sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A COMPULSÃO PELO PODER. Selvino Antonio Malfatti.


RESUMO: O estômago dos políticos não é igual ao da alimentação. Este tem limites. Aquele possui uma capacidade de elasticidade infinita. 


Há alguns dias, um ex-aluno perguntou-me se havia escrito alguma coisa sobre a compulsão do poder. Perguntei de onde havia tirado aquela idéia? Então me lembrei de um assunto que havia abordado em aula e que prometi expô-lo melhor em outra ocasião. Entretanto, o torvelinho da atividade acadêmica impediu-me de pesquisá-lo, pois não sobrava tempo nem para pensar, muito menos para escrever. Agora, já na praia, dá para retomar.
A idéia ganhou força com a publicação da reportagem na Veja desta semana com o título: Eles Sempre Querem Mais, sem falar na proximidade das eleições municipais. Sempre associo a compulsão pelo poder aos gafanhotos que apareciam nas lavouras de trigo na minha infância. Em pleno meio dia de repente o sol escurecia e uma nuvem negra descia lentamente sobre os trigais. Em segundos a plantação não existia mais. Ficava terra desolada, completamente arrasada. Os gafanhotos, então, levantavam e iam pousar em outra lavoura para fazer o mesmo.
Da mesma forma agem os políticos. A voracidade começa a se manifestar antes mesmo das eleições. Primeiramente cotoveladas  mútuas para serem aprovados como candidatos dentro dos diretórios de seus partidos. Depois, a busca do voto, numa luta que vale tudo, inclusive contra os próprios correligionários. É a disputa pelos espaços, pelas fontes financiadoras, pela visibilidade. A competição é feroz e se faz nos mínimos detalhes. Conseguida a eleição, estes engalfinham-se numa guerra encarniçada pelos cargos, desde os mais altos – a presidência da república – até o último cargozinho no mais longínquo município. O pivô são os ministérios. Dilaceram-se os políticos para conseguirem. Depois vêm as presidências e vice-presidências das casas do Congresso. As comissões e suas presidências. As lideranças de partidos. Fora do Congresso são as diretorias que, quanto mais rentáveis, melhor.  Nas devidas proporções, tudo o que acontece no âmbito feral, repete-se nos estados e municípios. Cada espaço é disputado com ganância inaudita.
O estômago dos políticos não é igual ao da alimentação. Este tem limites. O dos políticos possuem uma capacidade de elasticidade infinita. Quanto mais abastecido, mais fome sente. Em toda a História aconteceu isto. Com os políticos egípcios, gregos, macedônios, romanos, árabes, cristãos, ingleses, portugueses, espanhóis,  norteamericanos e, de modo especial, dos brasileiros. Nunca se satisfazem. Sempre querem mais, mais e mais poder.
Conforme Weber, os políticos esquecem mais facilmente de arranhões aos próprios programas partidários do que da diminuição das verbas. Eles estão continuamente atentos ao menor sinal de aparecimento de algum bem econômico para apossar-se dele. Para isso mobilizam seu exército, os políticos profissionais, que vivem da política. Eles colocam à disposição da administração pública seu pessoal e em troca recebem os bens econômicos, concretizados em empregos, cargos, sinecuras, remuneração fixa, pró-labore. As diversas formas de se remunerar os políticos profissionais são normais. Eles vivem da política. No entanto, quando, além daquilo que legalmente está estabelecido, se obtém outros ganhos como propinas, superfaturamento, desvio de verbas, licitações pré-combinadas, entramos no terreno da corrupção.
Os políticos profissionais, por sua vez, são porta-vozes de seus partidos junto à administração pública. Em troca da própria remuneração carreiam bens econômicos para seus partidos. São como abelhas de uma colmeia que em troca do próprio alimento devem continuamente trabalhar por ela. Os partidos se tornaram trampolim para os políticos e estes operários dos partidos. Os políticos profissionais estão, por isso, vinculados a um partido. Partido e político têm o mesmo selo.
Por isso, o político é o depositário do poder, do mando ou de poder para exigir obediência. Os partidos são apenas instrumentos, poderosíssimos às vezes, mas o objetivo final deles é encontrar homens para depositar o poder, isto é, o político.
Isto acontece no plano coletivo, pessoal e partidário. A fome, a voracidade, a compulsão pelo poder é infinita. Aliás, na teologia cristã são mencionados sete Pecados Capitais. O primeiro deles é a soberba. Está a cima de qualquer outro pecado pois, da soberba, do poder, derivam todos os demais pecados. A própria origem do Inferno se deveu à insaciável vontade de poder da parte de alguns anjos, os mais poderosos.


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