sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

SOCIEDADE LIQUIDA. Selvino Antonio Malfatti.




O pensador polonês Zygmunt Bauman é o autor da teoria da sociedade liquida. 
Nasceu em 1925, em Poznán. Na II Guerra Mundial combateu no exército russo. Pertenceu ao partido comunista polaco, mas desfilhou-se devido às experiências fracassadas no leste europeu.
Graduado em sociologia pela URSS chegou ao cargo de professor universitário. Inicia sua carreira acadêmica na universidade de Varsóvia, mas é afastado devido aos seus escritos, censurados pelo Partido Comunista. Sai da Polônia devido às perseguições antissemitas e radica-se na Grã-Bretanha, como professor titular da Universidade de Leeds. Durante sua carreira conquista vários títulos acadêmicos. Atualmente está com 90 anos e participou de um debate em Burgos numa promoção do Foro da Cultura em cujo evento, em novembro, dá uma entrevista. Várias questões lhe foram postas. Destacaria algumas:
1.      A democracia diante do modelo político democrático. É preciso haver um casamento entre poder e política. O primeiro é a capacidade de atuar e o segundo selecionar o que é mais urgente ou necessário. Na cidade-estado de Atenas origina-se a democracia que combina perfeitamente poder e política. Aí, um grupo é considerado cidadãos iguais, a democracia, os eupátridas. Funcionou principalmente por que havia identidade de interesses do grupo local com as medidas políticas a serem adotadas pelo estado.
Na idade moderna, o modelo grego recebeu a forma de democracia liberal cujo modelo foi praticado na Inglaterra. Politicamente tinha como critério o censitário, isto é, os mesmos interesses econômicos e políticos de grupos locais. Com isso, tanto o local como o estado combinavam, pois o estado atendia os interesses locais.
No período contemporâneo, de nação-estado, surge a universalidade da participação política criando uma dicotomia entre os interesses localizados e as políticas globais. Neste modelo, a democracia entrou em crise, pois o poder é universal e a política tem demanda local. Não há mais interdependência entre o poder e a política. O todo não tem o querer local e o local não tem poder global. Concretamente pode ser amenizado através do voto distrital que contempla algumas demandas sociais locais e globais.

2.      A dicotomia entre liberdade e segurança.
Um dos temas que Bauman  atribui maior importância  é o dilema entre liberdade e segurança. Pensa o autor que são dois valores dificílimos de conciliar. Se quisermos segurança deves renunciar certas liberdades e o inverso, se preferirmos liberdade, ficamos expostos à insegurança. A crença na liberdade absoluta levou a sociedade à orgia de consumo. Tudo estava ao alcance de todos mediante o crédito. Este pode satisfazer a todos os desejos e o próprio sistema econômico dissemina esta ideia. Mas, quando acaba o crédito, como acontece atualmente, cai-se numa dura realidade. A classe média, então, foi a mais atingida, pois passou a viver em situação de precariedade. Tudo era incerto, provisório: o emprego, a empresa, os bens que se possui. O conflito de classe foi substituído pelo de sociedade. A barreira não é mais a classe, mas a sociedade. E a falta se segurança acabou atingindo a liberdade. Neste momento o homem perdeu a liberdade e a segurança.
Outro tema caro de Bauman é o ativismo das redes sociais. Acha que aquilo que é chamado de identidade própria, como as comunidades das redes, é algo puramente imaginário por que comunidade se tem ou não. O que se pode fazer é criar artificialmente um substituto da comunidade. Nesta cada uma lhe pertence, nas redes a comunidade lhe pertence. Todos podem acrescentar amigos, eliminá-los, podem controlar sua comunidade. Mas na vida real não é assim, Há necessidade de interagir com outras pessoas, há que se dialogar e aí volta o conflito que parecia eliminado nas redes sociais. As redes sociais podem fazer bem, mas são apenas engodos, cedo ou tarde, mostram sua artificialidade.
O pano de fundo do pensamento de Bauman e sua matriz condutora é o conceito de sociedade liquida em oposição à sociedade sólida. Parte da constatação do fim das ideologias (comunismo, socialismo e capitalismo). Agora não há mais por que lutar, sonhar, refletir, planejar. Em vez de o homem conduzir a história é o mercado que a conduz. Este dita regras, estabelece comportamentos, derruba valores existentes. A vida passa a ser desordenada, não há mais uma previsão de comportamentos. Cada um se move conforme os apelos momentâneos do mercado.
Fonte: Estado de crisis. Zygmunt Bauman y Carlo Bordoni. Traducción de Albino Santos Mosquera. Paidós. Barcelona, 2016.