Nascimento – UNIPTAN
15 h – Filosofia e Transcendência em Henrique C. de Lima Vaz
Dr. Samuel Fernando Rodrigues Dimas – UCP
Debatedor: Dra. Cláudia Maria Rocha de Oliveira – FAJE
16 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Henrique Claudio de Lima Vaz

        Dra. Cláudia Maria Rocha de Oliveira – FAJE
         Debatedor: Dr. Samuel Dimas– UCP

20:30 h. evento cultural (concerto no órgão restaurado da Igreja Matriz de Mariana com a organista oficial da Sé Mariana Josinéia Godinho – Bacharel em órgão pela Faculdade Santa Marcelina, graduada em Música sacra pela Kirchenmusik (Hamburgo – Alemanha) e mestre em música pela UFMG).
4ª- feira – 09/05/2018 –
Em sala paralela haverá comunicação de alunos do curso de Filosofia
9 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo João Camilo de Oliveira Torres
Dra. Anna Maria Moog Rodriguez – Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro
       Debatedor: Prof. Mauro Sergio de Carvalho Tomaz – UFSJ
10 h- Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Silvio Romero
         Dr. Silvio Firmo do Nascimento – UNIPTAN
         Debatedor: Dr. Adelmo José da Silva – UFSJ
11h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Aquiles Cortes Guimarães
Dra Regina Coeli Barbosa Pereira – UFJF
Debatedor: Dra. Rosilene de Oliveira Pereira – UFJF


14 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Roque Spencer Maciel de Barros
Dra. Rosilene de Oliveira Pereira – UFJF
Debatedor: Dr. Ricardo Vélez Rodríguez – UFJF e Faculdade Arthur Thomas –    Londrina
15 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira José Oswaldo de Meira Penna
Dr. Ricardo Velez Rodríguez – UFJF e Faculdade Arthur Thomas – Londrina
Debatedor: Dr. Arsênio Eduardo Corrêa – Instituto de Filosofia Brasileira (SP)

16 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Paulo Margutti
Dr. Adelmo José da Silva – UFSJ
Debatedor: Prof. Paulo Roberto Andrade de Almeida – UFSJ
17 h – Pensamento filosófico sobre a reparação do evento em Bento Rodrigues.
Dr. José Afrânio Vilela – Desembargador TJMG
Debatedor – Dr. Guilherme de Sá Meneghin
5ª-feira – 10/05/2018 – 
9 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Antônio Ferreira Paim
Dr. José Mauricio de Carvalho – UFSJ e UNIPTAN
Debatedor: Dr. José Esteves Pereira – Universidade Nova de Lisboa e IFLB
10 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Miguel Reale
Dr. Arsênio Eduardo Corrêa – Instituto de Filosofia Brasileira (SP)
Debatedor: Dr. Silvio Firmo do Nascimento
11 h – Historiografia e hermenêutica da filosofia brasileira segundo Jorge Jaime
Dr. Roberto Hofmeister Pich – PUCRS
Debatedor: Prof. Ms. Mauro Sergio de Carvalho Tomaz –

Tarde livre em Ouro Preto e/ou Mariana
6ª-feira – 11/05/2018 –
Colóquio António Braz Teixeira: a obra e o pensamento
9 h – António Braz Teixeira: filosofia e poesia da saudade
Dr. Manuel Cândido Pimentel – UCP
Debatedor: Dra. Constança Marcondes Cesar – UFS   
9:30 h– O conceito de Deus na filosofia luso-brasileira na ótica de Braz Teixeira
Dr. Humberto Schubert Coelho – UFJF
Debatedor – Dr. António Braz Teixeira
10 h – Fidelino de Figueiredo e Braz Teixeira: diálogos sobre o Atlântico
Dra. Rita Aparecida Coelho Santos –
Debatedor – José Esteves Pereira – UNL
10:30 h – António Braz Teixeira: Filosofia luso-brasileira no século XVIII
Dr. José Esteves Pereira – UNL
Debatedor – Dr. Manuel Cândido Pimentel – UCP
11 h – António Braz Teixeira: para uma filosofia lusófona
Dr. Renato Epifânio – Universidade do Porto
Debatedor: Dr. António Braz Teixeira – IFLB

14 h – A teoria do mito na Filosofia da Religião Luso-Brasileira de António Braz Teixeira
Dr. Samuel Dimas – UCP
Debatedor: Dr. Manuel Cândido Pimentel -UCP
15 h – Lançamento da Revista Nova Aguia.
Dr. Renato Epifânio – Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono



sexta-feira, 4 de maio de 2018

O QUE NOS UNE E O QUE NOS SEPARA.. Selvino Antonio Malfatti.


Somos uma nação. Temos identidade interna e externa. Por isso temos valores que nos identificam e que nos unem. E há valores que nos separam. Mas de um tempo para cá, aumentam os valores que nos dividem.
Sempre fomos um povo pacífico, respeitador, cordial. A diferença de classes ou de status era compensada pelo respeito mútuo e compreensão. Mas de uns tempos para cá esses valores foram jogados na vala do desprezo.

O que aconteceu? Incubou-se nas universidades públicas, nas ciências humanas, um grupo de professores que, em vez adotar o pluralismo na pesquisa, abraçaram o singularismo, privilegiando tão somente um elemento como se, através dele, se pudesse explicar tudo. Brandindo a espada do singularismo passaram a investir contra tudo e contra todo: educação, economia, cultura, religião, família, gênero etc. São exemplos desse singularismo: Marilena Chauí ("odeio a classe média"), Paulo Freire, Nelson Werneck Sodre.
O pluralismo - como de Miguel Reale (Tridimensionalidade do Direito), Guilberto Freye, Rui Barbosa () - foi tudo jogado na lixeira.
Com o singularismo foi acirrada as diferenças de classe. Não por parte da população mas por aquele estrato social incrustado no poder, que faz questão de ofender a classe média, atiçar o ódio entre os pobres, e ofender e humilhar os abastados e empreendedores. Tentar desmoralizar as Forças Armadas e todas as instituições do estado de direito. E o pior, eles se locupletam das demais classes e ao mesmo tempo que ofendem a classe que pertencem – a média.  Incitam o ódio entre as classes e lhes atiram migalhas em retribuição ao voto. Esbulham a classe alta para roubar-lhes as rendas que conseguiram.
Foram milhões e bilhões desviados, roubados e transferidos para suas contas pessoais até mesmo no exterior. Isto passou a nos dividir.

Mas o pior estrago cometido foi o esfacelamento da sociedade. Hoje, digo o tempo, após treze anos somos uma nação dividida, cujo veneno do ódio se espalhou em todos os setores. Os abrolhos começaram a destilar-se a partir da educação mais alta, a superior, penetrou no escalão médio e infiltrou-se na básica. Hoje, entre os educadores públicos, o respeito quase desapareceu. Não há mais recato nem às autoridades e muito menos entre colegas, sem falar nos educandos. Todos se odeiam, se ofendem e se atacam fisicamente e moralmente. Cada lado  estereotipa outro  chamando-se mutuamente de “petralhas”, “coxinhas”, “fascistas”, “canalhas”.

Incentivam a prostituição, a degradação moral das crianças e a depravação sexual social. O aborto – em vez de exceção – se torna regra. A opção de gênero, em vez de privada, quer que seja pública através do incentivo às práticas e experiências degradantes. Isso, inclusive, com crianças.
O uso de termos ofensivos passou do íntimo para público. Ofensas foram içadas às esferas de mídia, redes sociais e em lugares públicos e privados. Uma professora, em palestra na UFRGS,  chama a autoridade suprema do país de “canalha”. Políticos mandam ministros do Supremo Tribunal tomarem no símbolo do cobre. Professores e universitários disseminam  e destilam a cizânia do ódio entre colegas, superiores e alunos. Religião, moral e ética viraram deboche. É uma guerra de “haters”, Voltamos ao estado de natureza, de guerra de todos contra todos. (Bellum omnium in omnes). Não se pode discordar, que milicianos mercenários atacam como abelhas africanas.

Tudo isso foi possível - não causado - pelas redes sociais. Antes delas alguém poderia chamar o outro de "canalha" num ambiente restrito. Com as redes sociais isso tomou proporções inimagináveis. Não é para um grupo ou pessoas particulares que a ofensa é lançada, mas para o mundo. Além disso a pessoa pode ficar anônima se usar um pseudônimo. Não foram as redes que fizeram este ambiente, mas o uso delas num ambiente que se tornou acirrado e polarizado. Chegamos à fronteira da convivência.

O que sobrou para nos unir? Ainda somos uma nação ou um conglomerado de pessoas como num coletivo?
O que nos desune?
Partidos, diferença de classes, status, escolaridade, salários.
Mas o que nos deveria unir:
Pátria, solidariedade social, democracia pluralista, compreensão, valores permanentes, respeito.
Modestamente sugiro desarmar os espíritos e traçar um novo Pacto Social. Para tanto, nada melhor do que ter em mente a paz. Convido a todos:

1ª. Procurar a paz e segui-la.
2ª. Todos defenderem-se mutuamente em vez de se agredirem
3ª. Esforçar-se para ser sociável.
4ª. Perdoar as ofensas passadas e arrepender-se delas.
5ª. Banir a vingança.
6ª. Ninguém deverá devotar, nem demonstrar qualquer sinal desprezo pelo outro ou declarar ódio a seu semelhante.
7ª. Que cada um reconheça o outro como igual, por natureza.

Parece que não há outra alternativa: se não surgir um novo pacto social espontâneo, afundaremos e advirá, sim, mas quando toda esta geração estiver debaixo da terra. 
Ou seremos, como nação, banidos da face da terra.




sexta-feira, 27 de abril de 2018

O Mito, o conceito e sua deturpação.José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei





No decorrer da história da cultura a palavra mito teve significados distintos desde que surgiu entre os antigos gregos. Platão a concebeu como forma deturpada de verdade ou como aquilo que se distancia de uma narrativa verdadeira. Aristóteles elaborou na Poética essa compreensão e a apresentou não somente como falsa narrativa, mas como maneira aproximada ou simbólica de dizer algo. Esta noção de verdade aproximada abriu espaço para uso do termo como narrativa simbólica com valor moral ou religioso e assim passaram a ser nomeadas as narrativas cosmogônicas ou soteriológicas, isto é, que narravam as origens ou fins do universo de uma perspectiva religiosa, como se vê na Bíblia.
Entre os modernos a palavra mito adquiriu um sentido não reconhecido na antiguidade. Um dos responsáveis por essa virada gnosiológica foi o italiano Giambattista Vico que enxergou nas narrativas mitológicas não inverdades ou verdades diminuídas, mas uma outra forma de dizer a verdade. E ele observou que é possível comunicar uma verdade de várias maneiras. Disse ainda que os povos ao narrarem sua origem se valia de caracteres poéticos e simbólicos para expressar aspectos difíceis de serem transmitidos numa linguagem lógica e discursiva. Porém, foi no idealismo alemão que o mito ganhou uma significação mais elaborada ao ser apresentado como uma espécie de religião natural, isto é, forma natural pela qual ocorre a manifestação do Absoluto entre os povos. O grande articulador dessa forma de pensar foi Friedrich von Schelling autor de uma Filosofia da mitologia, onde avalia as narrativas mitológicas como manifestação da divindade na natureza.
O pensamento contemporâneo retomou as considerações do idealismo alemão para destacar na narrativa mítica uma realidade decorrente da compreensão fenomenológica de entender o mundo. Para os fenomenólogos sempre que se pensa se está pensando algo. Daí a expressão consciência de, para traduzir esse entendimento de que se é a consciência subjetiva que pensa o mundo, como ensinou Descartes, ela pensa o mundo representando-a nela ou o medindo segundo suas possibilidades. Por isso, Ernest Cassirer no Ensaio sobre o homem trata essas formas simbólicas ou poéticas de descrever as origens como reveladora da distância existente entre o símbolo e o que ele representa. Assim as narrativas míticas, embora privadas de rigor lógico, não são incoerentes se observadas na ótica dos sentimentos, que são muito fortes entre os primitivos.
A Sociologia moderna trouxe esse entendimento contemporâneo para descrever o surgimento de elementos de formação dos grupos. Esse uso foi deturpado na linguagem comum. Isso ajuda a entender o uso despropositado que passa ser feito do conceito para representar um homem e sua liderança. A extrema direita foi campeã nesse uso deformado do conceito ao veicular a ideia de que Hitler ou Mussolini eram mitos. Isso andou meio esquecido em razão dos destinos da guerra. Aproveitando-se da ignorância geral a direita brasileira está assanhada tentando propor outro mito ou de fazer a sociedade engolir outro mico.



sábado, 21 de abril de 2018

CASTROS FORA DE CUBA,mudança dentro da continuidade. .. Selvino Antonio Malfatti.



A saga começou em 1959, em Cuba, quando a ilha, dirigida pelo ditador Fulgêncio Batista, foi atacada por dois revolucionários: Fidel Castro e Che Guevara. Após ilhares de vítimas, os famosos “paredons”, os dois iniciam aquilo que denominavam as reformas socialistas: redistribuição de terras, educação e saúde públicas, propostas de transporte e alimentação por preços baixos. O Estado passou a controlar tudo e Fidel Castro concentrou todo poder em si mesmo.
Desde a tomada do poder, Castro decidiu afastar-se dos Estados Unidos e a ilha passou para a órbita da URSS, cujo período vai durar trinta anos.
Em 1991, com o esfacelamento da União soviética, esta relação acaba, e Cuba entra numa crise de escassez e isolamento. Castro, então, permite certa abertura para ver se os cubanos conseguem  salvar-se do afogamento. Permitiu-lhes criar pequenas empresas, comprar telefones portáteis, carros e vender suas casas.
Em 2006 o líder Supremo, Fidel Castro, passa o poder para seu irmão Raul Castro, que prossegue na política de liberação da economia. Agora, o poder passa para Miguel Diaz-Canel. A pergunta que se faz: qual a herança da revolução cubana?
Numa democracia isto se poderia denominar de mudança dentro da continuidade. Mas Cuba está longe de ser uma democracia. Nos regimes ditatoriais a dose de continuidade prevalece sobre o da mudança.
No dia 19 de abril deste ano Raul Castro (86), irmão de Fidel,  entregou o poder de presidente do Conselho de Estado a Miguel Diaz-Canel, candidato único e com isto não se fez exceção à regra.
Diaz-Canel, (57), nasceu depois da revolução, e, portanto, não conheceu a não ser o regime castrista. Possui o perfil clássico dos regimes de aparato do tipo da extinta União Soviética.
Na sua formação ostenta o título de engenheiro em eletrônica, professor universitário. Galgou metodicamente todos os escalões do Partido Comunista Cubano (PCC) por trinta anos e ultimamente  integrou a direção. Na sua província, Vila Clara, localizada no centro da ilha. Em 2003 ingressou no diretório do partido, já em 2012  assumiu uma das oito vice-presidências do Conselho de Ministros e no ano seguinte o número dois do Conselho de Estado, abrindo-se lhe a possibilidade de ser sucessor.
As reformas conduzidas através de uma economia de mercado não conseguiu cumprir seus propósitos. Com efeito, incompleta e mal conduzida, produziu o inverso do desejado, isto é, o acirramento das desigualdades, favorecida pela coexistência de duas moedas, das quais somente uma era conversível em divisas estrangeiras, sendo que agora se torna necessário unificar. A diferença de valor se multiplicou por dez no espaço de trinta anos. Depois de conceder meio milhão de licenças de trabalho autônomo
Depois de conceder mais de meio milhão de licenças por conta própria, o poder freou a iniciativa privada em 2017. Querendo evitar a virada do modelo chinês na direção do livre mercado, Castro limitou-se a proclamar a modernização do socialismo.
Diaz-Canel ousará ir mais longe? O mundo econômico ocidental e oriental o recebe com restrições, em que pese a fama de pragmático. Tem apenas a Venezuela como parceira a qual lhe fornece petróleo. E quem mais?





sexta-feira, 13 de abril de 2018

Tocar os limites. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei





À medida que a vida vai acontecendo, acrescenta-se à existência apreensão. A expectativa é o que a preside na juventude, pois quando se é jovem os dias que se espera viver são muito mais numerosos do que os já vividos, pelo menos essa é a crença dos jovens. Isso é assim, mesmo que a jornada não tenha tempo fixo nem garantias. E é a novidade de viver o futuro o que predomina na juventude. Quando se é novo a vida parece guardar escondida, sob muitos lençóis, suas novidades e mistérios. Ela se assemelha a uma dessas casas antigas, mostrada nos filmes dos anos sessenta, que ao ser deixada pelos moradores por ocasião de uma viagem, permanecia coberta à espera dos donos. Esse foi um cenário comum há gerações passadas, quando as casas eram grandes, as famílias numerosas e a vida parecia passar mais devagar. Então, o casarão coberto de lençóis, ficava encoberto e escondido como é o horizonte do jovem.
Depois de algum tempo vivido, escolhas feitas, trabalho consolidado, filhos crescidos, a vida não perde as expectativas, mas acrescenta a apreensão de saber que os dias a viver são menos numerosos que os já vividos. Embora nunca haja a certeza da sua extensão, quanto mais se vive, mais cresce a apreensão. E se entendemos que somos tecidos pelas escolhas feitas, os caminhos por onde passamos têm paragens obrigatórias: sofremos pelos amores perdidos, pelos amigos que se foram, pelas oportunidades não aproveitadas, pelo desaparecimento dos adultos dos dias da juventude, pelas doenças que nos acometem ou culpas que carregamos. Sofremos, enfim, porque morre em nós cada possibilidade deixada para traz nas escolhas feitas. E os melhores de nós guardam dessa viagem as experiências de amor e das boas coisas feitas.   
Temos uma companheira nessa jornada, é a finitude, companheira de todas as horas. É ela que ensina a responsabilidade pelas escolhas feitas. Ela é a quem devemos consultar em cada nova escolha, pois é ela que dimensiona o que se escolhe. É ela que traz a conta do sofrimento causado a si ou aos outros e também é ela que mostra como as escolhas de hoje ficaram reduzidas pelas escolhas passadas.
Assim, aprende-se nessa viagem existencial, como disse Miguel Reale em seu livro Variações, a viver com lágrimas nos olhos, pois é o sofrimento das perdas o que nos irmana e escancara o valor do amor. Talvez seja por isso que Jesus o colocou como um importante princípio de vida, amar o próximo e próxima, nossos companheiros de jornada, tanto quanto a Deus que a criou.
E, entre as escolhas feitas e as por fazer, estabelece-se uma linha de continuidade que orientada pelo sentido e significado amarra o que foi feito e o que ainda resta a fazer. É a essa linha que chamamos sentido. Sentido é direção, é missão, é alvo para onde se fixa o olhar na caminhada. Sem que essa direção clara, a caminhada se perde nas paradas, as quedas se tornam mais dolorosas demais e as perdas viram peso. É a consciência da tarefa e o rumo a seguir o que acalenta nossos dias e os alimenta com a preciosa esperança de boas e novas realizações. A esperança não é a última que morre, é o alimento sem o qual não se vive.
Quanto mais passam os dias, mais se aprende o que devíamos saber já no início, é curto o tempo para amar quem nos ama, para dar nossa contribuição para a sociedade, enfim de tecer a manta da cultura que deixaremos para nossos filhos e netos e para os filhos e netos deles. E a caminhada já feita é onde ficou depositado esse legado os próximos. Lá está o que nos faz importantes aos que virão.


sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Medo no Festival de Psicologia em Turim. Selvino Antonio Malfatti





Está marcado para os dias 6 a 8 de abril um evento que trata da questão do medo. Realizar-se-á em Turim Itália.
O medo é uma emoção como a alegria, a expectativa, a angústia, a morte, entre outras, e como tal são sentimentos. Podem ser objetos de reflexão tanto da psicologia como da filosofia, mormente da filosofia da existência como em Kierkegaard como em Heidegger.
A emoção acontece quando o ser humano, animal ou outro ser vivo sentem o valor que determinada circunstância tem para sua vida, suas necessidades ou interesses. É um sentimento que acompanha a dor ou prazer. Estes atribuem valor à vida ou necessidades do ser humano. É uma reação ao que é favorável ou desfavorável para sua vida.
O evento denominado de  Festival de Turim quer entrar na mente humana, e descobrir a essência do medo, suas causas e consequências. Sob a égide do tema: ”o individual e o coletivo: ambos se isolam quando amedrontados”, sob a direção do psicanalista Massimo Ricalcati. Dentro do tema serão abordados variados conteúdos, verdadeiros pesadelos da humanidade, como atentados terroristas que causam traumas individuais e coletivos. Serão debatidos também o papel do perdão e o sentimento de identidade.
Como se percebe há uma intersecção entre o individual e o coletivo, por isso se fará um encontro entre a psicologia individual e a coletiva. O medo é um tema atualíssimo; de um lado o fascínio do muro, da exclusão segregativa, os reforços de autodefesa e de outro, a necessidade de oxigenação, pois sem ela, a vida se apaga. Nisso reside sua importância porque se confronta com o isolamento.
Cada dia haverá uma apresentação de tema central, espécie de Aula Magna, que indicará conteúdos para debates, apresentados por psicólogos, psicanalistas, escritores que abordarão aspectos particulares do medo. O festival terá três palestras centrais. 1. Na sexta o especialista em geopolítica, Lúcio Caracciolo, discorrerá sobre quem são e o que querem os terroristas, sábado o próprio Ricalcati, se ocupará da violência e terror e no domingo a psicóloga marroquina Houria Abdelouahed apresentará na sua lectio o tema mulheres, islam e violência.
O coordenador adianta que se buscará saber se é possível prever a violência, ou como explicar aos pequenos a violência. Ou mesmo explicar o que é isolamento de um lugar ou de um sujeito. Explicar qual o medo maior e a fronteira do medo de ter medo.
A questão que se pode colocar é a seguinte: é possível fazer um paralelo entre os temores individuais e os da sociedade? Como se sabe o medo gera a clausura, o isolamento, potenciando as autodefesas. Mas, paradoxalmente, este comportamento empobrece a vida. Do mesmo modo uma sociedade dominada pelo medo é uma sociedade que se fecha e se torna endógena até definhar completamente. Então: o que fazer? Defender-se e morrer pelo auto enclausuramento ou permanecer aberta e ser massacrada pelo terrorismo?