sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A VIRGINDADE PODE ESTAR À VENDA? Selvino Antonio Malfatti.





A propósito da celeuma provocada pela catarinense Ingrid Migliorini que colocou em leilão a própria virgindade suscitaram várias considerações desde legais até éticas. A pergunta radical que se pode fazer é a seguinte? Pode alguém vender a própria virgindade? A resposta: pode, mas não deve. Não só a virgindade como qualquer parte do corpo. Com certeza a pessoa tem o poder físico, mas não o moral. Por quê?
Existem duas vertentes que embasam este pensamento. Uma delas, atualmente é defendida pelo pensador português Eduardo Abranches do Soveral. Pensa ele que através da História e nos meios culturais mais diversos emergiram um conjunto de valores que são alicerce da civilização e mesmo o sustentáculo da sobrevivência da humanidade. Estes valores não são propriedade exclusiva de um povo, mas estão disseminados entre todos eles e como tal propriedade da humanidade. Estão presentes entre muçulmanos, hindus, judeus, cristãos.
Diz ele que não somos nem deuses nem animais, nem absolutamente perfeitos nem absolutamente imperfeitos. Somos humanos, por que somos limitados pela cultura que nos cerca: a comunidade, as circunstâncias, os objetos culturais, os vivos e os mortos. Daí a questão: como posso definir minha autodeterminação em tais circunstâncias? Como posso balizar minha ação?
Continua Soveral. Os elementos constitutivos essenciais do agir humano emergem dentro da história: homens concretos, situados num contexto cultural no seio de uma linguagem que também é histórica e cultural. Embora racionalmente se possa admitir que uma ética universal pudesse ser fruto de um pensador genial, concretamente isto não ocorre. A moral seria individual, histórica e até mesmo relativa. A reflexão sobre a moralidade nos leva à ética que possui princípios universais, válidos não só para o “hic et nunc”, mas supra temporal e supra histórico.
Cada homem se reconhece que não é puro espírito, trans lúcido e absoluto. No entanto, constata um impulso incontido de autodeterminação. Como conciliar este paradoxo: não ser algo e querer ser este algo? Diante disso os pensadores chegaram à conclusão - e Soveral entre eles - de que a vontade de autodeterminação deva estar relacionada com um absoluto que possua a plena autodeterminação. É pelo absoluto ao qual o homem está relacionado que o desejo de autodeterminação encontra seu fundamento. Com isso se pode explicar o elo entre o perene e o transitório. Pela razão o homem consegue iluminar e mesmo entender a atividade de um sujeito absoluto presente na história. Então desde o momento que o homem reflete os objetos culturais está se debruçando sobre dados sensíveis e a partir deles busca o transcendente. A ética se refere à estrutura transcendental da ação humana, embora buscada numa cultura dada, concreta e histórica, está relacionada a um Ente que encarna o absoluto presente no transitório.
A outra vertente, também concorda com a historicidade dos modelos morais, mas procura outro fundamento ético. Esta vertente considera os valores como um fruto da comunidade e não podem ser desobedecidos porque não são valores privados, mas públicos. São frutos do consenso da comunidade e já se desprenderam do indivíduo e se tornaram coletivos. É defensor desta vertente o pensador brasileiro Antonio Paim. É o que o filósofo Michael Sandel no livro “O que o Dinheiro não Compra”, afirma a propósito da venda da virgindade por parte de Migliorini. Ambos concordam que há uma esfera a cima do monetário, do econômico. O dinheiro é um valor e a dignidade é outro. Esta não tem preço.
Diz Paim que a ética consensual nasceu historicamente na Inglaterra devido principalmente a proliferação de várias morais individuais, mormente as religiosas. Para contornar a dificuldade, quando se chocavam, nasceu na sociedade um conjunto de princípios de comportamentos éticos a cima das morais individuais, consensualmente aceitos. Nesse sentido a ética não tem seu ponto de apoio no absoluto, mas na comunidade.
Quer adotemos um, quer abracemos outro, sempre se depara com uma ética que estabelece comportamentos universais.
Por isso, pela moral individual Migliorini pode vender a virgindade, mas pela ética do absoluto ou do consensual, não. 

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