sexta-feira, 19 de agosto de 2016

PAIS ÓRFÃOS DOS PRÓPRIOS FILHOS. Selvino Antonio Malfatti.



Nós seres humanos somos de tal natureza que representamos dois atores: num determinado ciclo um faz o papel de cuidador e o outro protegido. Em seguida se invertem os papéis: o cuidador se torna protegido.  No primeiro, os pais assistem seus filhos jovens crescerem, ficarem adultos e terem autonomia. E seus pais pouco a pouco envelhecem e se tornam anciãos.
Os anciãos nas civilizações antigas foram um estrato social sempre valorizado. Podem ser citadas as culturas hebraicas, egípcia, mesopotâmicas, gregas e romanas. Inclusive na Bíblia se fala em Anciãos do Povo. Nessas sociedades os anciãos eram revestidos de autoridade política, moral e religiosa por causa de sua experiência e sabedoria para dirigirem os negócios públicos do povo.
No ambiente familiar, até pouco, os anciãos eram amparados pelos filhos que cresciam junto ou próximos aos pais. Havia o ciclo de pais protetores dos filhos e filhos amparadores dos pais. As duas categorias sociais, anciãos e jovens, se completavam cada uma no seu tempo.
Atualmente, devido a diversos fatores, rompeu-se o ciclo natural. Pais chegam à velhice e não têm mais os filhos para ampará-los. Os filhos, uns por motivos profissionais, outros por problemas familiares, outros por dificuldades financeiras abandonam os pais. E há alguns que não têm nada disso e assim mesmo abandonam os pais. Basta visitar alguns “Lar dos Idosos”, “Lar dos Vovôs”, “Asilos”, e ouvir as histórias de vida dos internos. Contam história da vida olhando para longe, no horizonte, curtindo a dor, a saudade e remoendo lembranças.
E quando a tudo isso se junta a doença? Com toda experiência que os idosos acumularam sabem que não têm mais volta. Estão num túnel sem luz no final.
O que acontece com a velhice? Não é somente um estágio estritamente biológico que chega cronologicamente. Se não fosse agregar o que acompanha seria suportável. No entanto, com a velhice chega a vulnerabilidade perante o mundo, o sentir-se inseguro para enfrentar a realidade. Entender os novos tempos, a outra época que não a sua. Ter dificuldade de atualizar-se, acompanhar a nova tecnologia ou as novas ideias (a reação é: no meu tempo era assim...).  Mas uma das maiores dificuldades são as novas amizades. As de seu tempo, a maioria desapareceu. A reação é a clausura, o bloqueio – mental e físico. As limitações começam com a lentidão nos movimentos físicos e reflexos. Com isso ficam excluídos para certas atividades, pela inacessibilidade de certos lugares, em consequência, por exemplo, as companhias turísticas rejeitam idosos em excursões.
Em alguns países, como o Brasil, os idosos são considerados mentalmente ultrapassados, desatualizados e profissionalmente desqualificados. Quando deveria ser a melhor idade de se aproveitar pelos conhecimentos, experiência e maturidade jogam-se no ralo do desperdício. A maioria das universidades europeias e de países desenvolvidos possuem programas de aproveitamento de seus intelectuais. E o resultado todos constatam. Aqui os idosos são classificados simplesmente como “inativos aposentados”, isto é, não fazem nada e estão nos seus aposentos.
Sem falar na pouca consideração dos jovens. Tudo isso configura um quadro de isolamento e de desespero e o ancião se sente entre a bigorna e o martelo.
Na relação entre pais e idosos, é diferente a situação dos anciãos que tem filhos que assistem ou podem contratar profissionais. Conheço uma idosa de 92 anos cuja filha cuida da mãe. Não são ricos, classe média. A idosa aposentada pelo INSS e a filha professora aposentada. Esta providencia alimentação, medicação, higiene corporal, com a escova de dentes, banho externo até o íntimo. Cuida da saúde com consultas geriátricas. A idosa sente-se segura, amparada e demonstra alegria em viver. A comida com os ingredientes picados ou ralados. Evitam que faça coisas perigosas, pois na mente do idoso pode fazer tudo o que antes fazia só que a estrutura física não mais comporta. Mas, sobretudo, sobretudo mesmo, muito carinho.

Mas nem tudo é fácil. Existem idosos dóceis e outros raivosos, os violentos, teimosos e mesmo maus. Os que em vez de demonstrarem reconhecimento e segurança para seus filhos, os xingam, insultam e destratam. Neste caso, se pergunta: como pode um filho retribuir carinho aos maus tratos?  Evidentemente tal filho não se sentirá à vontade para assistir a seus pais. Neste caso, o melhor é apelar para uma terceira pessoa, como os cuidadores. Esta, uma profissão nova, que está se disseminando rapidamente para preencher o hiato formado entre pais idosos e filhos provedores, evitando que pais sejam órfãos de seus próprios filhos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Notícia do lançamento do livro: Ortega y Gasset e nosso tempo


O Professor José Mauricio de Carvalho, Professor do IPTAN de São João del-Rei, com uma palestra no auditório do Instituto Cervantes de São Paulo, apresentou no 3 do mês corrente, o seu novo livro intitulado Ortega y Gasset e nosso tempo. A palestra foi assistida pela comunidade espanhola da cidade, alunos e estudiosos de filosofia presentes ao evento. A palestra foi precedida por uma síntese do pensamento orteguiano feita pelo Professor Juan Carlos Vidal, Diretor do Instituto Cervantes e estudioso de Ortega y Gasset. Juan Carlos lembrou da importância do filósofo madrilenho como intérprete de nosso tempo e ao mesmo tempo um homem vivamente envolvido com as questões de sua pátria. Em seguida, passou a palavra ao Professor José Mauricio. Este afirmou que o livro pretende ajudar a pensar os nossos dias e suas dificuldades, refletindo sobre questões fundamentais, entre as quais: como viver em nosso tempo? Como tratar dos espaços existenciais e nossas relações? Por que viver parece tão difícil hoje em dia? Como o homem lida com as limitações e a morte, e também com as incertezas, esperanças, crenças, descobertas e perdas que pontuam a existência? Como dar um sentido à vida?
Na continuação, José Mauricio explicou que Ortega y Gasset define viver como o que fazer na circunstância, principalmente diante do novo. É nessas situações que é mais necessário achar o sentido do que se faz, pois não basta se esforçar para viver, sem sentido o esforço vira melancolia, marca do Dom Quixote na famosa novela de Miguel de Cervantes. Em seguida, lembrou como a questão do sentido aparece em nossa literatura, afirmando que para Ortega y Gasset a vida é sempre perigosa naquele sentido que Guimarães Rosa mencionou em Grande Sertão: Veredas. Ao lembrar o escritor brasileiro fez uma homenagem a esse clássico de nossa literatura, que comemora, este ano, sessenta de publicação e é uma das mais importantes peças literárias do país. Publicado em 1956, um ano após a morte de Ortega y Gasset, o livro de Guimarães Rosa menciona os caminhos e descaminhos da alma humana no esforço do sentido.
José Mauricio recordou ainda que desde a publicação do seu primeiro livro sobre o filósofo espanhol em 2002, dezenas de teses de doutoramento foram defendidas sobre ele, surgiu a revista de Estúdios Orteguianos, dirigida por Javier Zamora Bonilla que estuda exclusivamente a obra do filósofo espanhol, e lembrou ainda que foi reeditada suas Obras Completas pela Taurus. Disse que no Centro dos Estudos Orteguianos, em Madri, se sucedem debates e exposições que permitem entender o filósofo cada vez mais profundamente e que tudo isso renovou a compreensão da sua filosofia. Esclareceu que o livro quer trazer ao público brasileiro as novidades mais importantes resultado dessas iniciativas, além de mostrar a atualidade do pensamento orteguiano para entender o nosso tempo.

Concluiu que, em nossos dias, refletir sobre a vida, tema essencial de Ortega, é exigência para a superação da rotina de trivialidades e do esforço vazio de sentido. Rotina de trabalhos superficiais e esgotantes, da muito árdua luta pela sobrevivência, tanto mais dura quanto mais dificuldades a vida traz. E terminou dizendo que pesquisas recentes mostram que o estudo da Filosofia melhoram a inteligência das crianças e torna melhor a vida do adulto.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A comunidade nacional. José Mauricio de Carvalho




O afastamento da Presidente Dilma e os fatos políticos que se seguiram, apesar de seguir o rito constitucional, com respeito as leis e às instituições da República, mostrou fragilidades da comunidade nacional. De um lado, divisão irracional entorno a propostas políticas e de outro divisão institucional, com pessoas propondo a quebra da ordem constitucional por um golpe militar. Não se entra, a seguir, nas razões do impedimento para não  tocar nessas diferenças, decerto importantes, mas fora do objetivo  de pensar as bases de uma comunidade nacional. É evidente que essa comunidade não pode se limitar a torcer pela seleção brasileira ou pelos atletas olímpicos do país.
A compreensão do que seja uma comunidade nacional é fundamental para os membros de um grupo social, pois só quando esse grupo reconhece e cultiva os elementos de sua unidade consegue vencer os desafios que precisa enfrentar. Todos os grupos nacionais têm problemas, embora diferentes. A vida com sua dinâmica providencia novos desafios, muitas vezes sem que exista na história desse povo experiência para enfrentar as novas dificuldades.
Nascido no início do processo de globalização, o Brasil é uma continuação da Europa, como de resto toda a América. Isso significa que somos ocidentais, ainda que de modo próprio. Temos por base civilizacional o valor da pessoa, sua liberdade e dignidade, justificado no cristianismo e temos igualmente uma tradição jurídica que nos liga a Roma e ao modo de pensar grego, consideradas essas três pilastras os fundamentos do mundo ocidental.
Como país que se formou pela mistura das tribos indígenas presentes no território com portugueses e africanos, não foram laços familiares, mas a pertença o Império Português a base dessa unidade. Também não foi uma experiência de fé primitiva como fizeram os israelitas. Em outras palavras não foi o sangue, nem uma fé primitiva que une os brasileiros, mas um projeto político de unidade constituído com base numa língua e valores comuns de humanidade.
A diferença de interesses entre os portugueses aqui residentes e os que habitavam a metrópole foi, a partir de certo tempo, fator fundamental de desagregação desse grupo. Esse fator cresceu quando os habitantes daqui passaram a ter um projeto de vida mais amplo que enriquecer ou ganhar a vida, voltando, depois, para Portugal. Por isso, é lamentável que, ao lado da baixa escolarização, hoje em dia,  não estudemos, de forma séria, as bases da nossa comunidade nacional. Independente das circunstâncias históricas atuais que sugerem uma reaproximação estratégica com Portugal, e com outras nações comprometidas com valores ocidentais, o país precisa conhecer o esforço inicial para construir a nação. Inclui-se, nesse esforço, fatos diversos como a inconfidência mineira e a adesão de parte da família real portuguesa que conduziu à emancipação política do país.
A liderança de D. Pedro I permitiu que os portugueses de cá buscassem seu caminho político sem romper com as raízes daquele projeto de portugalidade que levou Chico Buarque no Fado Tropical a sintetizar em estrofe genial: "Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai se tornar um imenso Portugal".
Esse grande Portugal se realiza num grande território, habitado por uma comunidade de valores judaico-cristãos, num território indiviso, com a convivência pacífica de etnias diversas, com ordem política, com as leis legitimamente construídas, com o uso da língua portuguesa, comprometida com o futuro de prosperidade. Isso exige solidariedade dos membros, portanto uma espécie de fraternidade laica, inspirada no liberalismo democrático que se desenvolveu no ocidente. Essa comunidade seria aberta ao diálogo e inserção na comunidade humana.
Essa comunidade experimenta hoje dificuldades porque não fez experiência de uma moral social consensual, como os países de língua inglesa, cristãos mas com diferentes religiões. Além disso, ficou, em razão, de reunir tanta gente diferente, perdida nos laços de solidariedade familiar, necessária, mas insuficiente para sua realidade grupal.
Nesse sentido, italianos, alemães, poloneses, judeus, árabes, japoneses e outros grupos minoritários que para aqui vieram depois da independência política, nunca foram excluídos e discriminados por questões de sangue ou fé. Foram aceitos como brasileiros. Ficaram pois, igualmente comprometidos com o projeto político de prosperidade material, liberdade e dignidade pessoal, unidade territorial, linguística e solidariedade grupal que une essas pessoas a um destino ou projeto comum.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

A CELEUMA DAS 80 HORAS SEMANAIS. Selvino Antonio Malfatti.




Quando Robson Braga de Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria, em reunião com o Presidente Michel Temer, no dia 8 de julho, sugeriu 80 horas semanais para os trabalhadores, causou, em alguns, revoltas, em outros, deboche, provocando piadas de toda sorte e ironias.
Acontece que Robson não só estava falando sério como demonstrou ser um  líder com visão dos novos cenários econômicos que se vislumbram para o século XXI. Senão, vejamos.
Ainda como movimentos esparsos, em todo planeta assistimos a emergência de um tipo novo de consumidor, um novo padrão. Estes novos consumideres exigem dos governantes que levem em consideração nas políticas públicas, durabilidade do desenvolvimento, sua sustentabilidade, a preservação da biodiversidade, a saúde pública, a proteção do patrimônio vegetal e animal, tendo presente os interesses das futuras gerações. Por isso condenam a delapidação dos recursos naturais e sua exploração desenfreada. Na esteira desta tendência reivindicam uma produção de qualidade e mais barato. Para tanto se organizam em grupos de pressão, posicionando-se um contra o poder. Querem uma melhor qualidade de bens e serviços, mas sempre levando em consideração a natureza do trabalho e o tipo de energia utilizada no processo produtivo.
Esta nova atitude só foi possível graças à democracia mais ampliada, fora dos moldes da estritamente representativa. A sociedade se organiza pela base, através de grupos, associações, ONGs. O governo não é mais aquele que fala à sociedade, mas o inverso: é a sociedade organizada que fala ao governo o que quer e como quer. E o que quer? Uma economia de qualidade e sustentável.
Concomitante a este fato novo sócio-político, a economia pós-industrial do século XXI está apta a engendrar novas formas de organização das atividades econômicas e mobilização do trabalho. Com efeito, as inovações tecnológicas, impulsionadas pela revolução numérica dos negócios e, é claro, pelas economias já capacitadas em produzir mais, melhor, durável e mais barato. O custo será de sempre menos mãos de obra, exigindo sempre mais qualificação.
Deste fato o assalariado do século XX está prestes a se extinguir e ceder lugar a novas formas de organização do trabalho. Assim, os modelos de emprego consagrados por salário fixo, um emprego vitalício, empregos estáveis prevendo uma carreira dentro deles, de tempo integral, fornecendo a maior parte da renda familiar, dependendo de um só empregador, exercido num lugar específico, atribuído individualmente, estão em fase de serem substituídos por outras relações profissionais. Há, inclusive, economistas e pensadores que preveem o fim do assalariado típico, com local e horário como Jeremy Rifkin, (La Fin du Travail, Editions Dalloz, Paris, 2006)
Agora, as novas relações serão substituídas pelo autoemprego, pelo trabalho autônomo, pela atividade múltipla, trabalho domiciliar, trabalhado online, emprego com tempo parcial, regidos por contratos temporários ou por tarefas. Poder-se-ia fazer uma analogia com uma propriedade rural média na qual o proprietário trabalha e gerencia ao mesmo tempo. As atividades do dia ou da semana são determinadas pelo proprietário. O que plantar e quando colher fica a critério dele mesmo. O tempo e as horas de trabalho, o descanso, sono e lazer são escolhidos por ele.  Na prática as pessoas trabalham vinte quatro horas por dia, mas também podem ter lazer de vinte quatro horas. Elas mesmas optam.
A primeira consequência deste fato é da impossibilidade de realizar concomitantemente o pleno emprego e o crescimento. De outro lado, haverá a dissociação de seus locais de trabalho. Diante disso, extingue-se a relação automática de crescimento com volume de empregos. Ambos poderão dar-se independentemente um do outro.
Neste cenário evolutivo- ou por que não revolucionário? – a luta contra a falta de trabalho se tornará mais complexa. Esta atingirá regiões com maior explosão demográfica e menor naquelas com menos aumento populacional. De um modo geral se poderia prever que será menor ao norte do planeta que no sul até 2050.
Diante disso se vislumbra diversas situações: crescimento sem criação de empregos, um crescimento com a destruição de empregos e de outro um crescimento com geração de empregos.

Diante disso, as novas gerações devem estar preparadas para esta nova estrutura econômica que, bem ou mal, inexoravelmente vem aí. E por isso é de se perguntar: oitenta ou cento e sessenta e oito horas semanais? É a pergunta.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Apresentando o livro Ortega y Gasset e o nosso tempo. José Mauricio de Carvalho




O livro Ortega y Gasset e nosso tempo já pode ser encomendado à editora, mas o lançamento oficial e a venda nas livrarias se inicia no próximo dia 4 de agosto. E do que trata o livro? É uma obra para pensar as dificuldades de nossos dias. Ele trata de questões fundamentais para hoje: Como viver em nosso tempo? Como tratar dos espaços existenciais e de nossas relações? Por que viver parece tão difícil? Como o homem lida com limitações como a morte, e também com as incertezas, esperanças, crenças, descobertas e perdas que pontuam a existência? Como dar um sentido à vida? É em busca dessas respostas que se examinou as ideias de Ortega y Gasset.
Como Ortega y Gasset trata das dificuldades de nosso tempo? Ele explica inicialmente que perdemos a capacidade de compreender a vida como mudança na qual continuamente surgem novos e inesperados problemas. Ortega encontra a raiz dessa dificuldade no século XIX e seu historicismo progressista que ensinou que a vida é continuidade. Daí a perplexidade com o inesperado: o surgimento das ciências humanas e seus métodos, as mudanças nos sistemas políticos, a desilusão pela ausência de progresso moral. A perplexidade que marcou o século XX com as dificuldades citadas permanece com as surpresas desse início de milênio: o terrorismo religioso, a revolução das comunicações, a pressa vertiginosa, tudo culminando na falta de sentido.
E o que Ortega pensa desse viver sem sentido? Viver para algo é o que permite enfrentar e suplantar riscos, todo esforço precisa de sentido. Não pode haver esforço pelo esforço ou pelo sacrifício, como diz Ortega, dos motivos elencados pelo rei Felipe II, de Espanha, para a construção do Mosteiro Escorial.  O resultado de um esforço sem sentido é a melancolia, a tristeza. E a OMS insiste que o século XXI é o século da depressão ou da tristeza profunda. E Ortega anunciou isso muito antes desse quadro ser comprovado pela OMS.
Há outras questões fundamentais na obra. Um desses temas é o estudo das massas que, por exemplo, permitem entender melhor os dias que vivemos, pois encontramos, o que parece ser, uma nova geração de homens massa. A categoria massa elaborada por Ortega y Gasset permite falar de uma nova geração marcada pelo hedonismo ansioso, pela pressa e relações horizontalizadas, o que é novo, mas cuja origem é a mesma falta de compromisso com a excelência pessoal do homem massa ou da busca do sentido de que falava Ortega.
Este livro sobre Ortega foi pensado para dar a conhecer a obra do pensador espanhol e a atual hermenêutica de seu pensamento. Creio que agradará todos os estudiosos da Filosofia, pois se vai a ela pelo olhar iluminado de Ortega. Porém, é livro para um público maior. Ele foi pensado para homens sabedores dos riscos de um tempo onde o perigo de viver parece maior que em dias mais estáveis. O entendimento de que estamos num tempo de crise de valores, política, (econômica, etc.) é percebido hoje como nos dias em que viveu Ortega. Essa desconfiança que o homem contemporâneo tem das crenças que guiaram as gerações anteriores, essa dificuldade hodierna de estabelecer consensos válidos, pede novas leituras da realidade humana. Podemos avançar no conhecimento de nosso tempo estudando Ortega e o destaque que dá à fidelidade de cada um consigo mesmo e com a cultura pela retomada da excelência.


sexta-feira, 15 de julho de 2016

BRASIL. UMA SOCIEDADE NA UTI. Selvino Antonio Malfatti




A sociedade brasileira atualmente está como alguém em estado terminal na UTI.A análise não abrange a totalidade, mas o geral. Uma sociedade que está perdendo motivação, entusiasmo, espírito de equipe, e por isso está perdendo sua força vital. Demonstra diminuição, quase extinção, de esforço, vontade de trabalhar, energia: os órgãos responsáveis pela organização estão seriamente comprometidos, como raciocínio e memória. Eles são responsáveis pela direção. O país de modo geral perdeu o pensamento, o cérebro que dirige a sociedade. Falta acionar a mente para se colocar projetos de médio e longo alcance. Perdemos o coração, representado pelos recursos humanos, tanto pela evasão de capacidades como desperdício com recursos mal empregados. Os trabalhadores, os braços da sociedade, já não sentem aquele entusiasmo, ideal. Não diga com visão de todo, mas até para si e suas famílias. Trabalham somente pelos salários. As pesquisas, com projeções futuro, como o sistemas nervosos que garantem vida longa e saudável, deterioram-se e mal sobrevivem ao presente. A sociedade engessou o sistema circulatório com a falta de integração entre processos e pessoas. Com isso, o sistema imunológico, através dos órgãos linfáticos da vida social, parou de garantir a saúde social. Em consequência, o organismo social, está seriamente avariado. A vida social sofre com os processos sociais, verdadeiros sistemas circulatórios. Pois falta a integração entre as pessoas, instituições e sistema político. A sociedade, analogicamente, está sofrendo o stress, dores de cabeça, problemas psicológicos e desequilíbrios de toda sorte.  Evidentemente isto não tem nada a ver com a interpretação do avanço do Planeta Nibiru. 
Friso, não a totalidade da sociedade, mas a generalidade. Por isso, é preciso diagnosticá-la e promover um tratamento terapêutico tão rigoroso quanto caso merece. O que é preciso fazer para reverter o quadro o salvar o paciente? Voltar à educação cívica e ética.
Nenhuma pessoa isolada e nenhuma sociedade como um todo nascem com uma cultura cívica pronta. Ela é adquirida ao longo da vida e provavelmente por toda a existência. Em que momento se daria início a educação da cidadania? Há um consenso dos pensadores na resposta: desde o nascimento. É nos braços da mãe que o futuro cidadão está recebendo inconscientemente os hábitos elementares de cidadania. Por isso o cidadão ético começa a ser preparado desde a mais tenra idade. Começa pela família pela qual, conforme pensa Weber, as crianças aprendem as regras através da autoridade paterna ou materna. No momento em que as crianças ingressam na escola a ética é aprendida em sintonia com as habilidades cognitivas básicas tais como ter posturas corretas quer de pé, quer esteja sentados. Aprendem que é necessário respeitar regras como esperar a vez para falar e ouvir os demais em silêncio.
Numa segunda etapa as regras ético-morais são assimiladas nos grupos e associações, através de papéis que eles mesmos e os demais desempenham neles. Neste momento escola e comunidade interagem. Num clube de lazer o pré-adolescente é um “associado” e como tal lhe competem por lei direitos e deveres, mas há também regras éticas com seus iguais e superiores, tais como lealdade, honestidade, solidariedade, cooperação e outras. Além disso, podem desenvolver o senso crítico avaliando a própria conduta, de seus pares e de seus superiores. Se um superior não cumpre com suas obrigações ou cumprindo de tal forma que vai além delas isso servirá para refletir e discutir sobre o agir. Isto leva a despertar uma aspiração para agir de acordo com os princípios da justiça, pois se constata que o agir correto favorece a quem o pratica, tanto no aspecto pessoal como social. O agir correto começa a fazer parte do normal e o mal, o reverso. Passa-se a gostar do agir ético e sentir prazer com a justiça.
No terceiro momento, o indivíduo passa assimilar os princípios éticos em si, sem necessidade de ter pela frente um modelo material. Agora a justiça, a honestidade, solidariedade são valores em si e aceitos como bons porque racionalmente são bons. Quando tivermos cidadãos que amarem a justiça pela justiça quando se tornarem políticos teremos uma política ética. Este cidadão-político saberá respeitar as diferenças: étnicas, religiosas e ideológicas.  Gerenciará o patrimônio público: erário, prédios, artes. Distinguirá as esferas dos poderes: executivo, legislativo e judiciário, bem como sua hierarquia. Entende-se que, se obtivermos através da educação, um cidadão que é um colega solidário, um administrador fiel, um religioso devoto, um profissional competente, um burocrata compreensivo e também um político honesto.

A educação para ética deverá atingir o cidadão em três dimensões: sua vida, seu projeto e sua atividade profissional. A primeira questão é tipicamente existencial, isto é, está afeta ao âmbito íntimo. É uma cosmovisão pessoal diante da vida. A segunda diz respeito àquilo que cada um se propõe como ideal de vida, isto é, um objetivo que alcançado dará satisfação. E o terceiro, como decorrência do segundo, a vivência. Não há uma dissociação entre estas três dimensões. Elas estão assentadas sobre uma filosofia ética como ponto de partida, de trânsito e de chegada. A ética é o meio e o fim da vida, do projeto e da cidadania. Este será o cidadão projetado pela educação que trará, como consequência, o homem desejado para a polis..

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Buber e a coexistência. José Mauricio de Carvalho




Coexistir é realidade humana fundamental, em nenhum momento da vida o homem está completamente isolado do mundo. Logo viver é relacionar-se e a consciência humana o reconhece pela intencionalidade. Isso ensinou Edmund Husserl, o criador do método fenomenológico, ao dizer que consciência é sempre de algo. O caráter relacional da existência foi igualmente reconhecido pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset que descreveu a vida como "um que fazer". Isso representa, antes que qualquer outra realidade, o sentido relacional do existir, no caso de Ortega numa circunstância. Os diversos filósofos da existência consideraram o problema de algum modo, pois não importa que aspecto da existência se considere, estamos coexistindo. A coexistência se revela em nossa história, corpo, pensamento, sociedade ou psicologia. O que varia é o modo como se olha as relações. Ainda que Buber não seja propriamente um existencialista faz uma análise das relações que se aproxima das análises da existência.
Uma das mais criativas análises do caráter relacional da vida encontra-se em Eu - Tu, livro de 1923, obra prima de Martin Buber. O livro é  pequeno, mas denso em suas três partes. O estilo é pouco sistemático, mas vivo e dinâmico. O autor utiliza frases soltas intercaladas com trechos de aprofundamento, lembrando os aforismas e metáforas dos ensaios de Friedrich Nietzsche. A primeira parte do livro descreve o aspecto nuclear das relações, a segunda considera um tipo especial de relação expresso na história dos indivíduos e da sociedade e a terceira aborda as relações com Deus (Tu eterno). A estas três partes o autor apensou um post-scripitum (de outubro de 1957) onde esclareceu aspectos pouco compreendidos da obra, notadamente das relações entre os homens e com Deus.
Neste pequeno artigo apresenta-se apenas a primeira parte do livro, procurando-se indicar a riqueza das análises de Buber sobre as relações. Essas relações se resumem em dois pares de vocábulos Eu-Tu e Eu Isso, sendo o Isso substituível por Ele ou Ela. Para Buber, quando se fala Tu ou Isso, pronuncia-se palavras-princípios, que são os pares de vocábulos que resumem as relações possíveis com o mundo. E como Buber descreve esse mundo relacional?
Ele o faz diferenciando o Tu e o Isso. O primeiro refere-se à aquilo que não pode ser objetivado e portanto, não pode ser possuído pela consciência. Como tal é um nada pois está além da possibilidade de ser objetivado. O Isso em qualquer de suas formas Ele, Ela, Ele e Ela, Ela e Isso, exprime a experiência do mundo, ainda que a experiência, como fenômeno, se restrinja ao experimentador, e não algo entre ele e o mundo.
Ao examinar as relações, o filósofo menciona três esferas onde elas se dão: a primeira é a natureza, a segunda são os homens e a terceira os seres espirituais. Na primeira esfera a relação permite a classificação. Diz Buber (p. 54): "Eu posso classificá-la numa espécie e observá-la como exemplar de um tipo de estrutura e de vida". A segunda esfera de relações é entre os homens e elas não se objetivam como Isso e nem posso ter delas experiência. Essas relações são inexperienciáveis porque não se deixam apreender como o fenômeno e não têm utilidade ou função. Eu - Tu exprime unicamente um encontro ou relação. Nesse sentido, para haver encontro é necessário a presença e não sobrevive sem ela. O que fica sem a presença é o Objeto que não é duração, mas fixidez, interrupção, ou ausência de relação. E aqui temos um tópico nuclear do caráter relacional do homem, as relações Eu - Tu, na ausência do Tu se convertem em Eu - Isso, o que significa que o que ficou depois da presença foi uma reprodução fixa da vida, em si dinâmica e com profundidade inatingível.
Em contrapartida, algo do mundo pode estabelecer com o Eu uma relação de Tu. Nesse caso o fenômeno possui um significado oculto, místico. O que o homem primitivo queria exprimir de seu encontro com as coisas era uma realidade de mistério onde os fatos (p. 63): "são todos fenômenos elementares de relação." Esse encontro mágico com o mundo tinha um sentido maior, o  que fazia com que uma pedra tivesse poder. O que houve mais tarde foi que o Tu dessas relações primitivas foi objetivado, e o mundo foi classificado em grupos e gêneros. Deixou de ser Tu e tornou-se um Isso.
O homem primitivo, diz Buber, estabelece esse tipo de relação com a natureza porque coloca a palavra Eu - Tu antes de experimentar o Eu e posteriormente, quando ele objetiva o ente dá origem ao Isso. O Isso depende da cisão com o mundo e é o que se mostra na consciência fenomenológica, explica o filósofo (p. 65): "eu vejo a árvore é proferida de tal modo que ela não exprime mais uma relação entre o homem Eu e a árvore Tu, mas a percepção da árvore-objeto pelo homem consciência. A frase erigiu a barreira entre sujeito e objeto, a palavra - princípio Eu - Isso, a palavra da separação foi pronunciada."
Outro aspecto importante relacionada à forma primitiva de pensar se refere à nostalgia do primitivo. O conceito não se refere a uma espécie de culto do passado, mas a saudade do vínculo com o universo, experimentado na placenta, e que se perdeu com o nascimento. Esse entendimento se encontra na mística judaica e assim se exprime (p. 66): "o homem conheceu o universo no seio materno, mas ao nascer tudo caiu no esquecimento." A criança vive essa dinâmica nas suas experiências e perplexidades. O seu desenvolvimento encontra-se "indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento da nostalgia do Tu, às realizações e decepções deste anseio."
A conclusão dessa primeira parte é que o Eu só se torna Eu na relação com o Tu. Muitas vezes, mas nem sempre, a relação com o Tu desaparece para dar origem ao Isso. Há casos em que fica o Isso em si, à espera de uma nova  relação.O mundo, no entanto, somente pode ser classificado quando deixa de ser Tu para tornar-se Isso. Como nem sempre assim ocorre o mundo aparece na duplicidade, ele é o Ser que não se objetiva e os entes que se objetivam. O Ser é aquilo que (p. 71): "o confronta, mas sempre como uma presença e cada coisa ele a encontra somente enquanto presença, aquilo que está presente se descobre a ele no acontecimento e o que acontece, se apresenta a ele como Ser". E, finalmente, na relação com o Tu surge o amor, pois o amor não se manifesta quando o que se intenta é experimentar e utilizar. Algo que lembra o imperativo categórico de Kant em que as relações éticas somente são possíveis quando o outro (ou Tu) é um fim em si mesmo.

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