sexta-feira, 26 de maio de 2017

CULPA. Selvino Antonio Malfatti





Um dos sentimentos humanos mais intrigantes é a Culpa. Como se manifesta? Uma aflição que aperta o coração. Seca a garganta. Uma dor vaga perpassa o interior. Persiste apesar de tentar esquecê-la ou afastá-la. Não estorva. Pode-se fazer o que se quiser. Mas ela fica, fica, fica. É como um perfume não desejado. É a sensação de culpa. Pode ser numa relação com Deus. Mas, quem é Ele? Por que não existe se existe? Se tem presença porque não está presente? É culpa de quem é que não é? E a culpa persiste porque o culpar-se por aquilo que se não é culpado é uma culpa.
É moral? Um e os outros? Uma infinidade de possibilidades. Supõe-se a mais radical: ter o necessário e secundário e faltar o essencial. Alguém possui não só o que necessita de essencial como dispõe do supérfluo. O outro estar privado do necessário. O primeiro pode sentir culpa desta relação. Como desfazer a culpa? Dando o essencial e viver do supérfluo? Dando o supérfluo e vivendo do essencial? Mas para quem tem o essencial o próprio supérfluo já se tornou essencial. Neste caso a única solução é continuar como está e rezar para que o outro consiga no mínimo o essencial. A oração acalma a consciência e traz a paz à alma. Deus providenciará. O discurso é humanitário e o agir impiedoso, mas sem culpa porque foi transferida para Aquele que é responsável pelo essencial e supérfluo entre os homens. À noite, no travesseiro da consciência, peço a Deus que dê a todos o necessário e durmo em paz.
A culpa é legal? As alternativas são reparação ou ocultação. A reparação pode trazer de volta a culpa. Por que se reparou quando se podia ocultar? A ocultação, por sua vez, continuamente remete à reparação e por isso se cai no círculo vicioso: se repara porque não oculta e se oculta porque não repara?
Se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Se a culpa for da estrutura como solucionar com a conjuntura? Se a culpa é institucional como posso eliminar a solução?
Contudo, embora não se tem dívida com alguém e nem tenha causado algum desagrado a alguém, mesmo assim persiste a culpa, A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata, por dentro, a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído de remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se pode desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou a sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões, entregar-se à felicidade da vida, sem culpa, se não fosse a sociedade. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.
Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Mas todos estão mortos: monarcas, nobres,inclusive Deus. Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.
Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.
E nos filósofos da existência, como vêem a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.

Entretanto, a culpa existencial é uma falsa culpa, ou culpa contraditória. Se é culpado porque se é um ser-aí. E este ser-aí é um fundamento do nada. Isto significa que ninguém o colocou aí. Não foi o indivíduo o autor deste ser-aí, nem outro. Logo, ele é um ser aí produto do nada. Como o nada dá origem a nada, logo ele, homem, não está aí. E sendo assim não tem culpa de nada porque não é nada. Por isso o ser-aí não pode ser causa de culpa e nem mesmo ser-aí é uma culpa.