sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Dando destaque. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei




A imprensa tem papel fundamental nas sociedades democráticas. Ela leva ao público informações que orientam cada cidadão em suas escolhas. Também funciona controlando autoridades públicas que ficariam em cômoda invisibilidade sem o público acompanhar o que se passa nos meandros do Estado. Assim, há um conflito de interesses entre o público que deseja a verdade e políticos que querem ocultar seus atos. Esse conflito de interesses se explicita quando envolve dirigentes envolvidos em esquemas de corrupção e violência.
Se esse importante trabalho da imprensa merece ser destacado e elogiado, pois a desonestidade não traz benefícios para a sociedade, muitas vezes a imprensa é parcial e divulga seletivamente os fatos. Quando a imprensa se afasta da verdade contribui torna confusa e lança na ignorância a opinião pública. É preciso notar que a opinião pública não é apenas uma opinião sobre os assuntos, é também espaço de educação. Um povo se educa quando conhece seus problemas e os discute de forma honesta. Portanto, a opinião pública é mais que um fórum de opinião, ela é lugar de desenvolvimento intelectual pelo livre debate de ideias. Quando a imprensa não colabora para essa educação coletiva falha gravemente, ainda que informe o acontecido. Por isso, é importante que a mídia abra espaço para filósofos, religiosos e cientistas exporem suas análises dos problemas e seus pontos de vista sobre os diferentes assuntos que preocupam a sociedade.
Contudo, a parte dessas missões da imprensa, nem sempre cumpridas com a exatidão e a honestidade desejadas, há uma triste estratégia atual da mídia que está sendo crescentemente usada. Trata-se da repetição do desastre para promover o doentio gozo no sofrimento. Quanto mais triste o fato, quando mais chocante o ocorrido, mais os jornalistas se revessam repetindo a mesma história, com pequena variação de detalhes. Assim, a mesma notícia é repetida dezenas de vezes, mostrando os mesmos acontecimentos horrorosos. Em contrapartida, fatos fundamentais para a sociedade, aquilo que revela o melhor de sua parte íntima fica escondido ou é mal comentado. É importante mudar isso.
Assim, enquanto a imprensa escrita e falada insiste nas mortes das crianças, repetindo seus nomes e idades, enquanto os jornalistas esmiúçam a vida do vilão da tragédia ocorrida no Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente, na cidade de Janaúba, no norte de Minas Gerais, desejo destacar a reação das pessoas comuns. Trabalhadores que passavam pelo local e que procuraram ajudar as crianças feridas, a dedicação das equipes de saúde, a solidariedade da população com as famílias atingidas, todos se envolveram para responder a tragédia. Mas tragédias tem heróis, nem sempre suficiente reconhecidos. Nessa tragédia de Janaúba, entre as professoras e funcionários do Centro Infantil que socorreram os feridos, a professora Helley de Abreu Silva Batista entrou e saiu mais de uma vez da cena do desastre, com o corpo em chamas, salvando várias crianças. Ela morreu , mas salvou vários alunos. Sua atitude de respeito ao próximo e solidariedade ao sofrimento é o comum para a maioria dos funcionários públicos comuns do país. A ela deve ser dado destaque e ao seu ato heroico. Seu heroísmo precisa ser enaltecido para envergonhar a meia dúzia de dirigentes ladrões da sociedade. A professora Helley, nossa gratidão por mostrar quem são, de verdade, as pessoas que fazem o país. Nossa gratidão por nos mostrar que apesar de líderes que envergonham e políticos que não nos representam, cidadãos comuns vivem a generosa face da moralidade.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

SOCIEDADE QUE SE AUTO INSPIRA E INDIVÍDUOS ATOMIZADOS. Selvino Antonio Malfatti.





O historiador alemão, Jacob Burckhardt, no estudo das civilizações antigas constatou um fenômeno genuinamente peculiar com a cidade-estado de Esparta: o poderio de Esparta surgiu de si mesma, por autoafirmação, pelo seu gênio interno de submeter e exterminar os povos submetidos como um fim em si mesmo. Era uma sociedade que emergia de sua própria energia, um pathos peculiar que a fazia diferente das demais. Haja vista a vizinha Atenas que desenvolvia uma democracia, cultivava a liberdade e prezava a igualdade, culminando c om a democracia liberal do século XIX.
O germe de Esparta não morreu nem se perdeu na história. Ressurgiu com toda força no decorrer do século XIX, e ainda está em curso. Apresenta-se como um movimento contra tudo que pudesse evocar o “religioso”. Pode ser caracterizada como uma sociedade laica, sem necessidade de ditames externos, para se tornar ela mesma um quadro de referência para qualquer significação. Na sua fisiologia e estrutura as explicações e razões se deveriam buscar no interior de si mesma.
O modo de ser político, econômico, jurídico assume formas as mais divergentes. Na economia como capitalismo ou socialismo; na política, democráticas ou ditatoriais; jurídico, como protecionistas, liberais ou militares. Em qualquer circunstância sempre devendo ser consideradas como variantes da própria sociedade. Parece que a sociedade foi amputada da capacidade de ver mais longe do que a si mesma. A capacidade de buscar referências externas foi extirpada. Colocou-se numa posição de viver a cima do bem e do mal.
Apesar de estender-se a todos os regimes esta maneira de viver em sociedade é na democracia que encontra o melhor solo para germinar. Nesta forma de governo, o sumo da felicidade consiste em viver e favorecer a máxima liberdade. Na democracia é possível o pensar, decidir e proceder que emergem da sociedade em si mesma. Todos os modos de pensar são legítimos, exceto aquele que pretende revogar a democracia. Sinteticamente Thomas Jefferson definiu como: o preço da democracia é a eterna vigilância. Qualquer cochilo pode acarretar-lhe a morte. Um exemplo histórico foi o que aconteceu na Alemanha em janeiro de 1933, Hitler, que convenceu de ele e somente ele poderia salvar a Alemanha. Foi o golpe mortal contra a democracia alemã. “Viva a Alemanha, o povo e o Reich!”. Engenhosamente Hitler introduz um elemento fora da sociedade, transformado em teologia, que se torna política, a qual se torna totalitária.
Mas este processo político, como modelo, vai se estendendo a todos os níveis. Sem o temor do mistério a sociedade se recusa a aceitar a realidade e a proposta se torna apenas acadêmica. Não encontra palavras para definir, conforme regras consagradas, a sociedade envereda para a superstição nova e insinuante: a superstição de si mesma, difícil de perceber e dissolver, pois qualquer tentativa é considerada preconceituosa. Quem se opuser é in limine escrachado e marginalizado.
Os piores desastres aconteceram e acontecem quando a sociedade secular resolve tornar-se orgânica, aspiração recorrente de toda sociedade que desenvolve o culto de si mesma, calcada sobre as melhores intenções. Sempre tendo como pano de fundo a Perda do Paraíso e modernamente a perda da bondade de Rousseau, ou a concórdia de Marx, Saint- Simon, Hitler e Lenin. Visionários do Orgânico, do belo. Para eles a atomização da sociedade é considerada uma maldição. Ninguém se dá conta que é justamente nisso que consiste a autodefesa dos males mais graves. Nesta sociedade atomizada não é preciso que a polícia secreta bata a porta às quatro da manhã, pois ela mimetiza sua segurança.
Atualmente esta tendência evolui no sentido de a individualidade assumir as mesmas características do orgânico.
Como uma tendência antípoda do orgânico e igualmente contrário à democracia, e dentro dela, está se manifestando aqui e acolá uma postura anárquica, isto é, uma reação negativa não só externa à sociedade como o que emana da sociedade. É uma tendência de atomização total da sociedade sem nenhum vínculo de coesão. Tudo o que vier fora de si próprio, do indivíduo é condenado. É um movimento novo, ainda não individuado totalmente. As palavras mais comuns para mostrar a repulsa de tais indivíduos à postura do bom senso é “fascista”, “moralista”, “escroto”, “reacionário”, conservador, asqueroso etc. Ninguém pode opinar em questões de gênero,  sexualidade, arte, política, educação, drogas. Até mesmo a pedofilia é defendida. Dentre os ativistas mais atuantes está o grupo LGBT. Os valores da democracia, para estes indivíduos, são disfarces de dominação .  Causa estranheza que tais atitudes não floresçam na Rússia, China, Cuba, Coreia do Norte, Indonésia mas em sociedades livres. São sofistas da época atual.
Algumas questões podem ser postas:
1.    Mudanças são necessárias, mas será a partir de terra arrasada?
2.    O movimento inclui o desfrute ao máximo tudo o que se apresenta.: o próprio corpo, meio ambiente, família, sociedade, sem limites. E as gerações futuras?
3.    Os movimentos que tentam conter tal onda (sic?) conseguirão freá-lo pacificamente? Religiões, Grupos organizados, poder judiciário?
4.    Disso advirá uma nova ordem?

Uma assistente social que atende adolescentes encaminhados pela justiça dá um depoimento sobre o estado anárquico e as perspectivas de recuperação. Diz ela que observa, a partir dos atendimentos, uma sociedade profundamente perdida, esperando que surja alguém que diga qual o caminho?
Diz que seu trabalho é avaliar as situações, orientar mostrando as possibilidades de mudanças, que se ganha ou se perde, mas cada um precisa e deve saber de suas carências e dificuldades. Vê o quando ficam frustradas esperando algo magico, como uma pílula que resolvesse e extirpasse toda dor ou sofrimento.
A salvação para uma sociedade não se perder, seria o fortalecimento da família, onde se transmite valores, regras e o respeito ao outro.
As famílias estão minúsculas, os irmãos aprendiam uns com os outros, principalmente dividir companheirismo, livros, brincadeiras etc
Mas as famílias estão deixando suas crianças nas creches, terceirizadas e sendo cuidadas por pessoas que não formam vínculos, um bebê, sem o aconchego, será um adulto inseguro o emocionalmente,  fragilizado.  Hoje existe um movimento para as escolas prepararem as crianças para lidar com as perdas e frustações, assim serão adultos preparados para viver em sociedade.
O desfrute onde o ser que se consome no vazio de sua existência, numa procura incessante do prazer, nada mais é que o vazio da vida. Vejo uma sociedade sem regras, sem autoridade, sem leis que devem ser respeitadas. Isto possibilitaria a formação de cidadãos cientes de seus deveres, conhecedores de seus direitos, mas com uma grande consciência de sociedade participativa e honesta consigo mesma. (I.R.S.)


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

José Mauricio de Carvalho. Martin Buber e o diálogo – Academia de Letras de São João de Rei.





Em razão do acima dito, o encontro parece ser o combustível da atividade filosófica, necessário alimento para pensar depois que o indivíduo se enamora do mundo e de seus problemas. Então, quando já está apaixonado pela verdade última que amarra todas as outras verdades, como o adolescente fica obcecado em seu primeiro amor, o pensador pode iniciar o encontro com a tradição de pensamentos pensados, desafiado a fazê-lo por conta própria. Então poderá responder aos desafios que descortina em sua existência e vislumbra na cultura do seu tempo. Se a Filosofia é aproximação da verdade pelo desvelamento de seus aspectos no tempo, o encontro com os filósofos é o que alimenta essa aproximação.
Assim, é particularmente inspirador quando um filósofo faz do diálogo o objeto não só do encontro com a tradição filosófica, mas da própria condição humana que se mostra no encontro com o mundo e os outros. Essa foi a problemática de Buber. Foi o que
procuramos mostrar no livro Martin Buber: a filosofia e outros escritos sobre o diálogo e a intersubjetividade. Esse filósofo, no seu livro no livro mais importante: Eu e Tu, descreve o encontro que tece o homem. Ele revela, naquela obra, sua inspiração fenomenológica e sua fé profunda no diálogo. O diálogo maior é direto com Deus a quem se fala e, sobretudo, a quem se escuta. O diálogo com o Grande Tu assegura o travamento necessário para à vida instável. No diálogo se resume o homem, nas relações que estabelece com as coisas (relação Eu – Isso) e no encontro com os outros homens, (relações Eu – Tu). Nessas duas palavras-princípio se expressa a ontologia da relação, o homem se faz no que está entre o Eu e o Tu, tema desenvolvido em outra de suas grandes obras: Do diálogo e do dialógico. Esse entre resume o encontro, o que é verdadeiramente real nas relações. Na primeira lição de Eu e Tu, Buber resumiu as relações humanas em dois pares de vocábulos. São eles respectivamente: Eu-Tu e Eu-Isso, sendo o Isso substituível por Ele ou Ela, objeto de quem se fala, mas não a quem se fala e de quem se escuta. Todo verdadeiro viver nasce no encontro, no entre, esse é o ponto fundamental de nossa realidade. Para Buber, quando se fala Tu ou Isso, pronunciam-se palavras-princípios, que resumem as relações possíveis com o que está à volta do Eu.

Encontramos nesse autor não apenas os elementos para um diálogo com a tradição filosófica, mas para pensar o significado de nossa humanidade no diálogo.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A IMPORTÂNCIA DA FILOSOFIA NA ATUALIDADE. Selvino Antonio Malfatti


















Em 2002 foi instituído pela UNESCO o Dia Mundial da Filosofia, na terceira quinta-feira do mês de novembro. O objetivo de celebrar tal data foi de demonstrar a importância da Filosofia para a vida humana e convivência social.

O físico inglês Hawking afirmou recentemente que a Filosofia estava morta. Claro, o mesmo se poderia dizer da física. Como assim? Depende de que filosofia e de que física. A filosofia cosmológica está morta e o mesmo se pode dizer da física com base na cosmologia. O que se quer dizer que cada área de conhecimento tem um objeto específico. A física teria por objeto as leis básicas do universo e a filosofia os princípios da convivência humana. Ou, como afirma chefe da agência da ONU, Irina Bokova, “em um mundo de múltiplas rupturas, a filosofia desempenha um papel essencial no pensamento e na ação pela dignidade humana e harmonia”. Para tanto se alça à casuística do “hic e nunc” para encontrar o que é específico no homem, isto é, sua dignidade. E isto o faz pela filosofia. 

Evidentemente que existem várias teorias filosóficas, mesmo aqueles que a negam, mas a supõem. O que não se pode fazer é julgar um objeto específico do conhecimento pelo outro também específico. É o caso do físico Hawking que ao raciocinar sobre a morte da filosofia baseou-se na física. 
Enquanto a maioria dos países europeus tem convicção sobre a importância do estudo da filosofia, no Brasil, provavelmente devido à origem portuguesa, não há a mesma crença. O pensamento filosófico português somente adquiriu independência do católico no final do século XIX e ainda assim optou pelo tecnicismo, o qual foi transferido para o Brasil. A partir daí o pêndulo balançou entre o tecnicismo e humanismo, mas o currículo oficial sempre deu preferência ao tecnicismo. Quem manteve a chama acesa do humanismo foi o ensino privado.

Atualmente a Reforma do Ensino do Brasil prevê a desobrigação do ensino da Filosofia nos currículos. Isto evidentemente é um retrocesso, uma volta ao pensamento tecnicista dos governos militares. É o alijamento, mais uma vez, do conteúdo humanista. Retrocederemos à Reforma do Marquês de Pombal quando o Brasil ainda era colônia de Portugal. O preconceito contra a filosofia acompanhou todas as reformas do ensino no Brasil. 

A mais próxima da independência, a Reforma de Pombal consagrou o tecnicismo. A da República, embasada no positivismo como o suprassumo do preconceito contra a filosofia, deixou de compor o currículo. Já na década de Trinta passou a fazer parte do currículo do ciclo complementar. Na Reforma Capanema, nos anos quarenta, com a divisão em ensino científico e colegial a filosofia aparece neste último. A reforma do período militar colocou a filosofia na mira, novamente, do tecnicismo e consequentemente a filosofia foi paulatinamente se extinguindo do currículo.  LDB de 1996 contemplava a filosofia no currículo mas a presente reforma em curso, novamente a disciplina recebe um tratamento secundário, senão excludente.

Para ver como a filosofia é importante apresentamos um elenco de filósofos da atualidade de diferentes países, inclusive ingleses e americanos países, de pensamento de cunho essencialmente pragmático. 

Isto nos leva a refletir como Aristóteles em Protético:

“Se se deve filosofar, deve-se filosofar, e se não se deve filosofar, deve-se igualmente filosofar para argumentar que não se deve filosofar”.

Alguns filósofos da atualidade:

G. E. M. Anscombe , A. J. Ayer , Ruth Barcan Marcus , Isaiah Berlin, Simon Blackburn , Ned Block , Rudolf Carnap , Avram Noam Chomsky , Donald Davidson , Sigmund Freud. , Edmund Husserl, . Henri Bergson, Heidegger, Adorno, Foucault , Habermas entre outros.

Do Brasil: Antonio Paim e de Portugal Antonio Braz Teixeira, ainda vivos.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

AS SEPARAÇÕES DO DIVÓRCIO. SelvinoAntonio Malfatti



Quando se perde um ente querido da família costuma-se preservar o que deixou. Seu guarda-roupa, objetos pessoais, local de trabalho. Foi o que aconteceu com a filha Serena de Giulio Andreotti, falecido em 2013. Passados quatro anos animou-se a examinar o acervo de cartas enviadas e recebidas. Qual seu espanto quando descobriu entre as cartas um romance inédito do pai. Imediatamente, ao saberem, as editoras se interessaram e o romance será publicado em dezembro deste ano pela Nave de Teseo. 

A importância do romance, intitulado, “Il Buono Cattivo” (O Bom Mau), reside na peculiaridade de ser ambientado no fragor da batalha do referendum sobre o divórcio na Itália, em 1974. De um lado o Vaticano contra e de outro um Parlamento e sociedade divididos a favor ou contra.  Este fato histórico significava para a Itália ou continuar um estado quase confessional, e intimamente ligado aos desejos do Vaticano e de outro tornar-se um estado totalmente laico.
O romance assume importância, pois foi escrito, na época, por alguém que foi um dos maiores líderes do partido da Democracia Cristã, exerceu por sete vezes o cargo de Presidente do Conselho (primeiro ministro), senador vitalício. Não escapou as acusações de Mani Pulite por associação com a máfia, no entanto, a justiça não conseguiu condená-lo.

Na época, Andreotti, em que pese ser do partido majoritário, o da Democracia Cristã e recém deixado o governo, não se envolveu “cum ira et studio” na batalha do referendum sobre o divórcio que dividiu a Itália pelo SIM ou pelo NÃO. Preferiu uma atitude sutil, moderada. Provavelmente, como político astuto, já sabia o desfecho, ou previa. Farejava os sinais dos tempos, em que pese fosse católico devoto e frequentador do Vaticano, via que a sociedade não pensava assim. Já não era mais nos tempos de Alcide di Gasperi, o líder político-católico, fundador da Democracia Cristã, perípdo no qual se dizia: Di Gasperi, na Missa, fala com Deus e Deus fala com o padre. Por isso retirou-se estrategicamente e participou a seu modo do confronto. Sem o fervor do líder do partido do Escudo Cruzado, Gabrio Lombardi ,e muito menos deu ouvidos às profecias milenaristas de Amintore Fanfani e outros líderes semelhantes da Democracia Cristã de braços dados com o com alguns outros partidos. Encarou o pleito com frieza, ou por desencanto ou por prever o resultado. Podia-se dizer que estava com os pés no chão, sem ilusões.

No entanto, em que pese sua suposta indiferença e e passividade, o fracasso não estava nos seus planos. A prova está no texto encontrado, escrito no galope do desenrolar do processo eleitoral, abordando questões ético-políticas, nas quais a Itália se engalfinhou ferozmente.

O enredo envolve uma pensãozinha no lago Como. Os personagens: a patroa, a senhora Falconi e os hóspedes. O mais importante, o advogado Pedro Paulo Santulo e o próprio narrador. Além de temas de tribunais eclesiásticos aqui entram outros temas, tornando a narrativa cativante. A filha de Andreotti, ao ler o romance testemunha que se pode “escutar” o pai, claro nas idéias, ora benevolente, ora irônico, consigo mesmo e com os demais.
Na verdade Andreotti não estava de acordo com a consulta popular. Achava que o assunto era ainda prematuro e que melhor seria procrastiná-lo para melhor amadurecê-lo.

A Itália caminhava a passos rápidos rumo à laicização. Um dos parâmetros que podia medir externamente a religiosidade era a participação à missa dominical. Já se podia perceber o rápido declínio neste culto religioso. Quanto ao uso de contraceptivos, o clero posicionou-se contrário. No entanto, a taxa de natalidade diminuía a olhos vistos. Não menos dogmática era a postura em relação ao aborto. Entretanto, os abortos clandestinos aumentavam dia à dia, igualando-se aos nati-vivos. Mas a de maior repercussão, mormente para a Democracia Cristã,  foi a questão do divórcio. 

Em dezembro de 1970, num debate que durou aproximadamente cem horas, foi aprovada a lei da instituição do divórcio. Isso aconteceu graças à união dos deputados  católicos aos deputados dos partidos laicos, desafiando, inclusive, a orientação do Vaticano. Amintore Fanfani, acreditando numa maioria do eleitorado católico, e, que fosse fiel às orientações do partido e da Igreja, propõe a abrogação da lei através de uma consulta popular. A Igreja, porém, parece que percebia melhor a tendência da sociedade despercebida pelo próprio líder Fanfani da Democracia Cristã. Até mesmo no interior do partido havia oposição ao referendum como foi o caso de Flaminio Piccoli. Diante da insistência da Fanfani pelo referendum, a direção do partido, em reunião de 9 de fevereiro de 1974 estabeleceu a posição do partido perante o referendum. Deveria votar pela abrogação da lei embora optasse por manter os temas religiosos fora da campanha eleitoral. Os argumentos contra o divórcio não deveriam ser de caráter religiosos mas de ordem social e civil. Além disso, se deveria manter a porta aberta ao diálogo com os católicos contrários à abrogação, ou os católicos do não. Decidiu-se, também, manter o atual governo bem como a aliança que o sustentava fora da contraposição. Para obter os votos necessários ao SI o governo e seus aliados, fizeram de tudo. O líder do do Partido Socialista italiano, Bettino Graxi, ao ser entrevistado em quem deveria votar dizia laconicamente: vão à praia. A abstenção favoreceria o Si. Mas nada adiantou.
O resultado não podia ter sido mais desastroso para a Democracia Cristã e seus aliados.. Os divorcistas, isto é, os partidários do “No”, pois não queriam a abrogação da lei do divórcio, conseguiram 59,1%, sobre uma população de 88% que compareceu à votação.
As conseqüências se fizeram sentir de imediato:

1.  Divórcio entre a Democracia Cristã e Vaticano. Na prática, romperam relações.
2.  O partido da Democracia cristã fracionou-se internamente.
3.  A Democracia Cristã perde a maioria.
4.  Vários filiados e políticos a abandonaram.. 
5. Perdeu-se a credibilidade nos valores do partido Democracia Cristã.
     6. Os políticos começaram a envolver-se em corrupção.

A partir de então, inicia-se o processo de diáspora dos simpatizantes, uma longa agonia, dissolução e morte da Democracia Cristã.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Consequências da Revolução Gnosiológica de Kant. Selvino Antonio Malfatti




O pensamento ocidental seguia sem significativas rupturas até o século XVIII, uma trajetória que, iniciada com Aristóteles na antiguidade e seguida por Santo Tomás na Idade Média. Quando se ingressa no período moderno-contemporâneo começam as turbulências com Descartes e culmina com Kant cujas raízes podem ser encontradas em Platão. O pomo da discórdia foi a concepção gnosiológica, mais precisamente a questão da metafísica. O que conhecemos e como conhecemos o mundo externo, inclusive nós, pois podemos ser objeto de conhecimento de nós mesmos.
Certa vez um biólogo me disse: eu jamais quereria estudar ciências humanas. Por quê? - perguntei. Por que nunca há nada definitivo. Qualquer conteúdo sempre deve ser retomado desde o início. Os problemas sempre voltam à tona. Nas ciências, há marcos de não retorno. É definitivo. Não há necessidade de se estudar a história da física, da biologia e mesmo da matemática. Na filosofia, porém, não há momentos de antes e depois. Sempre é agora, sempre a questão é retomada embora tenha sido estudada anteriormente. Claro que o conhecimento filosófico tem marcos também, mormente os valores, mas diferentemente da ciência, são sempre questionáveis.
Vejamos o caso da dignidade da pessoa humana, valor este surgido no período medieval. Este valor, no período, se restringia à concepção de supremacia absoluta da pessoa. Era um valor sem permutas. Atualmente este valor pessoa humana se estendeu ao direito – como proteção - na economia – atribuindo um valor mínimo digno pelo trabalho – na administração – não invadindo a esfera individual ou privada. O contínuo questionamento possibilita o avanço e o resultado é seu aperfeiçoamento global. O conhecimento filosófico é circular, pois todas  as dimensões progridem.
Já na ciência o avanço é linear. A ciência possui uma trajetória traçada por uma linha reta que inicia num determinado ponto e dirige-se ao ponto seguinte e este ao próximo.
Retomando, em filosofia uma das questões mais debatidas é a relação sujeito-objeto. Foi o que precisamente fez Kant: contudo,invertendo a postura gnosiológica.. Até então o objeto imperava soberano sobre o sujeito. Este estava subordinado ao objeto. O princípio: nihil est intellecto quod prius non fuerit in sensu, de Aristóteles (Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos). Kant realizou a revolução copernicana. Em vez de os objetos penetrarem na mente, são regulados pela mente. A mente lhes dá forma e matéria. Por isso, se quisermos conhecer os objetos devemos primeiramente conhecer a mente. É o que estabelece na Crítica da Razão Pura que estuda as categorias, ou as propriedades de nosso conhecimento que reflete a realidade. Daí que o princípio se inverte: nihil este in sensu quod prius non fuerit in intelellecto (nada há no mundo real que antes não tenha passado pelo intelecto).
As consequências de tais posturas são revolucionárias. Tomemos, por exemplo, a questão do conhecimento de Deus, liberdade, imortalidade. Pela metafísica anterior a Kant havia possibilidade de provar a existência de Deus. Vejam as Cinco Vias de Santo Tomás. Com Kant, para chegar a tais realidades, a mente deveria ter as categorias plantadas nela, tais como infinito, eterno, todo-poderoso, imortal. Como a mente é destituída de tais categorias não pode ter acesso a estes conhecimentos. Nossa mente está aparelhada somente para conhecer o mundo sensível.
O pensamento de Kant é retomado em Hegel e este é pensado por Marx. Até aqui o conhecimento da realidade provinha da observação da experiência. Mas desde que se conhece a realidade pelo que está na mente então podermos conhecer a realidade social e política nas categorias mentais. Basta estudar o pensamento que se conhece o mundo social e político. A consequência é a inversão, O conhecimento ao se deparar com a experiência constata que é imperfeita, multifacetada, tem avanços e recuos.Ao se dispensar a experiência, tem-se tão somente o que se crê que sejam categorias mentais. Estas apresentam uma visão de mundo perfeito, uno, que conhece somente o rumo da perfeição. Tudo se encaixa, flui perfeitamente.O conhecimento é um mundo igualitário no qual as diferenças são abolidas na aplicação prática. Uma organização política do topo para as bases na qual são excluídas as divergências. O direito oriundo do pensamento estatal através de seu representante. Partido único.  Imprensa unívoca.  A educação coordenada pelos ditames de ordens de dirigentes. Enfim, um projeto emanado do que se acredita que sejam as categorias da mente e, como resultado, uma visão que abrange a totalidade.
Felizmente o próprio Kant se deu conta e escreve outro livro dando a dica: Crítica da razão PRÁTICA. Aí tudo se recupera novamente: Deus, imortalidade da alma, ética e moral, liberdade, enfim o que vinha sendo praticado até seu aparecimento. No entanto, seu pensamento criou vida própria e as consequências todos conhecemos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Partidos que não representam interesses legítimos e emergência de interesses inadequados.José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei




Um dos maiores desastres da vida política nacional é o grande número de partidos políticos que nada representam, além de tornarem excessivamente cara a disputa eleitoral e favorecerem a corrupção. O espaço político precisa ser aproveitado para debater grandes temas nacionais como: a defesa da Amazônia, a responsabilidade dos cidadãos, o exercício da liberdade, a preservação ambiental, a preservação cultural, o progresso material e espiritual do país, a defesa das fronteiras e o combate a violência. No entanto, a multiplicidade de partidos não ajuda nesse debate porque dificulta entender a posição de cada partido sobre esses grandes temas. Além do mais, sendo boa parte dessa multidão de agremiações legendas de aluguel, elas vendem o apoio parlamentar aos governos de modo que facilitam a corrupção.
Logo, uma reforma política capaz de baratear o custo dos políticos e valorizar o debate nacional dos grandes temas passa pela redução drástica dos quase 40 partidos existentes. Assim, ao invés de programas para defender o obvio como, por exemplo: a valorização da educação, da saúde, da soberania nacional, o respeito social da mulher, etc. esses partidos, se fossem poucos e ideologicamente comprometidos, estariam se posicionando sobre os grandes temas nacionais e interesses legítimos da sociedade: como tratar o problema das aposentadorias? Como financiar a educação e a saúde? O que cada um tem a dizer sobre o investimento nas forças militares? Como enfrentar as dificuldades de infra-estrutura do país? Como proteger as fronteiras e como combater a violência? Sempre explicando como fazer e de onde pretende o partido obter os recursos necessários para realizar o que pretende.
O atual debate político nada contribui para o amadurecimento da sociedade ou esclarece sobre as posições dos partidos existentes, não aprofunda as questões de interesse público. É um debate que se limita a frases de efeito elaboradas por marqueteiros, descamba para a emoção irracional e a briga pessoal, além de não responder de forma objetiva as perguntas que a população tem. Dessa maneira não se esclarece o que propõe cada político e seu partido e eles fazem o que bem entendem quando vencem as eleições. É evidente que falando o que os marqueiteiros sintetizam das pesquisas de opinião pública, o que se assiste do debate político nacional é, quando muito, a expressão de algumas opiniões, igualmente justificáveis ou apenas o reconhecimento de ideais, sem se explicar como realizar isso que todos consideram necessário: reduzir a desigualdade social ou valorizar a educação, por exemplo.
Com partidos ideologicamente identificados: um defendendo um liberalismo conservador, outro um liberalismo mais social, outro ainda posições sociais-democratas ou socialistas, ou ainda um partido ambientalista ou trabalhista, as pessoas se sentiriam melhor representadas na divisão de interesses legítimos. Ideais como a integração econômica da mulher na sociedade, a construção de uma sociedade menos desigual, maior respeito às pessoas idosas, maior integração das populações negra e indígena não constituem interesses adequados entorno aos quais os brasileiros devam se dividir. Assim, um quadro partidário, que nada representa e se alimenta da propina e corrupção, dá origem a que grupos com interesses contrários aos interesses nacionais, mas com aspiração legítima, surjam e estabeleçam espaços de conflito sobre questões que a rigor são de todos e não de alguns, como: a questão da Mulher, do Negro e do Favelado.
Essa última consequência, caso prospere a ideia de proclamar interesses inadequados como programas partidários, promoverá um desastre nacional com consequências imprevisíveis. Um partido para defender o interesse dos negros dará origem a um outro para defender os direitos da população branca e europeia, com agravamento dos conflitos sociais como vemos em outras nações.