sexta-feira, 28 de abril de 2017

VULNERÁVEL – QUEM? Selvino Antonio Malfatti.


Etimologicamente vulnerável provém de “vulnus”, ferida. Seu antônimo é “habilitas”, habilidade. O vulnerável é todo o que pode ser ferido, ofendido, atacado e que não tenha capacidade de defender-se. Já o seu antônimo, a habilidade, significa a capacidade de fazer algo e também saber se defender. Como a vulnerabilidade é um conceito amplo que  pode ser atribuído a diversas situações.
Transferindo para o social a vulnerabilidade pode atingir pessoas individuais (físicas ou jurídicas) ou grupos sociais, neste caso somente como grupos. Diante de um perigo o vulnerável não tem a habilidade de prevenir, resistir ou livrar-se das agressões.
Vulnerável pode ser uma classe, um grupo dentro da mesma classe, uma etnia. Basicamente são pessoas prestes ou facilmente atingíveis por algum risco. Vejamos alguns exemplos: no momento em que começou a discriminação contra os judeus na Alemanha, estes se tornaram vulneráveis. Uma determinada classe que conseguiu seu status graças à exploração de determinado bem, como a mineração, e este bem começa a escassear, esta se torna vulnerável. Ou um grupo dentro de uma classe que subiu, mas não tem estabilidade, como plantadores de fumo, também são vulneráveis.
A vulnerabilidade não somente ocorre com a situação econômica, embora seja mais comum. Ela pode dar-se na política, como ideologias, economia, como estratos, demografia, como a velhice, confessional, como religião, cultural, como língua e assim por diante. Por isso, a vulnerabilidade não é unívoca, mas análogo.
Toda vez que um grupo se encontrar prestes a ser excluído entra na condição de vulnerabilidade. Em economia as principais características que cercam os vulneráveis são as condições precárias de moradia, os meios de subsistência como empregos, precária situação familiar. Na política quando sistematicamente determinado grupo é excluído de participar ou perseguido ou mesmo exterminado, ou mesmo reserva de acesso a bens exclusivamente para seus membros. Em religião quando uma se torna hegemônica e vai excluído as demais. Nos empregos públicos, na participação cultural, no acesso aos bens entre outras sempre que uns marginalizam outros há vulnerabilidade. Por isso toda vez que indivíduos forem privados de determinados direitos e exigidos somente deveres em favor de outros, caem em situação de vulnerabilidade. Vulnerabilidade e fragilidade estão intimamente associadas. Alguém se tornou vulnerável por que está fraco: físico, psicológico, cultural, político e econômico.
A vulnerabilidade está vinculada à desigualdade social. Se alguém é frágil é por que, em comparação com outros, está numa condição inferior e, portanto, é um desigual dentro da sociedade, na condição de mais fraco.
Vulnerabilidade social não significa pobreza, mas sim uma condição que remete à fragilidade da situação socioeconômica de determinado grupo ou indivíduo. Alguém pode ser pobre, mas se respeitado, não é um vulnerável. Alguém ou grupo embora rico pode cair na vulnerabilidade. Os judeus da Alemanha nazista eram ricos, mas tornaram-se vulneráveis.
Pergunta-se atualmente qual o grupo social mais vulnerável? Evidentemente que pouca probabilidade há de serem os abastados, pois eles têm seus poderes e habilidades para se defenderem. Os pobres? Estes são frágeis e por isso já vulnerados. Os de classe média? Alguns deles, somente. Os que possuem estabilidade econômica, profissionais liberais já estáveis no mercado, funcionários públicos em cargos superiores, profissionais da livre iniciativa com mercado garantido, estes não são atingíveis a não ser excecionalmente. Os vulneráveis atualmente estão na classe média dos emergentes, recém-chegados ao status, os quais, havendo qualquer variação no mercado, cairão novamente no status de pobreza.
O critério para sair da linha de pobreza é o consumo das pessoas e o acesso aos bens básicos e essenciais. Os grupos vulneráveis são os que, por qualquer variação estão prestes a perder estes bens.
Uma hipótese atual de parâmetro é estabelecida pelo Banco Mundial, para o qual a classe média da América Latina está em situação de vulnerabilidade. Nos últimos anos a distribuição de renda melhorou e se beneficiou dos bons preços das matérias primas e de uma série de políticas sociais. Na América Latina o percentual de pobres caiu pela metade e a classe média cresceu cinquenta por cento. Como a nova classe média pode se tornar vulnerável? Basta extinguir-se o que os levou até lá.
Com efeito, assiste-se a uma desaceleração na economia – caiu 0,7% em 2015 e somente subiu 0,1% em 2916. Com isso, paira o perigo sobre a nova classe média da América Latina. Estes são economicamente os vulneráveis da atualidade.