sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A IMPORTÂNCIA DA FILOSOFIA NA ATUALIDADE. Selvino Antonio Malfatti


















Em 2002 foi instituído pela UNESCO o Dia Mundial da Filosofia, na terceira quinta-feira do mês de novembro. O objetivo de celebrar tal data foi de demonstrar a importância da Filosofia para a vida humana e convivência social.

O físico inglês Hawking afirmou recentemente que a Filosofia estava morta. Claro, o mesmo se poderia dizer da física. Como assim? Depende de que filosofia e de que física. A filosofia cosmológica está morta e o mesmo se pode dizer da física com base na cosmologia. O que se quer dizer que cada área de conhecimento tem um objeto específico. A física teria por objeto as leis básicas do universo e a filosofia os princípios da convivência humana. Ou, como afirma chefe da agência da ONU, Irina Bokova, “em um mundo de múltiplas rupturas, a filosofia desempenha um papel essencial no pensamento e na ação pela dignidade humana e harmonia”. Para tanto se alça à casuística do “hic e nunc” para encontrar o que é específico no homem, isto é, sua dignidade. E isto o faz pela filosofia. 

Evidentemente que existem várias teorias filosóficas, mesmo aqueles que a negam, mas a supõem. O que não se pode fazer é julgar um objeto específico do conhecimento pelo outro também específico. É o caso do físico Hawking que ao raciocinar sobre a morte da filosofia baseou-se na física. 
Enquanto a maioria dos países europeus tem convicção sobre a importância do estudo da filosofia, no Brasil, provavelmente devido à origem portuguesa, não há a mesma crença. O pensamento filosófico português somente adquiriu independência do católico no final do século XIX e ainda assim optou pelo tecnicismo, o qual foi transferido para o Brasil. A partir daí o pêndulo balançou entre o tecnicismo e humanismo, mas o currículo oficial sempre deu preferência ao tecnicismo. Quem manteve a chama acesa do humanismo foi o ensino privado.

Atualmente a Reforma do Ensino do Brasil prevê a desobrigação do ensino da Filosofia nos currículos. Isto evidentemente é um retrocesso, uma volta ao pensamento tecnicista dos governos militares. É o alijamento, mais uma vez, do conteúdo humanista. Retrocederemos à Reforma do Marquês de Pombal quando o Brasil ainda era colônia de Portugal. O preconceito contra a filosofia acompanhou todas as reformas do ensino no Brasil. 

A mais próxima da independência, a Reforma de Pombal consagrou o tecnicismo. A da República, embasada no positivismo como o suprassumo do preconceito contra a filosofia, deixou de compor o currículo. Já na década de Trinta passou a fazer parte do currículo do ciclo complementar. Na Reforma Capanema, nos anos quarenta, com a divisão em ensino científico e colegial a filosofia aparece neste último. A reforma do período militar colocou a filosofia na mira, novamente, do tecnicismo e consequentemente a filosofia foi paulatinamente se extinguindo do currículo.  LDB de 1996 contemplava a filosofia no currículo mas a presente reforma em curso, novamente a disciplina recebe um tratamento secundário, senão excludente.

Para ver como a filosofia é importante apresentamos um elenco de filósofos da atualidade de diferentes países, inclusive ingleses e americanos países, de pensamento de cunho essencialmente pragmático. 

Isto nos leva a refletir como Aristóteles em Protético:

“Se se deve filosofar, deve-se filosofar, e se não se deve filosofar, deve-se igualmente filosofar para argumentar que não se deve filosofar”.

Alguns filósofos da atualidade:

G. E. M. Anscombe , A. J. Ayer , Ruth Barcan Marcus , Isaiah Berlin, Simon Blackburn , Ned Block , Rudolf Carnap , Avram Noam Chomsky , Donald Davidson , Sigmund Freud. , Edmund Husserl, . Henri Bergson, Heidegger, Adorno, Foucault , Habermas entre outros.

Do Brasil: Antonio Paim e de Portugal Antonio Braz Teixeira, ainda vivos.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

AS SEPARAÇÕES DO DIVÓRCIO. SelvinoAntonio Malfatti



Quando se perde um ente querido da família costuma-se preservar o que deixou. Seu guarda-roupa, objetos pessoais, local de trabalho. Foi o que aconteceu com a filha Serena de Giulio Andreotti, falecido em 2013. Passados quatro anos animou-se a examinar o acervo de cartas enviadas e recebidas. Qual seu espanto quando descobriu entre as cartas um romance inédito do pai. Imediatamente, ao saberem, as editoras se interessaram e o romance será publicado em dezembro deste ano pela Nave de Teseo. 

A importância do romance, intitulado, “Il Buono Cattivo” (O Bom Mau), reside na peculiaridade de ser ambientado no fragor da batalha do referendum sobre o divórcio na Itália, em 1974. De um lado o Vaticano contra e de outro um Parlamento e sociedade divididos a favor ou contra.  Este fato histórico significava para a Itália ou continuar um estado quase confessional, e intimamente ligado aos desejos do Vaticano e de outro tornar-se um estado totalmente laico.
O romance assume importância, pois foi escrito, na época, por alguém que foi um dos maiores líderes do partido da Democracia Cristã, exerceu por sete vezes o cargo de Presidente do Conselho (primeiro ministro), senador vitalício. Não escapou as acusações de Mani Pulite por associação com a máfia, no entanto, a justiça não conseguiu condená-lo.

Na época, Andreotti, em que pese ser do partido majoritário, o da Democracia Cristã e recém deixado o governo, não se envolveu “cum ira et studio” na batalha do referendum sobre o divórcio que dividiu a Itália pelo SIM ou pelo NÃO. Preferiu uma atitude sutil, moderada. Provavelmente, como político astuto, já sabia o desfecho, ou previa. Farejava os sinais dos tempos, em que pese fosse católico devoto e frequentador do Vaticano, via que a sociedade não pensava assim. Já não era mais nos tempos de Alcide di Gasperi, o líder político-católico, fundador da Democracia Cristã, perípdo no qual se dizia: Di Gasperi, na Missa, fala com Deus e Deus fala com o padre. Por isso retirou-se estrategicamente e participou a seu modo do confronto. Sem o fervor do líder do partido do Escudo Cruzado, Gabrio Lombardi ,e muito menos deu ouvidos às profecias milenaristas de Amintore Fanfani e outros líderes semelhantes da Democracia Cristã de braços dados com o com alguns outros partidos. Encarou o pleito com frieza, ou por desencanto ou por prever o resultado. Podia-se dizer que estava com os pés no chão, sem ilusões.

No entanto, em que pese sua suposta indiferença e e passividade, o fracasso não estava nos seus planos. A prova está no texto encontrado, escrito no galope do desenrolar do processo eleitoral, abordando questões ético-políticas, nas quais a Itália se engalfinhou ferozmente.

O enredo envolve uma pensãozinha no lago Como. Os personagens: a patroa, a senhora Falconi e os hóspedes. O mais importante, o advogado Pedro Paulo Santulo e o próprio narrador. Além de temas de tribunais eclesiásticos aqui entram outros temas, tornando a narrativa cativante. A filha de Andreotti, ao ler o romance testemunha que se pode “escutar” o pai, claro nas idéias, ora benevolente, ora irônico, consigo mesmo e com os demais.
Na verdade Andreotti não estava de acordo com a consulta popular. Achava que o assunto era ainda prematuro e que melhor seria procrastiná-lo para melhor amadurecê-lo.

A Itália caminhava a passos rápidos rumo à laicização. Um dos parâmetros que podia medir externamente a religiosidade era a participação à missa dominical. Já se podia perceber o rápido declínio neste culto religioso. Quanto ao uso de contraceptivos, o clero posicionou-se contrário. No entanto, a taxa de natalidade diminuía a olhos vistos. Não menos dogmática era a postura em relação ao aborto. Entretanto, os abortos clandestinos aumentavam dia à dia, igualando-se aos nati-vivos. Mas a de maior repercussão, mormente para a Democracia Cristã,  foi a questão do divórcio. 

Em dezembro de 1970, num debate que durou aproximadamente cem horas, foi aprovada a lei da instituição do divórcio. Isso aconteceu graças à união dos deputados  católicos aos deputados dos partidos laicos, desafiando, inclusive, a orientação do Vaticano. Amintore Fanfani, acreditando numa maioria do eleitorado católico, e, que fosse fiel às orientações do partido e da Igreja, propõe a abrogação da lei através de uma consulta popular. A Igreja, porém, parece que percebia melhor a tendência da sociedade despercebida pelo próprio líder Fanfani da Democracia Cristã. Até mesmo no interior do partido havia oposição ao referendum como foi o caso de Flaminio Piccoli. Diante da insistência da Fanfani pelo referendum, a direção do partido, em reunião de 9 de fevereiro de 1974 estabeleceu a posição do partido perante o referendum. Deveria votar pela abrogação da lei embora optasse por manter os temas religiosos fora da campanha eleitoral. Os argumentos contra o divórcio não deveriam ser de caráter religiosos mas de ordem social e civil. Além disso, se deveria manter a porta aberta ao diálogo com os católicos contrários à abrogação, ou os católicos do não. Decidiu-se, também, manter o atual governo bem como a aliança que o sustentava fora da contraposição. Para obter os votos necessários ao SI o governo e seus aliados, fizeram de tudo. O líder do do Partido Socialista italiano, Bettino Graxi, ao ser entrevistado em quem deveria votar dizia laconicamente: vão à praia. A abstenção favoreceria o Si. Mas nada adiantou.
O resultado não podia ter sido mais desastroso para a Democracia Cristã e seus aliados.. Os divorcistas, isto é, os partidários do “No”, pois não queriam a abrogação da lei do divórcio, conseguiram 59,1%, sobre uma população de 88% que compareceu à votação.
As conseqüências se fizeram sentir de imediato:

1.  Divórcio entre a Democracia Cristã e Vaticano. Na prática, romperam relações.
2.  O partido da Democracia cristã fracionou-se internamente.
3.  A Democracia Cristã perde a maioria.
4.  Vários filiados e políticos a abandonaram.. 
5. Perdeu-se a credibilidade nos valores do partido Democracia Cristã.
     6. Os políticos começaram a envolver-se em corrupção.

A partir de então, inicia-se o processo de diáspora dos simpatizantes, uma longa agonia, dissolução e morte da Democracia Cristã.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Consequências da Revolução Gnosiológica de Kant. Selvino Antonio Malfatti




O pensamento ocidental seguia sem significativas rupturas até o século XVIII, uma trajetória que, iniciada com Aristóteles na antiguidade e seguida por Santo Tomás na Idade Média. Quando se ingressa no período moderno-contemporâneo começam as turbulências com Descartes e culmina com Kant cujas raízes podem ser encontradas em Platão. O pomo da discórdia foi a concepção gnosiológica, mais precisamente a questão da metafísica. O que conhecemos e como conhecemos o mundo externo, inclusive nós, pois podemos ser objeto de conhecimento de nós mesmos.
Certa vez um biólogo me disse: eu jamais quereria estudar ciências humanas. Por quê? - perguntei. Por que nunca há nada definitivo. Qualquer conteúdo sempre deve ser retomado desde o início. Os problemas sempre voltam à tona. Nas ciências, há marcos de não retorno. É definitivo. Não há necessidade de se estudar a história da física, da biologia e mesmo da matemática. Na filosofia, porém, não há momentos de antes e depois. Sempre é agora, sempre a questão é retomada embora tenha sido estudada anteriormente. Claro que o conhecimento filosófico tem marcos também, mormente os valores, mas diferentemente da ciência, são sempre questionáveis.
Vejamos o caso da dignidade da pessoa humana, valor este surgido no período medieval. Este valor, no período, se restringia à concepção de supremacia absoluta da pessoa. Era um valor sem permutas. Atualmente este valor pessoa humana se estendeu ao direito – como proteção - na economia – atribuindo um valor mínimo digno pelo trabalho – na administração – não invadindo a esfera individual ou privada. O contínuo questionamento possibilita o avanço e o resultado é seu aperfeiçoamento global. O conhecimento filosófico é circular, pois todas  as dimensões progridem.
Já na ciência o avanço é linear. A ciência possui uma trajetória traçada por uma linha reta que inicia num determinado ponto e dirige-se ao ponto seguinte e este ao próximo.
Retomando, em filosofia uma das questões mais debatidas é a relação sujeito-objeto. Foi o que precisamente fez Kant: contudo,invertendo a postura gnosiológica.. Até então o objeto imperava soberano sobre o sujeito. Este estava subordinado ao objeto. O princípio: nihil est intellecto quod prius non fuerit in sensu, de Aristóteles (Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos). Kant realizou a revolução copernicana. Em vez de os objetos penetrarem na mente, são regulados pela mente. A mente lhes dá forma e matéria. Por isso, se quisermos conhecer os objetos devemos primeiramente conhecer a mente. É o que estabelece na Crítica da Razão Pura que estuda as categorias, ou as propriedades de nosso conhecimento que reflete a realidade. Daí que o princípio se inverte: nihil este in sensu quod prius non fuerit in intelellecto (nada há no mundo real que antes não tenha passado pelo intelecto).
As consequências de tais posturas são revolucionárias. Tomemos, por exemplo, a questão do conhecimento de Deus, liberdade, imortalidade. Pela metafísica anterior a Kant havia possibilidade de provar a existência de Deus. Vejam as Cinco Vias de Santo Tomás. Com Kant, para chegar a tais realidades, a mente deveria ter as categorias plantadas nela, tais como infinito, eterno, todo-poderoso, imortal. Como a mente é destituída de tais categorias não pode ter acesso a estes conhecimentos. Nossa mente está aparelhada somente para conhecer o mundo sensível.
O pensamento de Kant é retomado em Hegel e este é pensado por Marx. Até aqui o conhecimento da realidade provinha da observação da experiência. Mas desde que se conhece a realidade pelo que está na mente então podermos conhecer a realidade social e política nas categorias mentais. Basta estudar o pensamento que se conhece o mundo social e político. A consequência é a inversão, O conhecimento ao se deparar com a experiência constata que é imperfeita, multifacetada, tem avanços e recuos.Ao se dispensar a experiência, tem-se tão somente o que se crê que sejam categorias mentais. Estas apresentam uma visão de mundo perfeito, uno, que conhece somente o rumo da perfeição. Tudo se encaixa, flui perfeitamente.O conhecimento é um mundo igualitário no qual as diferenças são abolidas na aplicação prática. Uma organização política do topo para as bases na qual são excluídas as divergências. O direito oriundo do pensamento estatal através de seu representante. Partido único.  Imprensa unívoca.  A educação coordenada pelos ditames de ordens de dirigentes. Enfim, um projeto emanado do que se acredita que sejam as categorias da mente e, como resultado, uma visão que abrange a totalidade.
Felizmente o próprio Kant se deu conta e escreve outro livro dando a dica: Crítica da razão PRÁTICA. Aí tudo se recupera novamente: Deus, imortalidade da alma, ética e moral, liberdade, enfim o que vinha sendo praticado até seu aparecimento. No entanto, seu pensamento criou vida própria e as consequências todos conhecemos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Partidos que não representam interesses legítimos e emergência de interesses inadequados.José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei




Um dos maiores desastres da vida política nacional é o grande número de partidos políticos que nada representam, além de tornarem excessivamente cara a disputa eleitoral e favorecerem a corrupção. O espaço político precisa ser aproveitado para debater grandes temas nacionais como: a defesa da Amazônia, a responsabilidade dos cidadãos, o exercício da liberdade, a preservação ambiental, a preservação cultural, o progresso material e espiritual do país, a defesa das fronteiras e o combate a violência. No entanto, a multiplicidade de partidos não ajuda nesse debate porque dificulta entender a posição de cada partido sobre esses grandes temas. Além do mais, sendo boa parte dessa multidão de agremiações legendas de aluguel, elas vendem o apoio parlamentar aos governos de modo que facilitam a corrupção.
Logo, uma reforma política capaz de baratear o custo dos políticos e valorizar o debate nacional dos grandes temas passa pela redução drástica dos quase 40 partidos existentes. Assim, ao invés de programas para defender o obvio como, por exemplo: a valorização da educação, da saúde, da soberania nacional, o respeito social da mulher, etc. esses partidos, se fossem poucos e ideologicamente comprometidos, estariam se posicionando sobre os grandes temas nacionais e interesses legítimos da sociedade: como tratar o problema das aposentadorias? Como financiar a educação e a saúde? O que cada um tem a dizer sobre o investimento nas forças militares? Como enfrentar as dificuldades de infra-estrutura do país? Como proteger as fronteiras e como combater a violência? Sempre explicando como fazer e de onde pretende o partido obter os recursos necessários para realizar o que pretende.
O atual debate político nada contribui para o amadurecimento da sociedade ou esclarece sobre as posições dos partidos existentes, não aprofunda as questões de interesse público. É um debate que se limita a frases de efeito elaboradas por marqueteiros, descamba para a emoção irracional e a briga pessoal, além de não responder de forma objetiva as perguntas que a população tem. Dessa maneira não se esclarece o que propõe cada político e seu partido e eles fazem o que bem entendem quando vencem as eleições. É evidente que falando o que os marqueiteiros sintetizam das pesquisas de opinião pública, o que se assiste do debate político nacional é, quando muito, a expressão de algumas opiniões, igualmente justificáveis ou apenas o reconhecimento de ideais, sem se explicar como realizar isso que todos consideram necessário: reduzir a desigualdade social ou valorizar a educação, por exemplo.
Com partidos ideologicamente identificados: um defendendo um liberalismo conservador, outro um liberalismo mais social, outro ainda posições sociais-democratas ou socialistas, ou ainda um partido ambientalista ou trabalhista, as pessoas se sentiriam melhor representadas na divisão de interesses legítimos. Ideais como a integração econômica da mulher na sociedade, a construção de uma sociedade menos desigual, maior respeito às pessoas idosas, maior integração das populações negra e indígena não constituem interesses adequados entorno aos quais os brasileiros devam se dividir. Assim, um quadro partidário, que nada representa e se alimenta da propina e corrupção, dá origem a que grupos com interesses contrários aos interesses nacionais, mas com aspiração legítima, surjam e estabeleçam espaços de conflito sobre questões que a rigor são de todos e não de alguns, como: a questão da Mulher, do Negro e do Favelado.
Essa última consequência, caso prospere a ideia de proclamar interesses inadequados como programas partidários, promoverá um desastre nacional com consequências imprevisíveis. Um partido para defender o interesse dos negros dará origem a um outro para defender os direitos da população branca e europeia, com agravamento dos conflitos sociais como vemos em outras nações.


sábado, 26 de agosto de 2017

PARÂMETROS DOUTRINÁRIOS DA NOVA DIREITA, SEGUNDO LUCAS BERLANZA. Ricardo Vélez Rodríguez


Que o chamado "pensamento da direita" está em ascensão não há dúvida. Esclareçamos: por "pensamento da direita" entenda-se, primordialmente, aquele que se afina com as ideias políticas liberal-conservadoras, que se centram nos seguintes pontos: 1 - defesa incondicional da liberdade individual nos terrenos cultural, político e econômico; 2 - respeito às tradições vigentes, levando em consideração que só podem vingar aquelas mudanças sociais que as preservarem.

A propaganda marxista encarregou-se, no Brasil, de confundir as coisas. Tudo aquilo que não se afinasse com o cientificismo comuna foi jogado pelos militantes-propagandistas da esquerda vociferante no saco sem fundo da "direita". Ora, o "pensamento da direita" tem muitas nuances, sendo a principal delas a correspondente ao velho Liberal-conservadorismo. É ao estudo dessa tendência que o jovem escritor carioca Lucas Berlanza dedica a sua obra, recentemente lançada no Rio de Janeiro com o sugestivo título: Guia bibliográfico da nova direita - 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro (Prefácio de Rodrigo Constantino, São Luís: Resistência Cultural, 2017, 255 pgs.).

Essa jovem direita liberal-conservadora eclodiu ao longo dos últimos 15 anos. O seu ponto de partida foi o desencanto das novas gerações com a vulgata marxista, que como pernicioso tsunami tudo invadiu no universo cultural brasileiro, de mãos dadas com a conivência oficial e a pregação dos velhos chavões marxistas-leninistas pela geração de mestres que se dedicou a essa inglória tarefa. Da radicalização simplificadora não escapou nem a Igreja Católica, a partir do momento em que os quadros dirigentes da CNBB foram tomados de assalto por militantes treinados na doutrinação marxista, que tudo centraram ao redor do messianismo político pregado pela Teologia da Libertação, como denunciou com coragem o padre português José Narino de Campos, na sua obrinha intitulada: Brasil, uma Igreja diferente (São Paulo: T. A. Queiroz, 1981).

As desgraças da radicalização e da intoxicação ideológicas não ocorrem ao acaso: elas são preparadas por trabalho continuado de simplificação conceitual e propaganda. De há muito o universo cultural brasileiro foi tomado de assalto pelos radicais marxistas. Já desde início dos anos 80 do século passado, o embaixador Meira Penna chamava a atenção para a silenciosa ocupação das Secretarias estaduais e municipais de Educação pela turma do PT, que se encarregou de radicalizar a formação de professores e alunos no ensino de primeiro e segundo graus, bem como nas Faculdades de Educação, à sombra da doutrina de Paulo Freire. Tudo foi potencializado, como de resto os vícios da corrupção e do compadrio, pelo PT no poder. Mas de tempos atrás a decisão da petralhada para manter vivo o pensamento marxista entre nós, foi projeto acalentado pelas lideranças partidárias.

O ponto alto dessa estratégia de dar vida ao cadáver insepulto do comunismo foi a criação (em 1990), por Lula, do Foro de São Paulo, tendo como colaboradores dessa empreitada os irmãos Castro, cabeças da ditadura cubana. Somaram-se a essa iniciativa os movimentos guerrilheiros atuantes na América Latina, a começar pelas FARC, bem como, anos depois, o coronel Chávez, que se elegeu presidente da Venezuela com a sua descabelada proposta de "Revolução Bolivariana". Fidel Castro achava que a liderança militar do processo de revolução comunista na América Latina deveria ser de Hugo Chávez. De lá para cá só aumentou essa maré vermelha.

Acontece que os jovens da nova geração se cansaram da dieta ideológica de fome. Começaram a questionar a simplória estória que lhes era contada. Nos últimos 15 anos, essa reação só foi aumentando. Hoje conta com estruturados analistas que colocam as coisas no seu lugar, mostrando as grosseiras simplificações armadas pelo marxismo tupiniquim.

São várias as jovens personalidades que se destacam, a meu ver, nessa nova geração. Correndo o risco de deixar por fora nomes de relevo, lembro alguns deles: Alex Catharino, Rodrigo Constantino, Alexandro Souza, Marco Antônio Barroso, Humberto Schubert Coelho, Bernardo Goitacazes de Araújo, Jefferson Silveira Teodoro, Bruno Garschagen, Hélio Beltrão, Lucas Berlanza, César Kyn d´Ávila, José Lorêdo Filho (com o magnífico empreendimento editorial da "Resistência Cultural"), Marcus Boeira, Caio Vioto, Paulo Briguet, Sílvio Grimaldo, Filipe Barros, Caroline de Toni, Bernardo Pires Küster, Débora Gois Torres, etc. Efetivamente, são inúmeros os jovens que, em Faculdades e nos seus lugares de trabalho, bem como a partir de grupos de estudo e thing tanks elaboram uma visão crítica da propaganda marxista-leninista, defendendo corajosamente o sagrado valor da liberdade individual e da tradição da Civilização Ocidental, ancorada no Cristianismo.

Os cursos de História, quem diria, outrora terreno exclusivo dos marxistas, começaram a pensar com categorias diferentes, próximas do liberalismo e do conservadorismo e abertas à pesquisa das origens da nossa realidade social. Essas análises críticas deixam de cabelo em pé os velhos propagandistas do marxismo-leninismo e do gramscismo bem comportado, que o PT colocou como a última moda do bom-mocismo esquerdopata. Os bravos jovens liberais-conservadores optaram também pela luta político-partidária, como é o caso, em Londrina, de Filipe Barros e Bernardo Pires Küster. Os exemplos desses jovens liberais-conservadores engajados na luta político partidária multiplicam-se pelo país afora.

Feita essa introdução, parto para analisar sumariamente o conteúdo da nova obra de Lucas Berlanza. Em 6 capítulos, uma conclusão e um apêndice, o autor desenvolve o seu pensamento acerca da "nova direita" brasileira. Menciono os capítulos que integram a obra: I - Origens e fundamentos das ideias. II - Como entender o Brasil. III - Grandes ícones da política internacional. IV - Um olhar sobre adversários e inimigos. V - Grandes temas e controvérsias. VI - Um olhar sobre os dias atuais. Conclusão: Essa "direita" poderosa e onipresente, um mal absoluto a atrasar o Brasil, não passa de uma lenda. Apêndice: Por uma nova liberdade: o manifesto libertário.

Berlanza deixa clara a sua identificação com a renovação propiciada pelo "pensamento da direita", com as seguintes palavras, no prólogo à obra que comento: "Uma das características mais particulares desse 'novo' tipo de pensamento político, e do movimento que o orbita, é o fato de se fundamentarem em uma bibliografia filosófico-política e econômica toda especial, que não ocupa posição de protagonismo nas indicações didáticas tradicionais. O livre pensar dessa geração a levou a buscar outros ares e pesquisar novas fontes e indicações de leitura, a despeito do 'index' de educadores marxistas de ocasião. Por isso mesmo, entendemos que o vulgo não conheça suas ideias, não entenda do que se trata, e haja o risco de confusões serem semeadas por quem não tem interesse na divergência" (pg. 19).

Lucas Berlanza pretende apresentar na sua obra uma "guia de leitura" do ângulo liberal-conservador. No prólogo, frisa a respeito: "Este livro é nada mais que um esforço para apresentar, através de algumas dicas de leitura cuidadosamente selecionadas, marcos de ideias que tornam possível ao leitor apreender, em um quadro geral, a genealogia e a natureza de alguns princípios e posturas que circulam nesse grupo heterogêneo de liberais e conservadores - e que os definem. Das fontes bibliográficas mais antigas e clássicas até as mais modernas, reuni 39 resenhas de livros que ajudam a esclarecer do que se trata esse fenômeno social que vem inquietando e alimentando esperanças no Brasil. (...). É um livro sobre livros. Não que, em certo sentido, todos os livros não o sejam: mas as resenhas não são apenas artigos elogiando ou criticando determinado título. Todas elas contêm ilações e desdobramentos que delineiam as ideias que justificam sua inclusão e que, compreendidas em seu conjunto, fazem da relação um modesto guia bibliográfico, que não esgota, mas traça um retrato do núcleo de princípios dos grupos de que estamos falando (...)" (pg. 19-20).

Berlança identifica como fontes inspiradoras do conservadorismo liberal da nova geração, as ideias de Burke, Bastiat, Hayek, Von Mises, Margaret Thatcher, Winston Churchill, Roger Scruton, Ronald Reagan, etc. No terreno da cultura brasileira, as fontes do liberal-conservadorismo seriam Roberto Campos, Meira Penna, Carlos Lacerda, José Guilherme Merquior, Ubiratan Borges de Macedo, Ubiratan Jorge Iorio, João Pereira Coutinho (com a sua original contribuição do ângulo luso-brasileiro), Rodrigo Constantino, Ricardo Vélez Rodríguez, etc.

Eu adicionaria os nomes de Antônio Paim, o maior historiador contemporâneo do pensamento liberal-conservador brasileiro, Alberto Oliva, Mário Guerreiro e Roque Spencer Maciel de Barros, pensador original que abriu as propostas liberal-conservadoras ao terreno da educação, alertando para o risco totalitário concretizado na vulgata marxista. No campo do conservadorismo típico, não pode deixar de ser mencionado, a meu ver, o nome do professor Olavo de Carvalho e do seu antecessor, Paulo Mercadante.

Destaca-se na obra que comento a inspiração de Lucas Berlanza nos fundadores do Instituto Liberal e discípulos da Escola Austríaca, Donald Stewart e Og Leme. Para ele, contudo, é o pensador irlandês Edmund Burke, o whig que atraiu os tories para refundar o partido conservador britânico, no início do século XIX, o principal inspirador do liberal-conservadorismo brasileiro.

A partir das desassombradas propostas burkianas surgiu, no sentir de Berlanza, uma doutrina que propende pela mudança, sem perder o sentido das conquistas do passado, permanecendo firme no compromisso com a defesa da liberdade individual, nos terrenos social, cultural e econômico. É o velho liberalismo conservador originado em Locke e alargado pelos Pais Fundadores dos Estados Unidos e que os doutrinários colocaram em circulação na França, ao longo do oitocentos. Só que, para Berlanza e os jovens que redescobriram Burke, as fontes prioritárias passaram a ser os clássicos de origem anglo-saxã e irlandesa.

Considero que os doutrinários franceses tinham elaborado uma meditação nova acerca do liberalismo lockeano, a partir das fontes escocesas, naquela aventura intelectual que Ortega y Gasset identificou como "o que de mais interessante ocorreu na Europa Ocidental ao longo do século XIX" e que desaguou na original proposta liberal-conservadora de Madame de Staël e Constant de Rebecque (os precursores) e que continuou com a meditação dos doutrinários propriamente ditos (Roger-Collard, Guizot) e dos seus discípulos (Tocqueville e Aron).

Ora, penso eu, o liberal-conservadorismo brasileiro, como de resto na Espanha, em Portugal, na Colômbia e alhures na América Latina, formatou-se primordialmente à luz dos doutrinários. Eles falavam uma linguagem mais acessível ao espírito ibérico, do que aquela falada pelos anglo-saxões. A experiência continental europeia na defesa da liberdade foi mais próxima de nós do que a defesa das teses dos liberais britânicos. Isso por conta da nossa tradição jurídica, herdeira do antigo "direito germânico", ao passo que os anglo-saxões ancoravam na tradição consuetudinária restrita a eles.

Capítulo importante da magna obra dos doutrinários foi a defesa incondicional da liberdade, de um lado, junto com a crítica sistemática ao democratismo rousseauniano, que consistiu na nova forma de servidão e sob cuja inspiração foram cometidos todos os excessos da Revolução Francesa e do Terror Jacobino. Os doutrinários destacaram, no entanto, que algo podia ser salvo da maré revolucionária: a defesa da liberdade individual como elemento fundamental da libertação humana. Essa foi, aliás, a réstia de luz que Tocqueville encontrou no tormentoso momento revolucionário de 1789, e que o próprio Kant identificou inicialmente no movimento revolucionário francês. Guizot considerava que a missão dos doutrinários consistiria em "completar a Revolução Francesa" mediante a defesa da liberdade individual através das instituições do governo representativo. Tocqueville alargava a defesa da liberdade individual, com bicameralismo e instituições representativas para todos os franceses, não apenas para a burguesia encarrapitada no poder a partir da restauração monárquica e o reinado de Luís Filipe (1830-1848).

A meu ver, a meditação brasileira do século XIX louvou-se principalmente dos doutrinários, embora conhecesse as fontes britânicas e o pensamento de Burke. O principal expoente dessa versão nossa de liberal-conservadorismo foi, no início do século, Silvestre Pinheiro Ferreira, com a sua teoria da dupla representação (dos interesses permanentes da Nação e dos interesses mudáveis, dos indivíduos), tese que foi seguida nas propostas de criar a representação e o Poder Moderador pelos estadistas do Segundo Reinado, entre os que se destaca o visconde de Uruguai, com o seu Tratado de Direito Administrativo (1860). Mas já no final do século e no início da República, Rui Barbosa retoma as teses tocquevillianas de um liberalismo conservador que quer fazer da República uma experiência liberal, acorde com a representação de interesses e a tripartição de poderes. Idêntico trabalho de arrumação teórica foi feito pelos bravos liberais gaúchos que combateram o castilhismo no final do século XIX, notadamente Gaspar da Silveira Martins e Joaquim Francisco de Assis Brasil. Todas essas são as fontes inspiradoras dos nossos primeiros liberais-conservadores do século XX, Reale, Roque Spencer Maciel de Barros, Merquior, Antônio e Gilberto Paim, Ubiratan Macedo, Meira Penna, Alberto Oliva, Mário Guerreiro, Roberto Fendt, etc. Eu próprio me filio a essa tendência.

Ora, os fundadores do Instituto Liberal (notadamente Donald Stewart e Og Leme) e alguns pensadores próximos deles como Meira Penna, filiam-se sobretudo aos liberais austríacos e partem para discutir os afazeres da política à luz da velha tradição liberal pensada por eles, mas que entronca em Locke e nos patriarcas da Independência americana, bem como no liberalismo telúrico dos pensadores da segunda escolástica ibérica capitaneados por Francisco Suárez, levando em consideração também a mediação de Tocqueville e Aron. A essa turma junta-se, como muito bem mostra Berlanza nas suas páginas, o grande Roberto Campos, na sua última fase, sendo que ele se inspira, também, nas teses do liberalismo econômico já defendidas pelo professor Gudin e pela Escola Austríaca.

Os bravos jovens da novel geração à qual Berlanza pertence, partem com desassombro para uma meditação liberal-conservadora que tece fios de ligação com a primeira geração de liberais conservadores do século XIX, bem como com os seus discípulos brasileiros ao longo do século XX. Parece-me sobremaneira alvissareira a perspectiva que se abre entre os participantes da nova geração, que não se intimidam diante da discussão de questões acirradas como a que diz relação às teses sustentadas pelos libertários (tipo Rothbard) e que enfrentam de peito aberto os seus adversários e inimigos, como faz Berlanza no capítulo IV do seu livro.

No seio dos adversários, ganham destaque nas páginas de Berlanza os teóricos da social-democracia capitaneados por Fernando Henrique Cardoso (cujo pecado principal foi o festival de tributação que arrancou nos seus dois governos e que se prolongou acintosamente na lamentável gestão lulopetralha, ao longo dos últimos 14 anos). Entre os inimigos figuram os já conhecidos ícones do totalitarismo do século XX, a dupla Lenine-Stalin; o pai do nazismo, Hitler, e Benito Mussolini, formatador do fascismo. Entre os adversários aparecem, outrossim, os estatistas tupiniquins conhecidos: à direita, Ernesto Geisel e à esquerda Nelson Werneck Sodré.

A nova geração de liberais-conservadores brasileiros (e coisa semelhante está a acontecer em outros países latino-americanos como Chile, México, Argentina, Colômbia, Argentina e Peru) lê diretamente os clássicos britânicos, irlandeses e americanos do pensamento liberal-conservador. A redescoberta de Burke pela atual geração brasileira situa-se nesse contexto.

Muito poderiam aproveitar os nossos jovens liberais-conservadores se aprofundassem também no estudo dos doutrinários. Isso lhes permitiria entender o valor do "poder neutro", ou "poder moderador" defendido pelos liberais conservadores brasileiros do século XIX. Essas teses, levantadas inicialmente por Constant de Rebecque (como mostrou o jovem pesquisador mineiro Marco Antônio Barroso na sua tese de doutoramento na UFJF), em face dos conflitos que grassavam no continente europeu, poderiam iluminar novas experiências de parlamentarismo moderado na América Latina, como as que são levantadas no Brasil na atualidade. A velha experiência do "Poder Moderador" do Segundo Reinado não está tão longe das nossas circunstâncias, mesmo que falemos atualmente de instituições republicanas. Valeria a pena reler Rui Barbosa (o da campanha civilista de 1919) sob esse viés. São reptos novos que a jovem geração de liberais certamente enfrentará com coragem e lucidez.

Lucas Berlanza dá continuidade ao liberalismo-conservador que inspirou ao grande Carlos Lacerda, um dos ícones do liberalismo brasileiro. Lacerda foi injustiçado pelo regime militar, que identificou erradamente o inimigo a ser combatido, tendo passado a combater os liberais, como lembra o professor Antônio Paim na obra A querela do estatismo (1ª edição, 1978; 2ª edição, 1994), quando o real inimigo eram os totalitários comunistas mimetizados, após 1985, em vários partidos e movimentos de esquerda revolucionária.

O atual liberal-conservadorismo brasileiro não se colocou contra as mudanças, muito pelo contrário: aposta naquelas que se enraízam na tradição. Insere-se, assim, no seio dessa secular tradição liberal que endossa as "revoluções conservadoras", como a Gloriosa Revolução inglesa de 1688 (cujo grande propagandista foi John Locke) e a Revolução Americana de 1776. O Brasil também conheceu essas "revoluções conservadoras" com o "Fico" de Dom Pedro, em 1822, ou o Ato Adicional de 1841. A nova geração de liberais-conservadores da qual Berlanza é lúcido expoente, aposta também nessas mudanças de longo curso, à maneira da "revolução conservadora" de Margareth Thathcher e de Ronald Reagan, dando continuidade à gesta de estadistas da talha de Winston Churchill e, entre nós, dos Construtores do Império (lembrando o título de conhecida obra de João Camillo de Oliveira Torres, que teve magnífica edição  pala Resistência Cultural).

Postado por Ricardo Vélez-Rodríguez às 06:52

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Buber e Ortega, aproximações possíveis e afastamentos notáveis.José Mauricio de Carvalho























Ortega y Gasset e Martin Buber são nomes fundamentais da filosofia contemporânea. Embora integrados à tradição fenomenológica são autores poucas vezes chamados a conversar. Vamos propor aqui um diálogo entre esses dois pensadores examinando como eles pensam as relações entre os homens, que curiosamente abordam na relação Eu – Tu.
Sintetiza-se, a seguir, as relações que abordam a intimidade do homem quando ele se dirige a outro homem ou às coisas que o circundam, deixando à parte o que os dois autores falam do relacionamento social, os usos e costumes, o convívio em sociedade, isto é, aquela dimensão da intersubjetividade que é objeto da filosofia social, da Sociologia, ou da formação da cultura.
Eis o que os aproximam: 1. Ambos reconhecem que a realidade fundamental do homem nasce da relação entre os homens e que se retirando esse encontro o próprio ser do homem fica comprometido; 2. O reconhecimento da anterioridade temporal do Tu, que é condição para a descoberta do Eu; 3. O entendimento de que o encontro com Deus não é intermediado pelo mundo, é direto, mesmo que não se faça à parte das coisas. Em ambos isso tem, por pano de fundo, a mediação do místico Eckehart quando ele menciona o silêncio de Deus nas coisas e a recusa de tomar Deus como objeto de estudo; 4. A compreensão de que o encontro com as coisas, que se passa no campo da utilidade e dos costumes, é importante para o homem, mas quando há um aumento exagerado dessa importância, o indivíduo perde o fundamental da vida e mergulha na alienação do trabalho inane e sem graça, distanciando-se da vida autêntica.
As diferenças entre ambos são bem mais numerosas. Ortega é um filósofo formado na tradição acadêmica do ocidente, Buber constrói sua filosofia do diálogo tendo por pano de fundo, além dessa tradição, o pensamento judaico: 1. A distinção que Ortega y Gasset faz ao Tu nas relações homem – mulher, não mereceram abordagem separada de Martin Buber e, por sua vez, a tematização do Tu Eterno (Deus), fundamental em Buber, não aparece nos estudos sobre as relações humanas de Ortega; 2. Ortega coloca na vida vivida na primeira pessoa a realidade fundamental e faz dela a base da vida autêntica, Buber encontrará esse elemento definidor do homem não na intimidade dos homens, mas no espaço intersubjetivo que se forma entre o Eu e o Tu onde ocorre o dialógico, ou seja, o intercâmbio das palavras princípio. 3. Ortega não enfatiza a humanidade comum, mas a encontra nas diferenças entre homens e mulheres. Essa humanidade comum Martin Buber toma dos neokantianos, como também fez Karl Jaspers e se baseia na crença de que vivemos em comum as limitações, sofrimentos e culpas; 4. A extensão da relação Eu – Tu para um objeto social como a comunidade, hipótese aceita por Buber, foi recusada por Ortega y Gasset. 5. Para Ortega o eu concreto, realidade fundamental, nasce como para Buber numa experiência posterior ao tu, mas a relação entre eles, diversamente de Buber, é secundária e não fundamental. 6. A relação Eu – Tu, segundo Ortega, transporta o sujeito para a realidade do perigo, viver parece-lhe arriscado não só porque se tem que escolher sem garantias, mas porque o outro é alguém que limita e ameaça, embora também possa trazer boas experiências. Esse entendimento é diverso de Martin Buber, para quem o encontro entre os homens é o que revela a humanidade do homem, propicia um tipo de relacionamento total que contempla o respeito pelo outro. Todas as outras experiências caem para o tipo Eu – Isso.



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O PENSAMENTO DE SESTOV - Logos e Fé. Selvino Antonio Malfatti























LEV ŠESTOV, nasceu em Kiev em 1866. Estudou direito e matemática na universidade de Moscou, mas, teve que voltar para Kiev devido a desentendimentos políticos com as autoridades, aliás, esta foi a tônica em sua vida enquanto esteve na Rússia.

Em 1908 radica-se na Alemanha, Friburgo e daí transfere-se para Suíça. Publica Vigílias Grandes e Palavras Penúltimas. Retorna a Moscou em 1915. Com a tomada do poder pelos bolcheviques a situação de Sestov se torna complicada. A única atividade que lhe foi permitida: lecionar filosofia grega em Kiev.

Numa viagem fora da Rússia chega em 1938 a Paris. Na Europa torna-se um intelectual conhecido e reconhecido. Sua obra mais conhecida foi O Livro Vermelho nos Julgamentos de Moscou (1936). Atualmente é editado “A filosofia da tragédia: Dostoevskij e Nietzsche”, uma das primeiras obras do intelectual russo.

O pensamento de Sestov contrapõe-se à tradição especulativa ocidental. Ele a classifica como abstrata e idealista, racionalista, sistemática e impessoal. Diz que começou com Sócrates, teve continuidade com Platão e Aristóteles, até chegar aos dias atuais. Contra esta postura reivindica os direitos da vida, do eu, da alma e do mistério. Na ocidentalidade há um idealismo incrustado que Spinoza o define como: nada de rir, nem chorar, mas compreender. A este modo de pensar opõe a visão de Giobbe: procurar gemendo, como propõe Pascal. Este via sempre a seu lado um abismo, impossível de ser reduzido às categorias racionais.

Com um estilo coloquial, Sestov adota uma visão trágica da existência. Talvez seja influência de ter sido professor de filosofia grega. O estilo é transparente, amigável, quase coloquial. Deixa de lado a postura universalista e abstrata de Platão ou de Hegel e afunda-se na experiência existencial de Pascal, Dostoevskij e Nietzsche, pensadores do subsolo, parecendo levitar, ou sem chão, em comparação com a filosofia canônica.

Sua filosofia está sempre na gangorra entre o logos e a fé, simbolicamente representada por Atenas e Jerusalém. Claro que neste aspecto há influência de Santo Agostinho da Cidade de Deus e a Cidade dos Homens, Jerusalém e Roma. Na obra Atenas e Jerusalém  é descrito um mundo dominado pela racionalidade. Atenas, para Sestov, é um mundo dominado pelo logos, mensurável, no qual o real é somente o racional. É o mundo da ciência, da matemática, da lógica. Por sua vez, Jerusalém é o reino daquilo que há de mais precioso, a emoção, o sentimento, o amor, o paradoxo, a fé, mesmo o arbítrio e o capricho. Não há nenhum motivo de investir somente num prato da balança - Atenas ou Jerusalém - e dos dois, o menos precioso é o de Atenas. Assim se expressa no referido livro:

Ma perché attribuire a Dio, al Dio che non ha limiti né di tempo né di spazio, lo stesso rispetto e amore per l'ordine? Perché parlare sempre di "totale unità"? Se Dio ama gli uomini, che bisogno ha di subordinare gli uomini alla sua volontà divina e di privarli della loro stessa volontà, la cosa più preziosa che ha donato loro? Non esiste alcuna necessità. Di conseguenza, l'idea di una totale unità è un'idea assolutamente falsa (...). Non è vietato per la ragione parlare di unità, o anche di più unità, ma essa deve rinunciare all'idea di unità totale.

(Mas por que atribuir a Deus, ao Deus que não tem limites de tempo ou espaço, o mesmo respeito e amor pela ordem? Por que sempre falamos em "unidade total"? Se Deus nos ama, que necessidade tem de submeter os homens a sua vontade divina e privá-los de sua própria vontade, a coisa mais preciosa que lhes deu? Não há necessidade. Como resultado, a ideia de uma unidade completa é absolutamente falsa (...). Não é proibido pela razão em falar de unidade única, ou mesmo mais unidades, mas deve desistir da ideia de unidade absoluta).