sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Martin Buber e o nacionalismo. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei






Martin Buber distingue um falso do autêntico nacionalismo, o segundo dedicado a curar as dores identificadas na consciência nacional dos povos. Ele também contrapôs o nacionalismo forjado no Sacro Império e reorganizado pelo idealismo alemão, que foi assumido pelas nações ocidentais, do nacionalismo judaico.
O estabelecimento do esteio religioso, parece-lhe o elemento definidor da nacionalidade judaica, e pensando assim respondeu aos filósofos do ocidente e a parte elite judia. Refiro-me à burguesia judaica, rica e poderosa, que estava, no início do século passado, bem integrada na comunidade germânica. Buber pretendia a reconstrução do Estado judeu, como propusera Theodor Herzl, mas para viver o ideal histórico do judaísmo, que é anunciar aos outros povos o Reino de paz na terra, na trilha do judaísmo espiritual preconizado por Hermann Cohen.
Se Buber discorda de Herzl por não considerar possível um projeto político que se afastasse do judaísmo espiritual, distancia-se também de Cohen porque o judaísmo espiritual não é uma proposta íntima como a moral kantiana segundo avaliava Cohen, mas uma ação coletiva comprometida com a construção do Reino de Deus. Dessa forma, o nacionalismo judeu embora esteja na base dos nacionalismos cristãos do ocidente, distingue-se dele pelo vínculo diverso entre a fé e a nacionalidade.
A análise de Buber, diferenciou a espiritualidade cristã da judaica, mostrando que a segunda não se resume a uma experiência íntima, mas é nacional. Sua análise, embora profunda e complexa, não considerou um aspecto da tradição cristã. No universo cristão, tome-se, por exemplo Portugal, Delfim Santos aborda a relação entre espiritualidade e nacionalidade, destacando a importância da vocação de cada homem. O filósofo português pensa a sociedade de seu tempo, suas dificuldades e os desafios. Delfim Santos parte daquela concepção vinda do idealismo alemão. Porém, para ele, nação era espaço coletivo e democrático, com um tipo de democracia que não prescinde da atuação qualificada de seus cidadãos. Para Santos a formação moral era que qualificava a participação dos cidadãos no grupo, e não apenas lhes oferecia a chance de viver cada qual conforme seu próprio projeto de vida.
Essa vida qualificada significava vencer as dificuldades de cada tempo, numa concepção de história entendida como enfrentamento de crises. Esse esquema se tornou comum entre os filósofos da existência e outros próximos que trabalhavam de parecida como o filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Crise para eles era mais que o pensado por Husserl, isto é, uma crise de consciência que se deu conta das insuficiências do modo de pensar moderno. Para esses filósofos trata-se de uma crise de cultura, onde as nações perderam a confiança e segurança no futuro, o homem afastou-se de si e empobreceu a participação coletiva.
A crise da democracia e sua requalificação era para esses pensadores uma forma de rever a participação dos cidadãos na construção do futuro dos povos, uma maneira de vencer a democracia das massas, um desafio que permanece atual. Em O homem e a filosofia, pequenas meditações sobre a existência e a cultura entra-se nessa questão ao dizer que um projeto cultural somente se faz a partir da singularidade existencial, um compromisso não se vive sem o outro. Esse entendimento destaca um aspecto não considerado por Buber, a vocação e singularidade existencial é inseparável do compromisso com a construção de uma comunidade ética.



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A UTILIDADE DO INÚTIL. Selvino Antonio Malfatti


O professor de literatura Nuccio Ordine, da universidade da Calábria, concluiu um tour pela América Latina, inclusive no Brasil. Os temas recorrentes que aborda são: instrução, cultura, pesquisa científica e utilitarismo. Insurge-se contra a desgraça generalizada mundialmente de tudo submeter ao critério da utilidade. Contrapõe-se apresentando seu livro: A Utilidade do Inútil.
Nuccio Ordine tem fama internacional pelas pesquisas sobre o Renascimento e sua tese de doutoramento que versa sobre Giordano Bruno. É conhecido pelo paradoxo por ele descoberto, a utilidade do inútil. Com este título seu livro foi vendido aos milhares em todo mundo. Sua revolta baseia-se na decadência da sociedade atual para a qual cada coisa tem seu preço e por isso o predomínio da quantidade sobre a qualidade. Conforme ele, a cultura, refratária ao preço,  não escapou de ser enquadrada num valor material.
Quando se ingressa numa faculdade os primeiro termos que se aprende são crédito/débito, palavras da área econômica, estranhas ao mundo da academia. Na Europa a situação é calamitosa. As instituições escolásticas estão perdendo sua função primordial, qual seja, a educativa. O desastre foi causado por considerar que a universidade deve ser administrada como uma empresa. Empresa e universidade são contraditórias, pois cada uma delas têm objetivos diversos. A empresa visa o lucro, a universidade tem em vista a cultura. A primeira quer ter vantagem sobre o outro, a universidade, ao contrário, é um compartilhamento de conhecimentos que enriquecem a todos.
O processo de deterioração tem início com a Declaração de Bolonha na Itália, em 1999, no qual, 29 responsáveis pelo ensino de seus países, firmaram a Declaração. A partir daí, em cima desta Declaração, cada país fez suas próprias leis imprimindo na educação um caráter eminentemente empresarial.
Se perguntarmos aos calouros por que vieram estudar na universidade? A maioria deles responderá que é para obter um diploma, arrumar emprego e poder sustentar sua própria vida. Como se pode verificar o fundo é sempre econômico: obter um diploma (comprá-lo), conseguir emprego (leia-se ganhar dinheiro) sustentar, (entenda-se pagar). A culpa não é dos estudantes mas da tendência da sociedade que coloca valor econômico em tudo. Parece que a humanidade sente atualmente um único faro: o dinheiro.
Quanto à questão da pesquisa científica parece que segue o mesmo caminho: o lucro. O que não dá retorno econômico mundial imediato é descartado. O pior desses reflexos está na saúde: se uma pesquisa, embora seja proveitosa para a humanidade, mas não der retorno econômico, é abandonada. O perverso é o inverso, uma pesquisa, embora seja prejudicial à saúde, mas dá retorno econômico tem os maiores incentivos. Hoje em dia os estados estão dispostos a investir, em conjunto com as multinacionais, somente as pesquisas que dão resultado imediato e preveem retornos imediatos de novos produtos no mercado.
Parece que até mesmo os Estados Unidos, um país tradicionalmente utilitarista e pragmático se deu conta. O criador da universidade Minerva, Ben Nelson, diz que educar é adquirir a capacidade de transferir ou aplicar conhecimentos e habilidades em áreas múltiplas. Isso só é possível se o aluno receber estes conhecimentos e habilidades.
Muito se fala em ensino ou educação crítica. Mas a maioria confunde educação crítica com educação para criticar. Esta última consiste em munir-se de uma ferramenta mental e a partir daí, criticar tudo o que não for seu modo de pensar. A educação crítica, ao invés, tem por base o sentido etimológico de “critico”, que significa discernir. Por exemplo, mostrar ao aluno que se ele partir desta afirmação chegará a tal conclusão. Mas se adotar outra posição chegará a outra conclusão. Portanto, em vez de passar o tempo todo se lamentando e criticando tudo, se deveria assumir uma postura construtiva. Está errado? Vamos corrigir e seguir adiante.
Esta é a educação integral. Abrange todas as dimensões do ser humano. Lembro-me de um professor de astronomia, Sinfrônio, da Holanda, de meu tempo de colegial, que, nas horas vagas nos convidava a ouvirmos música clássica. Ele nos explicava o sentido das melodias, dos ritmos, das escalas, dos maiores, menores, dos tons etc. Era professor de astronomia!
Muitos dizem que não há verba para isso por causa da crise. Conforme Nuccio Ordine, a questão da crise é uma balela. A verdadeira crise está na corrupção. Se os investimentos na educação, saúde e outros setores fossem iguais à corrupção cada país seria uma potência.

O utilitarismo e o egoísmo, pelo que se constata, contaminaram todas as relações humanas. Há como sair? A resposta vem de um cientista, Albert Einstein: somente uma vida vivida para os outros é uma vida que faz sentido vivê-la. É este o sentido da utilidade do inútil.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Jose Maurício de Carvalho.






Jaspers e a consciência história
O século XX precisou revisar a noção de História construída no século XIX pelo idealismo de Hegel, pelo marxismo e pelo positivismo de Augusto Comte. Isso foi importante para superar as bases de um mundo em conflito encoberto entre as teses liberais e as do marxismo stalinista, que entrou para a história como guerra fria. Os resquícios desse tempo ainda se podem ver na organização política da China e na existência das duas Coreias, estando a do norte nos noticiários pelas ameaças aos Estados Unidos. Vive a Coréia do Norte como se aqueles dias ainda não tivessem ficado para traz depois da queda do muro de Berlim e das mudanças políticas da antiga União Soviética.
Para entrar superar os impasses do historicismo do século XIX, (progresso necessário, superação do capitalismo pelo socialismo, sociedade justa sem a contribuição ética dos indivíduos) que importa deixar para traz, podemos nos valer das reflexões de Karl Jaspers sobre a História. Entendida como totalidade, isto é, como história completa com todos os seus movimentos da origem a nossos dias (como fizeram o positivismo e o marxismo), o assunto não se resolve empiricamente, entenda-se cientificamente, mas é um problema filosófico.
Para resolver o problema sem cair nos equívocos do idealismo e positivismo Jaspers insere na discussão sua ideia de englobante, pois a totalidade histórica precisa considerar a ideia de Unidade que não é histórica, mas filosófica. É assunto difícil, mas importante. O filósofo ensina que para pensar a totalidade da História é necessário ir além dos tempos históricos até a origem do homem. Nesse trabalho de remontar à origem o filósofo não prescinde das descobertas do historiador ou de outras ciências. Usa esses estudos, mas como visa a totalidade, precisa de mais do que o historiador ou cientista em geral pode lhe oferecer com a metodologia que utiliza.
Jaspers ensina que é importante considerar a totalidade dos fatos históricos quando se espera avaliar o passado e o sentido do tempo. Entretanto, proceder tal avaliação está longe de interpretar o passado com a consciência presente. Mesmo com muitas limitações, o homem não pode prescindir de entender a totalidade da História porque o que ele pensa sobre isso afeta a maneira como as coisas existem para ele e afeta tudo o mais como se viu no século passado.
Apesar de notar os primórdios da globalização do ocidente, Jaspers não percebeu, naqueles dias, a mundialização dos processos produtivos. Ele observa que no mundo que se formava fortaleciam-se unidades especiais, diríamos de Estado ou regiões um pouco maiores, onde a experiência histórica do tempo tinha configuração singular. Ele não fala de blocos econômicos, que não existiam até meados do século passado, nem da tensão que se estabelece na tentativa de defender certo modo de vida nessas unidades especiais. Parece possível retomar suas lições sobre a História para entender a ascensão contemporânea dos movimentos de direita radical, que ganharam força em diversas nações do mundo. Esses grupos, apesar de agendas locais, querem preservar o isolamento de suas fronteiras, numa visão estreita de nacionalismo, num mundo onde a universalização aponta outra agenda. As observações do filósofo sobre unidades especiais no interior da humanidade traduzem a tensão entre o que pode ser universalizado e o que tende a permanecer singularizado e assim entender a inadequação dessa proposta como forma de garantir isolamento dessas comunidades.
A consciência histórica iluminada por referências atuais, muitas delas construídas pelo próprio filósofo, é importante para superar os impasses dos historicismos do século XIX e a emergência da direita radical em diversos países em nossos dias. Com suas análises adicionalmente ele explica a importância da filosofia para um tempo em que ela é pouco considerada como elemento de orientação e referência.
José Mauricio de Carvalho

Academia de Letras de São João del-Rei

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O Individualismo liberal e o niilismo existencialista. Selvino Antonio Malfatti.





Na concepção liberal, o individualismo é no sentido de libertar cada ser humano das cadeias que o prendiam dentro do sistema feudal em suas várias dimensões: política, econômica, religiosa, moral e jurídica. Foi de propiciar às pessoas a possibilidade de fazer suas escolhas de como viver em sociedade. Em nenhum momento negou-se a vida social, ao contrário sempre se a pressupôs. A meta era como sair do estado de natureza (sem nexos sociais) para viver em sociedade. O individualismo liberal quer uma convivência social pautada pela racionalidade.
Por sua vez, uma parcela do existencialismo - o ateu, como em Jean-Paul Sartre - nega qualquer liame social pulverizando os indivíduos. Para esses, o lema é “proibido proibir”. . Então, cada um pode seguir seus próprios impulsos e instintos. Deste pensamento emergiu uma desconfiança generalizada sem esperança de salvação. Os valores são abolidos, aliás, o único valor é apropria vontade. Neste afã, os indivíduos lançam-se ao consumismo e na busca de compensação nos bens materiais. Como consequência nasce uma sociedade psicopática, “impolítica”, que se alimenta da raiva social. Termos, então, um ambiente que cada um individualizou para si o conflito e ao mesmo tempo tornou-se incapaz e administrar os problemas. Tudo o que se opuser à satisfação individual deve ser destruído. Esta proposta de um existencialismo nihilista produz o “abestamento” social, o único guia comportamental é o instinto.
Em hordas ou individualmente estes grupos destroem tudo o que encontram pela frente: praças e calçadas, ornamentações. Jardins e árvores são arrancados ou pisoteados.  Picham prédios e residências, sujam calçadas, inclusive fazem necessidades em locais públicos. Todo cidadão evita-os.
Onde estão o uso de álcool e drogas é generalizado.
Famílias não podem mais usufruir de lugares públicos como praças, pois estão tomadas de pessoas nuas, outras fazendo sexo explicitamente e publicamente. Associam todo tipo de droga com prostituição, tanto homo como heterossexual.
Armas de fogo ou armas brancas são vistas ostensivamente , com fogos de artifício e explosivos
Veículos com capôs abertos e som ligado às alturas. Nas redondezas ninguém consegue ter sossego e muito menos descansar. Carros em alta velocidade colocando em risco pessoas e outros veículos. Quem se atrever chamar atenção é agredido brutalmente.
Todos são obrigados a desviar ou se afastar destes grupos ou indivíduos. É o que está acontecendo com boa parcela de nossa sociedade. Para eles o importante é viver o agora, sem se importar com os demais. Valores são abolidos como ponderação, respeito, bom senso. Ninguém pode atravessar seu caminho. Ninguém pode negar nada. O objetivo deles é usufruir ao máximo de si, dos demais e do ambiente.
Há esperança de sair deste estado hobbesiano?  Pode-se pensar num abandono pacífico destes princípios, ou através de um rígido stalinismo, ou, quem sabe, os acenos neonacionalistas? Qual a alternativa capaz de romper o círculo vicioso?
Se analisarmos a fundo a questão o problema reside não só na ignorância como no “abestamento” social. Alguém pode ser ignorante, mas não agir como irracional, guiado pelos instintos. Abestamento social é quando uma determinada sociedade abandona a racionalidade e se deixa guiar pelos instintos. Neste sentido por mais ingênuo que pareça, a única saída ainda é a tradicional, isto é, instituir a racionalidade pela educação e ensino na produção de bens, serviços, cultura, informações, como afirma o sociólogo Mauro Magatti, no livro Mudança de Paradigma.
 
. É preciso contrapor a racionalidade ao abestamento. Se alguém disser que determinado produto é artístico, submeta-se ao critério racional e não ao emotivo. Por que o nu do Davi de Miguel Ângelo é uma obra de arte? E outros nus não são? Por que, aplicando-se a análise racional, se chega a esta conclusão. O objetivo de Miguel Ângelo não é o erotismo, mas a beleza da criatura humana, como obra prima divina.

Evidentemente que isto não acontece do da noite para o dia. Leva tempo. Talvez a geração que inicia não veja os frutos. Mas é preciso algum dia iniciar.

domingo, 22 de outubro de 2017

MODERNIDADE DEIXOU PARA TRÁS A FRATERNIDADE. Selvino Antonio Malfatti.

















A implantação da modernidade deu-se sobre três pilastras: liberdade, igualdade e fraternidade. A liberdade para fazer suas próprias leis, a igualdade de todos junto às mesmas leis e a fraternidade seria um ethos que cimentaria a união.
 “O individualismo faz as almas desmoronarem. A sociedade nasce com o Nós”.  É o que afirma o presidente da Pontifícia Academia pela Vida, Monsenhor Vicenzo Paglia, no livro a Derrota do Nós, (Il Crollo del Noi).  Sua hipótese tem como fundamento uma passagem bíblica, do Genesis, que diz: “não é bom que o homem fique só”. Conforme ele, na modernidade foi esquecido o Nós, a base da convivência social e da fraternidade. Foi uma promessa que a modernidade acenou, mas não foi cumprida.
Não se pode dizer que a liberdade e igualdade tenham vingado plenamente, mas se pode constatar que a fraternidade é a mais prejudicada. Isto porque o Nós vem depois do Eu proprio. O Eu vem depois do Nós. Embora seja  gerado pelo Nós, O Eu faz parte do Nós, integra-o.
Estamos no processo de construção de um mundo global, mas o perigo está que lhe falte a alma. Deve haver uma razão para tamanha dimensão. Há uma profunda contradição nesta tarefa: o advento de um mundo global coexiste com a desintegração da sociedade de convivência, a forma associativa da vida, da família, da comunidade e da nação. O drama catalão está aí para confirmar o fenômeno. Assistimos a proliferação de um novo individualismo que direciona tudo para si mesmo. É como se um vírus tivesse infectado e desintegrado o estar juntos, a convivência.
Apesar de tudo a família ainda resiste, mas até quando? Como se pode perceber é dela que emergem as contradições, onde os liames se enfraquecem progressivamente. As pessoas casam não para construírem um futuro comum, porém casam-se para se realizarem a si mesmos, até que os laços se enfraquecerem e se rompem. A prova deste narcisismo é tão escancarada que se chegou ao absurdo de um homem ou, uma mulher, casar consigo mesmo. Vê-se que o objetivo do individualismo foi alcançado. Nem a família resistiu e teve que dobrar-se.
Conforme Paglia, Deus cria um ser perfeito, mas se da conta que é um ser solitário. Este foi um erro de Deus. Então redobra de cuidados e cria sua obra prima: a mulher. Diante dela Adão cai de joelhos. Estabelece a aliança de ambos, isto é, do homem e da mulher. Erige então seu plano Providencia, confia a eles não só a condução da família, mas toda história humana. Se esta aliança não estiver bem, a própria história estará mal.
Perguntado sobre a questão da imigração se a Igreja que a defende não perdeu a sintonia com a opinião pública, responde que cabe à Igreja defender o acolhimento, pois todos necessitam dos outros. Basta interpretar a Parábola do Samaritano, diz ele. À pergunta “quem é meu próximo”, responde que cada um deva ser o próximo do outro. E o próximo do próximo é o vizinho. É por isso que se deve acolher o imigrante. É o começo para cimentar o Nós. Se se recusar o irmão é como se numa casa o filho único não se aceita a presença de mais um. Temos que reinventar a proximidade, repartir com os vizinhos mais descartados, os periféricos, como diria o papa Francisco.
Paglia faz um convite para recompor o sentido da fraternidade entre os seres humanos, de todos os credos, raças, gêneros e lugares. É o aceno para instituir uma sociedade global alicerçada sobre o amor.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Dando destaque. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei




A imprensa tem papel fundamental nas sociedades democráticas. Ela leva ao público informações que orientam cada cidadão em suas escolhas. Também funciona controlando autoridades públicas que ficariam em cômoda invisibilidade sem o público acompanhar o que se passa nos meandros do Estado. Assim, há um conflito de interesses entre o público que deseja a verdade e políticos que querem ocultar seus atos. Esse conflito de interesses se explicita quando envolve dirigentes envolvidos em esquemas de corrupção e violência.
Se esse importante trabalho da imprensa merece ser destacado e elogiado, pois a desonestidade não traz benefícios para a sociedade, muitas vezes a imprensa é parcial e divulga seletivamente os fatos. Quando a imprensa se afasta da verdade contribui torna confusa e lança na ignorância a opinião pública. É preciso notar que a opinião pública não é apenas uma opinião sobre os assuntos, é também espaço de educação. Um povo se educa quando conhece seus problemas e os discute de forma honesta. Portanto, a opinião pública é mais que um fórum de opinião, ela é lugar de desenvolvimento intelectual pelo livre debate de ideias. Quando a imprensa não colabora para essa educação coletiva falha gravemente, ainda que informe o acontecido. Por isso, é importante que a mídia abra espaço para filósofos, religiosos e cientistas exporem suas análises dos problemas e seus pontos de vista sobre os diferentes assuntos que preocupam a sociedade.
Contudo, a parte dessas missões da imprensa, nem sempre cumpridas com a exatidão e a honestidade desejadas, há uma triste estratégia atual da mídia que está sendo crescentemente usada. Trata-se da repetição do desastre para promover o doentio gozo no sofrimento. Quanto mais triste o fato, quando mais chocante o ocorrido, mais os jornalistas se revessam repetindo a mesma história, com pequena variação de detalhes. Assim, a mesma notícia é repetida dezenas de vezes, mostrando os mesmos acontecimentos horrorosos. Em contrapartida, fatos fundamentais para a sociedade, aquilo que revela o melhor de sua parte íntima fica escondido ou é mal comentado. É importante mudar isso.
Assim, enquanto a imprensa escrita e falada insiste nas mortes das crianças, repetindo seus nomes e idades, enquanto os jornalistas esmiúçam a vida do vilão da tragédia ocorrida no Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente, na cidade de Janaúba, no norte de Minas Gerais, desejo destacar a reação das pessoas comuns. Trabalhadores que passavam pelo local e que procuraram ajudar as crianças feridas, a dedicação das equipes de saúde, a solidariedade da população com as famílias atingidas, todos se envolveram para responder a tragédia. Mas tragédias tem heróis, nem sempre suficiente reconhecidos. Nessa tragédia de Janaúba, entre as professoras e funcionários do Centro Infantil que socorreram os feridos, a professora Helley de Abreu Silva Batista entrou e saiu mais de uma vez da cena do desastre, com o corpo em chamas, salvando várias crianças. Ela morreu , mas salvou vários alunos. Sua atitude de respeito ao próximo e solidariedade ao sofrimento é o comum para a maioria dos funcionários públicos comuns do país. A ela deve ser dado destaque e ao seu ato heroico. Seu heroísmo precisa ser enaltecido para envergonhar a meia dúzia de dirigentes ladrões da sociedade. A professora Helley, nossa gratidão por mostrar quem são, de verdade, as pessoas que fazem o país. Nossa gratidão por nos mostrar que apesar de líderes que envergonham e políticos que não nos representam, cidadãos comuns vivem a generosa face da moralidade.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

SOCIEDADE QUE SE AUTO INSPIRA E INDIVÍDUOS ATOMIZADOS. Selvino Antonio Malfatti.





O historiador alemão, Jacob Burckhardt, no estudo das civilizações antigas constatou um fenômeno genuinamente peculiar com a cidade-estado de Esparta: o poderio de Esparta surgiu de si mesma, por autoafirmação, pelo seu gênio interno de submeter e exterminar os povos submetidos como um fim em si mesmo. Era uma sociedade que emergia de sua própria energia, um pathos peculiar que a fazia diferente das demais. Haja vista a vizinha Atenas que desenvolvia uma democracia, cultivava a liberdade e prezava a igualdade, culminando c om a democracia liberal do século XIX.
O germe de Esparta não morreu nem se perdeu na história. Ressurgiu com toda força no decorrer do século XIX, e ainda está em curso. Apresenta-se como um movimento contra tudo que pudesse evocar o “religioso”. Pode ser caracterizada como uma sociedade laica, sem necessidade de ditames externos, para se tornar ela mesma um quadro de referência para qualquer significação. Na sua fisiologia e estrutura as explicações e razões se deveriam buscar no interior de si mesma.
O modo de ser político, econômico, jurídico assume formas as mais divergentes. Na economia como capitalismo ou socialismo; na política, democráticas ou ditatoriais; jurídico, como protecionistas, liberais ou militares. Em qualquer circunstância sempre devendo ser consideradas como variantes da própria sociedade. Parece que a sociedade foi amputada da capacidade de ver mais longe do que a si mesma. A capacidade de buscar referências externas foi extirpada. Colocou-se numa posição de viver a cima do bem e do mal.
Apesar de estender-se a todos os regimes esta maneira de viver em sociedade é na democracia que encontra o melhor solo para germinar. Nesta forma de governo, o sumo da felicidade consiste em viver e favorecer a máxima liberdade. Na democracia é possível o pensar, decidir e proceder que emergem da sociedade em si mesma. Todos os modos de pensar são legítimos, exceto aquele que pretende revogar a democracia. Sinteticamente Thomas Jefferson definiu como: o preço da democracia é a eterna vigilância. Qualquer cochilo pode acarretar-lhe a morte. Um exemplo histórico foi o que aconteceu na Alemanha em janeiro de 1933, Hitler, que convenceu de ele e somente ele poderia salvar a Alemanha. Foi o golpe mortal contra a democracia alemã. “Viva a Alemanha, o povo e o Reich!”. Engenhosamente Hitler introduz um elemento fora da sociedade, transformado em teologia, que se torna política, a qual se torna totalitária.
Mas este processo político, como modelo, vai se estendendo a todos os níveis. Sem o temor do mistério a sociedade se recusa a aceitar a realidade e a proposta se torna apenas acadêmica. Não encontra palavras para definir, conforme regras consagradas, a sociedade envereda para a superstição nova e insinuante: a superstição de si mesma, difícil de perceber e dissolver, pois qualquer tentativa é considerada preconceituosa. Quem se opuser é in limine escrachado e marginalizado.
Os piores desastres aconteceram e acontecem quando a sociedade secular resolve tornar-se orgânica, aspiração recorrente de toda sociedade que desenvolve o culto de si mesma, calcada sobre as melhores intenções. Sempre tendo como pano de fundo a Perda do Paraíso e modernamente a perda da bondade de Rousseau, ou a concórdia de Marx, Saint- Simon, Hitler e Lenin. Visionários do Orgânico, do belo. Para eles a atomização da sociedade é considerada uma maldição. Ninguém se dá conta que é justamente nisso que consiste a autodefesa dos males mais graves. Nesta sociedade atomizada não é preciso que a polícia secreta bata a porta às quatro da manhã, pois ela mimetiza sua segurança.
Atualmente esta tendência evolui no sentido de a individualidade assumir as mesmas características do orgânico.
Como uma tendência antípoda do orgânico e igualmente contrário à democracia, e dentro dela, está se manifestando aqui e acolá uma postura anárquica, isto é, uma reação negativa não só externa à sociedade como o que emana da sociedade. É uma tendência de atomização total da sociedade sem nenhum vínculo de coesão. Tudo o que vier fora de si próprio, do indivíduo é condenado. É um movimento novo, ainda não individuado totalmente. As palavras mais comuns para mostrar a repulsa de tais indivíduos à postura do bom senso é “fascista”, “moralista”, “escroto”, “reacionário”, conservador, asqueroso etc. Ninguém pode opinar em questões de gênero,  sexualidade, arte, política, educação, drogas. Até mesmo a pedofilia é defendida. Dentre os ativistas mais atuantes está o grupo LGBT. Os valores da democracia, para estes indivíduos, são disfarces de dominação .  Causa estranheza que tais atitudes não floresçam na Rússia, China, Cuba, Coreia do Norte, Indonésia mas em sociedades livres. São sofistas da época atual.
Algumas questões podem ser postas:
1.    Mudanças são necessárias, mas será a partir de terra arrasada?
2.    O movimento inclui o desfrute ao máximo tudo o que se apresenta.: o próprio corpo, meio ambiente, família, sociedade, sem limites. E as gerações futuras?
3.    Os movimentos que tentam conter tal onda (sic?) conseguirão freá-lo pacificamente? Religiões, Grupos organizados, poder judiciário?
4.    Disso advirá uma nova ordem?

Uma assistente social que atende adolescentes encaminhados pela justiça dá um depoimento sobre o estado anárquico e as perspectivas de recuperação. Diz ela que observa, a partir dos atendimentos, uma sociedade profundamente perdida, esperando que surja alguém que diga qual o caminho?
Diz que seu trabalho é avaliar as situações, orientar mostrando as possibilidades de mudanças, que se ganha ou se perde, mas cada um precisa e deve saber de suas carências e dificuldades. Vê o quando ficam frustradas esperando algo magico, como uma pílula que resolvesse e extirpasse toda dor ou sofrimento.
A salvação para uma sociedade não se perder, seria o fortalecimento da família, onde se transmite valores, regras e o respeito ao outro.
As famílias estão minúsculas, os irmãos aprendiam uns com os outros, principalmente dividir companheirismo, livros, brincadeiras etc
Mas as famílias estão deixando suas crianças nas creches, terceirizadas e sendo cuidadas por pessoas que não formam vínculos, um bebê, sem o aconchego, será um adulto inseguro o emocionalmente,  fragilizado.  Hoje existe um movimento para as escolas prepararem as crianças para lidar com as perdas e frustações, assim serão adultos preparados para viver em sociedade.
O desfrute onde o ser que se consome no vazio de sua existência, numa procura incessante do prazer, nada mais é que o vazio da vida. Vejo uma sociedade sem regras, sem autoridade, sem leis que devem ser respeitadas. Isto possibilitaria a formação de cidadãos cientes de seus deveres, conhecedores de seus direitos, mas com uma grande consciência de sociedade participativa e honesta consigo mesma. (I.R.S.)