sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Algumas palavras pela razão. José Mauricio de Carvalho – Instituto de Filosofia Luso-Brasileira.












O século XX começou com a percepção de que se mergulhara numa crise. Não simplesmente uma crise econômica que depois viria em 1929 para completar o cenário, mas uma crise mais profunda. A crise do desencanto dos homens que vieram da belle époque com suas crenças na bondade natural do homem e no progresso moral permanente da humanidade, com a confiança ingênua de que a ciência seria usada apenas para fazer o bem, que os cientistas eram os novos sacerdotes da humanidade e que viveríamos uma era de paz e de respeito. Enfim, crendo num idealismo no qual o mundo se revelava numa razão abstrata, ingênua e acrítica.
A História não confirmou essas crenças. Explodiu o mundo em conflitos, explicitaram-se as contradições do homem, aumentou a disputa entre os povos, os interesses revelaram a irracionalidade, alastraram-se os governos totalitários de esquerda e direita, ambos ruins, a sociedade de massas alimentou a despersonalização com suas consequências: o tédio, a falta de sentido na vida, o suicídio, a violência e o vício das drogas, explodiram os conflitos mundiais seguidos pela guerra fria e pelas guerras no continente africano. A ciência não ofereceu ao homem o que prometera. O mundo laico afastou Deus não apenas da organização política, mas do horizonte vital.
As filosofias refletiram esse estado de coisas, o vitalismo defendendo que a vida tem dinâmica própria contra as fantasias da razão inocente, a psicanálise deu cor científica a esse discurso que reduziu o homem aos seus instintos, o existencialismo apontou uma saída individual nesse mundo deslocado. E, em meio a tantas dificuldades e desilusões, se começou a falar da responsabilidade pessoal pelo próprio destino e o da sociedade. Aos poucos cresceu o entendimento de que a vida singular que temos que viver precisa de parâmetros ou referências que a cultura traduz como valores e as religiões apresentam como fé. Referências que orientam as escolhas.
Aqueles pensadores vislumbraram dois caminhos para sair da crise. Caminhos que infelizmente não foram trilhados, motivo pelo qual continuamos mergulhados na crise de cultura que se estende desde então. O primeiro acenava para o rompimento com um racionalismo abstrato, pensando o homem em situação com todas as suas dificuldades e limites daí decorrentes, o que não significava a defesa pura e simples da irracionalidade. O segundo era recuperar as referências que guiaram o homem durante o último milênio, notadamente os valores da sociedade ocidental baseados na dignidade da pessoa humana.
O primeiro caminho significou uma retomada da razão, não mais segundo a bitola estreita do iluminismo do século XVIII, mas com a nova roupagem da verdade. É esse caminho que destaco, num momento em que a disputa política acirrou a irracionalidade e colocou a disputa acima da razão. Nesse clima muitos professam a descrença na razão. Porém a experiência histórica e a inteligência dizem o contrário. A razão continua a ser uma importante referência para o homem conviver. Não mais a inocente razão do iluminismo limitada pela ciência renascentista ou a irracionalidade do romantismo e do vitalismo, mas a razão que cresceu com seus limites, uma razão preocupada consigo mesmo e em se esclarecer. Uma razão que sabe seu valor e seus limites e por isso não é prepotente. Uma razão expõe o mérito da ciência e aponta seus limites. Uma razão que se abre ao transcendente como guia para os passos que dá no mundo material. E, sobretudo, uma razão que seja uma fronteira inviolável da dignidade humana, do respeito aos diferentes o segundo caminho antes mencionado. Esses são os caminhos que a Filosofia precisa trilhar nesse início de milênio, embora a sociedade de massa não se dê conta dessa necessidade. É preciso retomar o exercício da razão como uma das referências imprescindíveis de nossa cultura.
  

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Presidentes do Brasil: 1989-2018: Selvino Antonio Malfatti



A eleição de domingo, 28, apontou o 38º Presidente do Brasil:





38. Jair Bolsonaro 

37. Michel Temer (2016-)
36. Dilma Rousseff (2011-2016)
35. Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011)
34. Fernando Henrique Cardoso (1995-2003)
33. Itamar Franco (1992-1995)
32. Fernando Collor de Mello (1990-1992)
31. José Sarney (1985-1990)
30. João Figueiredo (1979-1985)
29. Ernesto Geisel (1974-1979)
28. Emílio Garrastazu Médici (1969-1974)
27. Artur da Costa e Silva (1967-1969)
26. Humberto Castelo Branco (1964-1967)
25. Ranieri Mazzilli (1964)
24. João Goulart (1961-1964)
23. Ranieri Mazzilli (1961)
22. Jânio Quadros (1961)
21. Juscelino Kubitschek (1956-1961)
20. Nereu Ramos (1955-1956)
19. Carlos Luz (1955)
18. Café Filho (1954-1955)
17. Getúlio Vargas (1951-1954)
16. Eurico Gaspar Dutra (1946-1951)
15. José Linhares (1945-1946)
14. Getúlio Vargas (1930-1945)
13. Washington Luís (1926-1930)
12. Artur Bernardes (1922-1926)
11. Epitácio Pessoa (1919-1922)
10. Delfim Moreira (1918-1919)
9. Venceslau Braz (1914-1918)
8. Hermes da Fonseca (1910-1914)
7. Nilo Peçanha (1909-1910)
6. Affonso Penna (1906-1909)
5. Rodrigues Alves (1902-1906)
4. Campos Sales (1898-1902)
3.  Prudente de Morais (1894-1898)
2. Floriano Peixoto (1891-1894)
1. Deodoro da Fonseca (1889-1891)


sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O desafio de preservar o humanismo ocidental. José Mauricio de Carvalho - Membro do Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro





Na medida em que se consolida a sociedade de massas e a generalização da tecnologia os estudos de humanidades que poderiam equilibrar o impacto da segunda e salvar a primeira da despersonalização são deixados de lado. Infelizmente poucos enxergam essa necessidade, embora tenham que se ver com consequências que não desejam. A despersonalização, própria dos tempos de massa, levam a uma vida inautêntica mostraram diferentes filósofos no último século (Jaspers, Heidegger, Ortega y Gasset, Delfim Santos, etc.) e também ao que o psiquiatra Viktor Frankl denominou neurose noogênica, e outros representantes da psiquiatria existencial chamaram de neurose social. Frankl resumia essa dificuldade na experiência do vazio existencial, do tédio e da percepção de falta de sentido na vida. Por sua vez, uma sociedade tecnológica mas que se despreocupa da tradição humanista perde as referências de moral social e de valores fundamentais de convivência que depois queixa de necessitar. Essa perda não é fruto de um governo, mas um movimento cultural amplo.
A tradição de reconhecer o valor da pessoa humana se consolidou durante a Idade Média com a revisão da herança do mundo clássico grego romano e a inserção nesse conteúdo da ciência moderna em formação naqueles dias. Essa tradição exigiu um aprofundamento da moral judaico-cristã meditada pela filosofia ocidental por séculos. Essas reflexões são a base da moral social e da vida cidadã.  
A ideia de pessoa humana penetra diversos campos de cultura ocidental. Miguel Reale, por exemplo, fez dessa ideia o núcleo de seus estudos jurídicos propondo o personalismo axiológico o eixo nuclear de seu tridimensionalismo jurídico. Essa filosofia do direito contempla a ideia de pessoa como o valor central e reconhece a importância da historicidade na construção dessa ideia. Afirma (Reale, Introdução à filosofia, Saraiva,1989, p. 160): “no centro de nossa concepção axiológica situa-se a ideia de pessoa como ente que é e deve ser, tendo consciência dessa dignidade”. Esse pensamento se completa com a aproximação entre valor e história, o que para Reale inviabiliza tanto um humanismo a-histórico, como um que se explique exclusivamente pela história. Foi essa observação que nos levou a sistematizar o desafio de tratar o sentido da vida associado à noção de valor estabelecido historicamente, questão posta como tema central do livro O homem e a filosofia, que teve recentemente uma terceira edição (Porto Alegre: MKS, 2018). Então, de posse dessas referências deixadas pela filosofia contemporânea, descrevemos a ideia de pessoa a partir de cinco aspectos: aprimoramento ético, propriedade, liberdade, responsabilidade e solidariedade, aspectos desenvolvidos ao longo da história. Esses valores foram trabalhados nessa tradição humanista: os dois primeiros no Decálogo de Moisés; a solidariedade é o assunto principal do lindo sermão da montanha de Jesus de Nazaré; a liberdade é um valor discutido pelos filósofos desde Agostinho e que encontra em Kant solução na síntese que ele elaborou com o nome de imperativo categórico. Kant ensinou, com esse imperativo, a respeitar a humanidade em si e no outro o que significa que a liberdade é a conquista de alguém que não se torna escravo de seus instintos. Outros valores foram aproximados recentemente da ideia de pessoa, o trabalho e o cuidado com a natureza.
O que foi dito acima mostra uma vida autêntica ou personalizada passa pela recuperação de valores que tecem nossa sociedade, nos colocam frente a necessidade de assumir, de forma profunda, o ensino das humanidades em nossas escolas e universidades, sem o qual todo o cabedal de valores, características da pessoa humana e da vida social como se desenvolveu no ocidente fica sem compreensão e força de sustentação. E, naturalmente, estabelece o desafio adicional de meditar filosoficamente e aprofundar essa herança humanista do ocidente.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES COMO CORREÇÃO DO PRIMEIRO. Selvino Antonio Malfatti



Em 7 de outubro de 2018 ocorreram eleições no Brasil para presidente, governador, senador, deputados federais e deputados estaduais. Já no dia 28 de outubro ocorrerá o segundo turno para os executivos federal e estadual nos quais os candidatos não obtiveram a maioria absoluta. Vejamos o resultado do primeiro turno para presidente, por região e o total: 



Por que foi instituído um segundo turno no Brasil?
Um dos critérios básicos para uma democracia é o governo da maioria. 
Sendo assim, deve-se conseguir maioria para que um determinado candidato possa governar.
Um dos regimes para governar é a democracia. Modernamente entende-se por este conceito – governo do povo - como governo da maioria. No entanto, já os próprios gregos sabiam que “governo do povo”, tem várias outras acepções. Pode ser entendido como uma monarquia, - governo de UM, como, aristocracia – governo de MINORIA e democracia - como governo de TODOS. E suas frormas corrompidas: Tirania, Oligarquia e Demagogia.
É por isso que governos ditatoriais, totalitários, ditaduras também se autodenominam de demoracias ou populares. No entanto, o conceito moderno entende por democracia um governo de maioria, respaldado pelo estado de direito com todas as suas implicações. Sendo assim, deve-se conseguir maioria para que um determinado candidato possa governar democraticamente.
No Brasil, como as eleições presidenciais no primeiro turno não apontaram nenhum candidato com maioria – 50% mais um - segue-se que, ou se governa com a minoria ou se usará um estratagema para se obter a maioria. O Segundo Turno é a ferramenta usada para lançar mão de uma segunda eleição entre os dois mais votados para se obter a maioria. 

Vejamos concretamente o que aconteceu com os três primeiros candidatos para a presidência:
Candidato %

Bolsonaro: 46,03
Haddad:     29,28
Ciro:           12,47

Se Bolsonaro fosse considerado vencedor, teríamos 46,03% do eleitorado governando, isto é, uma minoria.  Se fossem escolhdos os outros dois,  Haddad e Ciro, somando-se os votos deles e os demais candidatos continuaríamos com minoria . Então, para evitar isto se convoca um segundo turno. Com dois candidatos, um chega à maioria.

Evidentemente que isto pode provocar conseqüências não esperadas e indesejadas. Uma delas é que a bipolarização do pleito acirre os ânimos com sérios riscos de agressões não só verbais como físicas entre os candidatos, que por sua vez, se estenderia à sociedade o mesmo efeito. 

Diante disso, o pensador e político francês, Alexis Tocqueville – do período da Revolução francesa – faz uma reflexão sobre a questão da maioria. Para ele, a cima da maioria deve estar a ética, isto é a justiça. Esta é a maioria do gênero humano e não de uma determinada comunidade ou de um determinado momento histórico. Era necessário um legislativo que representasse a maioria e não escravo de suas paixões. Um executivo com força própria e um judiciário independente. A maioria não pode ser a justificativa para qualquer tipo de injustiça, contra índios, escravos, presos ou minoria de qualquer espécie. 
Portanto, numa democracia, finda a eleição, maioria e minoria, devem estar submetidas aos princípios legais éticos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

ELEIÇÃO: DOMINAÇÃO x VALORES. Selvino Antonio Malfatti





No dia 6 de outubro deste ano haverá eleição no Brasil para Presidente, senadores, deputados federais e estaduais. Será uma consulta popular a respeito da aprovação ou não do programa de governo dos partidos que o compõem. Haverá, portanto, tipicamente uma busca de opinião sobre a aprovação ou não da ideologia e programa de governo. A sociedade quer saber com certeza se aprova ou não o governo e sua política ou quer mudar. Portanto, a sociedade quer uma verdade e não simplesmente um aparência. Em cima da realidade que se apresenta fará uma escolha.

A ação humana é carregada de sentido. Inclusive, a escolha está assentada sobre o sentido. Qual o sentido que se deve dar à escolha? Até mesmo a política? O embazamento teórico podemos buscá-lo em Max weber. Conforme ele, a racionalidade reside na compreensão da ação humana. Diante disso, procura entender que o móvel da ação é o sentido que se lhe presta. Nisso estaria sua racionalidade. Esta pode ser racional com fins, racional com valores, tradicional ou sentimental. Evidentemente que o sentimental e o tradicional podem ter pouca racionalidade para quem faz, no entanto, para quem estuda encontrar estes princípios motores é racional. É o que explica Weber:


A teoria weberiana sobre o sentido da ação humana, conjugada com a teoria das formas de dominação, pode lançar luz sobre a questão. Conforme Weber, a ação humana pode ter quatro sentidos:
1. Ação racional, tendo presente uma verdade, avaliada sob a luz da razão como um fim em si e escolhida sem qualquer tipo de coação. Neste caso há uma perfeita sintonia entre o ser buscado e a razão.
2. Ação racional, tendo presente um valor, avaliado sob a luz da razão como um bem em si e escolhido sem qualquer tipo de coação.
3. Ação sentimental, tendo presente uma emoção, avaliada pelo sentimento como uma sacralidade e escolhida de conformidade com a satisfação.
4. Ação tradicional, tendo presente um costume, avaliado tradicionalmente como eficaz e escolhido sob a égide da repetição
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Quanto às formas de dominação ou de legitimação do domínio, Weber apresenta três formas puras:
1. A tradicional se refere aos costumes sagrados dos ancestrais. É o “ontem eterno” sacralizado na tradição. Este, na forma mais pura, o aparelho estatal, confunde-se com a vontade pessoal do governante. Não se estabelece uma distinção entre o governante e a pessoa física de quem o governa. É o patrimonialismo, pelo qual o bem público se confunde com o privado.
2. A carismática, baseada no dom pessoal, na unção, no dom da graça conferido a alguém.
3. A legal, baseada na força da lei. Há regras preestabelecidas e universalmente válidas. É o domínio exercido em virtude da lei
Carece, portanto de recionalidade afirmar que tudo é ideologia. Que a ção humana tem como fundamento a ideologia. Se, se seguisse esta vereda- tudo é ideologia - nada pode ser considerado verdadeiro, pois há sempre um interesse político por trás de qualquer esforço.  Nada é verdadeiro, o resultado não passa de uma distorção. O que chama atenção é que este modo de pensar só é válido para seu seguidor, isto é, o seu modo de pensar é verdadeiro e do outro não.
No Brasil, esta ideia de que tudo é ideologia – leia-se política – teve origem num pequeno grupo de intelectuais e artistas universitários. Houve protestos da parte de quem não concordavasse, ponderações, mas de nada valeu. Como qualquer ideologia, por ser fácil e com aparência de verdade, propagou-se facilmente da universidade para o ensino médio e deste para o primeiro grau. Jovens estreantes na pesquisa abraçaram a teoria, pois sem nenhum esforço, podiam chegar a "verdades"  que quisessem. 
As fontes desta teoria todos sabemos.Seus seguidores leram, mas não as estudaram, isto é, não aplicaram o método da crítica científica. Daí, todos os que não concordassem com suas "verdades", passaram a ser retrógados. E em política, pichados de fascistas. 
Neste sentido, a ciência foi desvirtuada de sua natureza passando a ser considerada apenas diletantismo e ou má fé, numa palavra: ideologia.
 Detenhamo-nos nas formas de dominação:
- abriga verdades gerais.
- baseia-se no método científico.
- os resultados podem ser reconstituídos.
- independe dos indivíduos.
- está ligada a uma teoria.
Então temos uma dominação legal

- conjunto de ideias, pensamentos e doutrina válidos particularmente. 
- visa ações sociais e não desobertas científicas.
- Manter o status quo, sem mudanças
Então temos uma dominação tradicional

Além disso, há senso comum.

- conhecimento espontâneo ou vulgar.
- resultado de experiências pessoais, sem senso crítico, como: "logo que ouvi o candidato identifiquei-me com ele, e concluí que era o melhor".
- conjunto de observações que auxiliam o modo de agir.
- Baseia-se na vontade do líder
Então temos uma dominação carismática.

Diante disso, se pode perguntar: o que pode ser considerado legal-racional numa eleição, o que é tracional e é do carismático?
Tomemos como exemplo aspectos de uma eleição concreta.
legal pode ser considerado os valores do conteúdo programático dos partidos, o sistema político, os poderes, a função de cada poder, as eleições,a filiação ideológica, a porcentagem do eleitorado obtido na eleição, as metas que se propõe.
carismático é a visão de mundo, ideal, tudo é perfeito . Para esta postura a oposição distorce a verdade. Seus seguidores idealizam a sociedade sobre a própria concepção.
tradicional é acreditar na vitória do partido ou do líder pelo desempenho do discurso ou estética dos candidatos, crer que a influência pecuniária é determinante, atribuir má fé nas pesquisas. 
As eleições estáo batendo à porta. Seu resultado evidenciará os valores da sociedade e evidenciará o estágio da forma de dominação. 
A prova disto: nos países de democracia consolidada, o candidato perdedor vai à imprensa e parabeniza o vencedor, desejando-lhe um bom governo. Estamso diante de uma forma de dominação legal.
 Em democracias não consolidadas, o perdedor deseja o pior ao vencedor, temios aqui uma dominação tradicional ou carismática.
O resultado da eleição com certeza evidenciará duas realidades: o tipo de ação humana predominante os valores - e a forma de dominação vigente - estágio de dominação.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A política e a triste afirmação da ignorância e egoísmo. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.


As democracias liberais desenvolveram-se historicamente legitimando a disputa de interesses. E o que legitimava essa disputa? A compreensão popularizada pelos filósofos e moralistas britânicos de que a sociedade era formada por segmentos com visões diferentes da vida, da história, do trabalho, enfim de coisas sobre as quais era razoável discordar. E como era importante que esses grupos de interesse existissem, do contrário teríamos a imposição de uma parcela ou ditador, então eles podiam disputar a liderança da sociedade durante certo tempo. Um mecanismo de consulta eleitoral garantia que, de tempos em tempos, a alternância dos governantes. E as democracias liberais assim se desenvolveram e enfrentaram seus problemas. O mecanismo funcionou apesar das dificuldades. É mesmo assim, nada que é humano é perfeito, embora possa ser melhorado. Por outro lado, a democracia liberal, mesmo longe de ser perfeita era melhor que ditaduras ou, ainda pior, totalitarismos.
Assim sempre tivemos líderes melhores ou piores se sucedendo na disputa política. Essa forma de democracia se desenvolveu junto a monarquia britânica e precisou comprometê-la com regras, pois os reis historicamente tinham a vocação para o exercício do poder centralizador e absolutista que concentrava em si todo o poder e nele se perpetuava. A monarquia liberal foi criada assim e foi ajustada aos novos tempos nas repúblicas europeias que, em vários países, assumiu o liberalismo democrático, submetendo a disputa de interesses a regras firmes para evitar que no lugar dos antigos reis surgissem novos tiranos. No entanto, o jogo político no liberalismo democrático tinha um estofo ou enchimentos necessários. John Locke, ainda no século XVII, dizia ser a crença em Deus não mediada por príncipe estrangeiro, querendo assegurar um cristianismo sem a intervenção do papa e uma sociedade pautada pela moral. Esse filósofo inglês entrou para a história como o "pai do liberalismo", filiado à escola empirista e elaborou a ideia do contrato social para organização dos interesses. Com sua proposta religiosa, além de defender a liberdade escolheu trouxe a tolerância religiosa.
A liberal democracia seguiu seu caminho pela história, chegou a outros países e enfrentou a questão social, guerras e outras dificuldades. Tornou-se a melhor maneira das sociedades escolherem seu destino e os papas respeitaram as escolhas das sociedades. No entanto, seu sucesso depende daqueles pressupostos iniciais e de outras descobertas. O primeiro é o reconhecimento de que os interesses de toda a sociedade estão acima dos interesses dos grupos. Daí o valor social dos bens do país, respeitado o direito legítimo da propriedade e o respeito à pátria. O outro é o acolhimento de leis legitimamente construídas pelos parlamentos na concretização da justiça (estado de direito) e sua não retroatividade (para assegurar os direitos adquiridos). Tudo isso bem alicerçado no respeito humano e dignidade da pessoa, resumidos no documento conhecido como direitos humanos e nos direitos civis. Porém há ainda outros pontos fundamentais: o reconhecimento dos resultados das ciências modernas, do valor da educação e, ainda, da filosofia enquanto instrumento de defesa da razão, dos argumentos da inteligência e das boas orientações para as relações humanas através da ética e suas derivações (axiologia, éticas profissionais, moral social, moral religiosa quando derivada de uma crença).
Quando as disputas eleitorais perdem essas referências, legais de um lado, mas também de racionalidade e valores humanos e nacionais, ela se torna a imposição irracional do interesse egoísta de grupos sobre a sociedade. Estabelece-se a ignorância (confunde-se, por exemplo, humanismo com comunismo, fascismo com socialismo), e, em lugar de argumentos e debate de ideias, surgem ataques pessoais e opiniões injustiçadas e injustificáveis. O resultado é a mentira (falsas notícias), a distorção dos fatos, a opinião infundada, a ofensa pessoal, substituindo o debate legítimo de ideias.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O MUNDO DAS EMOÇÕES. Selvino Antonio Malfatti.




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Quando vemos uma torcida comemorando a vitória de seu time, levantando os braços, cantando, dançando numa alegria louca, podemos dizer que estamos assistindo uma explosão de emoção; Uma mãe debruçada no caixão, se esvaindo num chorinho de soluços, não precisa dizer que estamos num limite de emoção. 

A emoção externa entusiasmo, alegria, tristeza, desespero, conquista, derrota, esperança, fé, enfim todos os sentimentos que passam pela alma e externam-se através do corpo. O sustentáculo da emoção é o valor que um determinado ser percebe que pode lhe proporcionar. As emoções, embora possam manifestar-se coletivamente, cada um as sente a seu modo individualmente.
O Historiador das emoções, Jan Planger, afirma em História das Emoções, que há alguns conceitos chaves a serem estudados pelo pesquisador como: “comunidades emocionais” ou “regimes emocionais” e mesmo “práticas emocionais”.

Este modo de pensar no fundo pretende superar a teoria neuroanatomica determinista à qual se contrapõe uma concepção antropológica sócio-cultural.
Com efeito, a hipótese determinista universalista sustenta que as emoções possuem um substrato constante, trans-histórico e uma extensão válida universalmente. Por exemplo, o medo diante do desconhecido é sempre o mesmo e produz as mesmas reações corpóreas.

Por outro lado, no viés antropológico as emoções não têm sempre e por toda parte o mesmo valor. Os modelos culturais podem neutralizar respostas emotivas tidas como inatas e automáticas.

De qualquer forma a definição de emoção é uma tarefa árdua. Ocupam-se disso a filosofia, psicologia, teologia, retórica, medicina, literatura, psicologia experimental e neurociência. Para avaliar a importância que o tema assumi u nos últimos tempos somente de 1872 a 1980 apareceram 92 duas definições diferentes. O autor assinala os principais momentos da história das emoções na filosofia ocidental. De Aristóteles a Kant, passando por Agostinho, Descartes, Espinoza, Hobbes e Locke. Porém, isto é não suficiente porque é difícil uma descrição pancultural das emoções. Para alguns é ridículo uma explosão de riso num funeral, ou demonstrar tristeza numa festa de núpcias, normal em alguns países. Pode causar surpresa o esforço entre os esquimós para controlar a raiva e a aprovação junto aos taitianos.

Contudo, a partir dos anos Novecentos cujas observações o construtivismo social extrai seus argumentos, deve contar com novos atores, cuja tendência novamente se direcionam para o “partido” universalístico das emoções. Entre elas podemos destacar Paul Ekman que defende a necessidade de superar a perspectiva linguística das emoções para fundamentar um estudo fundamentado sobre as expressões faciais. Para Erik existem reações invariáveis em todos os semblantes, os quais externam emoções básicas, quando submetidos a programas afetivos predefinidos submetidos a estímulos externos independentes de fatores culturais.

Para desempatar a disputa apareceu a ressonância magnética funcional, capaz de patentear ao vivo a ativação das áreas do cérebro sob a base na irrigação do sangue. O tsunzami de estudos e investimentos carreados pelo objeto não só validou seu interesse, mas também conduziu a simplificações bizarras. No entanto, a maioria se apercebeu que se estava raciocinando sobre reações anatômicas e sobre um método estatístico no mínimo incompleto para tal objeto.

Paira ainda no ar a pergunta: será que o approach sócio cultural com uma visão universalista e construtivista ainda não tem alguma validade, em que pese o convite para continuar a pesquisa através da neurociência?
Parece que atualmente se está dando mais ênfase às reações externas das emoções ao invés de se concentrar nelas mesmas. O anatômico não pertence à mesma dimensão do emocional. Procurar medir o emocional pelo fisiológico é o mesmo que comparar a medicação à oração ou amainar a dor da lama com analgésico. Cada uma tem sua própria dimensão.
As emoções são conhecidas através de diferentes tipos de experiências. Há experiência física, mas há também a experiência metafísica. E as emoções alocam-se nestas.
Um olhar pode devolver a alegria como pode aumentar a dor no coração.




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