sexta-feira, 20 de março de 2026

VICTOR VICTUS EST. Selvino Antonio Malfatti

 



Na vasta produção intelectual de um dos mais destacados pensadores do século XX,  Jürgen Habermas, destacaremos alguns aspectos. Apenas como notícia ou informação sem pretensão alguma de uma análise mais aprofundada.

Algumas vezes os vencedores na política das arnas foram vencidos pelapoítica da cultura. Aconteceu com os romanos e gregos na antiguidade bem como com os aliados e alemães na 2ª Guerra Mundial. Nesta, os aliados derrotaram um totalitarismo, mas assimilaram boa parte do seu pensamento filosófico e sociológico deste país. Na verdade, a Alemanha foi um verdadeiro celeiro pensadores na segunda metade do século XX. A maioria se esforçou em entender porque sociedades desenvolvidas e racionalmente avançadas reincidiram na barbárie e na irracionalidade da guerra. E a culpa recaiu no período anterior, no Iluminismo, Um dos mais destacados foi Jürgen Habermas, que em parte aceitou, mas com as devidas ponderações.

Jürgen Habermas (1929-2026, 96 anos), num primeiro momento de sua trajetória intelectual filia-se a Escola de Frankfurt, crítica do iluminismo. As teses centrais desta escola foram: 1. Alienação, através da padronização da arte, a indústria cultural. 2. Dominação, pela racionalidade instrumental, resultado pela eficiência. 3. Reificação, a transformação dos sujeitos em mercadorias, coisas. 4. Crítica, análise de regimes políticos, fascismo e autoritarismo.

Com efeito, o professor emérito da PUC/RS, Carlos Alberto Molinaro, entende que a referida escola com seus líderes Theodor Adorno e Max Horkheimer constataram que o iluminismo causou a hecatombe da civilização atual. Concluiram que a racionalidade levou a considerar a natureza e a sociedade objetos que se deveriam submeter o que levou à escravidão. O intuito de querer libertar através da força teve um efeito contrário, o totalitarismo fascista e nazista, causa de toda opressão.

Habermas herdeiro, mas crítico da Escola de Frankfurt, aplicou-lhe a crítica, não a marxista, mas a transcendental, e percebe o ingrediente da racionalidade no iluminismo opondo-se ao pensamento de seus antecessores de viés de dominação e barbárie considerando isto não o normal, mas uma patologia. Na sua reflexão filosófica desenvolveu a teoria da ação comunicativa propondo que a racionalidade emerge da livre discussão até chegar ao consenso. Em seus debates trouxe à luz ética e direito, mas particularmente o conceito de esfera pública, fundamental para a democracia representativa.

Conforme ele em “Mudança Estrutural da Esfera Pública” a esfera pública forma-se quando os cidadãos através de jornais, associações, parlamento discutem racional e livremente questões de interesses de todos.  Esta passa a influenciar nas decisões políticas dos órgãos de governo. A participação livre dos cidadãos garante a democracia.[i]

Por isso, é pela intervenção dos cidadãos livres e não pela força que advirá a liberdade. Mas quê liberdade? A kantiana em parte quando institui o imperativo categórico da ação individual poder tornar-se regra universal. Habermas vê o outro, diferente do mesmo que é o indivíduo. E por isso é dialogando com ele que se institui a liberdade através do consenso da ideia concordada se não por todos, ao menos pela maioria, a opinião pública.[ii

Da vasta produção intelectual a crítica seliciona as seguintes obras:

Mudança Estrutural da Esfera Pública" (1962), "Conhecimento e Interesse" (1968), "Técnica e Ciência como 'Ideologia'" (1968), "Teoria da Ação Comunicativa" (1981) — sua magnum opus —, "O Discurso Filosófico da Modernidade" (1985), "Direito e Democracia: Entre Facticidade e Validade" (1992) e "A Inclusão do Outro" (1996).(Estadão)


[i]  "Só à luz da esfera pública é que aquilo que é consegue aparecer; tudo se torna visível a todos. Na conversação dos cidadãos entre si é que as coisas se verbalizam e se configuram.” (J. Habermas).

[ii] “A validade de uma norma depende de poder encontrar o assentimento de todos os participantes de um discurso prático, enquanto participantes de um discurso racional.”
(Jürgen Habermas, Facticidade e Validade (Faktizität und Geltung)


3 comentários:

  1. Uma boa síntese desse autor importante para entender nosso tempo.

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  2. Participação livre dos cidadãos garante a democracia .
    Perfeito.

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  3. O filósofo da linguagem e ação comunicativa.
    Pensador da democracia.

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