sexta-feira, 27 de março de 2026

Feminicídio em três atos. José Mauricio de Carvalho



Uma pesquisa no Brasil sobre o feminicídio mostra números terríveis e crescentes. Uma chaga social que merece o repúdio da sociedade. De 2024 para o ano seguinte os números subiram de 1492 para 1568 feminicídio e as tentativas cresceram de 5150 para 6904. Como avaliar esse fenômeno? Pretendo considerá-lo em três atos.

O primeiro ato é a mudança dos valores resultante da crise de cultura que estamos passando. O pano de fundo é um mundo globalizado em que tudo muda e nada está garantido, descrito pelo sociólogo Zygmunt Bauman como tempo líquido. No livro Vida líquida esse assunto foi examinado e também em Globalização; as consequências humanas e em outras tantas obras de Bauman foi repetido. Vida líquida nos transporta para um mundo onde tudo muda todo o tempo e onde nada parece seguro. Os valores são apenas uma parte da cultura sob pressão, mesmo quando defendemos que os valores possuem uma raiz permanente, ele demanda atualização e novas justificativas. A falta de debate ou reconhecimento do problema apenas o agrava. As mudanças na cultura afetam a experiência ou vivência de valores que até pouco eram estruturantes, mas que recentemente tiveram o reconhecimento enfraquecido. A dignidade da pessoa e a racionalidade estão entre esses valores que precisam ser revitalizados e ensinados. Esse é o principal legado da Aufkärung e ele continua necessário, isto é, permanece, como disse o filósofo Emanuel Kant (1984): “um grande bem que o gênero humano deve extrair da vida” (p. 38). Sem essa compreensão de que a vida humana é o maior valor que temos o homicídio ganha força e a misoginia e feminicídio são parte disso.

Parte desse processo são também as mudanças que afetam os relacionamentos. Eles perderam força e solidez contra tudo o que até pouco se vivia. Bauman descreveu amplamente o fenômeno em Amor Líquido, depois de o considerar em Modernidade Líquida e no último capítulo de Vida a Crédito. No primeiro as características fundamentais dos novos dias já aparecem e somos apresentados a um fenômeno que significa falta de garantia, insegurança e incerteza. Assim, relações começam e terminam com uma rapidez enorme deixando sem chão e sem rumo pessoas que não entendem o que está ocorrendo. É preciso educar essas pessoas que lidar com essa nova realidade.

O segundo ato é o desprestígio das ciências humanas na modernidade líquida inclusive a Filosofia e seu legado para o ocidente: a valorização da razão para encontrar um fundamento e referências para a vida. A Filosofia ensina a valorizar a razão e a própria ciência moderna, justificada por submeter à experiência verificável suas leis. A Filosofia e a Ciência Moderna ensinaram a não tomar por absolutos a experiência pessoal não objetivada, uma vez que nossa capacidade de traduzir o real é incompleta. É o esforço racional que justifica valores como a dignidade da pessoa. A dignidade não deixou de ser valor, mas com o desprestígio das humanidades teve desidratado seu fundamento racional. Assim teve reconhecimento dificultado num mundo líquido e globalizado, que é um lugar de contínuas mudanças, um espaço amplo onde não há ponto de parada para respirar. Não só os valores deixaram de ser considerados, quase tudo no universo da cultura o foi. Essas mudanças deixaram de lado as considerações sobre a realidade definitiva do amor.

O terceiro ato é uma sociedade com características patriarcais que não fez uma autoavaliação dos seus erros e das mudanças necessárias. Uma obra que aborda de forma profunda a história social, racial e cultural do Brasil durante quase todo o período colonial mostra como era a vida numa sociedade patriarcal e escravocrata. O livro de Gilberto Freyre intitulado Casa-Grande & Senzala, faz referência à divisão da sociedade colonial brasileira entre a “casa-grande”, a casa principal dos senhores de engenho e seus descendentes, e a “senzala”, como habitações dos escravos africanos. Essa divisão espacial descrevia hierarquias sociais rígidas e raciais que caracterizaram o Brasil colonial, permitindo entender como se organizou a sociedade patriarcal durante muitos séculos. A mudança dessa realidade não é simples e às vezes permanece inconsciente em muitos, mesmo depois da realidade social haver mudado internamente muitos permanecem sendo coronéis de engenho, racistas e machistas, que é a versão rural do macho alfa.


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