sexta-feira, 20 de junho de 2025
Ressignificação e Clínica. José Mauricio de Carvalho
sábado, 14 de junho de 2025
sexta-feira, 13 de junho de 2025
Lições de Antônio Paim para o mundo líquido. José Mauricio de Carvalho
sábado, 7 de junho de 2025
SEBASTIÃO SALGADO, À SOMBRA DO PRETO E BRANCO. Selvino Antonio Malfatti.
Por ocasião de o presidente Luís Inácio Lula da Silvas visitar o Estado da França, ainda se sentia a ausência do fotógrafo franco-brasileiro: Sebastião Salgado, falecido em 23 de maio.
Brasil mantém uma longa tradição de intercâmbio franco-brasileiro que continua dando bons frutos. às vésperas de nossa independência em 1816 chegou ao Brasil a Missão francesa, sob o comando de Joachin Lebroton trazendo artistas e artesãos para fundar aqui a escola de Artes e Ofícios depois a Escola Real de Artes. O intercâmbio continua com Oscar Santos do Mont (1873 – 1932), Niemeyer (1907-2012), o botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), a fotógrafa Claudia Andujar, o músico Georges Moustaki (1934-2013), a coreógrafa Lia Rodrigues, a pintora Tarsila do Amaral (1886-1973) e o médium Allan Kardec (1804-1869) entre outros.
A presença de Lula na França foi marcada por festas, Doutor Honoris, fotos na Torre Eiffel decorada de verde-amarelo, reuniões e muita bajulação em que pese o luto
do Brasil pelas mortes de Niède Guidon e de Sebastião Salgado. Este um
fotógrafo franco-brasileiro e aquela uma arqueóloga também franco-brasileira
que levantou a hipótese de africanos terem habitado a América além de asiáticos.
A alma viva, porém era Sebastião Salgado. Abaixo as mais emblemáticas obras suas:
1. Trabalhadores (1993)
Um ensaio fotográfico
monumental sobre o trabalho humano ao redor do mundo, especialmente em formas
de trabalho pesado e manual.
Mostra mineradores,
operários, cortadores de cana, pescadores, entre outros, ressaltando a dignidade
e a dureza do trabalho.
2. Terra (1997)
Foca na vida e na luta dos
trabalhadores rurais sem terra no Brasil.
Foi feito em colaboração com
o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com forte conteúdo
político e social.
3. Êxodos (2000)
Documenta os movimentos
migratórios globais, como refugiados, exilados, deslocados por guerras, pobreza
ou desastres ambientais.
Uma obra humanista que
ressalta o sofrimento e a resiliência de populações deslocadas.
4. Gênesis (2013)
Projeto que durou mais de
oito anos, focado na natureza, nos povos indígenas e em territórios praticamente
intocados pela ação humana.
Revela a beleza e
diversidade do planeta, funcionando como um alerta ecológico e um tributo à
Terra.
5. Amazônia (2021). Conjunto de fotografias feitas ao longo de sete anos na região amazônica brasileira.
A mais conhecida e famosa é Êxodos.
sexta-feira, 30 de maio de 2025
AUDIÊNCIA - A NOVA DEMOCRACIA -. Selvino Antonio Malfatti.
Há democracia de notáveis, somente os nobres votam; de
elite, nesta só nos ricos votam; de massas, todos votam.
Agora surge outra: Democracia de AUDIÊNCIA. (Sociólogo Edgar Manin - Os princípios do
governo representativo). Nesta recebe mais votos o que mais brilha, encanta. O
que faz mais espetáculo. Desfiles de candidatos, passeatas, shows,
carreatas, carros de som, danças, coreografias. O brilho da apresentação.
Como se manifesta concretamente a democracia de audiência
Personalização da política
A atenção dos eleitores se volta para as figuras dos
candidatos, mais do que para os programas partidários. Líderes carismáticos
ganham destaque, e a imagem pública se torna central. A relação entre
governantes e governados passa a ser mediada pela mídia, especialmente pela
televisão (e, mais recentemente, pela internet).
Primazia da comunicação midiática
O debate político se desloca para os meios de comunicação
de massa, onde os eleitores são "audiência" de um espetáculo
político. O sucesso de um político depende da sua capacidade de comunicação, de
conquistar a opinião pública, e não apenas da fidelidade partidária ou do
debate programático.
Declínio da centralidade dos partidos
Os partidos continuam existindo, mas perdem parte de sua
função tradicional de formação ideológica e mobilização de base. Os eleitores
se tornam menos fiéis a partidos específicos e mais suscetíveis a mudar de voto
conforme a performance individual dos candidatos.
Eleitor como espectador
O cidadão-eleitor se comporta mais como um espectador
crítico do que como um participante ativo do processo político. A política se
transforma num espetáculo de comunicação, e a deliberação pública se torna
fragmentada e superficial.
Campanhas centradas em imagem e opinião pública
As campanhas eleitorais se apoiam em estratégias de
marketing político, uso de pesquisas de opinião, slogans e apelos emocionais,
reforçando uma lógica de consumo: o eleitor "escolhe" um candidato
como um consumidor escolhe um produto.
Em resumo:
A democracia de audiência é uma forma de democracia
representativa onde os cidadãos se relacionam com os representantes através da
mediação da imagem e da comunicação, não mais por meio da identificação
partidária ou da participação ativa em estruturas coletivas. Essa transformação
altera a natureza da representação política, reforçando a centralidade do
indivíduo e da performance no espaço público.
A reflexão do sociólogo Bernard Manin constata que houve
e há erosão da representação política tradicional. Observa que os partidos
políticos e os políticos perderam a capacidade de estruturar a vontade popular
de forma eficaz. Isso leva ao enfraquecimento do vínculo entre eleitores e
representantes. As instituições políticas representativas ficaram fragilizadas.
E por isso estão ameaçadas. Quais as ameaças?
Esses pontos revelam que a democracia contemporânea está
se afastando de seus fundamentos representativos e deliberativos, abrindo espaço
para formas de governo autoritárias e tecnocráticas. O que mais promete na
mídia é mais aplaudido daquele que promete o possível. O político de audiência
fala bonito e encanta sem compromisso com a verdade, como por exemplo:
“Deus deixou o sertão sem água porque sabia que EU ia
trazer!”
sexta-feira, 23 de maio de 2025
O EXPANSIONISMO DE TRUMP. Selvino Antonio Malfatti.
Na posse, Trump edita os principais pontos de seu programa
de governo[i]. Todas as medidas afetam
mais aos estrangeiros que seu próprio país. Ele quer não só a América para os
americanos, mas o mundo para os americanos ou domínio do mundo.
De imediato ergue um “muro” que se estende do Golfo do México (da América conforme Trump) ao oceano pacífico como fronteira da América. A justificativa é proteger seu país de “traficantes de drogas e criminosos e estupradores” que corrompem a pureza do sangue de seu país. Abole as antigas alianças abrindo caminho para o expansionismo, tal como o Canal do Panamá, cedido por Jimmy Carter o qual acreditava na equidade nas relações entre as nações. Trump crê apenas no vantajoso e quando uma aliança deixa de ter as razões de quando foi criada pode ser rompida, conforme Maquiavel. Quão longe estamos da Aliança para o Progresso de John F. Kennedy, em 1961!
O apetite de Trump pela expansão do domínio exterior é
ilimitado e insaciável. Até mesmo em assuntos estranhos. É o caso do
questionamento da soberania no canal do Panamá. Em que pese a promessa de
acabar com as guerras nada justifica sua ingerência em estados autônomos como a
Groenlândia dinamarquesa que, qual o Panamá, reivindica interesse estratégico.
Às vezes assume um ar profético como um Moisés apontando para a Terra
Prometida. Para tanto conclama os cristãos, mormente os evangélicos para que
votem nele e tudo está resolvido.[ii]
A aproximação de Trump com os bilionários como ele e não
com políticos de seu país antevê a inauguração de uma república oligarca
econômico-científico-tecnológico. A presença de Elon Musk lhe garante este
objetivo. É mais tranquilo aliar-se a donos das redes sociais X e Space X que
nada objetam em questões de transgênero que enfrentar os debates na câmara e no
Senado. O expansionismo obedece a uma lógica maquiavélica com a ausência de
regras ou abolição das existentes abre o caminho para o dono da lei e das
regras. Oxalá as demais nações democráticas não sigam seu exemplo. Ficou evidente o móvel de sua política externa:
"Não seremos conquistados, não seremos intimidados". Pelo visto nada
detém sua tirania de príncipe. Para chegar a seus objetivos vale tudo: armas,
taxas, deportações, protecionismo.
Neste contexto entram as tarifas. Estas fazem parte da história
econômica dos USA. Desde os Pais Fundadores a questão perpassa os governos
americanos. Tanto o secretário de estado (para nós seria Ministro) Thomas
Jefferson e seu secretário do tesouro Alexander Hamilton são frutos do
iluminismo. Ambos participaram da Revolução Americana, mas são
ideologicamente contrários um do outro.
Thomas Jefferson defendeu os interesses agrários do sul, Alexander Hamilton defende
os interesses industriais do norte. A tradição Jeffersoniana é pelo laissez faire,
livre comércio, governo limitado. Seu oposto Hamilton defende o protecionismo,
indústrias domésticas. Trump se encaixa nesta tradição. Para tanto impõe as
tarifas afastando os importadores querendo desenvolver a indústria doméstica.
Daí seu lema: “amo as tarifas”. O problema foi o estrago que as tarifas causou às
economias mundiais e, por tabela, a própria. Agora está voltando atrás não “motu
próprio”, mas pela pressão internacional e de seu país.
Os outros itens de seu programa estão em andamento. Deportações em massas, aos milhares, pressão sobre o judiciário para que não proteja os imigrantes, atritos com o Panamá, Dinamarca e Canadá. Nada de acordos sobre clima e saída da OMS.
[i] Emergência nos limites entre Usa e México,
deportação em massa e imediata de imigrantes ilegais, fica abolido o “ius soli”
da cidadania americana, o golfo do
México passa a denominar-se Golfo da América, saída do acordo do clima de
Paris, saída da Organização Mundial da Saúde, fim do incentivo para automóveis
elétricos, fim da proibição de perfuração no Alasca, fim dos limites de
concessões de licenças para o petróleo e atividade mineral, fim dos
investimentos na energia renovável, a administração federal reconhece só dois
sexos: masculino e feminino, os cartéis de drogas passam para a categoria do
“organizações terroristas estrangeiras”
[ii] E
mais uma vez, queridos cristãos, saiam de suas casas e vão votar; só desta vez;
você não precisará mais fazer isso. Vocês não precisarão votar novamente no
futuro, meus lindos amigos cristãos. Eu te amo, eu sou um cristão, eu te amo;
Saia de sua casa e vote. Em quatro anos, você não terá que votar novamente.
Teremos organizado tudo, para que você não precise mais votar.
sexta-feira, 16 de maio de 2025
Leão XIV e o legado de Agostinho. José Mauricio de Carvalho
A eleição do cardeal Robert
Prevost, Leão XIV, realçou a herança espiritual de Agostinho de Hipona,
inspirador da Ordem Religiosa a que ele pertence. Isso porque, em suas
primeiras comunicações, o Pontífice revelou elementos da espiritualidade
agostiniana. Apresentou-nos, evidentemente, aspectos dessa herança atualizada,
porque a problemática do Bispo de Hipona, que viveu entre o quarto e o quinto
século, como de todos os pensadores, é sempre datada e responde aos
questionamentos de um dado tempo, ainda que contemple elementos universais.
Agostinho de Hipona, foi um
pensador que impactou de forma profunda a tradição filosófica. Pelo menos
entorno a dois temas importantes que são: a História e o Espírito (intimidade
ou subjetividade que no seu tempo não se separava da alma como passaram a fazer
os fenomenólogos atualmente). Para ambos os temas deixou contribuições notáveis
que enriqueceram a tradição filosófica. O primeiro conteúdo abriu as portas
para as filosofias da História de Bossuet, Hegel e dos idealistas em geral e o
segundo ofereceu elementos de hidratação à mística cristã e aos estudos da
subjetividade, como também fez Descartes. Claro que com a diferença de que a
subjetividade agostiniana não se compreende sem Deus, ao contrário de Descartes
onde Deus entra como arranjo.
O filósofo formou-se sob
dupla influência. Um pai instruído, mas pagão e uma mãe cristã e santa, mas sem
formação intelectual maior. Depois de uma juventude onde mergulhou nos prazeres
mundanos iniciou um caminho de elevação espiritual que nunca mais parou e o
conduziu a líder intelectual dos cristãos e bispo da Igreja. Nesse caminhar
Cícero o colocou em contato com a tradição filosófica e, mais tarde, Ambrósio o
apresentou a doutrina cristã dos primeiros padres.
Embora sua construção
intelectual seja ampla queremos destacar três obras que nos legou: A Cidade de
Deus (a mais importante da perspectiva filosófica), As Confissões (que abriu os
estudos sobre o mundo interior) e o Tratado sobre a Trindade, onde proclamou a
divindade de Jesus e caracterizou o mal como ausência de Deus.
Em Confissões realizou uma
autoanálise, descrevendo sua jornada interior até alcançar Deus no fundo da
alma, também tratando da morte, da finitude e das dificuldades e erros humanos.
Como em Platão, o homem foi considerado simultaneamente anjo e fera. A alma
possuía as seguintes faculdades: memória, inteligência e vontade (amor), nessa
última ele enxergou a presença de Deus. No livro abordou a vida interior, o
encontrar a si mesmo e ficar a sós com seu eu.
Para o filósofo, a alma faz
uma jornada de fora para dentro, mas não se fecha em si, ao descobrir Deus ela
descobriu o que é maior e que se reflete nela. Se a contemplação do mundo
(teoria da iluminação platônica) nos apresenta seres temporais e contingentes,
eles abrem o caminho para o Eterno, Imutável, Altíssimo e necessário que lhes
serve de base. Como em Platão, as ideias estão na mente divina (Ser absoluto) e
dão origem ao mundo (o mundo é reflexo dessas ideias ou modelos exemplares que
Deus usou para criá-lo). Embora Deus seja descoberto na interioridade, ele,
mesmo visitado, permanece inacessível a todo entendimento, apenas se deixando
vislumbrar na alma. O mundo que habitamos foi criado por Ele e por sua vontade
e bondade.
Enquanto Platão partia do
mundo que chegar às Ideias eternas, Agostinho partiu dos movimentos da alma que
alimentam a sensibilidade. É a alma que conhece o mundo, primeiro
sensorialmente, depois quando se dobrou sobre si mesma e, finalmente, enquanto
percorreu as vias íntimas descobrindo Deus. Com essa jornada, o filósofo não
apenas defendeu a divindade de Jesus como superou o materialismo maniqueísta
que lhe inspirara na juventude e ganhava força naqueles dias.
O filósofo criou um diálogo
entre razão e fé que abriu a problemática medieval, embora nele a pesquisa e o
estudo somente fossem bons quando incorporavam a sabedoria vinda de Deus.
Porém, o estudo é fundamental porque não se pode amar o que se desconhece. A
viabilidade desse mergulho em Deus decorre da marca deixada por Deus na alma de
cada homem. O conhecimento em si não
conduz à felicidade ou a satisfação que só vem com a sabedoria. Essa surge no
contato com as verdades eternas que ele encontrou nas cartas de Paulo. Sem
sabedoria, o conhecimento é incompleto e impuro. O mal decorre da ausência de
sabedoria. A origem das criaturas é o Eterno, base de sua cosmologia contra os
Maniqueus. O mal em si não existe, ele é a ausência do bem ou da presença de
Deus.
Na Cidade de Deus há uma
reflexão análoga a cartesiana, que contempla a descoberta do eu, acima de todas
as dúvidas. Não há engano na constatação de que sou. Se existo, não me engano a
esse respeito, pois ainda que me enganasse sobre tudo continuaria a existir.
Por seu próprio exercício, o espírito conhece as coisas, a si mesmo e
indiretamente a Deus, presente na criação e sua causa fundamental. Todos os
nossos conceitos são insuficientes para falar de Deus, mas nos dizem algo Dele.
Na sua antropologia a alma, como o corpo vem dos pais, daí o pecado original
ser deles herdado. Parte dessas ideias entra no protestantismo, Lutero era
monge agostiniano.
Que lições deixou Agostinho
para nossos dias? O propor que o movente maior da vida é amor (em suas várias
formas). Quando alguém está em sintonia consigo move-se no amor. Sua luz elimina
a sombra e atrai a verdade, como lembrou o Papa Leão XIV. Assim, não basta
conhecer a lei (natural e divina) é preciso agir conforme ela, vive-la. É o
amor que qualifica e move a alma. Esse é o núcleo do pensamento ético de
Agostinho, daí o famoso imperativo ama e faz o quiseres (de acordo com esse
movimento da alma para o amor). Agostinho identificou a necessidade da
construção da Cidade de Deus, mostrando que o caminho da humanidade é um
desafio moral de humanização, uma história com referência moral vivida no Reino
de Deus. Por isso é, que o mal não prevalecerá, disse o Papa Leão XIV, porque o
processo tem um fiador. Agostinho apontou os desafios maiores do cristianismo,
uma história que vence e supera o mal e uma interioridade onde essa batalha também
deve ser travada e vencida.
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