O pensamento liberal nasceu na Inglaterra no século XVII. Veio junto com a modernidade em seus primeiros passos. Nasceu com a confiança no indivíduo, avaliado como um mundo subjetivo e singular. Essa compreensão resume-se em três pontos: 1. O homem é único, 2. o eu autêntico é livre e conhece o mundo, 3. o eu conhece também a si mesmo melhor que outros. Daí a confiança dos liberais no indivíduo dirigir sua vida, estabelecer parcerias, escolher seu trabalho, viver como empregado ou empreendedor. O teórico inicial desse pensamento foi o filósofo inglês John Locke concebendo a teoria contratualista, indicando que o estado de sociedade é diverso do natural, mas não lhe é oposto. John Locke defendeu ainda um imanentismo do conhecimento que teve grande influência nos iluministas e na valorização da razão realizada nos séculos XVIII e seguintes.
Esse pensamento partiu reconhecendo que aqueles que podiam se representar frente ao poder real eram os proprietários das oficinas, terras, padarias, mercados, lojas em geral, etc. Boa parte da sociedade era proprietária de algo assim. A revolução industrial mudou esse cenário, ela criou uma elite econômica dona das grandes empresas e uma massa trabalhadora. Essa última vinha dos campos e de algumas oficinas que a indústria ajudou a fechar. Isso criou uma massa que não tinha propriedade, a não ser de seu tempo e braços para o trabalho. A sociedade britânica e outras nações que aderiram ao liberalismo entenderam que também era preciso os trabalhadores serem representados diante do Poder Real. A indústria cresceu e separou muito a vida dos proprietários daquela vivida pelos operários, criando grupos de interesses diversos e legítimos.
Com o crescimento das cidades surgiu também o problema de cuidar de órfãos, velhos e doentes incapazes de trabalhar, precisando uns de educação e outros de cuidados. O Estado liberal assumiu essa responsabilidade e valorizou o voto democrático. Mas havia um sério problema social a ser enfrentado que deu origem a propostas socialistas. Os liberais enfrentaram o problema com empenho. Especialmente depois da 1º Guerra Mundial em 1918 houve um alargamento das atuações do Estado nas áreas sociais, em especial nos campos da saúde e educação, exigências crescentes da sociedade desde então. Quando voltaram da Itália, nossos heróis liderados pelo Regimento de São João, que formavam a FEB, foram acolhidos com o seguinte discurso de Tancredo Neves (O Correio, São João del-Rei, 4/10/1945): “Vocês lutaram pela liberdade e por um mundo melhor, onde não haja lugar para os tiranos, as injustiças e a miséria. Batalharam para que haja democracia entre os homens. Mas que democracia? Não apenas a democracia política, do regime representativo e das liberdades essenciais de culto, pensamento e imprensa. Não apenas a democracia de eleições livres e honestas e governantes honrados e eficientes, de legisladores cultos e dignos. Mas também a principalmente a democracia social e econômica em que todos quaisquer que sejam as suas origens, o seu credo, e a sua cor, seja assegurado, segundo as suas aptidões, a igualdade de oportunidade em busca da felicidade. A democracia de ensino gratuito em todos os graus, inclusive o profissional (...). A miséria é uma afronta aos povos cultos. É nos dias de hoje uma chaga tão ignominiosa, como a escravidão no século passado. Torna-se imprescindível suprimi-la ou, quando não, mitigar os seus efeitos aviltantes”
Nos últimos anos reapareceu a extrema direita com a radicalização de propostas antidemocráticas consolidadas num neonazifascismo. O capitalismo financeiro internacional recriou um pensamento político baseado num nacionalismo redutor (estado delegacia de polícia), violento e racista, propondo, até ter uma polícia global, transformar os Estados nacionais em delegacia de polícia. O século passado viu que esse caminho levava ao ódio, a disputa social, a divisão do povo, a guerras brutais e a barbárie. O mundo saiu da Guerra convencido de que era preciso fechar a porta à extrema direita porque ela transformou adversários políticos em inimigos e perseguiu e matou os judeus. Porém, no mundo contemporâneo, onde a globalização fortaleceu o capital financeiro, desapegou-se dos territórios, provocou guerras localizadas e a migração em massa, estimulou o reaparecimento de uma nova extrema direita aliada do capital internacional. Esses dirigentes usam o conceito democracia apenas como estratégia para ludibriar a massa e mantê-la sob controle. Conseguem cooptar alguns empresários, geralmente pouco instruídos, e usam líderes caricatos e normalmente corruptos, que incitam e iludem as massas com discursos demagógicos e falsas promessas, mas que no fundo reduzem a liberdade de indivíduos, destrói o estado social, prejudica os pequeno empresários e aqueles com interesses nos mercados nacionais, pois está a serviço do grande capital internacional, divide a nação e fragiliza o Estado Nacional. Então, vendendo mentiras conhecidas como fake News espalham-se pelo mundo governos de extrema direita, na verdade a tropa de choque do capitalismo financeiro internacional. Como estratégia narrativa cooptam algumas igrejas evangélicas, geralmente não as tradicionais igrejas protestantes, apresentando um falso cristianismo que denominaram teologia da prosperidade, revelando-se adversários de governos populares, criaram um falso cristianismo que afronta ao querido mestre de Nazaré e transforma o dinheiro em Deus. O resultado nefasto desses governos se faz sentir a médio prazo, no empobrecimento geral de trabalhadores, pequenos empresários e redução da atividade econômica que não se vincula ao grande capital. Esse grande capital usa o algoritmo (inteligência artificial e redes sociais) que tem sob controle e espalha versões falsas da realidade, combatem e agridem a quem pode denunciar essa situação (estudantes universitários, jornalistas independentes, intelectuais, cientistas, professores).
Esse é o cenário atual e constitui num enorme desafio para os verdadeiros liberais, não importa se mais conservadores ou progressistas, para os sociais democratas e aos setores empresariais ligados ao capital nacional. Esses grupos precisam acordar para o que está acontecendo e criarem estratégias para enfrentamento disso. A defesa da democracia não vai impedir o desenvolvimento do capitalismo, nem de sua lógica, mas pode abrandar os efeitos sociais e nacionais muito ruins que uma globalização dirigida pelo capital internacional pode promover. Por hora a celebrar, não sem apreensão com o futuro, a vitória da democracia no Brasil.
