sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Tempos fluídos e reaparecimento da extrema direita. José Mauricio de Carvalho

 



Uma das dificuldades que a História contemporânea reserva é compreender como a Alemanha de tantos gênios, intelectuais de todas as áreas do saber e artistas, aquela flor do Reno (Rio tão celebrado em poemas, canções e lendas), a Alemanha da venerável universidade de pesquisa foi engolida pelo nazismo. Não é fácil compreender como se embota a razão crítica, embora possamos acompanhar os passos históricos que levaram ao desastre: a eleição de Hitler, o controle do parlamento, a mudança da constituição, o amordaçamento do judiciário, o controle dos meios de comunicação, a transformação da mentira em verdade. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler valeu-se da destruição da verdade e agia para dar coerência à frase que foi a ele atribuída: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.” Goebbels é o teórico da Fake News, o gênio do mal que inspira a mentira nos meios de comunicação. Ele falou isso muito antes de existir os atuais recursos tecnológicos.

O crescimento das falsas notícias e a multiplicação dos herdeiros de Goebbels em nossos dias se explica pela lógica dos algoritmos e pelo ambiente líquido mencionado por Zygmunt Bauman. O sociólogo descreveu metaforicamente o que está acontecendo na sociedade humana (CARVALHO, Bauman e a liquidez, BH., MPR edições, 2026, p. 207): “A sociedade líquida estimula a rápida mudança dos padrões de vestuário como forma de mudar publicamente de identidade o que é favorecido num tempo em que para sobreviver é preciso, diz Bauman: “o descarte rápido, e cada vez mais abundante, na lata de lixo, dos bens comprados e adquiridos, isso numa economia cuja coluna vertebral é a remoção do lixo. Em outras palavras, a moda e sua contínua mudança acaba favorecida pelo ambiente geral da cultura que acolhe como modo de existir a mudança contínua da vida e dos objetos consumidos.”

Quem nos ajuda a entender e descreveu, desde dentro, o modo como a verdade é destruída e uma sociedade entra em colapso, tornando possível a ascensão do nazismo, foi o médico e filósofo Karl Jaspers. Ele testemuhou tudo e foi perseguido na Alemana nazista, ele, o maior filósofo e gênio da psiquiatria, foi expulso pelos nazistas da Universidade para ser reintegrado, com todas as honras, depois da destruição do nazismo. Quando acabou a Segunda Grande Guerra ele foi considerado o maior intelectual da Alemanha livre. Se pudermos resumir o processo que ele descreveu em Razão e Contra-razão no nosso tempo (Lisboa, Minotauro, s.d.) o processo é mais ou menos assim. A verdade encontrou naquele meio (nazista) não uma resistência comum, mas uma hostilidade assassina. O espírito das fake news acolheu sua inspiração no saber confuso, na desinformação, na mistificação, na repetição da mentira, no desrespeito às leis democráticas e na violência contra quem pensa diversamente. Tudo isso prejudica o uso da razão.

A massa pouco crítica não enxerga nos mágicos e mistificadores o perigo e os seguem. Adoram quem se apresenta como mito, e lhes oferecem um modelo para se identificarem. O uso crítico e educado da razão é como o ar puro que respiramos, mas que as massas evitam, mesmo tendo necessidade dele. A filosofia e a ciência querem o homem livre, fora da sedução do totalitarismo nazista, ou de qualquer outro totalitarismo. A razão iluminista confiante e inocente precisa ser atualizada, ela não consegue enfrentar as forças da desinformação. A fé na razão e seu exercício crítico não permite uma fé irracional. Então, lutar pela razão é lutar pela ciência e pela filosofia, pela democracia e pela liberdade.

Por oferecer explicações rasas e  eliminar o pensamento crítico criando a forma de pensar de manada (ou de gado), os líderes nazistas rejeitam a ciência, a filosofia e as humanidades, em geral. Negar a razão é colocar a sociedade em risco. A substituição de uma religião aberta e coerente com a tradição cristã por um falso cristianismo faz surgir seitas ou agrupamentos inimigos da liberdade e intolerantes.

Finalmente, cabe ouvir a advertência do filósofo. Num tempo tão difícil, mesmo havendo razão para o desânimo é preciso lutar pela verdade, pela democracia, pelo estado de direito, pelos verdadeiros valores cristãos. Apesar de quase sufocada a liberdade superou o obscurantismo e renasceu na Alemanha pós-nazista. Pois bem, vamos esperar que a democracia atual não precise ser morta para depois ter que renascer com tremendas dores de parto.

 


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