sexta-feira, 20 de junho de 2025

Ressignificação e Clínica. José Mauricio de Carvalho



Há dois momentos bastante dramáticos numa clínica, independente da escola seguida pelo psicoterapeuta ou filósofo clínico. Hoje, um pouco mais velho e experiente, sem a pressa da juventude, entendo que a teoria é um guia necessário para o caminhar num tratamento, mas é o mundo do paciente o que mais importa. Claro que as escolas distintas possuem procedimentos diferentes e explicações diversas para a personalidade e sua dinâmica, mas há dois momentos difíceis nesse caso. O primeiro é quando não há futuro, o paciente encontra-se no fim de sua jornada terrena, o outro é quando o passado foi muito doloroso.
Normalmente as duas situações pedem ressignificação. Por ressignificação entendemos a capacidade de visitar os pensamentos, emoções, valores e outros aspectos do mundo interno, de modo diverso ao que provoca sofrimento. Esse é o extraordinário trabalho clínico que é preciso realizar com muita habilidade e cuidado. Nos dois casos é preciso que o terapeuta conheça bem seu cliente, entenda como ele funciona. A psicologia fenomenológica e a filosofia clínica fazem isso recuperando a historicidade do paciente, pedindo-lhe que conte sua vida e a forma como lidou com suas experiências.
Ressignificar tem um caráter forte. Trata-se de encontrar um sentido no sofrimento, implica em superá-lo, e essa não é atitude de quem nele se compraz. Sofrer por sofrer não leva ninguém ao crescimento pessoal, não a torna uma pessoa melhor, nem permite o bom enfrentamento de qualquer circunstância.
O psiquiatra e filósofo Viktor Frankl lembrava que se podemos evitar o sofrimento devemos fazê-lo da melhor forma ou é masoquismo. No entanto, se o sofrimento é inevitável podemos ir além dele e o transcender. Transcender significa tornar o sofrimento um sacrifício com sentido. Assim ensinou Viktor Frankl (Fundamentos antropológicos da psicoterapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 244): “a análise existencial se vê às voltas com a tarefa de analisar existencialmente o sofrimento, com vistas à possibilidade de que tenha um sentido.” E se tiver sentido permitirá a quem significou o sofrimento olhar para aquilo de outro modo e hidratar a alma. Por exemplo, caso alguém esteja sofrendo com a perda de um ente querido. Ele irá sofrer o luto, sentirá a perda pois somos humanos, mas poderá dirigir seu olhar para o quanto aquela pessoa deixou nele. Que experiências maravilhosas de amor ficou dali. Poderá entender o quanto aquele ente querido que partiu ainda está com ele, uma parte dessa pessoa ainda habita seu mundo interior. Perceberá o quanto esse ente querido se esforçou para que ele ficasse bem, o quanto companhia de ambos era boa, quanto amor havia naqueles momentos. Assim, aos poucos perceberá que a situação não foi de fato perdida, boa parte da pessoa amada ainda está ali e pode alimentar seu coração. Terá tanta gratidão quanto saudade e depois mais gratidão que saudade.
No caso de a própria pessoa estar no final da vida pode-se perguntar a ela se o que alguém que viveu de significativo acabou, um médico querido que atendia sua família em caso de necessidade, por exemplo. Digamos que esse médico já tenha morrido, toda sua dedicação e cuidado se perdeu? Será que perdeu também valor e significado tudo o que essa pessoa fez naqueles dias já vividos? Será que foi inútil seu trabalho para cuidar dos filhos e os ver crescer sadios? Será que ficou perdido sua dedicação profissional? É claro que não. A própria pessoa encontrará sentido e ressignificará o seu passado para que ele hidrate seja o sentido que seu futuro pode não lhe reservar.
A clínica é um espaço maravilhoso de entranças e reentrâncias e o clínico é um companheiro de jornada para permitir que a pessoa se reconstrua continuamente à medida que ressignifica suas experiências e expectativas.

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sábado, 14 de junho de 2025

XV Colóquio Antero de Quental No XV Colóquio Antero de Quental será preservado o formato tradicional com avaliação do pensamento de Leônidas Hegenberg. O objetivo deste colóquio é proporcionar a discussão e o intercâmbio de conhecimentos e conceitos filosóficos entre estudantes e pesquisadores que investigam o pensamento luso-brasileiro. Aprofundar as diversas dimensões investigativas das reflexões filosóficas presentes nas obras de Leonidas Hegenberg, membro do IBF e representante importante da área de Lógica e Epistemologia. O colóquio contará com palestras e mesas-redondas reunindo nomes relevantes da área e promovendo um ambiente de aprendizado, colaboração e networking. Inscrições Realizar inscrição Atividades quarta, 16/07 quinta, 17/07 sexta, 18/07 Mesa de Abertura: Homenagem a Newton da Costa e Anna Maria Moog Rodrigues10:00-10:30 Mesa de Abertura: Homenagem a Newton da Costa e Anna Maria Moog Rodrigues10:00-10:15 Palavra de boas-vindas10:15-10:30 Leônidas Hegenberg, sua palavra pela ciência e pela ética10:45-11:40 Lógica e Explicações Científicas: duas contribuições de Leônidas Hegenberg para o avanço do conhecimento no Brasil10:45-11:40 Debates e comentários complementares12:00-12:30 Intervalo12:30-14:30 A filosofia moral em Leônidas Hegenberg nas dimensões da ética e metaética14:30-15:30 Ciência: métodos e significação na perspectiva de Leônidas Hegenberg14:30-15:30 Significado e conhecimento na perspectiva de Leônidas Hegenberg14:30-15:30 Debates e comentários complementares15:30-16:00 Apresentação da Revista NOVA ÁGUIA, das Atas do XIV Colóquio Tobias Barreto, do VIII Colóquio do Atlântico e de outros Livros do MIL17:15-18:00 Quero participar das atividades Convidados

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Lições de Antônio Paim para o mundo líquido. José Mauricio de Carvalho

 

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Jacques Derrida, um dos expoentes do pensamento contemporâneo desenvolveu o conceito de desconstrução para examinar, no interior dos textos, contradições, ambiguidades e a instabilidade do significado. Isso acontece porque reconhecemos no sujeito um mundo singular que sugere que os conceitos tenham múltiplas interpretações e diferentes significados. E essa forma de pensar, que acolhe o entendimento de que somos mundos diferentes, com olhares diferentes para a realidade pode sugerir que não há referências para fora do discurso e que a verdade se encerra no espaço desse olhar singularíssimo, que foi uma descoberta importante. O propósito daquele filósofo foi indicar que as contradições e dificuldades no mundo das pessoas não são naturais, mas construídas e instáveis. Não estou certo se ele queria mais que isso. Porém, o risco dessa forma de pensar, como salientaram Bauman e Bordoni em Estado de Crise, foi alimentar um perspectivismo absoluto, sem balizamento, que possa ser usado para justificar que tudo quando é dito é um discurso e que pode ser desmontado, pois tudo fica nele.
Na mesma direção de Derrida, o filósofo italiano Gianni Vattimo, identificou uma forma de pensar que recusa as verdades objetivas e certezas que não podem vir desse pensamento fechado que é débil. Ele parece sugerir que não há certezas inquestionáveis em horizontes linguísticos controversos, sendo toda forma de pensar variável e que se modifica. Junto com Pier Aldo Rovatti aprofundou o tema do pensamento débil que parte da ambiguidade e incertezas humanas para avaliar que nossa compreensão da realidade é puramente subjetiva. São teóricos o que nos apresentam o espaço da absoluta instabilidade mencionada por Bauman. Tudo o que foi dito por esses dois pensadores sugere um indivíduo que se reconhece sozinho e sem referências, numa realidade que se esvazia diante dele e nada lhe assegura. O resultado disso acaba sendo um relativismo absoluto cultivado numa sociedade sem memória. Num tal ambiente, as explicações de Paim para as perspectivas transcendente e transcendental e das diferenças entre os tipos de objetos da consciência significam um caminho para dialogar com segurança, dando e tendo a razão reconhecida.
Os elementos indicados na formulação de Antônio Paim significam resguardos necessários ao pensamento para justificar a validade das verdades filosóficas, ciência, pessoal, etc. Ainda que o que foi sugerido pelo filósofo brasileiro conviva em paz com a ideia de que somos consciências únicas, com olhares singulares para o mundo. A filosofia da cultura de Paim, embora diversa da concebida por Ortega y Gasset, oferece como ele, elementos de objetividade axiológica para além daqueles sugeridos pelo racionalismo moderno. Essas referências ficam mais importantes à medida que avança essa mentalidade líquida.
O que se encontra nas ideias de Vattimo e Rovatti, como expressão de um pensar atual, sugere que não há mais uma ideia ampla de história, do mesmo modo que não há nada, quando consideramos os relatos de Bauman, que possibilite uma compreensão verdadeira do mundo. Em última instância isso desqualifica os resultados da ciência e mesmo da lógica filosófica para não falar de um relativismo axiológico. O que procuramos indicar foi que o culturalismo de Paim, mesmo sem se valer de parâmetros tradicionais do racionalismo idealista moderno oferece elementos para pensar a História com alguma objetividade, evitando as previsões e o determinismo, mas oferecendo um modo de lidar com o passado e o futuro que fortalecem o presente. O que vem do culturalismo de Paim ajuda a marcar uma noção de História que não fique no espaço fluído daqueles mínimos propostos por Vattimo e Aldo Rovatti. O pensamento de Paim aparece como alternativa à dissolução da História.
Aprofundemos a questão moral. De Bauman vem um resumo do que vem acontecendo. Em Estranhos a nossa porta, mas especialmente em Vida em Fragmentos, sobre a ética pós-moderna são livros que resumem a questão. Neles ele comentou os dilemas éticos da pós-modernidade. O tema reapareceu em A arte da vida. Nesse último o sociólogo indicou que (BAUMAN, 2021, p. 137): “a necessidade da moral, ou simplesmente o fato de ela ser recomendável, não pode nem precisa ser discursivamente estabelecida, muito menos provada.” Portanto, escolhas morais não são propriamente necessidade e nem precisam de justificação teórica. E há mais, a sociedade liquida orientou a procura da felicidade para dentro e faz a escolha moral ser um movimento entorno do próprio sujeito narcisicamente considerado. Em outras palavras (id., p. 140): “os conceitos de responsabilidade e escolha responsável, que antes habitavam o campo semântico do dever ético de preocupar-se com as necessidades do outro, agora se mudaram ou foram transferidos para o reino da autorrealização.”
As posições de Paim mostram que a consciência humana reconhece valores no tempo e que eles são referência para ação. Valores estão além de uma subjetividade narcísica e ansiosa por gozar. Como o resultado emocional dos amores líquidos e do egoísmo extremo estão produzindo resultados ruins, um modelo ético que proponha reconhecer o valor do outro parece importante e relevante de ser considerado. E importante é que o historicismo axiológico proposto, o reconhecimento cultural dos valores não exige profunda elaboração, apenas sintonia com a tradição cultural.
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sábado, 7 de junho de 2025

SEBASTIÃO SALGADO, À SOMBRA DO PRETO E BRANCO. Selvino Antonio Malfatti.



 


Por ocasião de o presidente Luís Inácio Lula da Silvas visitar o  Estado da  França, ainda se sentia a ausência do fotógrafo franco-brasileiro: Sebastião Salgado, falecido em 23 de maio.

A obra fotográfica de Sebastião Salgado, marcada pelo uso do preto e branco, destaca-se no cenário internacional pelo seu forte comprometimento ético, social e ambiental. Seus ensaios visuais constituem um testemunho da condição humana, retratando trabalhadores, migrantes e populações vulneráveis em contextos de exclusão e desigualdade. Ao aliar estética e denúncia, suas imagens transcendem o valor artístico e assumem um papel crítico e político, promovendo a reflexão sobre questões estruturais da sociedade contemporânea. Nos trabalhos mais recentes, voltados à conservação ambiental, Salgado amplia sua atuação, abordando a relação entre humanidade e natureza. Sua obra, assim, configura-se como instrumento de sensibilização coletiva, propondo um olhar humanista e transformador sobre o mundo.”

Brasil mantém uma longa tradição de intercâmbio franco-brasileiro que continua dando bons frutos. às vésperas de nossa independência em 1816 chegou ao Brasil a Missão francesa, sob o comando de Joachin Lebroton trazendo artistas e artesãos para fundar aqui a escola de Artes e Ofícios depois a Escola Real de Artes. O intercâmbio continua com Oscar Santos do Mont (1873 – 1932),  Niemeyer (1907-2012), o botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), a fotógrafa Claudia Andujar, o músico Georges Moustaki (1934-2013), a coreógrafa Lia Rodrigues, a pintora Tarsila do Amaral (1886-1973) e o médium Allan Kardec (1804-1869) entre outros.

A presença de Lula na França foi marcada por festas, Doutor Honoris, fotos na Torre Eiffel decorada de verde-amarelo, reuniões e muita bajulação em que pese o luto do Brasil pelas mortes de Niède Guidon e de Sebastião Salgado. Este um fotógrafo franco-brasileiro e aquela uma arqueóloga também franco-brasileira que levantou a hipótese de africanos terem habitado a América além de asiáticos.

A alma viva, porém era Sebastião Salgado. Abaixo as mais emblemáticas obras suas:

1. Trabalhadores (1993)

Um ensaio fotográfico monumental sobre o trabalho humano ao redor do mundo, especialmente em formas de trabalho pesado e manual.

Mostra mineradores, operários, cortadores de cana, pescadores, entre outros, ressaltando a dignidade e a dureza do trabalho.

2. Terra (1997)

Foca na vida e na luta dos trabalhadores rurais sem terra no Brasil.

Foi feito em colaboração com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com forte conteúdo político e social.

3. Êxodos (2000)

Documenta os movimentos migratórios globais, como refugiados, exilados, deslocados por guerras, pobreza ou desastres ambientais.

Uma obra humanista que ressalta o sofrimento e a resiliência de populações deslocadas.

4. Gênesis (2013)

Projeto que durou mais de oito anos, focado na natureza, nos povos indígenas e em territórios praticamente intocados pela ação humana.

Revela a beleza e diversidade do planeta, funcionando como um alerta ecológico e um tributo à Terra.

5. Amazônia (2021). Conjunto de fotografias feitas ao longo de sete anos na região amazônica brasileira.

A mais conhecida e famosa é Êxodos.




sexta-feira, 30 de maio de 2025

AUDIÊNCIA - A NOVA DEMOCRACIA -. Selvino Antonio Malfatti.

 

 


Há democracia de notáveis, somente os nobres votam; de elite, nesta só nos ricos votam; de massas, todos votam.

Agora surge outra: Democracia de AUDIÊNCIA.  (Sociólogo Edgar Manin - Os princípios do governo representativo). Nesta recebe mais votos o que mais brilha, encanta. O que faz mais espetáculo.  Desfiles de candidatos, passeatas, shows, carreatas, carros de som, danças, coreografias. O brilho da apresentação.

Como se manifesta concretamente a democracia de audiência

Personalização da política

A atenção dos eleitores se volta para as figuras dos candidatos, mais do que para os programas partidários. Líderes carismáticos ganham destaque, e a imagem pública se torna central. A relação entre governantes e governados passa a ser mediada pela mídia, especialmente pela televisão (e, mais recentemente, pela internet).

Primazia da comunicação midiática

O debate político se desloca para os meios de comunicação de massa, onde os eleitores são "audiência" de um espetáculo político. O sucesso de um político depende da sua capacidade de comunicação, de conquistar a opinião pública, e não apenas da fidelidade partidária ou do debate programático.

Declínio da centralidade dos partidos

Os partidos continuam existindo, mas perdem parte de sua função tradicional de formação ideológica e mobilização de base. Os eleitores se tornam menos fiéis a partidos específicos e mais suscetíveis a mudar de voto conforme a performance individual dos candidatos.

Eleitor como espectador

O cidadão-eleitor se comporta mais como um espectador crítico do que como um participante ativo do processo político. A política se transforma num espetáculo de comunicação, e a deliberação pública se torna fragmentada e superficial.

Campanhas centradas em imagem e opinião pública

As campanhas eleitorais se apoiam em estratégias de marketing político, uso de pesquisas de opinião, slogans e apelos emocionais, reforçando uma lógica de consumo: o eleitor "escolhe" um candidato como um consumidor escolhe um produto.

Em resumo:

A democracia de audiência é uma forma de democracia representativa onde os cidadãos se relacionam com os representantes através da mediação da imagem e da comunicação, não mais por meio da identificação partidária ou da participação ativa em estruturas coletivas. Essa transformação altera a natureza da representação política, reforçando a centralidade do indivíduo e da performance no espaço público.

A reflexão do sociólogo Bernard Manin constata que houve e há erosão da representação política tradicional. Observa que os partidos políticos e os políticos perderam a capacidade de estruturar a vontade popular de forma eficaz. Isso leva ao enfraquecimento do vínculo entre eleitores e representantes. As instituições políticas representativas ficaram fragilizadas. E por isso estão ameaçadas. Quais as ameaças?  

Esses pontos revelam que a democracia contemporânea está se afastando de seus fundamentos representativos e deliberativos, abrindo espaço para formas de governo autoritárias e tecnocráticas. O que mais promete na mídia é mais aplaudido daquele que promete o possível. O político de audiência fala bonito e encanta sem compromisso com a verdade, como por exemplo:

“Deus deixou o sertão sem água porque sabia que EU ia trazer!”

 

 

sexta-feira, 23 de maio de 2025

O EXPANSIONISMO DE TRUMP. Selvino Antonio Malfatti.

 

 



Na posse, Trump edita os principais pontos de seu programa de governo[i]. Todas as medidas afetam mais aos estrangeiros que seu próprio país. Ele quer não só a América para os americanos, mas o mundo para os americanos ou domínio do mundo.

De imediato ergue um “muro” que se estende do Golfo do México (da América conforme Trump) ao oceano pacífico como fronteira da América. A justificativa é proteger seu país de “traficantes de drogas e criminosos e estupradores” que corrompem a pureza do sangue de seu país. Abole as antigas alianças abrindo caminho para o expansionismo, tal como o Canal do Panamá, cedido por Jimmy Carter o qual acreditava na equidade nas relações entre as nações. Trump crê apenas no vantajoso e quando uma aliança deixa de ter as razões de quando foi criada pode ser rompida, conforme Maquiavel. Quão longe estamos da Aliança para o Progresso de John F. Kennedy, em 1961!

O apetite de Trump pela expansão do domínio exterior é ilimitado e insaciável. Até mesmo em assuntos estranhos. É o caso do questionamento da soberania no canal do Panamá. Em que pese a promessa de acabar com as guerras nada justifica sua ingerência em estados autônomos como a Groenlândia dinamarquesa que, qual o Panamá, reivindica interesse estratégico. Às vezes assume um ar profético como um Moisés apontando para a Terra Prometida. Para tanto conclama os cristãos, mormente os evangélicos para que votem nele e tudo está resolvido.[ii]

A aproximação de Trump com os bilionários como ele e não com políticos de seu país antevê a inauguração de uma república oligarca econômico-científico-tecnológico. A presença de Elon Musk lhe garante este objetivo. É mais tranquilo aliar-se a donos das redes sociais X e Space X que nada objetam em questões de transgênero que enfrentar os debates na câmara e no Senado. O expansionismo obedece a uma lógica maquiavélica com a ausência de regras ou abolição das existentes abre o caminho para o dono da lei e das regras. Oxalá as demais nações democráticas não sigam seu exemplo. Ficou evidente o móvel de sua política externa: "Não seremos conquistados, não seremos intimidados". Pelo visto nada detém sua tirania de príncipe. Para chegar a seus objetivos vale tudo: armas, taxas, deportações, protecionismo.

Neste contexto entram as tarifas. Estas fazem parte da história econômica dos USA. Desde os Pais Fundadores a questão perpassa os governos americanos. Tanto o secretário de estado (para nós seria Ministro) Thomas Jefferson e seu secretário do tesouro Alexander Hamilton são frutos do iluminismo. Ambos participaram da Revolução Americana, mas são ideologicamente  contrários um do outro. Thomas Jefferson defendeu os interesses agrários do sul, Alexander Hamilton defende os interesses industriais do norte. A tradição Jeffersoniana é pelo laissez faire, livre comércio, governo limitado. Seu oposto Hamilton defende o protecionismo, indústrias domésticas. Trump se encaixa nesta tradição. Para tanto impõe as tarifas afastando os importadores querendo desenvolver a indústria doméstica. Daí seu lema: “amo as tarifas”. O problema foi o estrago que as tarifas causou às economias mundiais e, por tabela, a própria. Agora está voltando atrás não “motu próprio”, mas pela pressão internacional e de seu país.

Os outros itens de seu programa estão em andamento. Deportações em massas, aos milhares, pressão sobre o judiciário para que não proteja os imigrantes, atritos com o Panamá, Dinamarca  e Canadá. Nada de acordos sobre clima e saída da OMS. 



[i]   Emergência nos limites entre Usa e México, deportação em massa e imediata de imigrantes ilegais, fica abolido o “ius soli” da  cidadania americana, o golfo do México passa a denominar-se Golfo da América, saída do acordo do clima de Paris, saída da Organização Mundial da Saúde, fim do incentivo para automóveis elétricos, fim da proibição de perfuração no Alasca, fim dos limites de concessões de licenças para o petróleo e atividade mineral, fim dos investimentos na energia renovável, a administração federal reconhece só dois sexos: masculino e feminino, os cartéis de drogas passam para a categoria do “organizações terroristas estrangeiras”

[ii] E mais uma vez, queridos cristãos, saiam de suas casas e vão votar; só desta vez; você não precisará mais fazer isso. Vocês não precisarão votar novamente no futuro, meus lindos amigos cristãos. Eu te amo, eu sou um cristão, eu te amo; Saia de sua casa e vote. Em quatro anos, você não terá que votar novamente. Teremos organizado tudo, para que você não precise mais votar.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Leão XIV e o legado de Agostinho. José Mauricio de Carvalho

 



A eleição do cardeal Robert Prevost, Leão XIV, realçou a herança espiritual de Agostinho de Hipona, inspirador da Ordem Religiosa a que ele pertence. Isso porque, em suas primeiras comunicações, o Pontífice revelou elementos da espiritualidade agostiniana. Apresentou-nos, evidentemente, aspectos dessa herança atualizada, porque a problemática do Bispo de Hipona, que viveu entre o quarto e o quinto século, como de todos os pensadores, é sempre datada e responde aos questionamentos de um dado tempo, ainda que contemple elementos universais.

Agostinho de Hipona, foi um pensador que impactou de forma profunda a tradição filosófica. Pelo menos entorno a dois temas importantes que são: a História e o Espírito (intimidade ou subjetividade que no seu tempo não se separava da alma como passaram a fazer os fenomenólogos atualmente). Para ambos os temas deixou contribuições notáveis que enriqueceram a tradição filosófica. O primeiro conteúdo abriu as portas para as filosofias da História de Bossuet, Hegel e dos idealistas em geral e o segundo ofereceu elementos de hidratação à mística cristã e aos estudos da subjetividade, como também fez Descartes. Claro que com a diferença de que a subjetividade agostiniana não se compreende sem Deus, ao contrário de Descartes onde Deus entra como arranjo.

O filósofo formou-se sob dupla influência. Um pai instruído, mas pagão e uma mãe cristã e santa, mas sem formação intelectual maior. Depois de uma juventude onde mergulhou nos prazeres mundanos iniciou um caminho de elevação espiritual que nunca mais parou e o conduziu a líder intelectual dos cristãos e bispo da Igreja. Nesse caminhar Cícero o colocou em contato com a tradição filosófica e, mais tarde, Ambrósio o apresentou a doutrina cristã dos primeiros padres.

Embora sua construção intelectual seja ampla queremos destacar três obras que nos legou: A Cidade de Deus (a mais importante da perspectiva filosófica), As Confissões (que abriu os estudos sobre o mundo interior) e o Tratado sobre a Trindade, onde proclamou a divindade de Jesus e caracterizou o mal como ausência de Deus.

Em Confissões realizou uma autoanálise, descrevendo sua jornada interior até alcançar Deus no fundo da alma, também tratando da morte, da finitude e das dificuldades e erros humanos. Como em Platão, o homem foi considerado simultaneamente anjo e fera. A alma possuía as seguintes faculdades: memória, inteligência e vontade (amor), nessa última ele enxergou a presença de Deus. No livro abordou a vida interior, o encontrar a si mesmo e ficar a sós com seu eu.

Para o filósofo, a alma faz uma jornada de fora para dentro, mas não se fecha em si, ao descobrir Deus ela descobriu o que é maior e que se reflete nela. Se a contemplação do mundo (teoria da iluminação platônica) nos apresenta seres temporais e contingentes, eles abrem o caminho para o Eterno, Imutável, Altíssimo e necessário que lhes serve de base. Como em Platão, as ideias estão na mente divina (Ser absoluto) e dão origem ao mundo (o mundo é reflexo dessas ideias ou modelos exemplares que Deus usou para criá-lo). Embora Deus seja descoberto na interioridade, ele, mesmo visitado, permanece inacessível a todo entendimento, apenas se deixando vislumbrar na alma. O mundo que habitamos foi criado por Ele e por sua vontade e bondade.

Enquanto Platão partia do mundo que chegar às Ideias eternas, Agostinho partiu dos movimentos da alma que alimentam a sensibilidade. É a alma que conhece o mundo, primeiro sensorialmente, depois quando se dobrou sobre si mesma e, finalmente, enquanto percorreu as vias íntimas descobrindo Deus. Com essa jornada, o filósofo não apenas defendeu a divindade de Jesus como superou o materialismo maniqueísta que lhe inspirara na juventude e ganhava força naqueles dias.

O filósofo criou um diálogo entre razão e fé que abriu a problemática medieval, embora nele a pesquisa e o estudo somente fossem bons quando incorporavam a sabedoria vinda de Deus. Porém, o estudo é fundamental porque não se pode amar o que se desconhece. A viabilidade desse mergulho em Deus decorre da marca deixada por Deus na alma de cada homem.  O conhecimento em si não conduz à felicidade ou a satisfação que só vem com a sabedoria. Essa surge no contato com as verdades eternas que ele encontrou nas cartas de Paulo. Sem sabedoria, o conhecimento é incompleto e impuro. O mal decorre da ausência de sabedoria. A origem das criaturas é o Eterno, base de sua cosmologia contra os Maniqueus. O mal em si não existe, ele é a ausência do bem ou da presença de Deus.

Na Cidade de Deus há uma reflexão análoga a cartesiana, que contempla a descoberta do eu, acima de todas as dúvidas. Não há engano na constatação de que sou. Se existo, não me engano a esse respeito, pois ainda que me enganasse sobre tudo continuaria a existir. Por seu próprio exercício, o espírito conhece as coisas, a si mesmo e indiretamente a Deus, presente na criação e sua causa fundamental. Todos os nossos conceitos são insuficientes para falar de Deus, mas nos dizem algo Dele. Na sua antropologia a alma, como o corpo vem dos pais, daí o pecado original ser deles herdado. Parte dessas ideias entra no protestantismo, Lutero era monge agostiniano.

Que lições deixou Agostinho para nossos dias? O propor que o movente maior da vida é amor (em suas várias formas). Quando alguém está em sintonia consigo move-se no amor. Sua luz elimina a sombra e atrai a verdade, como lembrou o Papa Leão XIV. Assim, não basta conhecer a lei (natural e divina) é preciso agir conforme ela, vive-la. É o amor que qualifica e move a alma. Esse é o núcleo do pensamento ético de Agostinho, daí o famoso imperativo ama e faz o quiseres (de acordo com esse movimento da alma para o amor). Agostinho identificou a necessidade da construção da Cidade de Deus, mostrando que o caminho da humanidade é um desafio moral de humanização, uma história com referência moral vivida no Reino de Deus. Por isso é, que o mal não prevalecerá, disse o Papa Leão XIV, porque o processo tem um fiador. Agostinho apontou os desafios maiores do cristianismo, uma história que vence e supera o mal e uma interioridade onde essa batalha também deve ser travada e vencida.

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