sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Valores éticos cristãos. Selvino Antonio Malfatti

















O pontificado de Francisco sinalizou novos rumos para o catolicismo, tanto na maneira de pensar, como do agir e mesmo do sentir. No pensar propõe-se ao debate a cima da tradição. No agir abriu mão das parafernálias burocráticas e no sentir até se propõe a acolher os excluídos da grei. Isto marca novos tempos, um espírito de “aggiornamento” de João XXIII.
Estas atitudes de Francisco levaram à reflexão sobre a ética cristã. Para o catolicismo a ética está alicerçada no Absoluto. É Dele que ela emerge e é para Ele que ela tende. Este Absoluto é identificado com Deus. Mas não é nenhum deus abstrato, filosófico, “ex- intellecto”, mas um Deus identificável e identificado: o Deus cristão. O cristianismo deixa claro seu pensamento sobre a questão. É nele que repousa a ética cristã.
No entanto, isto não significa que tenhamos, nós cristãos, que assumir uma ética absoluta. Na vida prática, na convivência com nossos semelhantes, temos que ter outros princípios que supram as lacunas da ética absoluta. Por exemplo, a caridade é superior à justiça. Podemos ser caridosos sem sermos justos e vice-versa. Por isso, o cristão atual tem seus próprios princípios e sua ética, mas não postula impô-los aos demais.
Como diz um filosofo português, Eduardo Abranches do Soveral, os valores cristãos atualmente estão disseminados em escala universal. Já fazem parte da cultura de todos os povos. O principal deles: a valorização do Homem e da Mulher na sua dignidade, liberdade, igualdade, fraternidade e a justiça social com suas exigências. No entanto, pensa ele, os valores cristãos se descristianizaram tomando quase que vida autônoma. Existe na atualidade uma cultura de origem cristã, no entanto não se autoidentifica com o cristianismo. Ela impregna toda nossa sociedade pelo seu volume, opacidade, desumanização e fragilidade.
Há, atualmente, um valor peculiar da cultura cristã presente na sociedade. Trata-se do intelectual cristão que se apresenta como o mediador entre o homem de rua e a cultura, como criador desta mesma cultura e que assume uma posição declaradamente ideológica, com convicção e fundamentação. E como é este intelectual cristão? Quais suas características?
A primeira característica é de que seja limpo de coração, isto é, uma pessoa que vive com Deus, em estado de graça. Em segundo, que conheça o conteúdo dos Livros Sagrados e a Doutrina da Igreja e, finalmente, tenha uma visão prospectiva da cultura cristã genuína e primacial em oposição a outras culturas como a marxista, por exemplo. E quais as prospectivas cristãs mais salientes do intelectual leigo cristão?
O progresso. A ideia de progresso é de origem cristã, quando este é entendido como perfeição pessoal, sentido para História, crescimento indefinido de todas as atividades do homem, do universo em geral e dos seres vivos. Em síntese, Deus e Homem são os sujeitos da História.  
A pessoa humana. Cada homem é uma pessoa e não um indivíduo. Possui uma dignidade conferida pelo próprio criador e uma natureza assumida pela própria divindade.
A fraternidade dos homens. Os homens são irmãos por serem filhos do mesmo pai, que é Deus. Esta fraternidade é a origem de sua liberdade e igualdade relativamente de uns para com os outros.
Caridade. A caridade é pessoal, de coração para coração e não para com os homens em sentido universal. A caridade começa com os mais próximos – pais, irmãos, vizinhos, companheiros de trabalho etc. – e depois estende aos demais. Isso tem sentido como um Corpo Místico de Cristo. Sempre na situação concreta e não geral. Cada um seja um Cristo na situação concreta. “É professor? Seja Cristo como professor. É aluno? Seja Cristo como aluno. É empregado? Seja Cristo como empregado” Isso sem arrogância ou afetação e muito menos exigência. Sejas tu e aceite o que o outro quiser ser.

Esta é a ética do cristão atual.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

SÃO JOÃO DEL REI - A vila de 1713. José Maurício de Carvalho.




Comemoramos este ano os trezentos anos da elevação do arraial velho à condição de vila. O fato se deu em 1713, quando reinava em Portugal D. João V. Na organização política da antiga metrópole a vila era um estágio superior a dos aglomerados humanos espontâneos, primitivos e pouco complexos denominados arraiais ou aldeias, embora  vila fosse organização administrativa inferior à cidade. De todo modo, ser reconhecido como vila no sertão das gerais, em 1713, não era pouca coisa. Significava que o povoamento que se formara espontaneamente pela busca do ouro já tinha organização urbana consolidada: Igrejas, praças, ruas, atividade econômica de relativa importância. E tanto tempo de existência num país de quinhentos e poucos anos dá à cidade de hoje tradição, melhor dizendo lastro cultural.
O fato evoca a inevitável questão: essa antiguidade significa algo? O que é ser são-joanense? Dito de outro modo: há alguma coisa que diferencie o são-joanense dos outros brasileiros ou dos homens em geral? Como são-joanense considere-se não só os que nasceram aqui, mas os que adquiriram identidade com o lugar e o escolheram para viver. Não é fácil uma resposta razoável para tais indagações e o que se diz abaixo é uma perspectiva, uma forma de olhar.
O ponto de partida para responder às questões acima é o reconhecimento que ser são-joanense é uma forma de ser homem. De fato, os são-joanenses participam do destino da comunidade humana. São também brasileiros e mineiros. Muito bem, os são-joanenses são homens nascidos ou cuja história se liga a esse lugar preciso. Alguém poderia dizer e é verdade que essas respostas não nos levaram muito longe e continuamos diante da necessidade de responder se somos diversos dos outros brasileiros e mineiros? Muito bem, não se é são-joanense porque se nasceu aqui. Se assim fosse ninguém  poderia se identificar e se considerar são-joanense. Esse é o ponto central. Não se é são-joanense por destino, por um acaso que nada tem a ver com nossas escolhas. Se fosse o caso não seria preciso fazer nada para ser são-joanense, mas ser são-joanense é tornar-se são-joanense, é incorporar um modo de viver.
E, nesse ponto, amplia-se a complicação, pois as ciências, as religiões, as artes ou as filosofias não podem dar uma resposta razoável para as questões acima. Eis aí a conclusão inicial: tornar-se são-joanense é se tornar um tipo especial de homem, de cidadão, de brasileiro e de mineiro. E isso é possível? Há algo que distinga o são-joanense dos outros brasileiros e mineiros? Eis o centro da questão: ser são-joanense não é exterior ao ato de tornar-se são-joanense. E o que isso significa: o que é mesmo tornar-se são-joanense?
Ainda que seja uma resposta incompleta ser são-joanense é aprender, com as gerações passadas, a amar o país. Um aprendizado contínuo de entrega e sacrifício no trabalho diário e nos grandes desafios. O Brasil nasceu do sangue de Tiradentes e dos sonhos de liberdade de seus amigos. Sobre eles Tancredo Neves se pronunciou certa vez: "A nação nasceu aqui na rebeldia criadora dos Inconfidentes" (Sua palavra na história, p. 239). Essa mesma nação foi defendida pelo Regimento Tiradentes na Segunda Guerra Mundial. Naqueles dias de ameaça à liberdade muitos são-joanenses, como Tiradentes, também deram a vida pela pátria. Tancredo Neves mostrou, há menos tempo, com carreira política impecável e sacrifício pessoal, o que significa servir a pátria. É esse passado de patriotismo dos são-joanenses de ontem que inspira e serve de modelo aos de hoje.
Tornar-se são-joanense é também cultivar a latinidade pelos olhos dos portugueses fundadores do lugar. Eles nos legaram uma forma jurídica de pensar a cidade e a crença no cristianismo, ambas herdadas de Roma e, mais que tudo, a noção de que pátria é união de esforços mais do que identidade de sangue. É o que nos faz viver em clima fraterno com: italianos que para cá vieram no século XIX, comunidade árabe que nos enriqueceu com sua cozinha e trabalho e africanos que, trazidos à força por circunstâncias históricas, hoje integram a sociedade com a alegria e entusiasmo que lhes é próprio. Ser são-joanense é viver a singular unidade nascida desses grupos que aqui convivem, sem ódios, sem exclusivismos, sem disputas étnicas.
Tornar-se são-joanense é descobrir na tradição de fé ardorosa dos fundadores a crença em Deus, no homem e no futuro, pois uma fé que não se vive no respeito a outras crenças e não nos faça melhores do que somos não é digna de cultivo. E a fé maravilhosa que recebemos de nossos pais fundadores se expressa em manifestações como a Semana Santa e as festas dos santos e santas de Deus. Essas manifestações são a porta de entrada para a transcendência. Uma fé que, sem ser invalidada pela razão, é uma fé que ajuda a dar sentido à vida e hoje pode chamar Deus de muitos nomes e lhe dedicar muitos cultos. Essa fé tão linda é que aproxima o reino de Deus desse mundo.
Tornar-se são-joanense é aprender que ir ao futuro. Mais que possuir planos, ideais e esperanças é respeitar o passado. Assim, o propósito de fazer a cidade linda de nossos sonhos passa pelo compromisso de preservar a arquitetura tradicional, de cuidar da paisagem urbana, de ampliar as áreas verdes, de construir com qualidade e respeito às normas e leis que regem a ocupação do espaço público.
Tornar-se são-joanense é cultivar o belo em todas as formas de arte: na música barroca das orquestras centenárias, na representação dos grupos de teatro, nos sons das bandas históricas, nos livros dos escritores, nos santos e peças barrocas que saem renovados das oficinas de restauro, nos quadros de nossos pintores, no maravilhoso artesanato da cidade, nas peças de estanho hoje comercializadas em todo o mundo. Enfim, descobrir o belo em tudo o que encanta na explosão de criatividade que se supera em cada nova obra criada.

Tornar-se são-joanense é descobrir a linguagem dos sinos, encantar-se com a beleza das torres que os sustentam enquanto giram no ar, é andar leve pelas ruas estreitas da cidade, admirar as luzes e sons do presépio da Muxinga, contemplar o desenho maravilhoso dos jardins centenários. É aprender a amar esse arruamento de trezentos anos com que a mão do homem enfeitou a natureza do vale do Lenheiro.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

UMA ÉTICA DA ESPERANÇA. Selvino Antonio Malfatti




Se partirmos da constatação de que existimos, de imediato veremos a precariedade de nossa existência. Não conseguimos recuar até o instante de nossa consciência, de nossa interioridade que, iluminada toma consciência de si. Estamos suspensos, sem ser e com desejo de mendigos de tê-lo.
Quando ocorreu o acender de nossa consciência? Tudo se esvanece no passado longínquo o qual não conseguimos identificá-lo. Caminhamos sobre o Nada, como o Mestre caminhava sobre as águas.
O que nos consola como reduto último é a Esperança. Entre o Ser e o Nada, perigosamente suspenso sobre a Morte, o homem consegue viver porque se recusa cortar o fio da Esperança. Se for rompido, cairemos no Nada.  Os acenos das Angústias, do Cuidado, da Náusea na verdade são apenas acenos do desespero, pois são formas de cortejar o Nada, de quem pendula entre a Vida e a Morte.
A Luz pode ser a metáfora da vida, enquanto a Noite da Morte. O primeiro um ser-em-si e o segundo o não-ser. Esta dualidade reflete-se na gnosiologia na relação entre sujeito e objeto. No ato do conhecimento o sujeito não só contempla o objeto, como o objetiva. A relação imediata que surge é uma bipolaridade de eu-isto. Neste primeiro contato sujeito-objeto estabelece-se uma relação fria. O primeiro ignorando a concretude do segundo e este reduzindo ao mínimo sua concretude. Desta relação surge uma metafísica materialista ou mesmo estruturalista. Esta relação, sujeito-objeto, nos leva a renunciar ao conhecimento da Vida, do Homem e do Espírito, pois há um sujeito diante de uma coisa e vice-versa. Será possível outra relação? É possível desde que a relação que se estabeleça seja de natureza de Eu-Tu , Nós-Ele, Eu-Vós. Esta relação muda a natureza, pois em vez de objetos, coisas, há relações de sujeitos inter-subjetivos. Com esta relação é possível captar a vida, o espírito e o Homem concreto. O existente humano é o ser-em-si em trânsito na busca do Ser-em-Si-para-Si.
Cada homem é uma pessoa, pois é capaz de reconhecer-se a si mesmo. O fundamento da pessoa reside na liberdade própria e do outro. O outro é um ser livre igual a mim. Sendo assim o conhecimento que tenho dele é sempre provisório, pois o outro é continuamente um processo em aberto. O outro não é como outro ente que posso conhecê-lo na sua essência, pois ela se revela no fenômeno e está definitivamente definido, isto é, ele não é objetivável, pois, o outro está continuamente em mudança. Além disso, por ser livre não posso adivinhar qual a intenção que o guiará. Na relação intersubjetiva, entre pessoas, o conhecimento não se faz por causa e efeito, mas pela espontaneidade, pois tem a iniciativa da ação e não ser causado.
Com efeito, a idéia de liberdade alheia faz com que o outro se nos apresente como incognoscível dificultando o entendimento dele como um fenômeno puro e assim possa conhecê-lo na sua essência. Por isso o acesso gnosiológico é sempre provisório devido à imprevisibilidade da intenção que o moverá.

No entanto, lançando mão da reflexão posso ter conhecimento de minha consciência e como o outro também tem consciência posso ter um conhecimento analógico. Por outro lado, o conhecimento do outro o leva a externar-se, como por exemplo, a cultura. Este fenômeno pode ser objeto de minha consciência e por isso tenho um conhecimento essencial. Por isso, indiretamente, através da cultura posso conhecer o outro. Por sua vez, as manifestações existenciais do outro e que também são minhas podem me lavar ao conhecimento do outro como é o caso, da morte, sofrimento, injustiças e outros. Disso decorre que os outros, por serem livres, podem ser nossos conviventes fraternais como nossos inimigos figadais.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

AMIZADE. Selvino Antonio Malfatti.





Uma criança sorrindo. Um beijo de mãe. Um abraço de pai. Um enlace de namorada. Um aperto de mão. O que tudo isso evoca em nós? A alegria. E o que nos torna plenos de júbilo? A amizade. A amizade tem o poder de despertar em nós a alegria. Até nos momentos mais tristes podemos sentir alegria se estamos com amigos. A amizade esquece a pobreza, fortalece o sofrimento, perdoa a ingratidão.  Mesmo quando nos despedimos de um ente querido, se estivermos rodeados de amigos, podemos sentir a tristeza envolta na alegria. Amizade e alegria são dois sentimentos que se irmanam, se completam. São almas gêmeas que querem estar sempre juntas.
Quando sentirmos a cadência da amizade, a alegria irrompe aos borbotões no coração. Dispara quando ouvimos a voz do amigo. A amizade pode nos elevar aos céus, imaginar uma humanidade irmanada, um mundo se dando as mãos e entoar a sinfonia de "Ode à Alegria" de Beethoven ou um "Va Pensiero" de Verdi. A amizade nos desprende desta terra, nos deixa levitando no espaço, voando com o pensamento como se não tivéssemos corpo. A amizade é o mais belo presente que alguém pode receber. Ela vale por toda sabedoria, todos os dons, todas as riquezas. Ela enche todo coração. A amizade não necessita de mais nada, ela é completa em si, ela dá alegria.
Estes pensamentos me vieram à mente por ocasião do Colóquio que aconteceu esta semana na Universidade federal de São João Del Rei, Minas Gerais, do dia 9 até 14 de setembro de 2013. Aqui encontrei amigos e antigos mestres  e professores Antonio Paim, Ricardo Vélez Rodriguez e Anna Moog, do Brasil. José Esteves Pereira e Antonio Braz Teixeira, de Portugal.  Colegas professores de universidades de todo Brasil como José Maurício de Carvalho, Tiago Lara, Leonardo Prota entre outros.Uns não estiveram mais presentes como sempre faziam: Caeiro e Soveral, de Portugal e Maciel de Barros e Mercadante do Brasil. Entraram na História 
O tema central deste Colóquio foi a ÉTICA. Os conteúdos desenvolvidos, por professores brasileiros e portugueses, foram os seguintes:
- O debate em torno das concepções éticas e do seu ensino - Prof. Dr. José Esteves Pereira – UNL
- A moral positivista de Luís Pereira Barreto - . Dr. Fábio de Barros Silva – UFSJ
- A moral positivista  de Sílvio Romero e Teófilo Braga - Prof. Dr. Ricardo Vélez Rodríguez – UFJF
- A ética cósmica de Sampaio Bruno - Prof. Dr. Joaquim Domingues- IFLB
- A ética em Farias Brito - Prof. Dr. Leonardo Prota – IH
- A ética criacionista de Leonardo Coimbra - Prof. Dr. Manuel Cândido Pimentel - UCP
- A ética racionalista de António Sérgio e Raul Proença - Prof.ª Dra. Romana Valente Pinho -
- A ética naturalista e neoutilitarista de Edmundo Curvelo e Mário Sottomayor  Cárdia - Prof. Dr. António Braz Teixeira - UAL
- A ética de Leônidas Hegenberg - Prof. Dr. Leônidas Hegenberg - ITA
- A teoria da experiência ética de Antônio Paim - Prof. Dr. Antônio Paim - IBF
-A ética fenomenológica de Eduardo Abranches Soveral - Prof.Prof. Dr. Selvino Malfatti - UFSM
- A ética culturalista de Miguel Reale - Prof. Dr. José Maurício de Carvalho -UFSJ
- A crítica ao culturalismo – A Ética negativa de Júlio Cabrer- Prof. Dr. Júlio Cabrera – UnB
- Ética existencial de Vicente Ferreira da Silva - Prof.ª  Dra. Constança Marcondes César - UFS
- Ética existencialista de Luís Araújo - Prof. Dr. Renato Epifânio -
- Ética neotomista de Urbano Zilles - Prof. Dr. Tiago Adão Lara - UFU
- Ética neotomista em João de Scantimburgo - Prof.ª  Dra. Anna Maria Moog Rodrigues - IBF
- Ética dialética de Henrique Cláudio de Lima Vaz - Prof. Dr. Delmar Cardoso - FAJE-BH
- Ética neoidealista de Antônio José de Brito - Prof. Dr. Miguel Real
- Crítica ao desenvolvimentismo – a ética de Mário Vieira de Mello - Prof. Dr. Paulo Margutti – UFMG


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

RELAÇÕES CULTURAIS BRASIL-PORTUGAL. Selvino Antonio Malfatti.



Nos dias 9 a 13 de setembro será realizado na Universidade Federal de São João Del Rei o X Colóquio de intercâmbio cultural entre Brasil e Portugal. Esta idéia nasceu quando, após a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1974, a situação radicalizou-se e vários intelectuais das universidades portuguesas tiveram que fugir do país e vieram para o Brasil. Dois deles merecem destaque pela importância de atuação que desenvolveram no Brasil: Marcelo Caetano e Eduardo Abranches de Soveral. Nasceu deles, juntamente com brasileiros, um projeto ambicioso: descobrir nexos culturais entre Portugal e Brasil ao longo de sua história. Foram organizados colóquios  - em número de 10 em Portugal e 10 no Brasil, um aqui e outro lá alternadamente.  Assim se expressa um dos líderes brasileiros deste projeto, Antonio Paim:
“Coube a Eduardo Soveral (1927/2003) estruturar no Brasil o estudo sistemático das relações entre pensadores brasileiros e portugueses em determinadas esferas do saber. Sua ambição era, em cada ciclo histórico, sermos capazes de identificar eventuais laços, explícitos ou apenas implícitos, entre os pensadores em causa, num espectro bastante amplo, para incluir a filosofia geral, o pensamento político, a filosofia da educação, do direito, etc.
Tanto o prof. Miguel Reale (1910/2006) como Luís Washington Vita (1921/1968) davam-se conta da importância de termos presente a nossa origem lusitana e cuidaram de estabelecer relações com estudiosos portugueses de seu tempo. Contudo, investigação de caráter sistemático fizemo-la sob a paciente orientação de Soveral, durante cerca de dez anos. Nesse período, praticamente demos conta do confronto em matéria de filosofia. Ainda que se tornasse patente a diversidade de interesse quanto aos problemas teóricos preferentemente desenvolvidos, o norte era visivelmente idêntico: privilegiar a investigação de caráter ético. Quanto ao confronto em matéria política, o fizemos por nossa conta e risco, partindo do reconhecimento de que era flagrante a influência recíproca. A proclamação da República no Brasil serviu como ponto de referência para que em Portugal também se chegasse ao fim da monarquia. Lá, como cá, tivemos Primeiras Repúblicas de inspiração positivista, ambas conduzindo a idêntico desfecho autoritário, por sinal, com o mesmo nome (Estado Novo), embora de fundamentação teórica assaz diversa. Os estudos então efetivados serviram para sugerir que, no ciclo anterior, também terá havido fenômeno análogo; o Regresso brasileiro seria uma das fontes da Regeneração portuguesa, neste caso dispondo muito provavelmente de idêntico fundamento ideológico: o liberalismo doutrinário.” (Atas do IX Colóquio - UFSJ).
A introdução ao projeto lembra que:

Cabe recordar que o esforço de aproximação entre as filosofias brasileira e portuguesa data dos anos sessenta, então desenvolvido, do lado brasileiro, pelo Professor Miguel Reale e, do lado português, pelo Professor Antônio Braz Teixeira. Dois grandes iniciadores do diálogo foram o brasileiro Luís Washington Vita e o português Antônio Quadros, ambos desaparecidos. Seguiu-se a presença no Brasil dos saudosos professores portugueses Eduardo Soveral, Francisco da Gama Caeiro e Afonso Botelho, todos igualmente falecidos. Tudo isto é permitiu, com vistas à continuidade dos trabalhos, a criação do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, sediado em Lisboa, atualmente presidido pelo Professor José Esteves Pereira, que reúne pesquisadores de diferentes universidades brasileiras e portuguesas.(José Maurício de Carvalho - Coordenador)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A cidadania em nossos dias. José Maurício de Carvalho


O mundo passa por momentos turbulentos. Revolta no Egito, guerra civil na Síria, manifestações nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa. Não é o primeiro tempo de confusão da história humana e não será o último, pois vida é processo, não importa se dos indivíduos ou da sociedade. A realidade onde a vida ocorre modifica-se e a história é sempre cheia de mudanças. Transmuda-se o ambiente social e se transforma o espaço pessoal, mudam as condições de vida das pessoas e da sociedade. Quando isso ocorre pede-se uma nova vida nesse novo tempo.
Se olharmos para as manifestações podemos identificar uma inspiração comum: o desejo de participar mais do destino da sociedade, a esperança de tomar nas mãos os fios da história coletiva. E o propósito do homem de hoje de fazer o futuro da sociedade como se tece uma malha parece continuidade daquilo que os existencialistas diziam há algumas décadas. E o que diziam? Que a vida do homem não é cenário já armado, um palco de teatro em que todos têm os papéis já definidos e cada artista sabe exatamente o que fazer. O artista deve unicamente representar a história ensaiada à exaustão. A vida de verdade não é assim, não é uma peça já escrita sem a nossa participação. Nela as escolhas tecem o destino trazendo o esperado e, muitas vezes, também o que não se espera.
O que diferencia as manifestações como a feita ontem nos Estados Unidos em comemoração à célebre marcha pela cidadania de Martin Luther King e as manifestações no Brasil? Não é o desejo de viver numa sociedade melhor, sem discriminação social, economicamente menos desigual, mais tolerante com as diferenças, mais inclusiva, com governos mais eficientes na gestão da coisa pública. Isso é comum ao homem de hoje. A sociedade humana, por mais desenvolvida que seja, sempre terá espaço para melhorar. Parece que nós nunca conseguiremos uma sociedade perfeita em todos os seus aspectos.
O que diferencia as manifestações de lá e de cá é a consciência da responsabilidade cidadã com o bem público. Não faz sentido cobrar o que não se faz. É legítimo exigir que as autoridades não usem o bem público em benefício privado. Por exemplo, é legítimo pedir que o governador do Rio de Janeiro não utilize os helicópteros do estado para levar a família para a praia ou que o servidor público não receba propina pelo trabalho que realiza e pelo qual é pago. E esse mesmo direito impõe o dever de fazê-lo conforme prescrito em lei, de não destruir o patrimônio que é de todos ou é de alguém, mas que seguramente não é só do manifestante. Inclua-se aí a falta de direito de emporcalhar o ambiente social e provocar intranquilidade e insegurança.
A notícia da semana foi a visita da Presidente da República à São João del-Rei para anunciar a liberação de recursos para recuperar monumentos históricos em mais de quarenta cidades da federação. A visita foi cortesia da Presidente para com a cidade que comemora trezentos anos em 2013.
E ali, entre os que foram agradecer os recursos para os monumentos, manifestantes de preto e suas bandeiras estiveram agitados. Gritaram, hostilizaram os policiais, ofenderam a Chefe da República, queriam passar à força pelo isolamento que os policiais faziam e, entre uma gritaria e outra, comiam bananas. As cascas iam para o chão da Avenida da pobre tricentenária, fazendo o inferno dos transeuntes e a tristeza dos garis. E esses jovens, a maioria o era, independente da causa porque lutam vão perdê-la enquanto quiserem impô-la à força e por não associarem o direito de protestar ao dever de respeitar o público. Impor à força o que se julga direito é próprio de radicais que ainda não aprenderam a viver na democracia representativa. Espera-se que aprendam em algum momento.
Um Estado democrático é não só organização jurídica no sentido moderno (soberania, povo e território), mas criação de cidadãos que aprenderam a negociar interesses e respeitar os dos outros enquanto apresentam os próprios. A democracia moderna vem mostrando que não bastam boas causas, como viveu o Pastor Martin Luther King, é preciso saber apresentá-las. Há um modo certo de fazer o que se julga certo para merecer que a causa de alguns seja de todos. As manifestações mostram que o cidadão deixa de sê-lo quando adota posições radicais e apela para a violência. Ele perde mesmo a humanidade quando perde a capacidade de ter e dar razão, por isto Luther King merece nosso reconhecimento e respeito e sua causa foi incorporada pela sociedade americana.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Reforma do país e do espaço público. José Maurício de Carvalho




Os protestos de rua no último mês tiveram como estopim os serviços de transporte e mobilidade urbana, mas incorporaram outras reivindicações, notadamente o combate à corrupção, ao empreguismo, e um pedido de melhoria na segurança, no atendimento da saúde e da educação. De modo resumido os protestos revelam um tema do qual se ocupou um grupo de estudiosos nas últimas décadas: o Estado Brasileiro funciona mal. E não só nos campos em que a população denuncia. Quando aprofundamos o problema constatamos que os órgãos de fiscalização ambiental têm sucesso muito pequeno na defesa dos ecossistemas naturais, os destinados à preservação do patrimônio cultural também não têm bons resultados a apresentar, os órgãos que cuidam da vigilância sanitária são exemplo de ineficiência. O que dizer da coleta e tratamento dos esgotos? Como classificar o trabalho de inteligência da polícia e das forças armadas? Como explicar o roubo de toneladas de dinamite que explodem caixas eletrônicos pelo país afora? E a segurança de nossas fronteiras ultrajadas com drogas e contrabando? E a fiscalização das casas de diversão como a boate de Santa Maria?
Na tentativa de entender o fenômeno, lembre-se a identificação do problema dualismo no estudo da cultura brasileira identificado por Wanderley Guilherme dos Santos. Estudiosos opõem populismo, corrupção, ineficiência e subversão comunista à democracia, industrialização e independência nacional. Uma classificação simplicista onde o mal e o bem estão bem delimitados. Esse dualismo que não atinge o âmago da questão: a deficiente visão e falta de compromisso com o espaço público. Antônio Paim publicou um esclarecedor ensaio do problema intitulado A querela do estatismo, mas além dele um grupo de estudiosos da cultura nacional publicou bastante coisa sobre a herança patrimonial herdada de Portugal. Esses autores lembram a incapacidade nacional de reformar a tradição para: 1. democracia liberal (partidos políticos definidos, ideologicamente constituídos e com programa claro); 2. capitalismo com políticas sociais nas áreas de segurança, saúde e educação, além daquelas consideradas funções básicas do Estado e 3. fazer um debate moral que repercuta nos destinos da sociedade.
O estado patrimonial encontrado entre os orientais e que chegou até nós via Portugal, devido à ocupação árabe na Península Ibérica, como explica Max Weber em Economia e Sociedade, não tem compromisso com a competência e a qualidade dos serviços prestados. A justiça feita pelo príncipe discrimina o cidadão, pois se baseia em relações pessoais. O pior é, contudo, a ausência de separação entre o patrimônio público e privado, o que faz com que os administradores públicos façam seu serviço como quem cuida da cozinha de casa. Inclusive são eles que definem as prioridades das obras. E a população também entende a esfera pública como privada. Logo, o espaço público não é do cidadão, sendo aceitável danificá-lo, urinar nele, apropriar-se do dinheiro do Estado, etc. No nordeste os assaltantes de banco dizem: não queremos dinheiro de ninguém, só do governo. (?). Não é difícil, nas cidades brasileiras, encontrar quem varra a casa ou negócio e jogue o sujo na via pública, além de nela atirar todo tipo de lixo.

Toda mudança importante no sentido solicitado pelos manifestantes de hoje com vistas a tornar mais eficiente do trabalho do Estado passa pela reconsideração do espaço público. Entendê-lo como sendo de todos, cuidando com carinho dele, estaremos dando um passo gigantesco na direção almejada pela maioria. Como entender que jovens peçam cuidado com o que é público e urine nas ruas nos carnavais? Que se brade por educação e se estude tão pouco? Que peçam respeito e desrespeitem tanto idosos e deficientes? De fato, há um Brasil para ser reformado para que os homens de amanhã não reproduzam o pior das gerações passadas.

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