sábado, 21 de março de 2015

As Manifestações Públicas de 15 de março. Ricardo Vélez Rodríguez





Meu antigo professor Ricardo Vélez Rodríguez tem uma postura política clara.Além disso é um dos mais respeitados intelectuais no Brasil e exterior. Quero partilhar e socializar sua visão sobre as manifestações públicas de 15 de março. 

"Amigos, foi uma festa cívica! Com a minha esposa Paula, juntei-me aos 45.000 londrinenses que, nessa linda tarde de verão, exigiam o fim da safadeza lulopetralha e o respeito aos cidadãos de bem. Famílias inteiras, alegres, defendendo a liberdade que a petralhada tenta sequestrar. Como todo mundo viu, foi assim pelo Brasil afora. Milhões reivindicando o direito de ir e vir e de viver em paz com as suas famílias. Milhões de vozes criticando a safadeza dos lulopetralhas que tentaram sequestrar a nossa liberdade, ao longo destes treze anos de desgoverno. Não conseguirão os militantes do caos se apossar das nossas almas. Saí à rua porque quero um país próspero e digno para os meus filhos: Vitória, já adulta e que luta para sobreviver com dignidade; Pedrinho, com os seus três aninhos e que não abre mão de ser uma criança feliz. A Festa da Liberdade, em todas as cidades onde os brasileiros saíram as ruas, foi um belo testemunho de vida cidadã e de esperança. Quase três milhões de manifestantes pelo país afora não foi um espetáculo pequeno. As ruas e praças cheias de brasileiros exigindo decência na vida pública e defendendo a liberdade encarnaram a vontade do povo brasileiro.
Lamentáveis foram as palavras dos porta-vozes do regime, que tentaram dar a sua interpretação distorcida dos fatos na entrevista coletiva de domingo à noite. Rosseto cometeu a asneira de dizer que os manifestantes pertenciam ao grupo dos que não votaram em Dilma nas eleições passadas. Cardozo, o militante que utiliza o ministério da Justiça para fazer advocacia em prol dos corruptos, enfatizou a "democracia" do regime dilmista, que "tolera" passeatas. Nada de novo, a mesma lenga-lenga de sempre. Panelaço na certa, essa foi a resposta dos que assistimos, pela TV, à medíocre entrevista. Os brasileiros cansaram da mediocridade e das mentiras da Dilma e seu governo de ineptos. A vida ficará difícil para eles ao longo dos próximos meses, com certeza. A multidão acordou e não se acovarda.
Na sua bela crônica intitulada: "Nós, o povo", o meu amigo e jornalista Paulo Briguet escrevia na sua coluna do Jornal de Londrina (pg. 5, edição de 16 de março):  "Durante muitos anos, a palavra povo esteve nas mãos de seus sequestradores. Até bem pouco tempo atrás, só podia usa-la quem era companheiro da esquerda. Mas os escândalos do governo acabaram por destruir esse cativeiro semântico. Hoje as pessoas são livres para dizer: - Nós somos o povo. Não precisam mais mostrar a carteirinha do partido nem a estrelinha no peito. O povo somos nós. Somos nós que trabalhamos, que estudamos, que criamos filhos, que amamos nossas famílias, que pagamos impostos, que fazemos compras no supermercado, que abominamos o roubo, o crime e a chantagem. Somos nós que não temos privilégios, que nunca tivemos milhões ao nosso dispor, que não ajudamos as pessoas só para conquistar os seus votos e as suas consciências. Fazemos o bem sem esperar nada em troca. Somos nós, o povo".
Os Estados se corrompem, já dizia Aristóteles na sua Política(no século IV a.C.), quando os que mandam fazem-no em benefício próprio, excluindo o resto. Não é preciso roubar dinheiro do contribuinte. Basta com colocar o Estado a serviço de uma minoria. Ora, é isto o que o PT faz no Brasil há treze anos, com a maior cara de pau, ousando pousar ainda como paladino da ética e dos excluídos. É contra essa desfaçatez que saímos às ruas no dia 15 de março e é com esse propósito que voltaremos a sair quantas vezes for necessário. Dilma ainda não entendeu o recado. Na sua entrevista de ontem simplesmente repetiu ad nauseam o seu discurso corriqueiro de que está disposta a dialogar. Diálogo estranho esse que começa querendo negar o óbvio ululante. Os petralhas governam para si, roubam e não prestam contas a ninguém. E ficam bravinhos quando as multidões, nas praças e ruas, exigem que os governantes lhes falem a verdade claramente, sem tapujos. Não perdem por esperar!



sábado, 14 de março de 2015

INTERCÂMBIO CULUTRAL BRASIL – PORTUGAL. Selvino Antonio Malfatti.





As relações entre descobridores e terras descobertas por europeus no século XV passaram por algumas etapas. A primeira se caracteriza pelo domínio do colonizador. Os colonizadores iam incorporando as terras aos seus domínios. O espaço para os nativos diminuía sempre mais e eram empurrados para as periferias quando não dizimados. Isto perdurou praticamente até o século XVII.
Num segundo momento, começa surgir uma população de mescla de nativos com os colonizadores. Eram mestiços, crioulos, cafuzos emergindo os conflitos pelos contínuos atritos com os vindos das metrópoles. Os colonos de segunda geração já não aceitam pura e simplesmente serem dominados e querem participar das decisões sobre suas terras e bens. Boa parte se misceginavam com os nativos emergindo uma população que não era nem européia, nem nativa. Isto perdura até o século XVIII. Desta população nasce um sentimento de pertencimento que gerou um desejo de autonomia e mesmo independência. Esta situação aflorou com toda intensidade no século XIX culminando com a independência das antigas colônias. A partir deste fato cortam-se os laços políticos, culturais, econômicos e mesmo religiosos em alguns casos com as metrópoles. Isto perdura praticamente em todo século XIX, findando no início do próximo século XX.
Inicia-se então uma volta, uma retomada dos laços entre a pátria - mãe e a pátria - filho. De um modo geral foi o padrão seguido pelos anglo-saxões, pelos lusos e castelhanos. Alguns deram mais ênfase aos aspectos econômicos, científicos e tecnológicos, como os anglo-saxões e outros aos humanistas como Portugal e Espanha.
Brasil e Portugal no século XX e XXI desenvolvem um trabalho lento de redescoberta mútua. Portugal começa se enxergar no Brasil e este se espelhar naquele. Neste momento o perfil mais maduro está na cultura. E é por isso que vários projetos contemplam a aproximação para enriquecimento mútuo.
É neste contexto que se realizam encontros, congressos, jornadas e colóquios. Um deles é o colóquio Vicente Barreto e outro Antero de Quental, ora em Portugal, ora no Brasil. O Colóquio Antero de Quental de 2013, realizado no Brasil, enfatizou a ética e a política em Brasil e Portugal, pari passu. O Colóquio Antero de Quental deste ano, também no Brasil, na UFSJ, em São João Del Rei, Minas Gerais, pretende inventariar as mútuas influências na área do direito. Os temas e a programação,bem como os palestrantes constam abaixo. 

Programação Completa do XI Colóquio Antero de Quental –UFSJ
De 11 a 15 de maio de 2015
2ª-feira -11/05/2015 Palestra de abertura
Abertura oficial do evento
Conferência de abertura:

1.      Panorama Geral da Filosofia jurídica luso-brasileira no século XX
Dr. António Braz Teixeira -Universidade Lusófona
Debatedor: Dr. Rogério Medeiros -Desembargador do TJMG

2.      A relação entre moral e direito no anti-positivismo jurídico de Farias Brito
Dr. Selvino Antônio Malfatti -UFSM e Centro Universitário Franciscano
Debatedor: Dr. Fábio Abreu Passos -IPTAN

3.      O pensamento jurídico anti-positivista do jovem Paulo Merêa.
Dr. Ernesto Castro Leal -Universidade de Lisboa
Debatedor: Dr. Selvino Malfatti -UFSM e Centro Universitário Franciscano
Novas formas de positivismo jurídico

4.      O pensamento jurídico de Abel Salazar.
Dr. Noberto Cunha -Universidade do Minho
Debatedor: Dr. Adelmo José da Silva -UFSJ

5.      O pensamento jurídico de Pontes de Miranda
Dr. Adelmo José da Silva -UFSJ
Debatedor: Dr. Julio Aguiar de Oliveira -UFOP

3ª-feira –12/05/2015-

6.      O pensamento jurídico de Djacir de Menezes
Dr. Ricardo Vélez Rodríguez -UFJF
Debatedor: Dr. Thomas da Rosa Bustamante -UFMG

7.      O pensamento jurídico de José Hermano Saraiva
Dr. José Esteves Pereira -Universidade Nova de Lisboa
Debatedor: Dra. Mariah Brochado Ferreira -UFMG

8.      O pensamento jurídico de António Manuel Hespanha
Dr. Thomas da Rosa Bustamante -UFMG
Debatedor: Prof. Paulo Roberto Andrade -UFSJ

Neo-tomismo jurídico

9.      O neo-tomismo jurídico de Tristão de Athayde
Dr. José Luiz de Oliveira -UFSJ
Debatedor: Dr. Fábio Abreu Passos -IPTAN

10.  O pensamento jurídico de Leonardo van Acker
Prof. Paulo Roberto Andrade de Almeida -UFSJ
Debatedor: Dra. Constança Marcondes Cesar -UFS

11.  O pensamento jurídico de Manoel Gomes da Silva
Dr. Pedro Barbas Homem -Universidade de Lisboa
Debatedor: Dr. José Esteves Pereira -Universidade Nova de Lisboa

4ª-feira –13/05/2015 -

12.  O neo-tomismo jurídico de Mário Bigotte Chorão
Prof. Dr. Julio Aguiar de Oliveira -UFOP
Debatedor: Dr. Fernando Armando Ribeiro -TJMG

13.  O neo-tomismo jurídico de José Pedro Galvão de Sousa
Dr. Silvio Firmo do Nascimento -IPTAN
Debatedor: Dr. José Luiz de Oliveira -UFSJ

Culturalismo jurídico

14.  O culturalismo de Alcides Bezerra
Dr. Arsênio Correa -IBF
Debatedor: Antônio Paim -IBF

15.  O tridimensionalismo jurídico de Miguel Reale
Dr. José Mauricio de Carvalho -UFSJ
Debatedor: Antônio Paim -IBF

16.  O pensamento jurídico de Evaristo de Moraes Filho
Dr. Rogério Medeiros -TJMG
Debatedor: Dr. José Carlos Henriques -FUPAC/Itabirito

17.  Ordem e hermenêutica a partir do pensamento de Nelson Saldanha
Dr. Fernando Armando Ribeiro -TJMG
Debatedor: Dr. António Braz Teixeira -Universidade Lusófona

18.  O ecletismo jurídico de Goffredo Telles Júnior
Dr. Fábio Abreu dos Passos –IPTAN
Debatedor: Dr. Selvino Malfatti –UFSM

5ª-feira –14/05/2015 -
Do neo-kantismo à fenomenologia jurídica

19.  O pensamento jurídico de Cabral de Moncada
Prof. Bernardo Gomes Barbosa Nogueira -Centro Universitário Newton Paiva
Debatedor: Dr. Rogério Picoli -UFSJ

20.  O pensamento jurídico de Lourival Vilanova
Profa. Dra. Mariah Brochado Ferreira -UFMG
Debatedor: Dr. Luiz Paulo Rouanet -UFSJ

21.  O pensamento jurídico de Eduardo Abranches de Soveral
Prof. José Carlos Henriques -FUPAC/Itabirito
Debatedor: Dr. José Esteves Pereira -Universidade Nova de Lisboa

6ª-feira –15/05/2015 –

22.  O pensamento jurídico de Aquiles Cortes Guimarães
Dra. Constança Marcondes Cesar -UFS
Debatedor: Dr. Norberto Cunha –Universidade do Minho

Perspectiva existencial e raciovitalista

23.  O pensamento jurídico de Delfim Santos
Dr. Manuel Cândido Pimentel -UCP
Debatedor: Dr. Rodrigo Correa -UFSJ

24.  O pensamento jurídico de António José Brandão
Dra. Ana Paula Loureiro -Universidade de Lisboa
Debatedor: Prof. Bernardo Gomes B. Nogueira -Centro Universitário Newton Paiva

25.  O pensamento jurídico de L. Machado Neto
Dr. Paulo Ferreira da Cunha -Universidade do Porto
Debatedor: Dra. Mariah Brochado Ferreira -UFMG

26.  O pensamento jurídico de Aloysio Ferraz
Dr. António Braz Teixeira -Universidade Lusófona
Debatedor: Dr. Paulo Ferreira da Cunha -Universidade do Porto

16 h -Mesa Redonda de encerramento do XI Colóquio Antero de Quental
Dr. António Braz Teixeira -Universidade Lusófona
Dr. José Esteves Pereira -Universidade Nova de Lisboa
Dr. José Mauricio de Carvalho -Universidade Federal de São João del-Rei


sábado, 7 de março de 2015

Delfim Santos, a vida do espírito e a meditação ética. José Maurício de Carvalho - UFSJ






A crise instaurada no país pelo escândalo da Petrobrás mostra um triste aspecto do patrimonialismo nacional, a relação imoral (além de criminosa) entre funcionários corruptos, incluídos políticos e empresários sem escrúpulo, que se unem no propósito de se apropriar, de modo inadequado, das riquezas públicas. Assegurando o ganho fácil e a prestação inadequada do serviço, prejudicam duas vezes a sociedade a que pertencem. Nesse caso, o fato recentemente divulgado pela imprensa demonstra a falta de controle da empresa estatal, mas também a fragilidade moral de altos funcionários da República, aí incluídos políticos.
Há quem não considere a falta de preparo moral dos funcionários, ou a fragilidade da matriz cultural patrimonialista brasileira, onde os problemas morais não foram e não são devidamente discutidos, para centrar toda a carga na ineficiência dos mecanismos de controle da empresa. Esta perspectiva parece frágil. Primeiro porque desconsidera que em algum momento da vida social o sujeito estará só com sua consciência e tomará decisões. Mesmo em sistemas muito seguros há sempre uma forma de fraudar, em especial se estamos falando da equipe dirigente que não tenha internamente nenhuma restrição a cometer atos imorais.
Por outro lado, não há como consolidar uma boa vida em grupo sem base moral. O filósofo português Delfim Santos lembrava que uma participação qualificada na vida social depende da densidade da vida pessoal. Uma vida social qualificada não significa igualdade entre os indivíduos de uma nação, mas a possibilidade igual de serem eles diferentes uns dos outros na afirmação da própria singularidade. Só nessa desigualdade existencial, ou melhor, na diversidade de vocações encontram os indivíduos humanos um sentido pessoal para a própria vida e só assim ele será capaz de cooperar com os demais membros do grupo e sustentar os legítimos interesses nacionais, porque também desenvolverá elementos morais.
A afirmação da diversidade pessoal e realização de vocações particulares exigia, disse o filósofo português, a superação de dois graves problemas da cultura ocidental contemporânea. O primeiro é o afastamento do homem de si mesmo, o que redunda numa vida infeliz dedicada ao trabalho vazio e à distração sem sentido das horas de descanso. Daí resulta o segundo grave problema a superar que é a sociedade redutora, incapaz de alimentar a vida do espírito, o pensamento, a reflexão, caindo no vazio da existência, mas também na falta de meditação moral. Sem pensar rotineiramente no que é correto e no que não é, sem meditar sobre nossas escolhas diárias, a vida parece se perder em ações irresponsáveis, ou em opções descomprometidas do que é certo.
Quando realçamos, como parte de nossas dificuldades culturais, os problemas que emergem no país por não se discutir as questões morais, não é porque nossa sociedade seja naturalmente imoral. Nenhum povo é naturalmente imoral. É porque parece ineficiente o discurso moralista de ficar condenando os atos imorais quando surgem ou esperar da justiça a punição dos malfeitores. Melhor é a meditação ética que previne e produz efeito em indivíduos habituados a pensar sobre a correção de suas ações. E também se deve considerar que, por mais controle que exista, e deve mesmo existir, em algum momento o indivíduo estará só com sua consciência e fará escolhas de grande repercussão na vida da sociedade a que pertence. Se não tiver esse autocontrole acabará encontrando um caminho para fraudar o sistema, prejudicar alguém ou todo o grupo. Um comportamento mantido apenas com punição, sem recompensas sociais e morais, retornará diante da ausência do agente punidor.

Ao estudar as meditações de Delfim Santos sobre a vida social contemporânea, seus desafios e o futuro da sociedade, entendemos tanto o sentido da moralidade como uma das dimensões da existência, como seu papel na construção de um grupo socialmente bem estruturado. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

RAÇAS E COTAS. Selvino Antonio Malfatti.
























A Universidade Federal de Santa Maria –UFSM - reserva cotas para alunos do sistema público e para os autodeclarados: negro, indígena, pardo ,num total de 220 cotas. Além disso, o candidato deve se submeter à entrevista constituída por uma comissão que envolve aluno, professor, técnico e representante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros.
Há algum tempo uma candidata do curso de pedagogia se autodeclarou parda e provisoriamente foi matriculada. Na entrevista a comissão entendeu que ela não podia ser considerada parda e, portanto, perdeu a vaga. Não conformada ingressou na justiça.
Outra candidata ao curso de medicina da mesma universidade também se autodeclarou parda. A comissão entendeu que não se enquadrava nos critérios e negou-lhe a matrícula. Ingressou com uma ação na justiça, recebendo do juiz parecer favorável, alegando que uma comissão não tem competência para julgar a raça.
Aí que está o problema. Raça nunca deveria ter sido critério para nada. É um argumento cientifico falso. Raça não pode ser critério para avaliação nenhuma por que é errôneo. Já vou demonstrar o que afirmo.
O conceito de raça não tem mais nenhum valor científico no estudo do ser humano: nem para a antropologia física ou biologia, apenas pela antropologia cultural. As diferenças físicas mais ou menos evidentes (cor da pele, estatura, forma craniana) não têm relação com a capacidade cognitiva, comportamentos sociais ou qualidades morais.
Há mais de décadas que antropólogos e genealogistas não se cansam de enfatizar que 99,9% do patrimônio genético é comum aos seres humanos e que apenas 0,1% varia discretamente entre as populações e não entre indivíduos. Por isso, o conceito de raça não tem mais direito de cidadania e deve ser banido por motivos científicos.
Não estão na mesma ordem as diferenças culturais e por isso antropológicas, conforme Edward Tylor com as Primitivas Culturas ou Franz Boas e Claude Lévi-Straus em Raça e História e Raça e Cultura. Aqui sim se pode encontrar as diferenças, mas não na raça. As pessoas e os grupos se diferenciam não por que são negros ou pardos mas, por que são diversos culturalmente, como etnia, meio ambiente, oportunidades.
O conceito de raça humana desaparece da ciência, mas reaparece no imaginário coletivo e principalmente na retórica política ou ideologia servindo para estigmatizar a diversidade cultural. Todos conhecem os efeitos nefastos da ideologia de raça que desencadeou as mais cruéis e sangrentas guerras. Inclusive o direito entrou nessa história e a maioria das constituições, ao garantir os direitos do homem, cita a raça.
No caso das cotas da UFSM se o sujeito objeto da ação não existe, não existem também os problemas que se diz inerente a ele. Se Paulo não existe, não existe tampouco a gripe de Paulo. Logo, as ditas ações afirmativas são concessões de privilégios.
No entanto, o que existe é o cultural e as ações afirmativas podem e devem incidir nele. Quais poderiam ser? O cultural diz respeito à educação, ao ambiente social, às oportunidades de trabalho e formação. Se todos são racialmente iguais e as culturas diferentes, deve-se apostar no cultural e não na raça. Apostar na raça é criar ou aprofundar as disparidades. No caso da candidata de medicina – através de normas errôneas – criou uma injustiça. Alguém que disputou pelo critério cultural foi eliminado pelo racial. Devem valer os mesmos critérios para o mesmo objetivo.

Infelizmente ainda tem abrigo na Constituição brasileira o conceito de raça quando invoca a igualdade LEGAL: Todos são iguais perante a LEI, sem distinção de sexo, RAÇA, trabalho...Em outras palavras, reconhece as diferenças de raça, da mesma forma que de sexo...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A República e os Valores. José Maurício de Carvalho


A República respousa sobre a virtude - Montesquieu

O assalto contra a Petrobras que ocupa diariamente nossos noticiários, envolvendo empresários inescrupulosos, burocratas oportunistas, políticos sem espírito público e partidos convertidos em máquinas de roubar a coisa pública, é um triste capítulo da história da República. Não é o único e provavelmente não será o último. De um lado, há a própria condição humana afeita a benefícios sem esforço, num clima que ganhou força nas últimas décadas. Vivemos um tempo que Ortega y Gasset denominava tempo das massas, isto é, um tempo de direitos sem deveres. E a essa realidade soma-se uma tradição patrimonialista que não diferencia bens públicos de particulares, de modo que o cidadão se apropria para o próprio uso de coisas públicas sem pudor. Tanto a noção de massa quanto o patrimonialismo não possuem base moral sólida, capaz de assegurar o respeito à coisa pública e a democracia liberal.
No entanto, há fatores circunstanciais que agravaram essa base moral frágil na qual nos assentamos. A estrutura partidária, com dezenas de agrupamentos de aluguel que foram constituídos com a única finalidade de favorecer seus criadores, é um exemplo. Sem mexer nela, com governos formados pela coligação de muitos partidos, agremiações sem qualquer afinidade programática, sem sólidos programas, sem fidelidade partidária, teremos um governo que leiloa cargos e oferece benefícios em troca do apoio parlamentar. Chegamos ao absurdo de termos dois representantes dos dois maiores partidos do governo disputando a Presidência da Câmara e falando em autonomia do Congresso. De que autonomia falavam? Se é a independência do Poder Legislativo isso é matéria constitucional sobre a qual não há dúvida. Se  independência é do governo e do seu programa de atuação, como parece ser, isto é completo absurdo, pois os partidos eleitos o foram para cumprir o programa partidário. Os deputados de um partido são solidários aos colegas da administração, pois formam um mesmo grupo ideológico. Um sistema parlamentar talvez corrigisse tais absurdos.
Outro fator que contribuiu para o botim contra a Petrobras é o mal funcionamento do Estado. Quando o Estado funciona mal, suas instituições ficam fragilizadas: as forças militares não protegem as fronteiras, a polícia não prende os bandidos, o judiciário não julga, as leis não são respeitadas, cria-se um clima de insegurança jurídica e sensação de impunidade que favorece toda a sorte de mal feitos. De bandidos armados a bandidos do colarinho branco, todos apostam na fragilidade do Estado. Como entender a ação de bandos que assaltam bancos com fuzis automáticos e dinamites, numa triste rotina que afronta os órgãos de segurança e de inteligência do Estado? Os bandidos do colarinho branco, por sua vez, assaltam como podem, na mesma volúpia do enriquecimento rápido e sem trabalho.
Há ainda a fragilidade da educação, com uma escola mal cuidada e professores desprestigiados. Sem um sério programa cultural, que inclua uma boa escola, sem a educação cidadã, que ensina a respeitar a coisa pública para viabilizar a vida social não vamos corrigir o mal feito e a desesperança.
Finalmente, a falta de ensinamento moral nas escolas e famílias, formação moral muitas vezes associadas às religiões, também contribui para esse estado de coisas. Nossa cultura ocidental está estruturada sobre a moral cristã, mas perdemos essa dimensão. Mesmo nas Repúblicas laicas, o respeito ao cidadão, sua liberdade e dignidade estão respaldas na noção cristã de pessoa, criatura livre, digna e responsável. Quando o outro não é respeitado e o cidadão não age de forma responsável, a vida social torna-se inviável nas democracias liberais.

Para que não se tenha a sensação de que vivemos num país sem solução há de se lembrar que essas dificuldades podem ser superadas pela decidida ação da sociedade. E me lembro de um Prefeito que pagava pequenas contas da Prefeitura com seus próprios recursos e viajava para a capital com o lanche no bolso para não receber diárias. Nem tudo está decididamente perdido. Não vivemos num país sem futuro ou esperança, mas a esperança e o futuro precisam ser construídos com o esforço responsável da sociedade.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A SOCIEDADE DO IMPULSO. Selvino Antonio Malfatti




Acaba de ser lançado o livro, The Impulse Society, de Paul Roberts, o qual tece críticas à sociedade atual caracterizada pelos impulsos. Para ele, esta situação é tão dramática por que houve uma conjunção entre os impulsos individuais e o mercado. Se alguém manifesta um desejo individual o mercado imediatamente se apresenta para satisfazê-lo.
O impulso a que se refere Roberts é o consumismo. Evidentemente que há diferença entre consumo e consumismo. No primeiro, as pessoas adquirem somente o que é necessário no presente ou no futuro. No segundo, as pessoas gastam excessivamente com produtos supérfluos, levados na maior parte das vezes pela propaganda. Quando as pessoas ou uma sociedade inicia o processo de consumismo entra num estado de compulsão e torna-se patológico. Compra tudo o que vem pela frente, até mesmo o que não precisa. A compulsão altera o caráter das pessoas e muitas vezes furtam ou roubam para exibir que possuem determinados produtos e aparentar status.
A explicação econômica – existem outras – pode ser localizada historicamente na Revolução industrial. Esta possibilitou a fabricação em massa e em série de produtos, popularizando-os e ao mesmo tempo barateando. Mas isto também só foi possível devido à ideologia liberal que individualizou os desejos. Não era mais a Igreja, o senhor ou o Estado que dizia o que cada um precisava, mas cada um individualmente ditava suas próprias ordens e escolhia o que gostava. A Revolução industrial, juntamente com uma sociedade liberal, deu origem a uma economia capitalista que precisa produzir sempre mais, consumir sempre mais, ad infinitum.
Para isso, juntam-se à ciência da informação e propaganda que divulga o que é produzido e mostrando suas vantagens, aumentado e alterando os efeitos. Já não se anuncia mais um carro bonito, potente, seguro, mas um carro com uma mulher ou um artista. A imagem foi alterada e sua visão aumentada. As pessoas humildes, se autoprojetam como gozando de um status de classe elevada. Engalfinham-se, então, na compra, lançando mão do crediário o qual leva ao endividamento.
Isto não é bom por que uma economia reorientada para dar-nos aquilo que queremos se descobre que, aquilo que queremos, nem sempre é melhor do que necessitamos. Para Roberts nem um capitalismo puro, aquele cuja ideologia prega que o melhor o é a maior produção combinada com o mais baixo custo, nem uma estatização plena para se atingir a maior eficiência. Nem uma e nem outra ser mostraram perfeitas. Evidentemente que só na primeira pode florescer o impulso, pois quanto maior for o consumo tanto maior será a produção a qual leva ao menor custo. Numa economia estatizada o poder político controla o consumo e por isso a impulso não tem como ser mantido.
As grandes empresas capitalistas estão agregando outros componentes a seus produtos. Já não se vendem mais produtos puros, mas junto com eles status alimentando os impulsos não só de produtos necessários, mas satisfações de desejos pessoais como, por exemplo, os melhoramentos tecnológicos que evitam que num acidente, não só a pessoa não se fira ou morra, mas outras fiquem livres disso.

O autor sugere que deveria haver uma opção intermediária, isto é, frear um pouco a massagem do ego em busca de status, mas evitar que a liberdade seja tolhida. No entanto, isto seria a morte do capitalismo. Pois este supõe liberdade não só de produzir, como de consumir. Aí caímos novamente no mesmo problema ou círculo vicioso: produzir/consumir – consumir/produzir. O próprio Roberts percebe isto.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Discurso de formatura 2015. José Maurício de Carvalho



Magnífica Reitora Valéria Kemp
Senhores pró-Reitores, colegas professores, caros pais e familiares, queridos alunos a quem me dirijo neste momento de conclusão do curso.  

1. Começo recordando. Era dezembro de 1981. Éramos pouco mais que trinta colegas na alegria de concluir o ensino universitário. No velho teatro do campus Dom Bosco, com suas cadeiras de madeira, suas paredes amarelas, portas abertas para o pátio, tela suspensa sobre o palco enfeitado, diante da congregação reunida, nós nos apresentamos. Havia naquela hora um clima de ansiosa expectativa. Soprava o vento quente das noites de verão, acima do pátio o céu estrelado e poucas nuvens formavam a moldura de um dia mágico que terminava. Ele fora precedido de uma véspera de abraços e de um emocionante almoço de despedida. Nunca esqueci o olhar de cada colega naquela hora de despedida. Todos estavam ali de corpo e alma. Começar recordando aquele momento inesquecível para mim foi a melhor forma que encontrei de introduzir esse discurso.  Acredito que esse momento seja para vocês tão feliz quanto foi para mim aquele dia de dezembro de 1981. Vivíamos, melhor dizendo, um misto de alegria, apreensão e tristeza, felizes pela conclusão dos estudos, ansiosos pelo início da vida profissional e tristes pela separação irremediável dos colegas. E havia mais razão para essa mistura de sentimentos, aqueles colegas que havíamos conhecido adolescentes e estavam então crescidos estariam longe de nossos olhos em poucas horas. Dificilmente nos encontraríamos novamente, pelo menos todos nós. Previsão concretizada, mesmo nos encontros de turma sempre faltaram alguns e hoje nem todos estão mais entre nós. E se antes sem dificuldade podíamos escutar todos eles, depois da formatura já não era mais possível. Ficou hoje a dor da ausência dos que ficaram na memória.  E por isso, em meio a alegria de nossos pais e familiares, da sensação de dever cumprido, corria uma lágrima escondida nos olhos já saudosos pela despedida que se aproximava.  

2. Janeiro de 2015. Encontram-se vocês neste teatro como turma  pela última vez, com o desafio próximo de trabalhar ou continuar os estudos. De todo modo, o que os espera agora que deixam a graduação universitária para se apresentarem à sociedade como professores de Filosofia? Que mundo os aguarda? Já não a guerra fria, o mundo pós Segunda Grande Guerra, os tempos da ditadura, como foi o mundo encontrado por minha turma. Vocês encontrarão um mundo novo, um século novo, um milênio novo. Um mundo com outros problemas e dificuldades. Um mundo onde as guerras setoriais substituíram as guerras mundiais, um mundo com a nova família construída mais pelo afeto que pelo sangue, um mundo com nova composição política, com novos países, um mundo em que nosso país ainda permanece mais à margem que no centro dos grandes acontecimentos. Um mundo em que explodiu o vício da droga e a violência urbana, no qual ressurgiu o terrorismo religioso, onde reapareceu o fanatismo religioso que escraviza ao invés de libertar. Um mundo onde se corta cabeça das pessoas em nome da fé. Um mundo assim precisa de Filosofia.

3. E para esse país que espera tanto e precisa tanto de seus jovens, o que vocês podem oferecer? É hora de se perguntarem o que farão pela sociedade que lhes pagou o estudo, como colaborarão com aqueles que com o suor do seu imposto mantiveram abertas as portas da universidade, custearam as bolsas que receberam, encheram de livros a biblioteca onde pesquisaram, pagaram a limpeza do ambiente, ajudaram nas viagens de estudo que vocês fizeram. O que vocês podem realizar como professores de Filosofia para esse nosso país e seu povo? O principal da missão de vocês parece ser levar para as escolas a fé na razão e na capacidade humana de respeitá-la, mesmo quando os fatos vividos, a irracionalidade e a violência sugerem que devemos perder as esperanças na humanidade e no futuro. Um país em que se tortura crianças, em que se mata com a facilidade que hoje vemos, onde os velhos não são objeto de cuidado, onde a diferença social coloca alguns à margem da dignidade. Não há dúvida, esse país precisa de Filosofia. Necessita cultivar os produtos da inteligência, incluída a inteligência prática da moralidade.

4. Vocês são chamados a refletir nas escolas e fora delas sobre a vida e seu sentido, a dar à realidade um sentido e a falar de esperança para nossos jovens. Viver é experiência que compartilhamos com as plantas e animais. A nossa vida, contudo, tem algo diferente dessas vidas e a Filosofia retrata esta singularidade. Vocês estudaram o que a tradição filosófica pensou de nossa existência, pelo menos o mais importante. Pode ser que a algum homem possa parecer possível deixar passar a vida como se ele fosse um pé de feijão germinando nos dias de sol e chuva. No entanto,  temos experiência de que a vida humana não é o crescimento mecânico e inconsciente do feijão, ela implica em pontos de perspectiva e um sentido. E vocês terão que trabalhar esses assuntos com seus futuros alunos. A referência aos grandes pensadores da humanidade que vocês estudaram é o instrumento para fazer isso. E nossos jovens vão precisar de vocês, a nossa escola precisa de seus professores filósofos. Nossas crianças precisarão aprender a viver uma vida singularmente humana, a olhar o outro com respeito, aprender não só o conteúdo das unidades pedagógicas, mas o significado da ciência e do seu uso, entender os limites do homem, aprender a conter os próprios impulsos e cultivar valores. Enfim, a levar as lições da Filosofia para o dia a dia. E quem de vocês não for para a escola deverá fazer da sociedade seu objeto de atuação e refletir diariamente sobre o sentido de uma vida autenticamente humana para essa nossa sociedade tão carente de humanidade.

5. Voltemos ao ponto de perspectiva que falamos atrás, o que ele é? Um tal ponto é um momento especialíssimo da nossa existência. Temos poucos deles durante nossos dias nessa terra. As pessoas mais privilegiadas talvez experimentem umas quatro ou cinco ocasiões assim. Esses momentos especiais são aqueles nos quais tudo o mais vivido parece adquirir uma razão que aparentemente não tinha. Que melhor exemplo de um momento desses que o batismo de Jesus de Nazaré. Ele viveu um momento de perspectiva quando foi batizado por João e saiu transformado das águas do Rio Jordão. Naquele momento iniciou sua trajetória de rabino e profeta, deixando para traz a vida de carpinteiro e construtor de cidades que o ocupara antes de se tornar um mestre da humanidade, o filho de Deus na fé de milhões de homens.

6. Ocorre uma mudança semelhante na vida quando deixamos um emprego seguro, mas que não realiza para viver o sonho de um trabalho libertador; ou superamos um relacionamento conveniente, mas que não nos faz feliz; ou ainda quando arriscamos morrer por algo ou alguém, mas sem o que ou quem a vida não teria gosto.  A rigor, o ponto de perspectiva mais importante é o momento da morte. Nesse momento tudo o que foi feito pode ser olhado de traz para frente, naquele instante em que a vida vivida revela seu ponto de chegada. Nessas ocasiões extraordinárias, o que fazer diário, as escolhas aparentemente banais como ir aqui ou ali para almoçar, tomar café ou chá, estudar nessa escola ou naquela, ganham importância que aparentemente não tinham quando foram vividas. As escolhas feitas tornaram-se parte de nós, mesmo que não tivéssemos consciência do fato quando as fizemos. Aqueles momentos vividos estão grudados em nós e não podem ser removidos, nos apropriamos deles e agora fazem parte de nossa história, do que somos, do que nos tornamos.

7. O sentido da vida é a direção dada ao que se faz. Pode-se ter do fato mais ou menos consciência, pode-se considerá-lo mais ou menos importante. No entanto, como viver não se assemelha a fazer um bolo seguindo uma receita, a questão do sentido é sempre surpreendente pelo ineditismo que representa. Como nosso que fazer nessa vida não tem roteiro prévio, vivemos inseguros nas escolhas. Inseguros dos resultados obtidos, sem confiança de que estamos no rumo certo, na dúvida se devíamos ou não ter mantido o relacionamento com aquele amor adolescente de tantos sonhos, sem saber de devíamos ter insistido naquele emprego ou profissão antes de largá-lo para tentar algo novo. Enfim, um Pinheiro cresce no jardim onde foi plantado ou no lugar onde sua semente se fixou, o leão segue seus instintos para fazer filhotes e para lhes levar o alimento caçado nas estepes, o homem vive cheio de perguntas onde quer que habite, não importa o tempo em que viva. Por isso em meio a suas dúvidas há necessidade do exercício da razão da qual vocês se tornaram guardiães.

8. É a razão que nos deve guiar na busca de resposta para as perguntas: até quando continuaremos a usar mal a natureza a ponto de comprometer as futuras gerações? Até quando continuaremos a fabricar bombas para jogar uns nos outros?  Até quando a indiferença nos fará fechar os olhos ao sofrimento alheio quando não somos nós mesmos a causa desse sofrimento? Até quando conviveremos com a corrupção, criticando quando beneficia os outros, mas aceitando felizes se somos os beneficiados da mamata, aspirando coisas imerecidas, querendo aposentadoria sem trabalho e/ou resultados para os quais nada fizemos por merecer? Até quando lutaremos por direitos sem deveres ou aceitaremos a violência como solução para os problemas? Até quando compactuaremos com o saque em caminhões acidentados? Até quando desrespeitaremos as leis de trânsito quando não há um policial para fiscalizar? Até quando sujaremos nossas ruas e picharemos os muros de nossas cidades com frases e rabiscos sem sentido?

9. Dúvidas não nos faltam, e há aquelas que não tem significado moral, mas metafísico ou gnosiológico: será que já conhecemos com precisão o mundo, ou poderemos conhecê-lo melhor? Temos razões para acreditar em Deus, qualquer que seja nossa crença? Pode o universo em que habitamos ser reduzido aos elementos que lhe dão fundamento? Podemos pensar um fundamento para o mundo? E diante dessas questões cabe ainda indagar: até quando aceitaremos uma vida sem reflexão que nos afasta e nos faz esquecer de nós mesmos? Até quando viveremos longe da Filosofia e do efeito benfazejo que ela traz quando desperta em nós a pergunta pelo fundamento e nos oferece um rumo na vida?

10. Enfim, para tudo isso com que lidamos e, em última instância, e para tratar da vida mesma, a Filosofia não pode faltar. E nossa existência é de tal forma que a reflexão filosófica pode não só ajudar, mas nos obriga a fazê-la melhor. Pode ajudar a fazer escolhas mais responsáveis, a entender o caminho a seguir. Não há como ensinar uma Filosofia distanciada da ciência, mas uma feita a partir de seus resultados e limitada por suas provas. Uma Filosofia ao lado da ciência, mas que, diferentemente dela, se obriga a sempre renascer ao pensar o fundamento, pois a originalidade da formulação expressa a renovação da vida e o propósito de tratá-lo mais corretamente. O problema filosófico nunca se esgota, ele se renova, ele é como a vida.


11. A Filosofia como atividade é algo que o homem faz. Considerada uma forma de relação com a sabedoria nas suas origens gregas, a Filosofia é uma forma de pensar o mundo pela qual o homem mostra mais claramente o que há. E quando pensa sobre sua vida, a descobre construção de um sentido e uma reflexão sobre a perspectiva. Fazer esse trabalho, dialogando com a tradição filosófica, ajudando a pensar, permitindo a cada pessoa descobrir o significado da vida e fazer dela algo que valha a pena não é tarefa fácil, mas é imprescindível. Creio que é isso o que a sociedade espera de vocês, creio que é essa a missão do professor de filosofia e do filósofo, trabalhar a razão como  alimento da ação. E fazendo isso vocês estarão no centro do processo educativo e a escola não se imaginará sem vocês, nosso país não abrirá mão do vosso trabalho. E a sociedade, algumas vezes sem entender bem, acabará percebendo ser imprescindível o filósofo no cultivo de uma nova humanidade pela racionalidade, pelo treino e exercício de obter e dar razão.

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