sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Brasil e Democracia. José Maurício de Carvalho.



Delfim Santos - filósofo portugês

O processo eleitoral terminou muito bem, depois de caminhar não tão bem. Tivemos uma eleição tranquila, o candidato Aécio Neves, com a elegância que lhe é habitual, cumprimentou a Presidente eleita e lhe desejou sorte, ela agradeceu o reconhecimento da maioria, convidou a oposição ao diálogo e entendeu que precisa melhorar a administração do país. Terminamos o pleito como as boas democracias, embora o debate político não tenha tido a qualidade que desejaríamos.
Disse certa vez o filósofo português Delfim Santos sobre os pleitos eleitorais: "A democracia é uma forma de governo e uma nação é democrática quando o respectivo partido (vencedor nas eleições) tem o poder" (Obras Completas, v. I, 1982, p. 39). Vencida a etapa eleitoral, fica para o nosso futuro o aperfeiçoamento do debate político. Ele deverá ser realizado em torno a pontos definidos dos programadas partidários, marcando as posições diferentes sobre os diferentes assuntos. Assim qualificaremos a política, fornecendo sua prática a antevisão do futuro, uma espécie de antecipação do destino nacional. Sem debate político qualificado não temos uma democracia que satisfaça seus membros, pois o que vence num processo eleitoral são teses e não pessoas.
A democracia liberal que adotamos é o regime da liberdade na escolha dos governantes, mas ela não só assegura a escolha pela maioria dos seus dirigentes,  também exige do vencedor o respeito as leis em vigor (estado de direito), à independência dos poderes e ao funcionamento das instituições, em suma, o convívio pacífico e o respeito às minorias na forma da lei. Ninguém está acima delas, se alguém a descumpre deve pagar na forma que a lei estabelece, seguido o ritual estabelecido.
Na hipótese contrária, isto é, se a minoria impor, por caminhos diferentes do voto, (incluídas todas as formas de violência) suas escolhas ou seu programa de governo, passaremos a um regime de autoridade, que nega os fundamentos da liberdade e do mercado. É necessário que isso fique claro. Um regime de autoridade é negação da vida e da luta permanente que a vida faz de adaptação à circunstância e aos problemas.
Não custa lembrar nessa hora pós eleitoral o jurista paulista Miguel Reale. Ele advertia em seus muitos trabalhos, que o liberalismo não é apenas expressão do capitalismo, pois a liberdade econômica por si só não assegura o bom funcionamento do mercado. Além disso, não se pode deixar de lado a liberdade dos menos favorecidos, para que possamos falar verdadeiramente de liberdade positiva. Parece que foi o que também quis dizer Tancredo Neves em lindo discurso de boas vindas feito para os pracinhas no final da Segunda Guerra. Nele Tancredo dizia que eles haviam lutado e vencido pela democracia e pergunta: por qual democracia nossos irmãos arriscaram suas vidas? E dá a seguinte resposta: "pela democracia social e econômica, em que todos quaisquer que sejam as suas origens, o seu credo e a sua cor, seja assegurado, segundo as suas aptidões, a igualdade de oportunidades em busca da felicidade. A democracia do ensino gratuito em todos os graus, inclusive profissional. De uma completa assistência médica e hospitalar para todos os que dela carecem e não possam arcar com as despesas. A miséria é uma afronta aos povos cultos" (São João del-Rei, O Correio, 04.10.1945).
Não há como gozar dos benefícios da democracia e não respeitar suas condições de existência, pois só se meditamos sobre cada um de seus pontos de sustentação entendemos a razão de todos eles. E na democracia liberal, pelo vínculo à tradição cristã do ocidente, proclama a solidariedade nacional pela qual a vida de alguns não se faz distanciada da vida dos restantes. Nada comove tanto a um estrangeiro do que ouvir de um suíço que eles não admitem ver um compatriota na indignidade.  É esse sentimento de solidariedade nacional que a democracia real cria.
Em razão de esse regime ser o sonho de mais de uma geração de brasileiros, da luta de nossos pais e avós por sua implantação, que hoje precisamos cuidar dele como de uma jóia que herdamos. Uma jóia para se lapidar é verdade, pois a democracia como a vida está em contínuo aperfeiçoamento. No entanto, não faz sentido falar em divisão do país, depois de um processo eleitoral maduro, muito menos em explodir Minas para transformar o Estado numa grande lagoa. Aliás de todas as divisões propostas na Internet, nenhuma corresponde completamente ao último quadro eleitoral. E não custa lembrar que Minas é o coração de ferro do Brasil, não seremos lagoa. Porém nossa água, não se preocupem os paulistas, vamos dá-la de graça se a tivermos, isto é, se acordarmos a tempo de impedir a destruição da floresta amazônica e lutarmos contra o aquecimento global.
Assim, concluído o processo eleitoral é hora de deixar de lado a histeria e voltar à rotina e ao trabalho, à seriedade nos compromissos e no amor a essa grande nação respeitando o grande território que herdamos dos portugueses.
Não seria fora de propósito lembrar de nossa história que o nordeste foi durante os primeiros séculos da colonização a região que mais gerou riquezas, as demais viveram em sua função. E quando o eixo da atividade econômica deslocou-se para Minas devido à descoberta do ouro, os paulistas não só fizeram aqui fortuna, mas construíram uma economia agrícola forte em seu Estado para alimentar as pessoas que trabalhavam nas Minas. Foi também o que fizeram os tropeiros do sul. Ao ouvir algumas pessoas se pronunciarem na Internet, os comparo ao irmão mais novo que acabando o curso superior e com bela proposta de emprego, vira as costas ao outro irmão arrimo da família que o sustentou e pagou seus estudos e a mãe que sacrificou para lhe dar o carro novo.

O Brasil é uma só e grande nação. Com limites e grandezas compartilhadas. Somos o que somos juntos. Seremos a nação dos sonhos de nossos heróis se os honrarmos no nosso compromisso diário de superar os desafios que a vida traz. E há por certo muito a fazer.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O NOVO QUADRO POLÍTICO-PARTIDÁRIO DO BRASIL A PARTIR DE 2015. Selvino Antonio Malfatti.



Lembro-me que, quando crianças meus filhos ao lhes comprar algum livro, perguntavam:
- Tem desenhos? 
Se a resposta fosse positiva, vibravam.
 - Oba!

Nesta postagem vou apresentar um artigo em forma de "desenhos". Espero agradá-los e ouvir as interpretações

1.Para a Presidência.
Reelege-se Dilma Rousseff, - do Partido dos Trabalhadores – PT-  com uma pequena e apertada maioria: 51,6%. Portanto, praticamente metade dos brasileiros a apóia e outra metade é oposição. Por isso, tem uma maioria muito restrita. Para governar terá que não só ouvir seus aliados, mas prestar atenção no que a oposição reivindica. 
Pelo mapa vê-se que é incrível como persiste a constatação sociológica de Roger Bastide: Os Dois Brasil.





2.Governadores.
Os partidos que mais elegeram governadores nesta eleição para 2015 foram o PMDB (7), PSDB (4), PT (4) E PSB (4).


 3. Deputados.

O Partido dos Trabalhadores - PT, continua com a maior bancada de deputdos:70 deputados, embora perdesse 18 cadeiras. O segundo é o PMDB com 66, seguido pelo PSDB, com 54. deputados. Em seguida vem o PSD com 37 deputados.






 4. Senadores
O PMDB diminuiu um senador, de 19 passou para 18, assim mesmo terá o maior número deles. O PT também perde um senador e ficará, portanto, com 12 senadores. O PSDB terá 10 senadores, contras os 12 anteriores.




Por isso, bem se poderia concluir que quantitativamente:
"TUDO COMO DANTES NO QUARTEL D´ABRANTES".
embora nas entrelinhas se possa fazer outras leituras.









sábado, 25 de outubro de 2014

O valor ecológico para além do discurso eleitoral. José Maurício de Carvalho


A história mostrou que não é boa prática sonhar com um mundo ideal deixando de lado a vida que brota nos fatos. Em verdade, quando se é um pouco mais vivido, um pouco mais experimentado, aprende-se a cultivar a transcendência que brota da fé na história. A própria Bíblia foi fruto de uma fé assim encarnada, expressão de uma inspiração religiosa que brotou da vida. Contudo, não podemos deixar de lamentar que os candidatos à Presidência da República tenham perdido a oportunidade de explicar o que pretendem realizar para fazer uma revolução no modo de lidar com a natureza. Talvez não queiram fazer nada e isso é um desastre ou produzirá um.
Qualquer pessoa minimamente informada fica inconformada com o modo como a seca no sudeste foi explorada nessa campanha eleitoral, se não diretamente pelos candidatos, pela militância espalhada nas redes sociais e por assessores, escondidos do palco principal. É claro que a responsabilidade da seca não é isoladamente do governo paulista ou do governo federal hoje administrado pelo PT. Não faz sentido frases como as que se encontram nas redes sociais: "no governo do PT nem chove" ou "Nem a chuva gosta do governo do PSDB". Frases assim desviam a atenção do que verdadeiramente importa, construir uma nova relação com a natureza. Na raiz de qualquer ação futura tem de estar o reconhecimento da preservação como um novo valor que brota no horizonte da história.
Estabelecer com urgência um programa de desmatamento zero e começar um responsável projeto de reflorestamento é o que se espera de qualquer governo sério, não importa a sigla partidária, diante da enormidade do desafio que estamos enfrentando. E como é muito fácil e lucrativo derrubar árvores centenárias para vender sua caríssima a madeira, o enfrentamento dessa ação imoral e ilegal só se consegue com monitoriamente efetivo e uma força policial eficiente e ágil.
Para vivermos uma esperança razoável não podemos contar com nenhum movimento automático das forças da sociedade, nem esperar a boa vontade dos exploradores dessa madeira ilegal, nem contar  com a revolta de ecologistas enfurecidos para atacar os madeireiros. Nenhum desses movimentos produzirá resultado satisfatório além de algumas mortes indesejáveis e a continuidade da exploração pelos mesmos (se matarem os ativistas) ou por outros madeireiros (se forem mortos pelos ativistas).

Se a esperança racional no reconhecimento do valor é o que se espera de todo homem e a moral é o fundamento último para resguardar a natureza e o futuro do homem, é razoável nossa fé e esperança. No entanto, para aqueles que não reconhecem o limite moral da ação, nem as leis já existentes, é necessário ter uma resposta capaz de  mudar o rumo dessa história. Até agora nenhum governo federal ou estadual levou a sério a questão, não importa o que digam em suas propagandas. E se não formos sensíveis aos apelos da razão e aos comunicados dos sentidos, seremos com certeza quando a falta de água chegar a nossas torneiras. Esperemos que então não seja tarde demais para começar a agir.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O SENADOR GAÚCHO PEDRO SIMON. Selvino Antonio Malfatti





A forma como é exercido um mandato político varia de uma pessoa para outra dependendo de várias circunstâncias. A mais marcante, no entanto, é o caráter da pessoa ou a pessoalidade própria de cada uma. 

Como numa equipe de futebol em que uns são atacantes, outros meio-de-campo, outros pontas e ainda há os da defesa. Na política ocorre algo análogo. Uns se destacam por realizar, outros por ter idéias, outras por mandar ou comandar Ha os cobativos, os apaziguadores...Mas há uns poucos que possuem um carisma especial: a vigilância ou a defesa. Estes estão sempre atentos ao que aconteceu, acontece ou poderá acontecer. Estes estão de prontidão sempre, como o quero-quero nos pampas gaúchos. Uma dessas figuras, de vigilantes, de defensores, de vigias na política certamente é o senador gaúcho Pedro Simon. Toda sua trajetória política foi “em defesa de...” Ele não realizou grandes obras, mas impediu que as ruins acontecessem, o que já é muito.

Natural do Rio Grade do Sul cujo estado sempre contribuiu com destacados estadistas tanto no Império como na República. No primeiro período podemos citar Gaspar Silveira Martins, já no segundo a participação do Rio Grade do Sul é mais acentuada tanto pelo número de governantes, como pelo tempo de ocupação de cargos e até mesmo pelas realizações dos governos. Bastaria mencionar Pinheiro Machado, Getúlio Vargas, João Goulart, Paulo Brossard e evidentemente Pedro Simon.
Pedro Simon

Ele foi senador da República por 32 anos. Natural de uma colônia de imigrantes italianos, Caxias do Sul, nasceu no ano da revolução de um conterrâneo, Getúlio Vargas. O ingresso na política através das eleições, dá-se em 1959, como vereador em Caxias do Sul. Em seguida, 1962, elege-se deputado estadual permanecendo neste cargo por quatro mandatos. Em 1978 é eleito senador. Exerce a função de ministro, 1985, passando a governador do Estado em 1987, quando, em 1990, inicia os sucessivos cargos de senador, exercendo esta função ao todo por 4 mandatos. Neste pleito de 2014 não consegue reeleger-se e deixará o senado em 2015, encerrando sua carreira política como representante.

Talvez o período de maior participação de Simon como parlamentar e defensor do estado de direito tenha sido na vigência do AI-5, em 1968 e ano seguinte. O Congresso e as Assembleias estaduais foram fechados com exceção da Assembléia riograndense. O estado gaúcho tornou-se o único estado com tribuna. Havia também apenas dois partidos permitidos: MDB e ARENA. O MDB abrigava todos os que faziam oposição: liberais-democratas, socialistas, comunistas, guerrilheiros etc. A ARENA congregava os que davam sustentação ao governo, deste a extrema direita até democratas sinceros que queriam um estado de direito. Num Congresso do partido MDB, no Rio Grande do Sul, que teve a participação marcante de Simon foi decidido que lançariam a campanha pelas “Diretas Já”, o fim da tortura, a liberdade de imprensa e a Assembleia Nacional Constituinte. Se o objetivo primeiro, das Diretas, não foi alcançado, contudo foi possível o lançamento da candidatura de Tancredo Neves que venceu o candidato da ARENA e possibilitou a Abertura Política pondo fim ao regime militar. Durante seus mandatos de senador, Pedro Simon sempre esteve presente na defesa da ética, nas decisões referentes à economia, na defesa dos direitos humanos e promovendo os interesses de seu estado.

Atualmente Simon está ressentido com os rumos que seu partido tomou após a morte de Tancredo Neves. Antes, quando MDB, pautava-se pela ética, não fazia o jogo mercantil, não pactuava com corrupção. Agora o PMDB, pensa, gostou do poder, se incrustou nele e não quer largar mais.
Abaixo alguns cargos exercidos por Simon, sempre na busca do respeito à pessoa humana e na defesa do estado de direito.

Funções Políticas

A)   Executivas
- Governador do Rio Grande do Sul (1987-1990)
- Ministro da Agricultura (1885-1886)

B) Legislativas
            - Vereador por Caxias do Sul (1960-1962)
            - Deputado Estadual pelo Rio Grande do Sul (1962-1978)
            - Senador da República do Brasil (1979-1982, 1991-1999, 1999-2007,           
               2007 – em exercício - 2015 )

C)   Comissões e lideranças
- Líder da Bancada do PTB, Caxias do Sul (1960)
- Líder da Bancada do PTB, MDB e PMDB Rio Grande do Sul (1962)
- Líder do governo Itamar Franco, no Senado  (1992-1994)
- Membro da Comissão Educação, Assuntos Econômicos, Assuntos    
  Sociais e Constituição, Justiça e Cidadania (1992-1994)

- Presidente da Subcomissão do Senado de Análise das Causas da Impunidade (1993) entre outros.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Filosofia e a Vida. José Maurício de Carvalho







Viver é experiência comum a homens, plantas e animais. A vida do homem, contudo, tem algo diferente das outras vidas e muito já se disse desta singularidade. Há algum homem é possível deixar passar os dias como fazem plantas e animais, permitindo a vida fluir como se fosse a automática rotação da terra. No entanto,  temos experiência de que a vida humana não é um movimento inercial e ela implica em pontos de perspectiva e sentido para o que fazer.
Um ponto de perspectiva é um momento especialíssimo. Temos poucos deles em nossa existência. As pessoas mais amadurecidas talvez experimentem uns quatro ou cinco. São aqueles momentos nos quais tudo o mais vivido parece adquirir uma razão que aparentemente não tinha ou quando nossa existência dá uma reviravolta completa na direção de algo que parece maior e mais significativo. Jesus de Nazaré viveu um momento assim quando saiu das águas do Jordão depois de batizado por João. Ali inicia sua trajetória de rabino e profeta, deixando para traz a vida de carpinteiro e os pequenos trabalhos que realizava em sua cidade e região.
Ocorre algo assim quando deixamos um emprego seguro, mas que não realiza; uma relação confortável, mas que não nos faz feliz; quando arriscamos morrer por algo ou alguém, mas sem o que a vida não valeria muito ser vivida.  A rigor o ponto de perspectiva mais importante é o do momento da morte, se ocorre quando estamos consciente, quando tudo o que foi feito pode ser olhado de traz para frente, quando a vida que tivemos mostra seu resultado. Nessas ocasiões o que fazer diário, as escolhas aparentemente banais como ir aqui ou ali para almoçar, tomar café ou chá, estudar nessa escola ou naquela, ganham importância que aparentemente não tinham no momento vivido. As escolhas passaram a fazer parte de mim, mesmo que eu não tivesse consciência do fato no momento em que escolhia.
O sentido é a direção dada ao que se faz. Pode-se ter do fato mais ou menos consciência, pode-se considerá-lo mais ou menos importante. No entanto, como viver não é como seguir uma receita de bolo em que vamos adicionando ingredientes já selecionados para produzir uma mistura já conhecida e provada, a questão do sentido é sempre importante e se faz presente na vida, ao menos em ocasiões especiais. E como nosso que fazer não tem roteiro prévio, vivemos inseguros com nossas escolhas. Inseguros dos resultados, sem confiança de que estamos no rumo certo, na dúvida se devíamos ou não ter mantido aquele relacionamento com a linda menina ou menino de olhos verdes que conhecemos na juventude, sem saber de devíamos ter insistido naquele emprego ou profissão antes de largar para tentar algo novo. Enfim, o Pinheiro cresce no jardim onde foi plantado ou no lugar onde sua semente se fixou, se o leão segue seus instintos para fazer mais leãozinhos e para lhes levar o alimento caça nas estepes, o homem vive cheio de perguntas onde quer que habite, não importa o tempo em que viva.
E entre as dúvidas que tem muitas referem-se a questões morais que a reflexão filosófica adensa e aprofunda. Por exemplo: até quando continuaremos a explorar nosso ambiente a ponto de comprometer as futuras gerações? Até quando continuaremos a fabricar bombas para jogar uns nos outros?  Até quando a indiferença nos fará fechar os olhos ao sofrimento alheio quando pior não somos nós mesmos a causa desse sofrimento? Até quando conviveremos com a corrupção, criticando quando beneficia os outros, mas aceitando o lugar privilegiado nas filas, ganhando benefícios imerecidos, querendo aposentadoria sem trabalho e ou resultados para os quais nada fizemos por merecer? Até quando aceitaremos a violência?
Dúvidas não nos faltam porque somos um feixe de perguntas, e há aquelas que não tem significado moral mais metafísico ou gnosiológico: será que conhecemos com precisão o mundo, poderemos conhecê-lo melhor? Temos razões para acreditar em Deus, qualquer que seja nossa crença? Pode o universo em que habitamos ser reduzido a alguns elementos que lhe dão fundamento? Como resolver nossos conflitos sociais?
Enfim, para tudo isso com o que lidamos em nossa vida e em última instância com ela mesma, a Filosofia pode ajudar. E nossa existência é de tal forma que a reflexão filosófica pode não só ajudar, mas pode torná-la melhor. Pode nos ajudar a fazer escolhas, a entender melhor. Não uma Filosofia distanciada da ciência moderna, mas feita a partir de seus resultados e limitada por suas provas. Uma Filosofia que ao lado da ciência, mas diferentemente dela se obriga a sempre renascer, pois a originalidade da formulação expressa a renovação da vida.

A Filosofia como atividade é algo que o homem faz. Considerada uma forma de relação com a sabedoria nas suas origens gregas, a Filosofia é uma maneira de pensar o mundo pela qual o homem mostra mais claramente o que é e se relaciona com a realidade. E quando pensa sua vida a descobre construção de um sentido e uma reflexão sobre a perspectiva.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

TENDÊNCIAS ELEITORAIS POR REGIÕES NO BRASIL. Selvino Antonio Malfatti.




















Eleitores

Por Região - Março / 2013
%
CENTRO-OESTE
10.070.195
7,145
NORDESTE
38.207.502
27,108
NORTE
10.651.311
7,557
SUDESTE
60.942.919
43,238
SUL
20.819.854
14,771
TOTAL
140.947.053



Eleições 2014


NESTE DOMINGO, dia 5 de setembro, ocorrerá no Brasil a eleição para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Gostaria de me deter apenas na eleição presidencial, embora como escrevi num artigo anterior, é essencial para democracia as eleições parlamentares.
A CAMPANHA eleitoral para presidente deste ano corria conforme as previsões: Dilma Rousseff liderava as intenções de voto, Aécio Neves, apesar da boa margem de votos, era candidato ao segundo turno e Eduardo Campos vinha em terceiro lugar. Repentinamente, com a morte de Eduardo Campos e com sua substituição por Marina Silva ocorre uma mudança brusca, inclusive nas intenções de voto. Aécio Neves, quase certo candidato ao segundo turno, passa para o 3º lugar e Marina para o segundo. A partir de então as previsões mantiveram-se com poucas variações até o momento. Dilma Rousseff em primeiro, Marina em segundo e Aécio em terceiro. Na última avaliação de intenções de voto aumentou a margem de Dilma para Marina, mas não alterou a posição de ordem dos candidatos. A situação aproxima-se do quadro abaixo, entre as regiões brasileiras:
embora de última hora haja um distanciamento entre o primeiro e os outros dois candidatos.

1.    SUL :
Dilma + ou -35%
Marina +ou-25%
Aécio  + ou-22%


2.    SUDESTE
Dilma + ou - 28%
Marina  +ou-32%
Aécio +ou -20%


3.    Região Centro-Oeste
Dilma+ ou ‑32%
Marina + ou-31%
Aécio + ou - 23%

4.    Norte
Dilma + ou- 49%
Marina +ou -28%
Aécio + ou - 9%


5.    Nordeste
Dilma + ou - 49%
Marina +ou- 32%
Aécio + ou - 8%

        
O quadro revela mais detalhes significativos:
- Nenhum candidato, em nenhuma região faz maioria absoluta, ou seja, 50% mais um dos votos. Por isso nenhum candidato individualmente venceria, a não ser que haja uma brusca mudança.
- Somente nas regiões norte e nordeste a soma do segundo e terceiro não venceria o primeiro.
- No sul os três candidatos mantêm um equilíbrio, não havendo nenhum que se afaste por larga escala.
- O mais baixo desempenho eleitoral de Dilma ocorre no maior colégio eleitoral, isto é, no sudeste.
- Por sua vez nas regiões mais necessitadas a candidata Dilma disparou na frente.
- O total dos prognósticos revela o seguinte resultado:

1. Dilma 38,6% - Há resultados atualmente que se aproximam dos 40%.
2. Marina/Aécio 40 - Da mesma forma há resultados que indicam para 42%.

 - Neste caso, a seguir esta tendência, haverá um segundo turno, pois somente não haveria se o primeiro fizesse maioria absoluta dos votos válidos.

Coinclusão:
Em tese e na prática qualquer um dos três pode ficar em primeiro lugar, mesmo porque a diferença não é tão significativa entre si. Isto não signfica que, o que ficou em primeiro nas pesquisas, será também o vencedor. Temos um exemplo historico: Fernando Collor em 1989 não estava em primeiro lugar no incío da campanha  e foi o vencedor do pleito.
- Quem poderá ser o vendedor do segundo turno? Façamos algumas conjeturas.

Quem votou no candidato que ficou em primeiro lugar no primeiro turno dificilmente mudará seu voto. Mas quem votou no candidato que ficou em terceiro lugar não é certo que votará em quem ficou em segundo. Como a diferença entre a soma do segundo e terceiro em relação ao primeiro até o momento não é tão significativa, pode-se concluir que quem ficou em primeiro lugar no 1º turno, ficará também no segundo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Liu Xiabo e a liberdade. José Maurício de Carvalho.




Ao chinês Liu Xiabo foi concedido o Prêmio Nobel da Paz no ano de 2010. Ao proceder a escolha de Liu Xiabo o Comitê Norueguês aceitou polemizar com a tradição despótica do oriente. O governo chinês não gostou da indicação e pediu explicações ao governo da Noruega. O agraciado é pouco conhecido no Brasil, mas ganhou notoriedade desde que fez greve de fome pela libertação dos estudantes chineses encantoados pelo exército vermelho no famoso cerco militar da Praça da Paz Celestial. A democracia acabou não vindo na China, mas as reformas econômicas no sentido de respeito ao livre mercado trouxeram um desenvolvimento econômico há muito desconhecido da China.
Livre mercado é bom, mas só ele não assegura o desenvolvimento humano. A experiência dos últimos duzentos mostra que livre mercado só traz benefícios para toda a sociedade quando se associa com moral social negociada, estado de direito, democracia formal, partidos fortes com definição programática, liberdade religiosa e estado laico. Capitalismo sem o restante ajuda a enriquecer uma pequena parte da sociedade e deixa o restante na pobreza. Aliás, para entender isto não é preciso conhecer a China e sua história, sabemos por experiência própria o que é um país onde o desenvolvimento beneficia principalmente uma pequena parte da população, deixando a maioria fora dos benefícios da riqueza. Felizmente a Nova República de Tancredo começou a dar frutos e o Governo do Presidente Lula conseguiu melhorar a vida de milhões de brasileiros mais pobres.
A liberdade política é expressão da liberdade pessoal, já nos ensinava Tancredo Neves. Para entendermos o sentido disto é importante lembrar os ensinamentos do filósofo alemão Edmund Husserl. Ele mostra que a consciência é criadora, permite não apenas pensar o mundo de uma forma objetiva e compartilhada, mas fazê-lo aparecer como experiência de um eu singular. O mundo surge na consciência como criação do existente e assim é único. Entende Husserl que a consciência é afetada pelo contato com os objetos à sua volta, eles entram em cada pessoa e passam a fazer parte da vida de um modo particular. Se nós somos únicos pela forma como incorporamos o que está à nossa volta, precisamos de um sistema político que seja também expressão disto.
Deixando de lado o valor da liberdade política e retornando à decisão dos organizadores do Nobel, eles chamaram atenção do mundo para a luta de um docente universitário de 54 anos de idade que há mais de vinte anos luta pelos direitos civis na China. Professor de literatura, poeta e orador, ele foi afastado da cátedra universitária e preso três vezes nos últimos vinte anos. Atualmente cumpre pena de 11 anos de prisão por denunciar o desrespeito do governo chinês aos direitos humanos. Encontra-se preso a quinhentos quilômetros de Pequim por um regime que embora tenha iniciado a transição para uma sociedade livre conserva uma tradição despótica mais que secular. O despotismo chinês encontrou no totalitarismo comunista uma expressão contemporânea quando consideramos a história milenar do país. Entretanto o comunismo, hoje em dia, é passado para a maioria dos países, pois desde a queda do muro de Berlin e a dissolução da União Soviética, fora Cuba e alguns partidos políticos brasileiros (Leia-se PCB, PSOL, PSTU), ninguém aposta mais em revolução comunista e estado totalitário.  

O professor Liu Xiabo tomou ciência do prêmio pela mulher que o foi visitar, mas não poderá deixar a prisão para buscar o diploma, a medalha e o dinheiro do prêmio. Não sabemos se sua mulher Liu Xia poderá representá-lo, pois também ela se encontra em prisão domiciliar desde 2008, somente saindo de casa para visitar o marido e sempre acompanhada da guarda vermelha. Que venha, pois, a liberdade para Liu Xiabo.

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