sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Talian como Referência Cultural Brasileira. Selvino Antonio Malfatti.























Entre os dias 17 e 20 de novembro no Seminário Ibero-Americano da Diversidade Linguística, em Foz do Iguaçu – PR, será assinada Certificação do Talian como Referência Cultural Brasileira, junto com Assurini e Guarani Mbya.
O Talian não é propriamente um dialeto da língua italiana trazido pelos imigrantes italianos. Mas não se pode dizer que não seja um dialeto. Efetivamente existem vários dialetos como o Furlan, o Bergamasco, o Vêneto. Há indícios de que o Talian é um dialeto italiano autóctone brasileiro. Num estágio que fiz na Itália conheci uma família de Vêneto que falava praticamente igual ao Talian. Minha hipótese é de que nasceu na combinação de vários dialetos e mesmo com contribuição da língua portuguesa. 
Quando os imigrantes embarcavam na Itália, já iniciava outra realidade e era preciso adaptar-se e mesmo criar. Daí que várias palavras se moldaram e outras novas surgiram. 
A alimentação era diferente, os costumes variavam, a religiosidade não era igual. Enfim, era outro ambiente e os imigrantes precisavam comunicar-se. Desse novo conjunto de fatores, físicos e culturais, nasceu o Talian.
Por muito tempo foi a língua “oficial” dos descendes italianos principalmente no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina e Paraná. Falava-se o Talian nas famílias, vizinhanças, reuniões comunitárias, até mesmo o Sermão do padre nas missas era em Italian.
O maior golpe do Talian aconteceu no governo de Getúlio Vargas porque o Brasil declarou Guerra à Itália e o Talian foi proibido de ser falado. Eu mesmo o aprendi por acaso. Nasci durante a 2ª guerra e meu pai foi convocado. Minha mãe e eu fomos morar com a nona (avó) que só se comunicava em Talian. Foi aí que aprendi. Os outros meus irmãos que nasceram depois não o aprenderam.
Como nossa comunidade de imigrantes residia praticamente no meio de colonizadores alemães – região de Lajeado no Rio Grande do Sul, cujos imigrantes alemães chegaram antes e já tinham núcleos urbanos - aprendíamos também alemão. Dizia-se que se deveria saber três línguas: o Talian usado em casa e com vizinhos, o alemão para ir à cidade e o português para a escola.
A aproximação do Talian com o italiano gramatical é visível. Haja vista que quem sabe o Talian rapidamente aprende o Italiano gramatical. Mas há expressões originais e peculiares que não têm tradução similar. Atualmente é pouco falado, só sendo usado por pessoas idosas que ainda o falam ou por quem se dedica a estudos lingüísticos. Há uma cidade gaúcha, Serafina Correa, que o adota como língua co-oficial.
No entanto  o que ainda o mantém vivo é que há uma literatura escrita no Talian. O mais famoso e conhecido livro é “Vita e Storia di Nanetto Pipetta (Vida e História de Joãozinho Cachimbinho). É um personagem que encarna o imigrante italiano e passa por todas as situações: trabalho na roça, vida familiar, religião, diversões, namoro e assim por diante. O livro sinteticamente se autodefine como “Ciacore e sfrotole”. ( Fofocas e causos). Foi escrito por um filho de imigrante, Aquiles Bernardi, frei capuchinho, em comemoração aos 50 anos da imigração italiana. Originalmente publicado em “Staffeta Riograndense” e depois, no período de Getúlio, no Correio Riograndense. O livro no período de Getúlio foi condenado e teve que abrigar-se na clandestinidade. Mas os imigrantes o liam nas rodas ou nos filós e o passavam de mão em mão. Quando chegava alguma autoridade do governo o escondiam até dentro do pão. Dessa forma conseguiu sobreviver e ainda atualmente há pessoas que escrevem em Talian.
O interessante é que o personagem Nanetto Pipetta no livro original havia se afogado no Rio das Antas, mas atualmente foi revivido e a história continua percorrendo os diversos municípios de colonização italiana. Novos escritores levam adiante a estória de Nanetto mantendo vivas as tradições dos imigrantes italianos e a língua Talian.
Abaixo um texto escrito por Silvino Santin, professor de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria. O trecho descreve uma cena típica nas localidades de imigração italiana do interior do Rio Grande do sul: confraternizações de vizinhos. No caso havia um prato especial: marrecões selvagens com sopa, bifes, massas e...tudo regado a vinho caseiro. Claro, cantos e discursos...Vejam um trecho em Talian do Nanetto, agora revivido nos dias atuais, numa cena descrita numa capela do interior e que culmina com uma festa de noivado de dois jovens.





Nanetto Pipetta
Mareconi de tute le maniere e de tuti i gusti
Silvino Santin
Santa Maria - RS


Ma ndemo ai mareconi. Romai i gera tuti pronti. I pi grossi e veci i noea rento el brondon par la supa o la menestra de agnolini. Ghe manchea sol quei del menarosto, che suito el nono Minelo el se ga messo a taiarli, salarli e consarli. Nanetto el ga proà giutarghe, ma no’l ghe tirea rento. Genarino, al veder la bona voia del tosato, lo ga mandà giutarghe a Narciso ndar su al salon dela cesa pareciar le tàole par la doménega de mesdì.
Dopo tuto pronto, tuti stufi, ma contenti, i ze ndai ognuno a casa sua par riposar.
Doménega de matina, verso le oto e meda, le campane le ga sonà i tre segni, de meda in meda ora, come de costume. L’è vero che messa no ghin saria, ma, quando no ghe gera el prete, la ministra Zelinda, che tuti i la cognossea par zia Linda, la tirea le orassion e la ledea le Sacre Scriture e, come la gera stà na bona maestra de scola, la fea anca na predicheta. No ocor dirlo, tuti i ghe piasea parché la parlea ciaro e fianco, e, anca, se qualchedun el volesse parlar, tuti i lo scoltava. No se pol smentegar che i cantori no i ghe manchea. Novo Treviso el gavea la tradission de ver sempre brai cantori. Mantégnerla la gera una question d’onore. El comadante dei canti, da tanti ani, l’era Genarino.
Finie le serimónie, le otanta o sento persone, sensa prèssia, le va fora dela cesa e drite rento el salon. Magnar ghinera par tuti, e d’avanso. Gente, disposta a giutar par finir de meter su la tola, no ghin manchea. Là in fondo la cosina se vedea el nono Minelo comandando quei che i girava el menarosto. Insieme se vedea Nanetto, pi parlando che menando la manivela.
Tuto pronto e tuti a tola. Prima de scomissiar, la zia Linda la ga tirà na pìcola orassion. Ma na sorpresa, Gugelmo, el compare de Genarino e bon de s-ciopetade, el leva su e el dise:
– Vanti scomissiar, Nanetto el ga da far un discorso.
Abramo, el paron dela risera, l’è ndà d’acordo e i tosatei i ga scomissià osar:
– Nanetto! Nanetto! Nanetto!
No ghe gera altro da far. Nanetto, che romai el gavea ciapà coraio co un par de bicereti, el salta su e el scomìssia:
– Sarò corto, parché la fame la ze longa. Vardì in tàola, i mareconi, in vita zolando e magnando riso, valtri lo savì, i par tuti compagni, ma qua in tàola i se presenta de tante maniere. I mareconi i deventa brodo, carne lessa, col col pien, menestra de agnolini, bifi milanesi de peto, carne in tòcio e, sora tuto, gràssie al nono Minelo, mareconi al menarosto. E adesso, cosa che no i ghenavea mai proà, i sentirà el gusto del vin. E bon apetito a tuti.
Tuti i se ga maraveià dele parole de Nanetto e le man le ga s-ciocà de sgorlar i biceri vodi.
Da qua in vanti, poche parole e tanto mastegamento. La léngua, fata par parlar, adesso la laorea par parar do mareconi, polenta e vin.
A mesura che i piati i se svodea, i biceri i se raversea e le mastegade le se fermea, le ciàcole le cressea. Piampianeto un batolamento.
Là par le tante, salta fora Abramo, el paron dela risera dei mareconi, e el osa:
– Narciso, ndove sito? Te sè che mi son vegnesto par via de altri afari.
Narciso, el ciama la Rosina, medo invergognà e sensa parole, el mostra le lianse, e i se le mete sul deo dela man drita. Dopo, el ciama Nanetto, invitando lu e la Gelina par esser i primi compari par le nosse del’ano che vien.
Tuti i volea un discorso, ma nissuni i se ga presentà. Nanetto suito el se tira fora parché lu romai el gavea discursà. Par finir le serimònie, Genarino el ghe ga dimandà, dà che no ghe gera preti, che la zia Linda la benedissa le lianse.