sexta-feira, 5 de julho de 2013

VÍCIOS INDIVIDUAIS E VIRTUDES PÚBLICAS. Selvino Antonio Malfatti.

















Se as ações humanas fossem pautadas somente pela racionalidade, liberdade e vontade soberana haveria possibilidade limitada de progresso. Supondo-se que o agir humano fosse igual a seres imaginários puros, como anjos caso existissem, a realidade sempre permaneceria idêntica. A causa do progresso está justamente na imperfeição, na possibilidade de erro e conserto, na reflexão sobre o imperfeito. O ato perfeito não poderia causar outro ato mais perfeito, senão o primeiro não seria perfeito. Por isso, a mudança, o progresso e retrocesso, estão ínsitos à condição humana. Anjos, cujas ações são racionais puras, livres de qualquer influência, quistos pelo que possuem de perfeição, não conseguem progredir em nada. Alguma religião afirma que o mundo transhumano tenha se modificado em algo? Que a divindade tenha promovido uma perfeição, algum melhoramento? Todas são unânimes em afirmar o pronto, acabado, imutável.
Poderia alguém se perguntar qual desses mundos é melhor? Os protótipos da humanidade, Adão e Eva, fizeram-se mesma pergunta. O que era melhor: o paraíso perfeito ou a terra de espinhos e abrolhos? É melhor ser imutável ou mutável? Não conhecer o erro e não praticá-lo ou conhecê-lo e poder cair nele?
O progresso é fruto de nossos instintos auxiliados pela razão. Sem vaidade não haverá ninguém que queira se sobressair aos demais. Sem orgulho não haveria alguém que quisesse mandar no maior número de pessoas possíveis. Sem ganância não haveria ninguém que quisesse acumular mais do que pode consumir. Sem luxúria não haveria ninguém que desse presentes a não ser a sua mulher. Sem gula, não haveria centros de gastronomia, sofisticação de comidas e bebidas, restaurantes afamados.
O estado acima descrito leva á competição de todos contra todos. É o típico estado natural. É uma guerra sem armas de todos contra todos. Disso decorre uma pergunta: como será possível o progresso na iminência da autodestruição? 
É possível se pudermos estabelecer regras de convivência social e liberdade de ação individual. Em outras palavras, é possível se conseguirmos transformar os vícios individuais em virtudes públicas. É questão posta por Mandeville, e a resposta de Rawls.  De um lado temos os vícios individuais impulsionadores do progresso e de outro lado temos a ética social garantindo a convivência pacífica.
Com efeito, Bernard Mandeville, na conhecida Fábula das Abelhas descreve uma colmeia em dois momentos: no primeiro, sob a égide do egoísmo privado e no segundo, sob o império da virtude pública.
Enquanto a colmeia era regida pelo egoísmo prosperava e todos os seus habitantes eram felizes. Os vícios grassavam nesta comunidade. Os jurisconsultos se ocupavam de manter a animosidade entre os litigantes, os médicos preferiam a reputação à cura das doenças. Não se importavam com as pessoas, mas procuravam apenas conquistar a simpatia das empresas farmacêuticas. Os religiosos apenas se preocupavam em benzer a colmeia. Eram ignorantes, preguiçosos, avaros e vaidosos. Os soldados, fugitivos da guerra eram cobertos de honras. Os que se empenhavam na guerra perdiam um a um seus membros até que recebiam uma miserável pensão. O rei da colmeia, uma vergonha. Os ministros do rei faziam de tudo para enganar a coroa, sem falar que saqueavam descaradamente o tesouro. Gastavam perdulariamente embora seus salários fossem mesquinhos. A justiça que se gabava de ser cega, enxergava muito bem o brilho do ouro. A balança, de tanto peso de presentes e propinas, havia pendido para um dos lados chegando a cair.
Os políticos do Brasil inverteram a Fábula. Os atores se apropriaram do resultado das virtudes públicas e as carrearam para vícios individuais. A ética social converteu-se em ética individual. E aí só prosperaram vícios individuais.