segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Guerra dos Farrapos – a epopeia gaúcha. Percival Puggina.

 

         No Rio Grande do Sul, logo após o 7 de setembro, festeja-se o 20 de setembro, data estadual que celebra a memória da Revolução Farroupilha.

Que fique claro, logo nas primeiras linhas: sou gaúcho porque sou brasileiro e não o contrário. Ser gaúcho é uma condição regional, do extremo sul do Brasil, nestas terras que Hélio Moro Mariante, em imagem poética, denominou “Fronteira do Vaivém” devido às andanças das linhas divisórias nas disputas entre portugueses e espanhóis. Ser brasileiro é uma condição anterior, tem raízes ibéricas; é a cultura matriz.

Da condição regional deriva um tipo humano mundialmente conhecido, pronunciado ao gosto do falante em qualquer dos dois idiomas. Esse tipo humano preserva elevada estima por sua história e tradição, que não nos fazem melhores que ninguém, exceto pelo fato exemplar de termos especial afeição por este pedaço de chão. Quem dera fosse tal sentimento compartilhado por todos os brasileiros em relação ao Brasil e ao seus respectivos estados e municípios. Estaríamos mais perto de constituir uma efetiva Federação, se assim fosse.

A essa característica, soma-se entre nós uma vocação bélica nascida, bem cedo, do desejo português de estender o extremo sul do vice-reino ao Rio da Prata, seu limite geográfico natural. Tal fato transformou a província numa praça da guerra de fronteiras, eventos a partir dos quais, no Continente do Rio Grande de São Pedro, os momentos de paz eram frequentemente interrompidos por conflitos de variadas motivações. E assim seguiríamos pela República adentro.

Em 1835, a pequena população do Rio Grande se sublevou.  O país vivia um período turbulento. D. Pedro I havia abdicado e o período regencial patinava em dificuldades políticas internas. A distante província sulina entregava sua população masculina às guerras do Império e este quase nada aplicava aqui dos tributos que arrecadava. Não havia estradas, nem pontes, nem escolas. Os gaúchos fizeram, então, o que mais sabiam: foram às armas. Era o dia 20 de setembro de 1835.

Os 10 anos ao longo dos quais se estendeu a epopeia farroupilha marcou mais fundo ainda a cultura regional. Os gaúchos de 35 perderam a guerra, mas a derrota não impediu que a data ficasse esculpida na alma do povo de modo mítico. Foram os objetivos pelos quais lutaram os farroupilhas que concederam maior grandeza à sua revolução:  autonomia que, depois, viria com a federação; a república, cujos ideais da “res publica” pareciam capazes de superar os embaraços da monarquia naquele período da história.

Nossos antepassados farroupilhas foram precursores de ideais nobres que ainda devemos perseguir, contanto que tomemos consciência de nosso lugar no tempo e no espaço. Ou seja, na história e no lugar do berço. 

Percival Puggina (77), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

A atual sociedade de massas, diálogo com Flusser. José Mauricio de Carvalho

 




Muitas páginas foram escritas sobre o filósofo theco-brasileiro Vilém Flusser, outras mais sobre os temas que abordou. Assim caminha a razão humana, reavaliando o que se fez e construindo pontes para o enfrentamento dos problemas que a vida oferece e renova aproveitando-se de elementos herdados do passado.

Podemos olhar a obra de Flusser de várias perspectivas, dividindo-a, por exemplo, pelo momento histórico de sua elaboração destacando os escritos da juventude vivida na República Tcheca, mencionando aqueles da vida adulta elaborados no Brasil e, finalmente, indicando os elaborados nos dias da maturidade quando retornou à Europa fixando residência na França. Podemos também estudar o autor a partir de um conceito nuclear, como fez Rodrigo Duarte ao fazer a hermenêutica filosófica de Flusser girar entorno ao conceito de Pós-história ou então destacar a importância da dúvida na meditação filosófica como fez Gustavo Bernardo. Está bem dos dois modos, podemos dialogar com o autor por essas formas.  Prefiro, no entanto, dividir seus textos em duas partes. Inicialmente inserindo os escritos que explicam a crise de cultura que vivemos com suas causas e depois aqueles outros que descrevem a sociedade atual e a proposta de superação da crise. A primeira parte contempla o diagnóstico dos tempos de crise que vivemos e aí estão os estudos sobre a pós-história e a segunda na descrição da sociedade atual onde estão os textos sobre a sociedade telemática e seu destino.

A divisão aqui sugerida é didática porque a noção de pós-história culmina na superação da escrita em linha, da consciência histórica e sua substituição pelas imagens técnicas e os textos que descrevem a sociedade telemática inicia justo quando se processa essa substituição. Vemos surgir o mundo dos aparelhos e funcionários que utilizam as imagens técnicas, aquelas feitas pelos aparelhos (máquinas fotográficas, filmes, gravações, etc.) e usam mais recentemente as máquinas e o computador. Na prática é difícil dizer até esse texto estamos na primeira parte e agora passamos a segunda. Essa divisão tem ainda a dificuldade de incluir toda a preparação para a construção do conceito de pós-história a partir dos textos sobre a história dos tempos vividos no Brasil, como detalha Rodrigo Duarte.

A divisão proposta tem caráter hermenêutico. A noção de pós-história reconstrói, de forma criativa, a compreensão flusseriana de que o historicismo do século XIX estava superado e isso é interessante, mas não era novidade. Ortega y Gasset, por exemplo, explicara porque as ideias de Hegel e Marx já não serviam para tratar o mundo que ele vivia, embora tivessem sido essenciais para entender o século XIX. Flusser segue Ortega e os outros fenomenólogos como Edmund Husserl que recusaram um historicismo que progride em linha em direção a um futuro grandioso e inexorável e recusaram as ideias econômicas de Marx e Engels. Essa constatação é importante porque qualquer intelectual de nossos dias sabe que defender o humanismo ou uma sociedade mais fraterna não significa retornar ao marxismo ou ao socialismo marxista muito menos repetir historicismo do passado como o de Giambattista Vico, Joaquim de Fiori ou outro historicista como Johann Gottlieb Fichte e Friedrich Wilhelm Joseph Schelling. No entanto, a recusa dos historicismos passados não representa para os fenomenólogos uma recusa da consciência histórica ou possibilidade de pensar a história em fases como fez Karl Jaspers, pois sem a consciência histórica não há identidade possível às pessoas ou povos. Esse é um equívoco daqueles que desprezam os estudos históricos. Além do mais, perde-se um recurso extraordinário de recuperar no passado elementos para construir pontes para o futuro. Nisso está o problema dessa parte de suas ideias.

E o que faz Flusser recusar o pensamento histórico? Foi a sua experiência com os nazistas e a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra. Flusser avaliou que os instrumentos de destruição utilizados pelos nazistas estavam implícitos na objetivação da pessoa inserida no projeto historicista judaico-cristão que forma a espinha dorsal do ocidente. E então recusou o instrumento de destruição de sua família, voltando-se contra o ocidente e sua alma judaico-cristã, sua fé transcendente e os valores culturais. Ao recusar o historicismo da cultura ocidental que culminava na transformação do homem em coisa ou funcionário. Portanto, o homem massa ou funcionário não era um desvio de rota, mas algo da essência da cultura ocidental. Recusando a fé religiosa, a espiritualidade humana mesmo no sentido fenomenológico, Flusser construiu uma antropologia materialista de inspiração psicanalítica, seguindo outro judeu Sigmund Freud. O criador da psicanálise, à parte de sua enorme contribuição para entender a alma (psique) humana, de forma diferente de Flusser fez o mesmo que ele, atribuiu à fé e cultura judaica a razão da perseguição que aquele povo sofria. Flusser radicalizou a recusa do judaísmo e cristianismo recusando a cultura ocidental e desejando matá-la para colocar outra coisa no lugar. Nesse sentido a sociedade que via nascendo, a sociedade telemática ou de massas era o ponto de chegada do ocidente. Auschwitz fora um momento desse processo.

Quanto à descrição da sociedade atual, caracterizada pela sociedade telemática, podemos dizer que significa uma atualização bem elaborada da sociedade de massas de Ortega y Gasset. Flusser argutamente observou os aspectos de uma sociedade de massas que vive não mais num capitalismo industrial. Também que o homem massa não era apenas infantil, birrento e bárbaro como dizia Ortega, mas dominado pela linguagem da tecnologia, abandonou a consciência crítica, histórica, oportunizando a emergência de governos ditatoriais, figuras toscas e desumanas como o nazista Adolf Hitler e suas novas versões contemporâneas. Visão genial de por onde andamos nesses dias de reavivamento da extrema-direita e seu desprezo pelo humanismo, pelos estudos históricos e pela racionalidade, inclusive a científica. Para Flusser, existe, nessa sociedade telemática, uns poucos responsáveis pela programação dos aparelhos no centro da vida humana e seriam eles os responsáveis por vencer a mecanização do mundo, oportunizando o surgimento de uma sociedade de homens que se divertem entre as tarefas que executam. Esse homem lúdico que vive se divertindo é o seu modelo de homem que enxerga para essa sociedade em crise. No entanto, nem a vida é brincadeira, embora brincar seja parte da vida, nem nosso futuro pode depender de programadores que cortaram os laços com a consciência crítica, o humanismo e a consciência histórica. Isso porque, se a sociedade telemática de Flusser realmente se implantar, nela não haverá espaço para contatos que desfaçam a lógica do controle realizado pelos aparelhos.

Essa forma de examinar o pensamento de Flusser permite notar suas boas contribuições, tanto na superação do historicismo do século XIX, quanto na compreensão da crise vinda da atual sociedade de massas guiada por aparelhos, com funcionários vivendo entre aplicativos e outras criações da informática. Porém esse método mostra os limites do pensamento de Flusser perdido na recusa do humanismo, da consciência histórica, dos valores judaico-cristãos, da Filosofia e da fé em Deus, qualquer que seja sua forma de compreensão. Flusser perdeu-se ao se afastar de sua raiz ocidental e judaica.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

LIBERDADE ECONÔMICA E LIBERDADE POLÍTICA. Selvino Antonio Malfatti

 

                                                  Vale do Silício

 

PROBLEMÁTICA

As novas modificações no mundo cultural atual, produzidas pela internet, parecem que afetam somente os negócios, abrangendo com isso somente o mundo econômico considerado de forma global indústria, comércio e finanças.

Qualquer um de nós transfere seu pensamento para o Vale do Silício, Silicon Walley, pois é lá que se concentram as empresas expoentes da informática. E são estas empresas que levam adiante o novo modelo de economia com respingos inevitáveis na política.

Comportamo-nos como crianças que se extasiam diante das aparentes magias dos titãs da informática. A questão é que não são mágicas, mas ações reais que nos afetam no dia a dia no nosso pensar, agir e sentir. O perigo eminente é de nos darmos conta quando já fomos devorados. Não está escrita a ameaça, mas ela dança diante dos olhos: decifra-me ou te devoro.

POLÍTICA

A democracia pode apenas ser vista como uma forma de governo. Esta atitude é pobre demais se comparada com  a democracia como uma cultura de comunicação aberta. Isso é o que sugerem  por Zac Gershberg e Sean Illing em The Paradox of Democracy.. Entramos numa nova era em que a linguagem e a interação social assumem contornos absolutamente diversos das épocas anteriores. Sendo assim, a política e a democracia já não tem o mesmo sentido atualmente. Só para exemplificar atualmente já é possível uma democracia direta de massas, coisa que no passado era apenas utopia.

DEMOCRACIA ATUAL

O político e economista italiano Giuliano Amato conseguiu com êxito fazer uma associação entre um sistema econômico de livre concorrência com sistema político democrático. Isto foi possível na prática, pois Amato foi Primeiro Ministro italiano. Advertiu que a concentração econômica causa problemas não só na economia, mas também no convívio sócio político. Se isto ocorreu na Década de Noventa na Itália, com mais razão o problema se apresenta atualmente. Naquela época talvez fosse só um alarme, embora perigoso, imaginemos atualmente os poderosos da web o que fazem com a divulgação de dados, informações e opiniões. É um poder que abrange a capacidade de influenciar (capturar) legisladores e autoridades de supervisão. O poder da web sobre a posse, controle e difusão dos dados atinge não somente a esfera global da economia, mas o impacto sobre os indivíduos subjugando-os aos objetivos econômicos. Imaginemos estes dados disponíveis para a inteligência artificial ou algoritmos.!

REALIDADE E VIRTUALIDADE

Chegamos ao limiar entre o mundo real e o mundo virtual ou liquido como se expressa Baumann. Observemos Um trabalhador em banco como Home office.  Ele vive duas realidades: a fenomenológica física e a líquida ou virtual. Na verdade as duas são reais e não são e cada uma com suas qualidades. Se pelo banco é enviado um montante para outro banco sensorialmente nenhuma das realidades pode ser comprovada. A famosa definição de Aristóteles de que nada está no intelecto que primeiro não tenha passado nos sentidos, caducou. Nada passou pelos sentidos e, no entanto, Alguém passou um Montante de um Local para outro, sem auxílio dos sentidos.

Naquele momento a realidade física dos dois bancos não tem existência. Nem o dinheiro da operação existe e nem o banco receptor. Só existem no mundo criado na virtualidade. Não existe também o dinheiro a ser enviado e não existe também o banco que recebe. Tudo não passa de operações virtuais entre UM PROGRAMADOR, UM MONTANTE e um RECEPTOR. O operador está confortável num sofá, capturando um dinheiro de uma entidade virtual e transferindo-o para outra conta virtual. A realidade física é uma quimera.

NOVA ATIVIDADE VIRTUAL.

Um programador, em home office, com cargo de iOS. O que faz? Sua especialidade são os aplicativos, disponíveis na Apple. E isto não é nada pouco, pois atualmente a área de tecnologia está praticamente toda em home office. E o que fazem estes profissionais? Desenvolvem software, ou um produto que é entregue de forma digital. Para isso as empresas criaram uma equipe de funcionários, sem endereço físico e sem empresa. Os funcionários atuam conforme a necessidade da empresa focando nos resultados. Como foram avaliados em termos de salários. Isso dependeu do valor da moeda de cada país. Por exemplo, um programador nos EUA vale 8.000 dólares. Num país de moeda fraca o mesmo programador vale no máximo 3.000 dólares. Está acontecendo uma globalização do valor do profissional programador, só que para baixo. O pagamento passou a ser feito por Pessoa Jurídica. A novidade: saem bits em dólares e chegam bits em reais, repatriando o dinheiro.

REALIDADE E VIRTUALIDADE

Chegamos ao limiar entre o mundo real e o mundo virtual ou liquido como se expressa Baumann. Um trabalhador em banco como Home office.  Ele vive duas realidades: a fenomenológica física e a líquida ou virtual. Na verdade as duas são reais e não são e cada uma com suas qualidades. Se pelo banco é enviado um montante para outro banco sensorialmente nenhuma das realidades pode ser comprovada. A famosa definição de Aristóteles de que nada está no intelecto que primeiro não tenha passado nos sentidos, caducou. Nada passou pelos sentidos e, no entanto, Alguém passou um Montante de um Local para outro, sem auxílio dos sentidos.

Naquele momento a realidade física dos dois bancos não tem existência. Nem o dinheiro da operação existe e nem o banco receptor. Só existem no mundo criado na virtualidade. Não existe também o dinheiro a ser enviado e não existe também o banco que recebe. Tudo não passa de operações virtuais entre UM PROGRAMADOR (que já fez seu trabalho), UM MONTANTE e um RECEPTOR. O operador está confortável num sofá, capturando um dinheiro de uma entidade virtual e transferindo-o para outra realidade virtual. A realidade física é uma quimera. O próprio objetivo principal, o sistema bancário, sofreu uma derrota na sua privacidade individualidade. As fronteiras até então consideradas e inexpugnáveis deixaram cair os baluartes: o Programa  PIX derrubou a impenetrabilidade do sistema bancário e o deixou exposto.


sexta-feira, 2 de setembro de 2022

O PLURALISMO COMO FORÇA MORAL DO OCIDENTE. Selvino Antonio Malfatti

 



 



Sociólogos, e estudiosos da Política, parecem convergir para uma congênita associação entre: religião, política e partidos. Este processo tem início em meados da Idade Média e início da Moderna. É visto como a secularização dos pilares da religião. A religião não é mais vista como pilar do controle social, função esta preenchida pelo direito. Aquele controle social exercido pela religião a partir de uma crença interna foi substituído pela força do Estado. O controle social foi substituído pela eficácia da força.

A religião, porém, deixou um componente na nova ordem: o pluralismo. Este perpassa as instituições jurídicas provendo-as do princípio do que pode e do que não pode. O direito, cuja maior parte é originária da religião, deu origem ao princípio do pluralismo. Tudo aquilo que não proíbe, é permitido. Este é o espaço do pluralismo, legado religioso cristão.

O inverso, em vez do pluralismo, teríamos o totalitarismo, pois só seria  permitido o que fosse legal.

Alguns aspectos significativos do pluralismo:

1.    Religião. O cristianismo já nasceu plural. A Judeia dos primeiros tempos possuía inúmeras crenças religiosas no seu seio. Pode-se destacar : saduceus, fariseus, essênios, zelotes e seguidores de Herodes. Cada uma também formava partido.

2.    Economia. Eram inúmeras as atividades econômicas no tempo de Jesus. As mais significativas eram agricultura, comércio e artesanato.

3.    Moral. Cada religião tinha sua própria moral. Da parte do Mestre não se conhecem condenações desta ou daquela moral religiosa.

Embora outras religiões tenham a mesma origem que o cristianismo, no entanto, foi no ocidente que encontrou terra fértil para o pluralismo. Em outros lugares ou só em parte ou não se desenvolveu. Vejamos alguns exemplos atuais de ausência de pluralismo. O caso fatwa (pronunciamento oficial emitido por autoridade específica) que levou ao atentado Salman Rushdie. Mesmo nos dias atuais o patriarca da Igreja Ortodoxa, Kirill, disse em letras bem claras: “o ataque à Ucrânia é justificável em termos de uma "guerra santa" contra os incrédulos ocidentais.”

É preocupante o íncubo dos populismos que se abrigam nos grupos de cristãos radicais do ocidente que levam ao totalitarismo. Estes se opõem ao modelo de sociedade individualista e ateia. Há uma teimosia e uma resistência em abandonar as bases do cristianismo. O maior problema é que resiste abandonar componentes de uma sociedade semirreligiosa e semileiga. Os grupos radicais aproveitam-se ou para voltar às bases irracionais religiosas pretendendo destruí-las de forma humilhante. Todos puderam ver no período do Carnaval um Cristo arrastado pelas ruas do Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, desrespeitado e açoitado sem piedade. Ou Maria, Nossa Senhora, humilhada naquilo que constitui o pudor íntimo da mulher.

Ser laico é manter-se equidistante tanto do conteúdo religioso como do não religioso, mas nunca referir-se a ele com desprezo.

Parece que a mentalidade, o comportamento laico, não consegue se desprender do conteúdo religioso. Por que esta insistência em relacionar-se ao religioso. A sociedade já conseguiu através do direito poder manter-se longe dos temas religiosos e, no entanto, insiste em buscá-los quando se depara com questões aparentemente inexplicáveis como o faz o filósofo esloveno Slavoj Zizek. Sugere que o desaparecimento da luta de classes chamou de volta a questão religiosa. Com efeito, quando um determinado autor não consegue encontrar uma resposta apela para a religião, não como explicação, mas como acusatória. E nisso está o paradoxo. A religião que deveria ser o terreno neutro da concórdia tornou-se a fogueira inquisitorial.

Nos dias atuais, quando tudo parecia pacificado – religião longe da vida social- os conteúdos sociais com caráter racional e a moral consensual embasando os comportamentos, surge no início do século XX o filósofo alemão Walter Benjamin colocando novamente as cartas na mesa dos conteúdos religiosos vestidos de outras roupagens. Benjamin afirma nada mais e nada menos de que, o capitalismo é a nova religião que nos salva: pessoalmente proporcionando um bem-estar e coletivamente o crescimento. Seu culto é puro, sem dogmas e de interesse imediato. E o pendão que atrai e conduz a sociedade – mesmo só como ideologia – é novamente o pluralismo. Mantendo-se como conteúdo condutor o pluralismo é a tocha que reune a todos irmanados, os que concordam e os que discordam, pois para discordar devem professar a pluralismo.

 

 


sexta-feira, 26 de agosto de 2022

A FORÇA DE EROS NOS ANTIGOS GREGOS CHEGA ATÉ NÓS PELOS TELESCÓPIOS. Selvino Antonio Malfatti

 



                        O Telescópio Extremamente Grande 

Desde os primórdios do homem sobre a terra despertou nele a curiosidade sobre seu habitat, o Universo, diga-se melhor, o Cosmos. Sim, Cosmos é a melhor palavra, pois o que era uma indeterminação tornou-se ordenado. Como isso seria possível? A desordem deu lugar à ordem?

É o que James Webb tentou avançar na ciência aeroespacial em 25 de dezembro de 2021, véspera de Natal. O telescópio de Webb é considerado o sucessor do telescópio Hubble de 1990. E este enigma mantém-nos ligados ao mistério de, como o pior – universo desordenado – deu origem ao melhor – Cosmos ordenado. O “novo” no telescópio de Webb é que é possível visualizar fenômenos em diferentes frequências de luz. Com este telescópio inauguramos uma nova era no esforço de desvendar o universo. E os próximos estão a caminho:

1.    O Telescópio Gigante de Magalhães (GMT), de 24 metros,

2.    O Telescópio Gigante de Magalhães (GMT), de 24 metros,

3.    O Telescópio Extremamente Grande (ELT), com extremos 39 metros de diâmetro.

O Cosmos sempre foi um mistério para o homem, mas nem por isso faltaram tentativas para decifrá-lo. Em praticamente todas as culturas antigas há teorias mitológicas para explica-lo. Poder-se-ia desfilar mitologias dos antigos como dos Assírio-Caldeus, dos hindus, dos persas, chineses e dezenas de outros povos. Para nós ocidentais são mais conhecidas as mitologias dos antigos gregos. Para eles o que existiu no início foi o Caos: um vazio indiferenciado, sem ordem.

O homem perante o Universo deve ter inspirado a sua interpretação do universo. Com Hesíodo temos uma das primeiras concepções globais sobre o Cosmos.

Não havia luz e predominava a escuridão. A luz surge com uma explosão, dando origem a Gea, a Terra, o Tártaro. Na escuridão dos mortos está o palácio do senhor, o Eros, que gera a Noite. Desta nasceram seus opostos o Ar Luminoso e o Dia e da Terra se formaram o Céu estrelado, as Montanhas e o Mar. Na obra de Hesíodo os deuses comandam o destino do homem. A felicidade encontrava-se no trabalho e na prática das virtudes morais.

Outro pensador grego, Hesíodo, traz á reflexão a existência humana e o faz através da lenda das Cinco Idades.

Enquanto a existência divina alça-se e sobressai-se do Caos à Ordem, o Cosmos, a humana regride e deteriora-se. Nossa presença e intervenção no mundo são negativas, pois em vez de somar, divide e consome. Tudo o que os antecessores fizeram e conquistaram a nova geração destrói. Depois de conhecer a idade do ouro, rebaixa-se à prata, e desta ao bronze e ferro. A qualidade de vida no planeta é rebaixada de geração em geração. A harmonia da natureza dá lugar ao conflito e ao sofrimento. A felicidade é substituída pela pobreza, com gosto de pobreza hídrica e energética.

No entanto o que parece uma desgraça, a pobreza, ela fustiga nosso ser na direção da tensão, num espírito inteligente que desperta para o trabalho para sair de seu ciclo orgulhoso. Para tanto brilha a ideia da sobriedade. Esta leva à moderação e à negativa do desperdício. Isto por que a sobriedade faz-nos distinguir entre o supérfluo e necessário. Ao atingir tal estágio a paz da alma volta. E sobriedade significa moderação e freio ao desperdício. Voltar a aprender novamente a distinguir entre o supérfluo e o necessário é o aprendizado de uma educação para a paz.

O paradoxo se apresenta: o que parecia uma vergonha, a pobreza, se constitui como força que nos leva à cidadania.

Até mesmo para Platão, Eros, o Amor, é filho de Penia, Pobreza, e Poros o Expediente. E quando a inteligência do Amor sente aquela falta forte e dolorosa então atrai para si todas as forças de que é capaz para alcançar o que almeja.

 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

O que significa chamar Deus de Pai. José Mauricio de Carvalho.

 




Falemos de ser pai nos dias dos pais. A experiência de ter um pai é uma das mais extraordinárias formas de enriquecimento de nossa humanidade. Considere que a paternidade não é uma questão apenas biológica e é quase nada se fica apenas nessa dimensão. O que a faz especial é o fato de que o pai estabelecer com o filho uma forma de cuidado e relação que o enlaça e o faz crescer, crescer para seu lugar existencial e abrir-se para os outros numa relação de fraternidade.

 Não somente a paternidade é importante, a maternidade também o é, são ambas expressões do mesmo amor, mas com um tom diferente. Talvez se possa dizer que paternidade e maternidade sejam variações do mesmo encontro de afetos, o que fica confuso num tempo em que, frequentemente, o homem faz o papel de pai e mãe e existem mães que são, simultaneamente, mães e pais. Mas quando dizemos isto reconhecemos que há formas diferentes de cuidar do filho que qualificam essas formas de presenças de modo próprio.

Das variações possíveis desse amor o pai é quem mais se dedica a proteção da família, vive o esforço de prover e o desejo de ver o filho crescer e tornar-se adulto independente. Para isso muitas vezes acaba corrigindo comportamentos e indicando pontos em que o filho ou filha necessitam evoluir, ele cobra, ele mostra que a sociedade necessita de pessoas que saibam cumprir sua singular missão e o façam de forma madura e qualificada. Ele ensina a sempre procurar ser melhor.

Nosso propósito neste texto não é, contudo, examinar as diferenças entre a maternidade e paternidade já que em nossos dias ela não é tão explícita, mas indicar que os homens têm um Pai não somente nesse mundo, mas também fora dele. Um Pai para além do fenomênico.

As religiões antigas, quando alcançaram a dimensão monoteísta, identificaram um Deus que protegia, mas que era simultaneamente um disciplinador, um Senhor Altíssimo, isto é, distante, mesmo quando podia ser invocado. Um Ser acima de todos. Um esclarecimento crescente dessa relação foi desenvolvida na experiência de Deus feita no judaísmo e descrita no livro sagrado dos judeus.

Uma das mais significativas interpretações desse processo de relação com Deus foi feita por Martin Buber. Ele soube indicar que o mais importante na relação com Deus é a experiência existencial desse encontro. E Buber fez isso tratando da palavra dirigida a Deus como o lugar dessa presença. Isso porque Buber via na experiência do homem bíblico uma forma especial de encontro que, às vezes, também vivemos com outros homens. Isso porque a relação com o outro homem, em certas circunstâncias, é semelhante a outra forma que se tem com a transcendência. E é apenas nesse encontro entre pessoas que surge o amor porque na relação com as coisas se desenvolvem outras maneiras de relação, como a experiência da utilidade. E a relação com as coisas é o que vivemos de mais comum e rotineiro, mas a relação com o outro é o que nos faz humanos. É essa relação qualificada que podemos ter com Deus e que permite evoluir da percepção de um Deus insondável, distante, tenebroso, misterioso, violento, acima de todos e completamente Outro para Alguém com quem se pode viver momentos de intimidade, acolhimento, perdão e amor. Alguém que vive entre nós. Se Ele é alguém de quem se pode falar e descrever, então se fez uma reificação de Deus, tornado objeto de minha compreensão. Isso pode ser feito com o máximo respeito, mas não é mais que uma coisificação de Deus.

O que há de novo e fundamental no cristianismo foi que Jesus de Nazaré fez, melhor que todos os homens, a experiência dessa relação direta com Deus sugerida pelos profetas de Israel e, nesse encontro, formulou uma metáfora de quem O encontrou. Se temos que criar uma metáfora para falar Dele, que seja como a um Pai a quem se fala, disse Jesus. E assim devemos nos aproximar dele, como um pai que é bom, que acolhe e se entrega de amor a quem o procura e se dispõe a encontrar-se com Ele. Uma aproximação que não se faz fora da reciprocidade, totalidade, inobjetivação, imediatez, presença que conduz as pessoas para fora do tempo e espaço. O que vem depois já é um passo para fora desse momento especial. E para viver essa relação é que Jesus ensinou a chamar Deus de Pai, pedir para ser acolhido na Sua presença, Santificar o seu nome, reconhecer e pedir perdão pelos próprios limites, mostrar que está aprendendo a amar perdoando os outros que lhe fizeram mal (Mt. 6, 7-15). O encontro é relação entre Pessoas: entre um Eu e um Tu. Toda tentativa de estabelecer um controle sobre Deus, mediar esse encontro é farisaísmo e ele se torna mal quando usa o nome de Deus para outros objetivos menos nobres que participar e difundir o seu Reino. Quem faz isso, como disse Jesus aos fariseus, não é de Deus porque não O experimentam face a face, nem vivem na sua presença. E Deus não os escutará mais nem melhor do que que quem faz o encontro e vive na Sua presença.

 

 

 

 


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Antropologia do beijo. Selvino Antonio Malfatti

 


Veneza - um beijo na Praça São Marcos.


Nestes dois últimos anos a humanidade passou em abstinência de contato epidérmico com seu semelhante. A pandemia obrigou a todos a manterem distância de seu semelhante. Inclusive e, com mais seriedade, do beijo, considerado uma fonte de contaminação.

Não pude deixar de me interessar pelo sentido do beijo. Primeiramente por causa da autoria atribuída ao beijo: aos macacos e segundo a multifacetação interpretativa deste gesto, pelo o apóstrofo rosa.

Com efeito, acredita-se que a prática dos macacos de pré-mastigarem a comida e depois levá-la à bota dos filhotes com a língua deu origem ao beijo. Disso alguns antropólogos concluíram que os humanos aprenderam  a beijar na boca!... Mas sejamos compreensivos e apeguemo-nos ao ditado: “sì non è vero è bene trovato”.

O beijo na boca é um contato epidérmico do ser humano, levemente superficial. Rápido no fazer, mas de duração permanente. Desde que o ser humano se conheceu como tal, está registrado na história o beijo. Em todas as culturas é o símbolo do amor. É o apóstrofo rosa entre as palavras: Beijo (´) (apóstrofo) = eu te amo.

O problema é com decifração da incógnita da mensagem: “Paixão, dedicação, compaixão, reconciliação, união, escárnio, separação, doçura, ternura?”, conforme Edmond Rostand.

Subitamente pelo beijo o semelhante tornou-se uma ameaça real de morte. Manter a distância por que o contato físico passou a ser visto como contágio e a efusão em infecção. Não se trata de uma simples medida de cautela imunológica, mas uma afasia de sentimentos, um bloqueio de almas. Nossa vida em multidimensões por meio da interface corporal faz de duas pessoas uma só. Na expressão do poeta inglês, Percy B. Shelley, "a alma encontra a alma nos lábios dos amantes".

Perdido na História houve um momento que o beijo tornou-se social e cada cultura lhe atribui atributos diferentes. Bastaria consultar a literatura de cada um. Como amostra, consultemos os romanos. Para cada ocasião havia beijos e todos eles diferentes. Havia os amorosos, os respeitosos, os obedientes, os fraternos, paternos- maternos, filiais, amigáveis, conviviais. Os romanos tinham três contatos labiais: o basium, que deu origem ao beijo, o osculum e o savium. Isidoro de Sevilha, um teólogo, classificou conforme a ocasião: O basium é o que o marido e esposa trocam. O osculum é o que se dá às crianças. O savium é o beijo tórrido que os amantes se dão.

Esta distinção de categorias de beijos nas culturas e épocas se mesclou como aconteceu com o poeta romano Catulo. Ele pede para a sua amada Lésbia mil básia, depois cem, e volta novamente com mil. Deveria ter dito sávia mas como era poeta tinha a liberdade de trocar. Paulatinamente a palavra basia suplantou as demais e impôs-se como oficial para beijo. (Prima del uomo vienne il baccio: Marino Niola - Corriere). 

 

Postagens mais vistas