sexta-feira, 14 de julho de 2017

Agradecimentos. José Mauricio de Carvalho




A palavra inicial é de profunda gratidão aos professores Adelmo José da Silva, Paulo Roberto Andrade de Almeida e Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz, organizadores de Uma filosofia da cultura, escritos em homenagem a José Mauricio de Carvalho. Não o havia feito formalmente até aqui. Gratidão ainda aos outros treze colegas que completaram os capítulos e resenhas do livro e ao professor Tiago Adão Lara que preparou a apresentação. Dada a contribuição mais relevante dos colegas foi generosidade escreverem os capítulos e resenhas desse livro que mostra três eixos: 1. História da Filosofia Contemporânea, especialmente a Portuguesa e Brasileira; 2. Ética e Filosofia Política e 3. Psicologia e Filosofia Clínica.
O nexo que une os eixos é uma filosofia da cultura, inserida no culturalismo brasileiro, movimento que nasce do neokantismo e foi desenvolvido em diálogo com o culturalismo de Heidelberg, que entrou para a história da filosofia como Escola de Baden. A filosofia da cultura comentada nesse livro tem cinco pontos fundamentais que foram capturados no capítulo de Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz: 1. A cultura é objetivação de valores, embora produto coletivo ela se desenvolve e se renova pela ação de pessoas concretas; 2. A Filosofia penetra nos espaços culturais, identifica os problemas e propõe respostas, trata-se de concepção entre o neokantismo e as filosofias da existência; 3. Os valores estruturadores da cultura formam uma hierarquia entorno à pessoa humana que se aprofunda e ajusta às exigências da vida, mas também expressa um estilo de vida herdado da moral judaico-cristã, da herança racional da Grécia e da organização jurídico-política de Roma; 4. Sendo a cultura materialização de valores, o fim da existência se expressa como moralidade e 5. Se o valor nuclear da cultura permanece, os demais expressam uma época conforme estejam em plenitude ou ruína, segundo as palavras de Ortega y Gasset. A síntese desses pontos foi assim capturada por Mauro Sérgio (2016, p. 121): “O autor compreende que, enquanto vivente, o homem vai se modificando a partir do que projeta ser, de modo que seu objetivo é aproximar a função transcendental, inicialmente concebida pelo criticismo (kantiano), da espessura concreta da existência”. No capítulo que escreveu Anna Maria Moog também avaliou tratar-se da aproximação entre a perspectiva existencialista e a ótica neokantiana do culturalismo.
O livro O homem e a filosofia mereceu ainda resenha de Leônidas Hegenberg, notável lógico e professor no ITA.  Antônio Paim a partir da sua publicação, passou a falar de uma terceira geração de culturalistas na qual me insere, ao lado de Ricardo Vélez Rodriguez profundo conhecedor da filosofia brasileira. No capítulo que escreveu Ricardo Rodríguez, meu orientador no doutorado, fez brilhante síntese do culturalismo e do trabalho da nova geração de culturalistas da qual ele é o representante mais ilustre. Sua contribuição principal está em Tópicos especiais de filosofia contemporânea onde explica a problemática da cultura, da ciência contemporânea, da comunicação e da educação. Antônio Paim, por sua vez, estabeleceu a linha de desenvolvimento do culturalismo dizendo que a primeira geração dos culturalistas brasileiros foi liderada pelos jusfilósofos Tobias Barreto e Alcides Bezerra, e a segunda foi formada por Miguel Reale, Djacir Menezes e ele próprio. Também comenta, no capítulo que escreveu, a proposta de um curso de filosofia brasileira que está em Curso de Introdução à Filosofia Brasileira e menciona o trabalho de catalogação da produção filosófica nacional, tarefa de vários anos de investigação que rendeu os livros: Antologia do Culturalismo, onde se encontram textos raros de representantes da Escola e Contribuição contemporânea à filosofia brasileira, com três edições da EDUEL, a última em 2001.
Nesse primeiro eixo, ou da historiografia das ideias, quase tudo devo às orientações de Antônio Paim e Miguel Reale, o primeiro pela organização das ideias e ao segundo pelo método de investigação. Como observou Anna Maria em seu capítulo, a contribuição mais significativa dos estudos da filosofia luso-brasileira, além da catalogação, consiste num novo esquema interpretativo para o desenvolvimento da moralidade luso-brasileira da renascença ao século XVIII. Até então se distinguia dois ciclos: um barroco, que incluía parte dos séculos XVI e XVII e um segundo que ia até meados do século XVIII. Ao propor uma divisão em três ciclos tornou-se possível uma melhor compreensão do que se passava no Brasil, normalmente denominado de saber de salvação, que estava mais próximo do segundo ciclo português, embora estivesse cronologicamente ocorrendo durante o terceiro ciclo, mas do qual não se aproximava na mentalidade e problemas considerados. Além de esclarecer o fundamental da hipótese de Caminhos da moral moderna, a experiência luso-brasileira, Anna Maria resumiu a questão e concluiu (2016, p. 114): “na compreensão de José Mauricio, a tipificação do saber de salvação só se aplicaria ao que se passou no Brasil colônia, mas é pobre para referir ao que se passava em Portugal no mesmo período”. Esse livro comentado por Anna Maria foi trabalho de pós-doutorado feito sob orientação de José Esteves Pereira. No capítulo que escreveu o notável professor da Universidade Nova de Lisboa também analisou esse livro. Ele fez uma síntese do pensamento português, enriquecendo o que está no livro. Ele apontou detalhes importantes de como a abertura erasmiana fecundou e modificou o pensamento moral do período, dando clareza a sua construção lógica. Nesse comentário lembrou os estudos de José da Silva Dias, seu professor e outro grande conhecedor da história das ideias em Portugal. E mostrou, além do que havia dito Anna Maria, que o segundo capítulo onde se examina o legado político pombalino expresso no código jurídico escrito por Pascoal José de Melo Freire, ganha clareza com o entendimento ético-jurídico do período, assunto que ele desenvolveu no seu magnífico livro sobre Antônio Ribeiro dos Santos, tese de doutoramento, defendida em Coimbra, em 1980. O livro deixa claro que nossas dificuldades éticas se devem a uma modernização a partir do capitalismo ético normativo e do idealismo jurídico, com os quais a geração pombalina quis superar o debate moral. E nesses estudos sobre a filosofia portuguesa também devo muito a António Braz Teixeira, grande conhecedor do assunto, que sempre comentou as lacunas em meus estudos com elegância e generosidade.
Como parte dos estudos sobre o pensamento brasileiro, mas também integrado ao eixo de ética e política está o livro O pensamento filosófico e político de Tancredo Neves. Esse livro foi examinado por Paulo Roberto Andrade de Almeida. Também integra esse eixo o livro A vida é um mistério resenhado por Paulo Margutti, onde se estuda o tradicionalismo brasileiro e a contribuição de Severiano de Resende. Ambos os livros são caros ao coração são-joanense porque resgatam contribuições de conterrâneos ou pessoas ligadas à nossa terra que se tornaram figuras nacionais. Na resenha de A vida é um mistério, Paulo Margutti resume os quatro ciclos do tradicionalismo brasileiro e mostra a inserção de Severiano de Resende no último, destacando o estudo que fez dos temas mistério e existência e a aproximação com as teses de Henri Bergson, hipótese de que desconfia. No capítulo sobre Tancredo, Paulo Roberto resumiu, com maestria, a trajetória intelectual de Tancredo que fundamentava a liberdade humana e política na metafísica cristã. Ele mostra como foi construído o projeto liberal de Tancredo associado às sólidas noções da democracia cristã. Tancredo também defendeu o estado de direito, as políticas sociais, justificou teoricamente a opção nacional pela República, e o papel da religião na vida das pessoas e Estados. Paulo delineou o fundamental do que está no livro.
Sobre a tradição filosófica contemporânea, os estudos que dediquei a Ortega y Gasset e Karl Jaspers foram examinados por vários professores. Antônio Paim fez a resenha do livro sobre Karl Jaspers, Mauro Sérgio e Constança Marcondes Cesar comentaram o livro Ortega y Gasset e o nosso tempo. Adelmo José da Silva também comentou os estudos sobre Ortega. Os trabalhos dedicados aos fenomenólogos portugueses Delfim Santos e Joaquim de Carvalho foram mencionados no capítulo de Anna Maria Moog. No cuidadoso comentário do livro Ortega e o nosso tempo, Constança Marcondes Cesar reconheceu a importância do autor e as atualizações feitas nos conceitos criados pelo filósofo espanhol, como o de homem massa.
Nas resenhas de Mônica Aiub sobre o livro Diálogos em Filosofia Clínica, de João Bosco Batista a Estudos de filosofia clínica, uma abordagem fenomenológica ao lado das resenhas de Antônio Paim, à já mencionada obra Filosofia e Psicologia, o pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers e Subjetividade e corporeidade na Filosofia e na Psicologia estão representados os estudos de Psicologia e Filosofia Clínica. Fica assinalado nesses e em outros livros não comentados que, por conta de sua especificidade como técnica psicoterápica, a Filosofia Clínica não é parte da chamada filosofia prática, em moda na Europa. Ela é uma técnica psicoterápica próxima as da Psicologia fenomenológica, embora dialogando singularmente com a tradição filosófica. Como faz a Psicologia Fenomenológica, a Filosofia Clínica confere destaque à história de vida em circunstância da pessoa. Há ainda o reconhecimento da singularidade existencial, a abordagem do sentido da vida, a confiança de que o homem pode reestruturar sua estrutura de pensamento, superando as dores da alma. São pressupostos que a psicologia fenomenológica buscou na filosofia existencial. Os movimentos inerciais da estrutura de pensamento recordam os deslocamentos dos campos da Psicologia da Gestalt, a identificação dos elementos com os quais cada pessoa aprende a fazer a analgesia da alma e a superar os choques da EP se aproxima das técnicas da psicologia fenomenológica. Diferenças existem, mas as psicologias fenomenológicas têm diferenças entre si.
Por sua vez, as resenhas dos livros Ética, feitas por Selvino Malfatti, Ética e Filosofia do Direito, por Arsênio Eduardo Correia e Mauá e a ética saint-simoniana elaborada por Shirley Dau integram o eixo de ética e política. O comentário de Arsênio contempla o principal livro que dediquei a Miguel Reale, observa o que há de singular no tridimensionalismo jurídico dele e sua contribuição ao culturalismo. No comentário ao livro Ética, levado a cabo por Selvino Malfatti fica claro que tomamos a moralidade judaico-cristã como base nos modelos éticos prevalentes no ocidente, mas que eles também dependem do debate moral da Antiga Grécia e dos jusfilósofos romanos. Além dessa raiz cultural profunda, Selvino identificou os grandes momentos do debate ético do ocidente e mostrou que hoje em dia não é possível discutir valores fora dos procedimentos consagrados pela moral social, laica e consensual. E concluiu Selvino (2016, p. 151): “Pudemos constatar que a hipótese de José Mauricio de Carvalho de que um conjunto de valores afetos à individualidade do homem, também denominados direitos do homem, evidenciou-se como consciência deles nas diversas experiências do Ocidente. Através de contínuas assimilações de legados de povos diversos e em tempos históricos diferentes, a consciência dos valores do homem constitui uma confluência cultural fazendo parte dos valores da pessoa humana”. Finalmente, na resenha que elaborou, a Professora Shirley Dau estudou o livro sobre o socialismo de Saint-Simon e sua repercussão no Brasil. Ela apreendeu tanto a inspiração culturalista da análise, a interpretação da ideia de história do século XIX, quanto a inspiração ético-política do socialismo de competência do filósofo francês.
Essa rápida referência aos capítulos e resenhas do livro é uma forma sincera de agradecer aos autores e organizadores. Todos os participantes desse empreendimento o fizeram mais por amizade que pelos méritos dessas teses. Esses livros singelos e seus problemas nasceram da pesquisa acadêmica que a Universidade Pública proporciona aos seus docentes. Assim, nesse agradecimento não poderia faltar uma palavra de gratidão à UFSJ e seus dirigentes, inclusive ao Prof. João Bosco de Castro Teixeira, Presidente dessa Academia e seu primeiro Diretor. Foi ele também o diretor no antigo Colégio São João, um espaço inesquecível de cultura, esporte e amizade, instituto destinado a formar o cristão e o cidadão e onde se encontram, ao lado da família, as raízes de minha formação humanista e cristã.