sexta-feira, 25 de setembro de 2015

JA verdade política. José Mauricio de Carvalho





Uma das queixas mais repetidas nas redes sociais sobre o último processo eleitoral que levou à Presidência a Sra. Dilma Rousseuff foi a falta de objetividade na apresentação dos problemas nacionais e na condução no debate político. Queixa-se que a atual Presidente não expôs claramente os problemas e a forma de enfrentá-los. E isso é uma amarga verdade, embora também exista junto à queixa legítima muito golpismo e recusa do resultado eleitoral por um grupo da elite política e social do país de índole não democrática.
O problema é grave não porque a atual Presidente fez isso. Esse hábito ruim tornou-se prática corrente em nosso tempo, para todos os cargos e para quase todos os processos eleitorais que assisti nos últimos 30 anos. Tancredo Neves e Itamar Franco, à parte as excentricidades deste último, foram os únicos Presidentes que falaram antes as dificuldades que o país precisava enfrentar e a forma como precisava ser feito antes de assumir os cargos. Resumamos o problema. Nos últimos processos eleitorais o marketing televisivo e a propaganda fantasiosa substituiu ou eclipsou o debate político e a apresentação dos programas partidários. Espantou-se a verdade política para o reino da fantasia e da mentira. Essa situação se agrava pela multidão de partidos presentes no cenário nacional, sem definição ideológica, boa parte deles legenda de aluguel ou espelho de vaidade para dirigentes.  
Para não ficarmos em teoria não custa refrescar a memória da campanha eleitoral que levou a Presidência o Sr. Fernando Henrique Cardoso. Entre outras coisas não ditas ou anunciadas, ele quase acabou com a gratuidade do ensino público universitário e por um triz não acabou também com a Universidade Pública. Foi assessorado pelo Ministro da Educação que escolheu, o Sr. Paulo Renato de Souza, um político banqueiro que se fantasiou de educador. Esse senhor que, de fato nunca foi educador, não escreveu um único trabalho sério sobre o assunto, não deixou nenhuma contribuição notável na área, tornou-se ministro da educação e secretário da educação dos governos de São Paulo. Pergunto: depois de sua morte alguém leu alguma obra que ele deixou sobre educação? Foi defendida alguma tese universitária sobre sua pedagogia? É pena, mas tornou-se prática colocar um político e não um especialista para ocupar a pasta da área. Pior que esse mal costume foi vê-lo apresentado, pela imprensa sectária e ignorante como grande educador, um notável especialista que estava fazendo revolução pedagógica. Na verdade, isso não é fazer política de  forma séria. Isso é esconder a verdade na política, uma prática que tem se repetido desde então.
Espero que as atuais críticas não fiquem no episódio do dia e levem a superação do erro que o alimenta, que se exija qualidade no debate político. É o que se espera daqueles que se preocupam não com as próximas eleições, ou com benefícios pouco confessáveis, mas com o futuro do país. É preciso partidos políticos ideologicamente definidos, em um número razoável (o atual é fora de propósito), é necessário tornar hábito o esclarecimento dos problemas políticos, é necessário substituir o marketing fantasioso, por uma avaliação objetiva dos problemas, é preciso nos associar ao melhor do mundo civilizado: defender a liberdade, o estado de direito e a pessoa humana.
O propósito da política é conduzir o destino do país, edificar uma sociedade melhor, mais justa, menos desigual, sabendo que isso não virá com as práticas correntes do idealismo jurídico (ou por lei e decreto), medidas populistas, marketing fantasioso se sobrepondo ao debate político, fantasia sobre a realidade, com partidos políticos sem ideologia e programas claros, sem trabalho, sem esforço sério,enfim, sem verdade política.