sexta-feira, 3 de abril de 2026

CORRERAM AO SEPULCRO. Selvino Antonio Malfatti

 



Era cedo. Ainda escuro. O mundo parecia suspenso entre a dor e a esperança.

Madalena caminhava apressada, inquieta. Cada passo batia um aperto no coração. Queria apenas cuidar do corpo de Jesus mais uma vez… um último gesto de amor, de gratidão, de despedida.
Mas ao chegar… algo quebrou dentro dela.

O túmulo estava aberto.

Um frio percorreu seu corpo.
“Não… não pode ser…”

Ela não entrou. Não teve coragem. Sua mente disparou antes que o coração pudesse compreender.
— Levaram Ele… roubaram o meu Senhor…

O medo a dominou. Não pensou, não refletiu — apenas correu. Corria como quem tenta fugir da própria dor. Ofegante, desesperada, foi até Pedro e João.


Pedro ouviu as palavras de Madalena e sentiu o peso delas cair sobre sua alma cansada.
“Roubaram…”

Algo dentro dele doeu profundamente.
Já não bastava a culpa que carregava? Já não bastava ter negado o Mestre?

Mesmo assim, levantou-se.
E correu.

Seus passos eram pesados, não apenas pela idade, mas pelo coração carregado. Enquanto corria, sua mente lutava:
“E se for verdade? E se nem o corpo restou? O que mais ainda nos será tirado?”

Mas havia algo mais… uma centelha, quase imperceptível:
“E se não for isso? E se houver algo que ainda não compreendemos?”


João correu ao lado de Pedro — ou melhor, à frente dele.
Seus passos eram leves, movidos por algo mais forte que o medo: o amor.

Enquanto corria, pensamentos se misturavam dentro dele:
“Madalena pode ter se enganado… talvez estivesse escuro… talvez não tenha visto direito…”

Mas, no fundo… havia outra voz, silenciosa e firme:
“Ele disse… Ele prometeu…”

O coração de João batia acelerado — não apenas pelo esforço da corrida, mas por uma esperança que começava a nascer, ainda frágil, mas viva.

“E se Ele estiver vivo? E se tudo isso fizer sentido agora?”


João chegou primeiro. Parou diante do sepulcro aberto.
O silêncio era profundo.

Olhou para dentro… e hesitou.

Pedro chegou logo depois, ofegante, marcado pelo cansaço e pela vida. Sem pensar muito, entrou.

E então… o inesperado.

Os panos estavam ali. Dobrados. Em ordem.
Não havia pressa. Não havia violência. Nada de roubo.

Pedro ficou em silêncio.

Algo começou a mudar dentro dele.
A dor não desapareceu… mas começou a dar lugar a um mistério maior.

João então entrou.

E ao ver… sentiu.

Não era apenas compreender. Era saber.
Uma certeza que não vinha dos olhos, mas do coração:

“Ele vive.”


Madalena, ainda do lado de fora, chorava.
Seu mundo ainda estava em ruínas.
— Levaram o meu Senhor… e não sei onde o colocaram…

Sua dor era real. Sua perda ainda era presente.
Ela ainda não via o que os outros começavam a perceber.


Pedro levantou-se lentamente.
Seu olhar já não era o mesmo. A dúvida se desfazia… algo novo nascia.

João permanecia em silêncio, tomado por uma paz estranha, quase impossível naquele momento.

Os dois se olharam.
E sem dizer muito, entenderam.

A esperança agora não era mais suposição.

Era certeza.


Pedro respirou fundo, como quem decide recomeçar.

— Vamos… precisamos contar aos outros.

João assentiu, com o coração ardendo.

Agora não corriam mais por medo.
Corriam para a vida.

E dentro deles ecoava, cada vez mais forte:

Jesus ressuscitou. Aleluia

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