sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

AS GRANDES FALSAS NOTÍCIAS NA HISTÓRIA (FAKE NEWS) . Selvino Antonio Malfatti.



Muitos pensarão que os Fake New - notícias falsas - sejam uma marca de nosso tempo, mormente as disseminadas pelas redes sociais. No entanto, faz quinhentos anos que a primeira grande mentira que rolou pelo mundo foi desmascarada. .
Em 1517saiu a notícia de um texto que desmascarava a Doação de Constantino. Do assassinato de Napoleão pelos cossacos até a reunião dos Sábios de Sião, uma longa trajetória de falsas notícias. A primeira até mereceu uma pintura que se encontra no Oratório de São Silvestre em Roma. Nele se vê o Imperador Constantino oferecendo ao Papa a tiara imperial como gratidão pelo milagre da cura da lepra.
1.    Não restam mais dúvidas. Esta notícia foi o maior furacão de todos os tempos. Fazem treze séculos que a notícia da Doação mudou o mundo. Isto se deveu a Lourenço Valla em 1440, que, valendo-se dos estudos de filologia, dá à luz o Discurso desmascarando a notícia. Diz o documento que o Documento de doação  foi elaborado na metade do século VIII, enquanto o acontecimento histórico aconteceu no século IV. O intuito foi fornecer uma base pseudolegal para as pretensões do poder temporal do papa. Por muito tempo o documento não foi questionado. Até mesmo Dante caiu na armadilha: “Ahi, Costantin, di quanto mal fu matre,/ non la tua conversion, ma quella dote/ che da te prese il primo ricco patre». (Ahi, Costantino, quão ruim era, / não a sua conversão, mas esse dote / que você fez o primeiro papa rico)"

Diz Valla: como se pode falar, no século IV, em Constantinopla, como uma sede patriarcal, quando não havia nem patriarcado, nem uma sede, nem uma cidade cristã, nem se chamava assim, nem tinha sido fundada, nem mesmo uma decisão de se fundar?
Ate mesmo junto às teses de Lutero foi afixado o documento em 1517, há, portanto meio século.
2.    Mas não foi só com São Silvestre e Constantino que se falsificaram fatos históricos. Já na Grécia, em Esparta, Pausânias. Este teria escrito a Xerxes, rei dos persas que se permitisse a mão da filha em casamento, lhe restituiria tudo o que havia conquistado dos persas, inclusive dar-lhe-ia Esparta e toda Grécia. Embora houvesse dúvidas sobre a autenticidade da carta, como sugere Heródoto, Pausânias pagou caro. Foi preso, condenado à morte, fizeram-no prisioneiro num templo e o enterraram vivo.

3.    Consta uma misteriosa missiva de 1165, enviada a Alexandre III, ao imperador Manuel I Comeno e Frederico Barbaroxa por parte de um tal de “Gianni o Presbítero”, após invocar a Deus, Jesus Cristo, o qual prometia doar todas as suas riquezas para mover guerra aos islamitas e defender a Terra Santa. Era o mítico Padre Gianni que se tornou uma lenda aceita por dezenas e dezenas de anos.

4.    Como explicar a notícia que correu Londres em 1814 anunciando a morte de Napoleão pelos cossacos. Fizeram-no picadinho! - diziam. A bolsa explodiu para cima, subiu, subiu...até que irrompeu o pânico. Era tudo falso. As desconfianças voltaram-se para Thomas Cochrane, almirante político, investidor. Foi preso, condenado e degredado por agiotagem.

5.    Outra notícia falsa de enorme repercussão ocorreu em 1871. A notícia disparou nos principais jornais: as mulheres incendiárias, da Comuna de Paris, colocaram fogo no Museu de Louvre. Alguns choravam, outros acusavam os comunistas. Era o fim da civilização. Outros ainda lamentavam por haverem perdido seu patrimônio artístico. Católicos viam um castigo divino pela era napoleônica. Mesmo depois de desmentida, continuavam os impropérios.

6.    O que causa mais estranheza é que, muitas vezes, a opinião pública se recusa a acreditar ser a notícia falsa. É o caso do Protocolo dos Sábios de Sião. Apesar  de as investigações sobre o famoso plano dos judeus de se apoderarem de todas as riquezas do mundo, ainda há crença no plano. Um escritor do porte de Umberto Eco o cita no Cemitério de Praga. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: pode ser falso, mas é exatamente o que pensam os judeus, portanto, é verdadeiro.

7.    E mais: o desembarque de marcianos no solo americano de 1938?  Ainda há resquícios de crença. E a carta de Stalin que pede que a imprensa continue noticiando sua morte para que ninguém lhe perturbe o silêncio do além.


Constantino oferecendo a tiara ao papa Silvrestre

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

VERGONHA E CULPA. Selvino Antonio Malfatti.





O Papa Francisco diz que na narrativa da Paixão identifica três Vergonhas.
A primeira acontece com Pedro. Quando ouve o galo cantar sente algo dentro de si. Chora e se envergonha.
A segunda aparece com o bom ladrão. Diz ele: nós estamos aqui por que somos culpados. Então, sente-se culpado e envergonhado. A vergonha abre-lhe o paraíso.
A terceira abate-se sobre Judas. Diz aos sacerdotes: pequei por que traí o sangue inocente. Os sacerdotes o mandam embora. E Judas sai envergonhado e com a culpa latejando na consciência. Não conseguindo livrar-se da vergonha da culpa, enforca-se.
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Como explicar antropologicamente a culpa? Por mais que alguém se examine, não a encontra e ela persiste dentro de dele.

O cristianismo soluciona através do dogma de culpa original.

Se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Se a culpa for estrutural como solucionar com a conjuntura? Se a culpa é institucional como posso eliminá-la?

Embora não se tenha lembrança dívida com alguém e nem tenha causado algum desagrado, mesmo assim persiste a culpa, A culpa, a cima de tudo, não é uma razão, mas sentimento. É algo do qual queremos livrar-nos. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata, por dentro, a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído de remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. 

E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade?  Assim se pode desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou a sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões, entregar-se à felicidade da vida, sem culpa, se não fosse a sociedade. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.

Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Mas todos estão mortos: monarcas, nobres,inclusive Deus. Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.

Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.

E os filósofos da existência, como veem a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. 

E o pior dos enigmas da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata



sexta-feira, 24 de novembro de 2017

FORUM DE DAVOS - AS MULHERES SE APODERAM..Selvino Antonio Malfatt



              Da esquerda para direita - Do 2º para 1º Plano

Fabiola Gianotti, Chetna Sinha, Christine Lagarde, Erna Solberg, Ginni Robetty, Sharon Burrow e Isabelle Kocher.



O Próximo encontro da Davos será de 23 a 26 de janeiro de 2018. Desta vez haverá uma novidade: a participação de sete mulheres como co-presidentes. Em que pese a previsão do World Economic Forum de que são ainda necessários 217 anos para haver igualdade de salários entre homens e mulheres, ocorreu uma abertura para a participação das mulheres. São elas:

1.    CRISTINA LAGARDE – a número Um do Fundo Monetário Internacional.
2.    FABIOLA GIANOTTI – Diretora Geral da Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire .(A Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear).
3.    GINNI ROMETTY – a primeira mulher na direção da IBM
4.    ERNA SOLBERG – primeira ministra norueguesa
5.    SHARAN BURROW – secretária geral da Confederação das Trabalhadoras
6.    CHETNA SINHA – fundação Indiana Mann Deshi.
7.    ISABELLE KOCHER – administradora delegada do grupo francês Engie.

A Fundação nasceu em 1971 por iniciativa do economista Klaus Schwab, tendo como objetivo melhorar o mundo, através da interação entre líderes políticos e homens de negócios, intelectuais e protagonistas do setor público e privado. Homens e mulheres e, desta vez, com sua presença física, para o bem estar global com todos os envolvidos.
A decisão de incluir mulheres no Forum deu-se, talvez, pelas acusações de excesso de masculinismo, na seleção dos participantes. As intervenções femininas clamavam pela igualdade de gênero como foi o caso da atriz Emma Watson quando embaixatriz da ONU.
A organização do Fórum, resumidamente, é a seguinte:
 O Forum de Davos tem sede em Coligny, em Genebra. Se autocaracteriza como uma organização imparcial, sem fins lucrativos, não ligados a interesses políticos, partidários ou nacionais. A autoridade suprema é o Conselho da Fundação, órgão de 22 membros. Tem como missão a melhoria do estado do mundo.
Geralmente nas reuniões conta com 2.500 participantes de 91 países. São eles líderes de negócios, principais companhias do mundo e que atuam em setores econômicos, públicos ou privados, como chefes de estado, ministros, dirigentes, executivos, embaixadores. Há representantes da mídia, organizações não governamentais, lideres religiosos, acadêmicos e líderes sindicais.

As sete presidentes terão a função de elaborar o programa e coordenar os debates e os grupos de trabalho. O tema para este encontro será “Criar um futuro compartilhado num mundo de fraturado”. O objetivo é chegar às raízes das fraturas sociais e encontrar soluções concretas com os 2.500 dirigentes da indústria e de governos.

Cada uma das líderes estará incumbida de uma tarefa específica. O da Diretora geral,por exemplo, Fabiola Gioanotti será atribuída a pesquisa científica. Do mesmo modo, as temais terão também uma função singular.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Martin Buber e o nacionalismo. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei






Martin Buber distingue um falso do autêntico nacionalismo, o segundo dedicado a curar as dores identificadas na consciência nacional dos povos. Ele também contrapôs o nacionalismo forjado no Sacro Império e reorganizado pelo idealismo alemão, que foi assumido pelas nações ocidentais, do nacionalismo judaico.
O estabelecimento do esteio religioso, parece-lhe o elemento definidor da nacionalidade judaica, e pensando assim respondeu aos filósofos do ocidente e a parte elite judia. Refiro-me à burguesia judaica, rica e poderosa, que estava, no início do século passado, bem integrada na comunidade germânica. Buber pretendia a reconstrução do Estado judeu, como propusera Theodor Herzl, mas para viver o ideal histórico do judaísmo, que é anunciar aos outros povos o Reino de paz na terra, na trilha do judaísmo espiritual preconizado por Hermann Cohen.
Se Buber discorda de Herzl por não considerar possível um projeto político que se afastasse do judaísmo espiritual, distancia-se também de Cohen porque o judaísmo espiritual não é uma proposta íntima como a moral kantiana segundo avaliava Cohen, mas uma ação coletiva comprometida com a construção do Reino de Deus. Dessa forma, o nacionalismo judeu embora esteja na base dos nacionalismos cristãos do ocidente, distingue-se dele pelo vínculo diverso entre a fé e a nacionalidade.
A análise de Buber, diferenciou a espiritualidade cristã da judaica, mostrando que a segunda não se resume a uma experiência íntima, mas é nacional. Sua análise, embora profunda e complexa, não considerou um aspecto da tradição cristã. No universo cristão, tome-se, por exemplo Portugal, Delfim Santos aborda a relação entre espiritualidade e nacionalidade, destacando a importância da vocação de cada homem. O filósofo português pensa a sociedade de seu tempo, suas dificuldades e os desafios. Delfim Santos parte daquela concepção vinda do idealismo alemão. Porém, para ele, nação era espaço coletivo e democrático, com um tipo de democracia que não prescinde da atuação qualificada de seus cidadãos. Para Santos a formação moral era que qualificava a participação dos cidadãos no grupo, e não apenas lhes oferecia a chance de viver cada qual conforme seu próprio projeto de vida.
Essa vida qualificada significava vencer as dificuldades de cada tempo, numa concepção de história entendida como enfrentamento de crises. Esse esquema se tornou comum entre os filósofos da existência e outros próximos que trabalhavam de parecida como o filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Crise para eles era mais que o pensado por Husserl, isto é, uma crise de consciência que se deu conta das insuficiências do modo de pensar moderno. Para esses filósofos trata-se de uma crise de cultura, onde as nações perderam a confiança e segurança no futuro, o homem afastou-se de si e empobreceu a participação coletiva.
A crise da democracia e sua requalificação era para esses pensadores uma forma de rever a participação dos cidadãos na construção do futuro dos povos, uma maneira de vencer a democracia das massas, um desafio que permanece atual. Em O homem e a filosofia, pequenas meditações sobre a existência e a cultura entra-se nessa questão ao dizer que um projeto cultural somente se faz a partir da singularidade existencial, um compromisso não se vive sem o outro. Esse entendimento destaca um aspecto não considerado por Buber, a vocação e singularidade existencial é inseparável do compromisso com a construção de uma comunidade ética.



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A UTILIDADE DO INÚTIL. Selvino Antonio Malfatti


O professor de literatura Nuccio Ordine, da universidade da Calábria, concluiu um tour pela América Latina, inclusive no Brasil. Os temas recorrentes que aborda são: instrução, cultura, pesquisa científica e utilitarismo. Insurge-se contra a desgraça generalizada mundialmente de tudo submeter ao critério da utilidade. Contrapõe-se apresentando seu livro: A Utilidade do Inútil.
Nuccio Ordine tem fama internacional pelas pesquisas sobre o Renascimento e sua tese de doutoramento que versa sobre Giordano Bruno. É conhecido pelo paradoxo por ele descoberto, a utilidade do inútil. Com este título seu livro foi vendido aos milhares em todo mundo. Sua revolta baseia-se na decadência da sociedade atual para a qual cada coisa tem seu preço e por isso o predomínio da quantidade sobre a qualidade. Conforme ele, a cultura, refratária ao preço,  não escapou de ser enquadrada num valor material.
Quando se ingressa numa faculdade os primeiro termos que se aprende são crédito/débito, palavras da área econômica, estranhas ao mundo da academia. Na Europa a situação é calamitosa. As instituições escolásticas estão perdendo sua função primordial, qual seja, a educativa. O desastre foi causado por considerar que a universidade deve ser administrada como uma empresa. Empresa e universidade são contraditórias, pois cada uma delas têm objetivos diversos. A empresa visa o lucro, a universidade tem em vista a cultura. A primeira quer ter vantagem sobre o outro, a universidade, ao contrário, é um compartilhamento de conhecimentos que enriquecem a todos.
O processo de deterioração tem início com a Declaração de Bolonha na Itália, em 1999, no qual, 29 responsáveis pelo ensino de seus países, firmaram a Declaração. A partir daí, em cima desta Declaração, cada país fez suas próprias leis imprimindo na educação um caráter eminentemente empresarial.
Se perguntarmos aos calouros por que vieram estudar na universidade? A maioria deles responderá que é para obter um diploma, arrumar emprego e poder sustentar sua própria vida. Como se pode verificar o fundo é sempre econômico: obter um diploma (comprá-lo), conseguir emprego (leia-se ganhar dinheiro) sustentar, (entenda-se pagar). A culpa não é dos estudantes mas da tendência da sociedade que coloca valor econômico em tudo. Parece que a humanidade sente atualmente um único faro: o dinheiro.
Quanto à questão da pesquisa científica parece que segue o mesmo caminho: o lucro. O que não dá retorno econômico mundial imediato é descartado. O pior desses reflexos está na saúde: se uma pesquisa, embora seja proveitosa para a humanidade, mas não der retorno econômico, é abandonada. O perverso é o inverso, uma pesquisa, embora seja prejudicial à saúde, mas dá retorno econômico tem os maiores incentivos. Hoje em dia os estados estão dispostos a investir, em conjunto com as multinacionais, somente as pesquisas que dão resultado imediato e preveem retornos imediatos de novos produtos no mercado.
Parece que até mesmo os Estados Unidos, um país tradicionalmente utilitarista e pragmático se deu conta. O criador da universidade Minerva, Ben Nelson, diz que educar é adquirir a capacidade de transferir ou aplicar conhecimentos e habilidades em áreas múltiplas. Isso só é possível se o aluno receber estes conhecimentos e habilidades.
Muito se fala em ensino ou educação crítica. Mas a maioria confunde educação crítica com educação para criticar. Esta última consiste em munir-se de uma ferramenta mental e a partir daí, criticar tudo o que não for seu modo de pensar. A educação crítica, ao invés, tem por base o sentido etimológico de “critico”, que significa discernir. Por exemplo, mostrar ao aluno que se ele partir desta afirmação chegará a tal conclusão. Mas se adotar outra posição chegará a outra conclusão. Portanto, em vez de passar o tempo todo se lamentando e criticando tudo, se deveria assumir uma postura construtiva. Está errado? Vamos corrigir e seguir adiante.
Esta é a educação integral. Abrange todas as dimensões do ser humano. Lembro-me de um professor de astronomia, Sinfrônio, da Holanda, de meu tempo de colegial, que, nas horas vagas nos convidava a ouvirmos música clássica. Ele nos explicava o sentido das melodias, dos ritmos, das escalas, dos maiores, menores, dos tons etc. Era professor de astronomia!
Muitos dizem que não há verba para isso por causa da crise. Conforme Nuccio Ordine, a questão da crise é uma balela. A verdadeira crise está na corrupção. Se os investimentos na educação, saúde e outros setores fossem iguais à corrupção cada país seria uma potência.

O utilitarismo e o egoísmo, pelo que se constata, contaminaram todas as relações humanas. Há como sair? A resposta vem de um cientista, Albert Einstein: somente uma vida vivida para os outros é uma vida que faz sentido vivê-la. É este o sentido da utilidade do inútil.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Jose Maurício de Carvalho.






Jaspers e a consciência história
O século XX precisou revisar a noção de História construída no século XIX pelo idealismo de Hegel, pelo marxismo e pelo positivismo de Augusto Comte. Isso foi importante para superar as bases de um mundo em conflito encoberto entre as teses liberais e as do marxismo stalinista, que entrou para a história como guerra fria. Os resquícios desse tempo ainda se podem ver na organização política da China e na existência das duas Coreias, estando a do norte nos noticiários pelas ameaças aos Estados Unidos. Vive a Coréia do Norte como se aqueles dias ainda não tivessem ficado para traz depois da queda do muro de Berlim e das mudanças políticas da antiga União Soviética.
Para entrar superar os impasses do historicismo do século XIX, (progresso necessário, superação do capitalismo pelo socialismo, sociedade justa sem a contribuição ética dos indivíduos) que importa deixar para traz, podemos nos valer das reflexões de Karl Jaspers sobre a História. Entendida como totalidade, isto é, como história completa com todos os seus movimentos da origem a nossos dias (como fizeram o positivismo e o marxismo), o assunto não se resolve empiricamente, entenda-se cientificamente, mas é um problema filosófico.
Para resolver o problema sem cair nos equívocos do idealismo e positivismo Jaspers insere na discussão sua ideia de englobante, pois a totalidade histórica precisa considerar a ideia de Unidade que não é histórica, mas filosófica. É assunto difícil, mas importante. O filósofo ensina que para pensar a totalidade da História é necessário ir além dos tempos históricos até a origem do homem. Nesse trabalho de remontar à origem o filósofo não prescinde das descobertas do historiador ou de outras ciências. Usa esses estudos, mas como visa a totalidade, precisa de mais do que o historiador ou cientista em geral pode lhe oferecer com a metodologia que utiliza.
Jaspers ensina que é importante considerar a totalidade dos fatos históricos quando se espera avaliar o passado e o sentido do tempo. Entretanto, proceder tal avaliação está longe de interpretar o passado com a consciência presente. Mesmo com muitas limitações, o homem não pode prescindir de entender a totalidade da História porque o que ele pensa sobre isso afeta a maneira como as coisas existem para ele e afeta tudo o mais como se viu no século passado.
Apesar de notar os primórdios da globalização do ocidente, Jaspers não percebeu, naqueles dias, a mundialização dos processos produtivos. Ele observa que no mundo que se formava fortaleciam-se unidades especiais, diríamos de Estado ou regiões um pouco maiores, onde a experiência histórica do tempo tinha configuração singular. Ele não fala de blocos econômicos, que não existiam até meados do século passado, nem da tensão que se estabelece na tentativa de defender certo modo de vida nessas unidades especiais. Parece possível retomar suas lições sobre a História para entender a ascensão contemporânea dos movimentos de direita radical, que ganharam força em diversas nações do mundo. Esses grupos, apesar de agendas locais, querem preservar o isolamento de suas fronteiras, numa visão estreita de nacionalismo, num mundo onde a universalização aponta outra agenda. As observações do filósofo sobre unidades especiais no interior da humanidade traduzem a tensão entre o que pode ser universalizado e o que tende a permanecer singularizado e assim entender a inadequação dessa proposta como forma de garantir isolamento dessas comunidades.
A consciência histórica iluminada por referências atuais, muitas delas construídas pelo próprio filósofo, é importante para superar os impasses dos historicismos do século XIX e a emergência da direita radical em diversos países em nossos dias. Com suas análises adicionalmente ele explica a importância da filosofia para um tempo em que ela é pouco considerada como elemento de orientação e referência.
José Mauricio de Carvalho

Academia de Letras de São João del-Rei

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O Individualismo liberal e o niilismo existencialista. Selvino Antonio Malfatti.





Na concepção liberal, o individualismo é no sentido de libertar cada ser humano das cadeias que o prendiam dentro do sistema feudal em suas várias dimensões: política, econômica, religiosa, moral e jurídica. Foi de propiciar às pessoas a possibilidade de fazer suas escolhas de como viver em sociedade. Em nenhum momento negou-se a vida social, ao contrário sempre se a pressupôs. A meta era como sair do estado de natureza (sem nexos sociais) para viver em sociedade. O individualismo liberal quer uma convivência social pautada pela racionalidade.
Por sua vez, uma parcela do existencialismo - o ateu, como em Jean-Paul Sartre - nega qualquer liame social pulverizando os indivíduos. Para esses, o lema é “proibido proibir”. . Então, cada um pode seguir seus próprios impulsos e instintos. Deste pensamento emergiu uma desconfiança generalizada sem esperança de salvação. Os valores são abolidos, aliás, o único valor é apropria vontade. Neste afã, os indivíduos lançam-se ao consumismo e na busca de compensação nos bens materiais. Como consequência nasce uma sociedade psicopática, “impolítica”, que se alimenta da raiva social. Termos, então, um ambiente que cada um individualizou para si o conflito e ao mesmo tempo tornou-se incapaz e administrar os problemas. Tudo o que se opuser à satisfação individual deve ser destruído. Esta proposta de um existencialismo nihilista produz o “abestamento” social, o único guia comportamental é o instinto.
Em hordas ou individualmente estes grupos destroem tudo o que encontram pela frente: praças e calçadas, ornamentações. Jardins e árvores são arrancados ou pisoteados.  Picham prédios e residências, sujam calçadas, inclusive fazem necessidades em locais públicos. Todo cidadão evita-os.
Onde estão o uso de álcool e drogas é generalizado.
Famílias não podem mais usufruir de lugares públicos como praças, pois estão tomadas de pessoas nuas, outras fazendo sexo explicitamente e publicamente. Associam todo tipo de droga com prostituição, tanto homo como heterossexual.
Armas de fogo ou armas brancas são vistas ostensivamente , com fogos de artifício e explosivos
Veículos com capôs abertos e som ligado às alturas. Nas redondezas ninguém consegue ter sossego e muito menos descansar. Carros em alta velocidade colocando em risco pessoas e outros veículos. Quem se atrever chamar atenção é agredido brutalmente.
Todos são obrigados a desviar ou se afastar destes grupos ou indivíduos. É o que está acontecendo com boa parcela de nossa sociedade. Para eles o importante é viver o agora, sem se importar com os demais. Valores são abolidos como ponderação, respeito, bom senso. Ninguém pode atravessar seu caminho. Ninguém pode negar nada. O objetivo deles é usufruir ao máximo de si, dos demais e do ambiente.
Há esperança de sair deste estado hobbesiano?  Pode-se pensar num abandono pacífico destes princípios, ou através de um rígido stalinismo, ou, quem sabe, os acenos neonacionalistas? Qual a alternativa capaz de romper o círculo vicioso?
Se analisarmos a fundo a questão o problema reside não só na ignorância como no “abestamento” social. Alguém pode ser ignorante, mas não agir como irracional, guiado pelos instintos. Abestamento social é quando uma determinada sociedade abandona a racionalidade e se deixa guiar pelos instintos. Neste sentido por mais ingênuo que pareça, a única saída ainda é a tradicional, isto é, instituir a racionalidade pela educação e ensino na produção de bens, serviços, cultura, informações, como afirma o sociólogo Mauro Magatti, no livro Mudança de Paradigma.
 
. É preciso contrapor a racionalidade ao abestamento. Se alguém disser que determinado produto é artístico, submeta-se ao critério racional e não ao emotivo. Por que o nu do Davi de Miguel Ângelo é uma obra de arte? E outros nus não são? Por que, aplicando-se a análise racional, se chega a esta conclusão. O objetivo de Miguel Ângelo não é o erotismo, mas a beleza da criatura humana, como obra prima divina.

Evidentemente que isto não acontece do da noite para o dia. Leva tempo. Talvez a geração que inicia não veja os frutos. Mas é preciso algum dia iniciar.