sexta-feira, 30 de maio de 2014

A natureza e o homem. José Maurício de Carvalho





O homem é parte da natureza, ele próprio tem um corpo com elementos físico-químicos que funcionam segundo mecanismos naturais. É verdade que esse corpo é vivo e como tal tem propriedades especiais, diferentes de outros seres que não têm vida. É também verdade que ele tem uma vida psíquica que exige métodos próprios de estudo e possui ainda vida racional, fato que lhe permite conhecer e julgar. E é esta vida racional que mais o diferencia do restante dos entes, alguns dos quais têm vida, outros ainda uma possibilidade emocional como cachorrinhos e gatos, mas apenas o homem é capaz de um raciocínio completo. Ainda assim ele continua sendo parte da natureza.
Embora parte da natureza, o homem é capaz de julgar as coisas e valorá-las, entendendo que algumas delas não deveriam ocorrer como as doenças, as catástrofes naturais e a violência. Ainda assim elas nos acontecem. A cultura nasce do esforço humano para deixar o mundo mais do seu jeito, as casas protegem do frio, do calor e da chuva, as leis organizam e disciplinam a vida social, a ciência ensina a lidar com a natureza e a técnica a intervir na natureza de uma forma mais eficiente. A poesia embeleza a vida, a literatura transmite conhecimentos e diversão, a religião coloca-o em relação com a transcendência, que lhe aparece como exigência da sua capacidade racional. A filosofia igualmente ajuda-o a entender essa dimensão transcendente do quotidiano, examina os limites da razão, procura descrever o que é a vida e a tratar do seu sentido. Tudo isso são aspectos da cultura que formam o mundo do homem, o lugar onde ele vive e se relaciona com a natureza.
O convívio com a natureza é normalmente controlável, embora a natureza siga sempre seu curso, independente da vontade ou dos propósitos éticos do homem. Assim tem sido desde que nossos antepassados surgiram no planeta, descobriram o fogo, começaram a dominar as técnicas de plantio, criaram as primeiras civilizações, códigos morais e legais, iniciaram a filosofia, estruturaram as primeiras religiões, etc.
Nas últimas décadas acentuou-se uma circunstância natural, em si nada diversa do que tem sido sempre, mas com efeitos devastadores. O aquecimento do planeta tem provocado tantas mudanças climáticas que aquelas condições às quais nos habituamos estão mudando. O fato obrigará a humanidade a mudar de rumo se quiser continuar a ter uma vida razoável e tranqüilidade relativa.
Considerando tudo o que foi dito anteriormente há um mito a ser abandonado. Foi comum, por conta de certa visão romântica da vida própria da geração de nossos avós, pintar o Brasil como um país paradisíaco onde a natureza, tal como mãe generosa, tudo dá sem grande esforço dos brasileiros. A realidade está longe de ser assim, a seca no nordeste, o calor intenso em quase todo ano, somado a tempestades cada vez mais fortes, florestas tropicais, formam um quadro de grandes desafios que exige trabalho, disciplina, dedicação e empenho, se quisermos construir uma nação adiantada e civilizada. Por outro lado, nem mesmo tudo isto propicia segurança absoluta ante as forças da natureza, como o maremoto no Japão e as chuvas no Rio de janeiro demonstraram. Ainda assim é admirável observar a disciplina, educação e esforço dos japoneses para contornar a situação de catástrofe que têm vivido.

Temos também necessidade de estabelecer uma outra relação com a natureza porque ela se já é de convivência difícil, ainda fica pior quando se joga esgoto não tratado nos rios, quando não se recicla o lixo, quando se destrói as matas, quando se joga na atmosfera mais carbono que a terra pode absorver, etc. Enfim, para nós brasileiros desenvolver uma outra forma de lidar com o mundo é uma necessidade imediata. Se nem assim estaremos a salvo dos fenômenos naturais, poderemos, contudo, estabelecer uma relação mais tranqüila com a terra e viver com menos sobressaltos.