sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Singela palavra pela Filosofia. José Mauricio de Carvalho

Em outro artigo discuti a reforma do ensino médio proposta pelo governo (MP 746), mostrando que se nem tudo nela é ruim, a ampliação da jornada escolar e uma relativa flexibilização das áreas é positiva, ela parece, contudo, não tocar no essencial que prejudica a qualidade do ensino oferecido. Pretende ainda retirar disciplinas fundamentais para a formação humana e cidadã (filosofia e artes, por exemplo), mesmo aumentando o tempo de estudo, sob a alegação de que têm conteúdo ideológico. Foca no número de matérias, sem perceber que a questão não está no número delas, mas na quantidade de conteúdo que em cada uma delas se cobra (ou se devia cobrar no atual modelo, mas na verdade pouco é cobrado), não representa nenhum avanço na valorização do docente, não cuida da relação entre objetivos e avaliações.
Hoje não quero tratar dos diversos itens da proposta, mas fazer uma singela defesa do ensino da Filosofia. A Filosofia surge no mundo grego e ali foi, não só a base para o conhecimento da ciências da natureza, como esteve na raiz da democracia e da participação cidadã na Polis. Difícil entender o que foi a Polis grega se temos por referência o Estado Moderno ou a vida em nossas cidades hoje em dia. Se pensamos com nossa experiência atual o essencial se perde. Como os atenienses se referiam à sua Polis? Eles diziam ser a Polis coroada de violetas da Deusa Virgem da sabedoria, vivendo junto com seus cidadãos, todos caminhando cuidadosamente pelo ar transparente. Enfim, para ser cidadão na Grécia era preciso conhecer Filosofia, tanto para saber o que é o mundo, quanto para se posicionar nele.

No entanto, desde sua origem a Filosofia teve adversários. De início, os sofistas (sofistés) que sem se ocupar da verdade centravam suas questões na solução de problemas de forma aleatória, argumentando conforme a conveniência do momento.
Houve um tempo, na Idade Média, em que a Igreja estimulou a prática da Filosofia, mas houve também momentos em que a autoridade eclesiástica recusou a Filosofia sob o argumento de que ela afastava de Deus. Na maior parte da modernidade a Igreja recusou o mundo e a filosofia modernas. O século XIX, sob a ótica positivista, recusou a Filosofia por considerá-la especulação vazia, baseada numa visão metafísica que foi superada pela ciência experimental. O marxismo, não enquanto uma filosofia, mas como pensamento totalitário, também a recusou sob alegação de que os filósofos muito haviam pensado o mundo, era necessário transformá-lo. E há a recusa de inspiração utilitarista, esses a consideram um saber inútil para o enfrentamento do quotidiano. Todos os governos totalitários a recusaram por medo e desprezo, ou a reduziram a uma única ótica, assim foi no nazismo, no fascismo, no comunismo, na ditadura militar em nosso país. Todas essas tentativas foram superadas na história com um entendimento crescente de que a Filosofia não se impõe pela força, não se legitima pela utilidade, nem se ufana quando reconhecida.
O único caminho que lhe cabe é o de argumentar. Como o fez a talentosa geração da primeira metade do último século quando os filósofos construíram magníficas justificativas para enfrentar cada um dos argumentos acima citados, mostrando, resumidamente, que essas posições escondiam filosofias ruins, mas não eram destituídas de filosofar. Hoje a Filosofia precisa enfrentar novos adversários: a superficialidade, a pressa e os falsos elogios dos que a veneram de dia e conspiram contra ela nas madrugadas. Dos que dizem que ela é importante, mas não a entendem necessária. E, nesses dias de dificuldade, cabe a Filosofia dialogar e argumentar na defesa da investigação mais consciente da realidade. É ela o melhor instrumento para a formação da consciência crítica e da comunicação entre os homens pautada no raciocínio e não na força. Creio que precisamos mais que nunca, nesses dias confusos, do diálogo e da capacidade crítica para enfrentar os problemas de hoje: a violência, a superficialidade, a ignorância, a falta de capacidade crítica para pensar, a incapacidade de ouvir.