quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A jornada humana: para os que fazem da história um compromisso de vida. José Mauricio de Carvalho. Academia de Letras de São João del-Rei




Pode-se falar de muitos aspectos de uma jornada, do caminho percorrido, das impressões vividas no trajeto, da paisagem com seus encantos e desafios, do olhar em perspectiva para tudo o que foi experimentado no deslocamento, das lições que o percurso deixou. Sempre há o que observar e relatar, pois isso que resultou do percurso é a vida já vivida, a vida que se fez no tempo dessa jornada. Vida é mesmo esse que fazer no tempo.
Tempo é do que trataremos, o que nos tece e nos torna diferentes do que éramos e, também, mesmo sendo distintos, ainda nos mantém iguais ao que já fomos um dia. Um pouco fica e outro muda. E o que muda guarda algo do que ficou. Melhor assim, quando estão unidas essas pontas que amarram o não mais ao ainda surge um compromisso íntimo de jornada que não nos afasta do que somos. Essa deliciosa experiência no tempo foi resumida pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset nos seus estudos sobre a vocação. Para ele, o homem só está seguro de si quando é fiel a sua vocação. Contra o intento de ser o que não é, declara o filósofo, na segunda parte de España Invertebrada, na fórmula de Píndaro (ORTEGA Y GASSET, José. España Invertebrada. Obras Completas. v. III, 2. reimpresión, Alianza, Madrid:  1994, p. 102): “voltemos as costas para as éticas mágicas e fiquemos com a única aceitável, que faz vinte e seis séculos resumiu Píndaro em seu ilustre imperativo: torna-te o que és.”
 Esse tecido da existência, que é o tempo, une no momento presente tudo o que se passou e se alimenta da esperança e responsabilidade pelo que virá. Assim é quando está amarrado pela missão existencial que é a concretização social da vocação. Se não estão presas as pontas do passado e do futuro as escolhas ficam sem esse fio íntimo que lhes dê coerência e sustentação. É a esperança renovada e a responsabilidade com o próprio destino que alimenta a vida e impede que o passado seja simplesmente um cadáver, que possa ter sentido e ser o alimento de novas coisas. Assim, enquanto a vida continua é a esperança de futuro, recuperando o passado e alimentando o presente que tecem aquilo que chamamos história. História que tem raízes na temporalidade do homem, nas escolhas que a vida permite e nas alternativas que ficam abertas na circunstância, que é única, para cada pessoa.
A vida humana é história, vivê-la de forma consciente é assumir a responsabilidade pelo futuro. É essa consciência que permite entender o passado como tecido de escolhas e não fatalizá-lo. Ao reconhecer as alternativas anteriores, é possível avaliar as alternativas do futuro.
Assim, a história já vivida não é apenas a matéria-prima dos historiadores, mas a possibilidade ainda não criada e por criar. O futuro não é um prolongamento do passado, mas a poesia a ser rimada a partir do que se tem por viver.


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

ENCONTRO DA FAMÍLIA GIOVANELLA – GIOSEPPE E MARIA LETIZIA. Selvino Antonio Malfatti




Está sendo muito comum atualmente famílias de descendes de italianos que imigraram para o Brasil no final de século XIX reunir-se numa data para confraternizar. Embora os primitivos troncos não mais existam, seus descendes fazem questão de se encontrarem e festejarem. A história de cada família é praticamente igual a todas as demais. A situação econômica e social entre os que aqui chegaram e a prole dos descendentes está muito distante. Os que vieram mal tinham como se sustentarem pelo cultivo de suas lavouras. Moravam em casinhas de madeira construídas por eles mesmos. Recursos econômicos, como dinheiro vivo era praticamente zero.

Ao chegarem cada familia recebia um lote de terra, sem nenhuma benfeitoria, no meio da selva. Os caminhos eram trilhas no mato que ligavam uma familia ás outras. A única fonte de renda para sobrevivência era o lote de terra comprado do governo brasileiro a ser pago por um dilatado prazo e o próprio trabalho manual. Os três fatores, propriedade, trabalho e poupança possibilitaram progresso. 

Atualmente, seus descendentes, estão longe daquele primeiro estágio: o trabalho utiliza tecnologia de ponta, a agricultura praticamente foi substituída pela indústria ou agroindústria e as novas gerações estão migrando para serviços. 

O sonho dos imigrantes de encontrarem a “Cocagna”,foi realizado pelos descendentes que ascenderam ao status de pequenos proprietários dedicados ao agronegócio, empresários de indústrias nacionais e internacionais e profissionais reconhecidos.

É neste contexto que os descendentes da família GIOVANELLA se encontrarão nos primeiros dias de novembro no local onde se estabeleceram os imigrantes originários: Batovira, localidade do distrito de Garibaldi, hoje pertencente ao município de Progresso. Para tanto farão um Encontro.

A família Giovanella, cujo elo une descendentes brasileiros e ascendentes italianos, foi Giovanni Giovanella, 53 anos e sua esposa Celeste Giovanella, 40 anos, provenientes da Itália, Trento, 1875. Juntos vieram os filhos Pietro, 17 anos, Giovanni, 16 anos, GIOSEPPE , 9 anos. Posteriormente nasceram Ferdinando, Antonio e Cesare. Foram residir em Bento Gonçalves, na picada Garibaldi, hoje município.

Gioseppe casou-se com Maria Letizia, em Encantado (RS), em 1921. O casal teve como filhos: Fiorello, Arnesto, Arlindo, Benilde, Venilde, Amélia, Irene, Míria, Lourdes e Adélia.
Atualmente constituem 311 descendentes. Filhos, genros e noras 20; Netos e cônjuges 105; Bisnetos e cônjuges 130; Trinetos e cônjuges 56.

O Encontro terá a seguinte Programação:
No dia 2 de novembro de 2019, na localidade de Batovira, município de Progresso, RS, ocorrerá o Encontro no salão da comunidade. O evento terá início às 8:30hs com apresentação dos familiares. Às 9:30 visita ao Cemitério onde estão os restos mortais de seus antecessores. Missa festiva às 10hs na Capela São Roque e ao meio-dia almoço de confraternização. Durante o evento haverá homenagem especial às cinco filhas vivas do casal Gioseppe e Maria Letizia.

sábado, 26 de outubro de 2019

A filosofia e a superação da radicalidade política. José Mauricio de Carvalho



Tornou-se comum analisar o processo social e político brasileiro com a categoria radicalidade. A pessoa comum diz que o país se encontra dividido em duas categorias políticas com as quais ela resume a disputa política: esquerda e direita. Essas categorias dizem pouco porque, por exemplo, a social democracia e o socialismo radical encontram-se à esquerda, mas são projetos distintos. O mesmo se diga da direita onde o tradicionalismo católico, os segmentos evangélicos e o nazismo estão à direita, embora sejam muito diferentes entre si. A radicalidade política começa a ser combatida com conhecimento do processo político e dos seus projetos. É pouco simplesmente tratar essa questão reduzindo o problema a esquerda e direita. Essa não é uma questão simplesmente teórica. Na prática nem todo cidadão que critica o governo Bolsonaro deseja a liderança de Lula e nem todo crítico do Partido dos Trabalhadores é adepto de Bolsonaro.
Se o primeiro passo para a superação da radicalidade política é o conhecimento das forças políticas, um segundo passo é o conhecimento da política como a arte do debate e de construir consensos. Em outras palavras, a política exige que se converse de forma tranquila com pessoas de todas as posições. Nesse sentido, faz falta um homem como Tancredo Neves que era capaz de dialogar de forma aberta com todos os segmentos políticos e buscar consensos. Isso não apenas se devia à sua disposição psicológica para a moderação e o equilíbrio, mas ao reconhecimento de que era necessário construir consensos para além das legítimas disputas pelo poder. Quando os alemães ocidentais estavam divididos, ao final da Segunda Guerra, entre aqueles que queriam uma aliança com os Estados Unidos e os que pretendiam uma política independente, o filósofo Karl Jaspers observou que primeiro era preciso construir um consenso entorno à organização livre e democrática. A construção de consensos, para além do apoio à seleção de futebol do país, é fundamental sob pena de ameaçar nossa existência como nação.
Esses dois passos contemplam a ciência política e sua prática, mas há um terceiro passo que é imprescindível. Ele depende da educação humanista e ampla que anda atualmente em baixa em nosso país. Porém, é esse pensamento que alimenta a reflexão crítica e preserva a racionalidade contra qualquer atitude indigna dela. Nesse sentido, tem muita importância a formação filosófica e a capacidade de reflexão. São elas que esclarecem os princípios e os objetivos da prática política, preservando o essencial da vida social, os valores estruturantes da sociedade e o destino da humanidade. Por isso tem sido um desastre o uso da filosofia na defesa de ideologias, tanto à esquerda quanto à direita, nas redes sociais.
A filosofia é um pensamento que funciona se independente, não da vida e de seus problemas concretos, mas de posições radicais que impedem a procura da verdade. Uma independência capaz de buscar no passado a orientação que importa e de estimular a busca de consensos para viabilizar o futuro. Todo verdadeiro praticante da filosofia está comprometido não com ideologias, mas com a liberdade e independência das ideias já estabelecidas para buscar a verdade. Esse terceiro passo é também fundamental.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O DEBATE DO ENSINO PÚBLICO E EDUCAÇÃO RELIGIOSA NO BRASIL. Selvino Antonio Malfatti.





A Educação no Brasil passou por vários períodos. No período colônia predominou a ensino da Escolástica que dava ênfase a uma educação formal sob a orientação da Igreja católica, mais precisamente pelos padres jesuítas.
Este período perdura até o século XVIII, sendo substituído no governo do ministro Marquês de Pombal que mandou que se implantasse um ensino eminentemente científico, mas sem se desvincular da orientação católica.

Com a Independência, no século XIX, o ensino continuou ter a orientação da Igreja católica, inclusive a educação estava entregue à Igreja, dentro do princípio do Padroado.

A ruptura acontece com a República que institui um ensino leigo, mas sem proibição do ensino privado. A Revolução de Vargas confirma o ensino leigo, mas permite o ensino religioso em todas as escolas, mesmo no ensino público.

É neste momento que se dá o grande debate objetivando o afastamento do ensino religioso das escolas públicas, levado adiante pela educadora CECÍLIA MDEIRELES, na Década 1930-1940, através principalmente de jornais.

O maior embate ideológico enfrentado por Cecília Meireles na educação foi o confronto envolvendo Governo de Getúlio Vargas, Igreja católica e a ideologia da Escola Nova. O Governo, de cunho positivista, mostra uma fachada liberal, mas internamente era positivista. A Igreja, ainda despeitada pelo despojo da Proclamação da República, continua mantendo sua posição tradicionalista e a Escola Nova posiciona-se pelos princípios liberais.

O divisor ideológico bem antes viera à tona. Mas foi com o Manifesto dos Pioneiros da Educação, 1932, elaborado por Fernando de Azevedo e seguido por 26 intelectuais, que se propunha inovar na educação brasileira, assim como acontecia em vários países da Europa.

No Brasil, reinava relativa harmonia ideológica na educação até o final da década de Vinte. No entanto, a questão da educação do país sempre esteve na pauta das discussões políticas por parte de grupos organizados. Tome-se como referência a Associação Brasileira de Educação, 1924, a influência da Escola Nova na crítica ao tradicionalismo pedagógico da Igreja. Por sua vez, Getúlio Vargas, filho de um hibridismo ideológico, pois, por parte de pai era chimango e pela mãe, maragato. Mas, ao que tudo indica, a preponderância ideológica coube ao pai – positivista- e, como tal, o catolicismo pouco interesse despertava nele ele.

No início de 1929, no entanto, apresentam-se três grupos rivais dispostos a disputarem a hegemonia da educação brasileira: os da Escola Nova - escolanovistas –, a Igreja – católicos -, e governo-estrategistas. Os dois desforçavam-se perante o governo querendo provar que sua concepção de educação poderia alcançar a salvação nacional, mas cada um deles com projetos distintos quanto aos fins propostos. Os católicos arregimentaram-se em torno do tradicionalismo e os liberais passaram com os argumentos dos Pioneiros da Educação. (LAMEGO, 1996, p. 80-96.)

O pivô da questão foi o Decreto de 1931 que facultava o ensino religioso em qualquer escola: pública ou privada. A posição do governo é defendida pelo ministro da Educação e Saúde, Francisco Campos. Sua concepção política, de acordo com Bomeny e Schwartzmann, alinhava-se ao fascismo italiano, cujo ideal político era um regime de autoridades, ao contrário do liberalismo que defendia a liberdade e a individualidade. (LAMEGO, 1996, p. 80).

Campos defendia a arregimentação das massas a partir de um ideário comum, sob a liderança de um mestre, apoiado num Estado forte e legítimo. Defende um regime voltado para as massas, calcado num líder carismático centro da integração política. Este regime é próprio da ditadura e não da escolha. (Id.)
Evidentemente, com esta visão política e ideológica, bate de frente com os princípios liberais da Escola Nova que preza a liberdade individual acima de qualquer interferência do Estado. Para Campos, o liberalismo é um regime anacrônico e o tradicionalismo católico poderia servir melhor aos objetivos do governo de Vargas.

No grupo dos católicos alinhavam-se membros das principais associações: Centro D. Vital, em São Paulo e no Rio de Janeiro, na Associação dos Professores Católicos do Distrito Federal e, principalmente, a partir de 1934, na Confederação Católica Brasileira de Educação. Seus membros congregaram-se principalmente na Revista Festa (FESTA, 1978) da qual Cecília no início foi colaboradora. Além da tradição, acompanha a linha espiritualista, atraindo um número relativamente grande de filósofos e escritores católicos.

Neste grupo destacaram-se principalmente: Tristão de Athayde(1893 – 1983), Gustavo Corção (1896 –1978), Jackson de Figueiredo (1891 - 1928).
O alvo da crítica na questão religiosa, no Decreto, é o ministro Francisco Campos. Isto por que o documento facultava o ensino religioso em escolas públicas e privadas. Para Cecília, religião é catequese, isto é, a subordinação à uma seita. Cecília não dirige críticas diretas a Getúlio Vargas, mas sempre ao ministro da educação. (LAMEGO, p. 84).

Getúlio Vargas, para legitimar a Revolução, necessitava arregimentar forças político-sociais a seu favor. Evidentemente buscaria algum grupo que sintonizasse, ao menos em parte, com sua ideologia positivista. Viu que este grupo, defensor tradicional da moral, seria a Igreja católica. E por isso abre-lhe as portas da educação, inclusive no ensino superior, ou universidades. (FESTA. Edição Fac-similada. Rio de Janeiro, Inelivro. 1978.A Igreja não se fez de rogada ao convite. Evidentemente, sem subordinação. Conforme o cardeal D. Leme: ou o Estado reconhece o Deus do povo, ou o povo não reconhece o Estado. (In: LAMEGO, p.124). 

À ação moralizadora, meta do governo de Getúlio, a Igreja correspondeu plenamente. Como os princípios liberais da Escola Nova, não só eram concorrentes como uma ameaça, por isso mereceu da parte da Igreja um combate sistemático. Centrou-se sobre a laicidade da educação, a coeducação dos sexos e o monopólio estatal. Conforme Alceu Amoroso Lima, a Constituição, a Escola e a consciência ficaram sem Deus. Era preciso restitui-Lo.

Num balanço feito sobre a Primeira República diz a Igreja que: o regime laicista teve tempo suficiente para dar provas de si, ruiu em 1930 após informar toda a instrução pública primária, secundária, normal e superior, Deus foi excluído na formação dos brasileiros, seccionou o ensino público do privado, a escola da família, introduziu a indiferença moral. (A ORDEM, 15/05/1931).
À medida que a Igreja ascendia, a Educação da Escola Nova perdia terreno. Já havia demonstração de vitória, como aconteceu com a Consagração de Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil, diante de uma multidão Getúlio e o Cardeal Leme discursando juntos. Cecília lamenta num artigo intitulado: “Pobre Escola”. (MEIRELES, Pobre Escola, Página da Educação, 9/05/1931).

Dentre os dois segmentos após a vitória da Aliança Liberal que se apresentaram na disputa pela hegemonia ideológica, Escola Nova e Igreja, conforme Cecília incontestavelmente a Igreja levou a melhor. Prova disto é a atuação das Legiões, grupos paramilitares em defesa dos interesses revolucionários, que se posicionam abertamente na defesa dos compromissos com a Igreja, mormente no que se refere ao ensino religioso e a validade do casamento religioso, conforme Gustavo Capanema, diretor de Instrução, de Minas Gerais: “a Legião reafirma todos os compromissos com a Igreja...”

BIBLIOGRAFIA
Decreto do Governo Provisório, nº 19.941. Diário Oficial da União – Seção 1 – 6/5/1931. p. 7191.
FESTA. Edição Fac-similada. Rio de Janeiro, Inelivro. 1978.
LAMEGO, Valéria. Arpa na Lira: Cecília Meireles na Revolução de 30. Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record, 1996.
MEIRELES, Cecília. Pobre Escola. Página da Educação. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1931.
Revista A ORDEM. Editorial n. 15, 1931, p. 257-262.




sexta-feira, 11 de outubro de 2019

IDEOLOGIAS, FAKES E FOFOCAS. Selvino Antonio Malfatti.



Ingleses e americanos batizaram o Fake News e os brasileiros  inventaram a Fofoca. O Fake News tem uma longa história, desde Tarquínio o Soberbo aos nossos dias, e se caracteriza em difundir notícias falsas. A Fofoca não tem data de início preciso, mas as primeiras notícias de fofocas são originárias de reuniões em locais exclusivas de mulheres, como de lavadeiras ou cozinheiras, sem querer dizer com isso que são originárias delas. Existe muito homem fofoqueiro escondido por aí.

No Brasil, fakes e fofocas se confundem e nem sempre se consegue separá-las. Vejamos algumas: D. Joao VI herdou a fama de comedor de coxinha de galinha, D. Carlota Joaquina teria se envolvida com numerosas aventuras extraconjugais. De D. Joao VI ainda se diz que escondeu uma filha bastarda. D. Pedro, alvo também de fakes, contra atacava espalhando notícias falsas em jornais usando pseudónimo. Já no período getuliano, na eleição entre Eurico e Eduardo Gomes, este num discurso falou em “malta de desocupados”. Os partidários de Eurico difundiram a ideia que se referia a trabalhadores “marmiteiros, negros, espíritas, pobres e mulheres que trabalham fora de casa”. Eduardo Gomes foi derrotado.

Provavelmente foi com a eleição de Jair Bolsonaro que recrudesceu a difusão de Fofocas e Notícias falsas e a radicalização ideológica. Os perdedores, despeitados pela derrota nas urnas, depois de quinze anos no poder, foram para o ataque na mídia. Os vencedores, acuados pelos perdedores, revidaram contra atacando. No momento assistimos a uma verdadeira guerra civil virtual entre perdedores e vencedores, transpondo o limiar de fakes e fofocas, para ingressar no campo ideológico e agressão moral e física.

Pode-se dizer que a eleição do Presidente do Brasil. Jair Bolsonaro, bem como seu governo, provocou um divisor de águas nas redes sociais entre partidários da ideologia liberal-democrata e os da ideologia socialista de várias colorações: os primeiros, favoráveis ao Presidente e os segundos contra. Estes últimos atacam sistematicamente o presidente e seu governo e os favoráveis defendem-se justificando os atos do Presidente. Já se perdeu a neutralidade da análise e os dois lados se engalfinham numa luta de destruição do adversário.
A análise poderia abranger vários enfoques como econômico, educacional, política externa, ações sociais entre outras. Devido à presença de Bolsonaro à reunião da ONU e sua fala inaugural, destacamos alguns tópicos como protótipos de divisores político-ideológicos. O discurso presidencial privilegiou a Amazônia. 

Atacou a internacionalização, defendeu a soberania, acenou para a integração indígena, condenou a globalismo socialista e defendeu a cooperação. Atacou o interesse estrangeiro dizendo que sua presença na Amazônia não é para defender o índio, mas interesse pelas riquezas.
E o ataque à politica ambiental de Bolsonaro serviria, como exemplo,  é utilizar-se de argumentos colocados na boca do Cacique Raoni Metuktire afirmando que:  
- os índios seriam povos originários da floresta;
- seriam portadores de sabedoria ancestral;
- preveriam o futuro da natureza e humana;
- grande tradição da humanidade (espíritos, vida, floresta, rios e toda natureza);
- implantariam uma nova cosmologia e biologia etc

Os partidários de Bolsonaro se perguntam: é possível um índio filosofar desse jeito, usando argumentos de uma filosofia oriental? E acrescentam:
- Os presidentes antecessores eram socialistas, desviaram milhões de dólares, comprando parte da mídia e parte do parlamento;
- O objetivo último seria vencer a eleição, instalar um poder absoluto e totalitário
- A previsão não se cumpriu e por isso estão inconformados por que foram julgados e punidos.

O que acontecerá se os espíritos não se apazigarem e a paz não voltar? 





sábado, 5 de outubro de 2019

A ÉTICA ESPIRITUALISTA DE ANTÔNIO PEDRO DE FIGUEIREDO. Tïago Adão Lara - Professor aposentado da UFU – Uberlândia – MG – Brasil



Parece esclarecido, para os pesquisadores do pensamento brasileiro, que a reflexão filosófica, de caráter já genuinamente nacional, configura-se a partir da nossa independência política, nos inícios do século XIX. Tivemos, sim, ensino de filosofia e produção de obras, consideradas filosóficas, no período colonial. Tudo, porém, como reflexo da vida cultural da metrópole, e nos moldes da segunda escolástica, interpretada e vivenciada segundo ditames da contrarreforma. O surto moderno de renovação cultural, que a partir do Renascimento começara a configurar-se na Europa, e que alcançou Portugal na época do Iluminismo, sob o governo do Marquês de Pombal, teve atuação bastante restrita e, entre nós, foi de pouca ressonância.
A independência política do Brasil, contudo, evidenciou, de maneira até aguda, as urgências de repensar a convivência nacional. A própria dinâmica histórica, que levou o país à autonomia, operou-se já sob a influência de outro clima cultural, aquele que resultou na Revolução Francesa e na Independência americana.
A Igreja Católica que, em Portugal e no Brasil, de parceria com a monarquia portuguesa, se constituíra instância última de definições e de transmissões de valores, encontrou-se, na época, num período crítico. De um lado, as autoridades de Roma cobravam remodelação geral da vida eclesial, exigindo uma independência com relação ao Estado, em favor da igreja; independência desconhecida, até então, no mundo ibero-americano. De outro lado, urgia a formação de uma eliteclerical, afinada com a política ultramontanista de condenação da modernidade, considerada negação de toda ordem cristã. Um impasse se criava e era preciso contornar a situação difícil.
Da reflexão filosófica se pedia, então, aquilo que já vinha acontecendo na Europa, ou seja, bases sólidas, para uma concepção eticopolítica, não mais dependente dos ditames da fé cristã, mas baseada na luz natural na razão.                  Nesse impasse ideológico e nesses inícios de recomposição institucional dos poderes religioso e político, no Brasil, é que surgiu, entre nós, a corrente eclética de pensamento, ou melhor, a tendência eclética em filosofia. Ela tem uma história longa, no Ocidente. Emerge no mundo greco-romano, após o período áureo da reflexão filosófica, no mundo helênico. Pleiteou, então,constituir-se como resultado da escolha seletiva do que de “verdade” se encontrava, nas várias correntes filosóficas existentes. No século I d.C. Potamon de Alexandria dava a seu pensamento o nome de ecletismo. Outros pensadores, sem adotar o nome, aceitaram sua metodologia. Antíoco de Ascalón, mestre de Cícero, pertencente à Nova Academia, tentou superar o ceticismo da Escola, apelando para o antigo dogmatismo platônico. Para afirmar algo como provável (afirmação da Nova Academia) urge um critério de verdade que, para Antíoco, é a concórdia entre os filósofos. Na Idade Média, vários autores cristãos são considerados ecléticos, como é o caso de Justino, Clemente, Orígenes e Lactâncio. O critério que comanda, para eles, a escolha seletiva das verdades filosóficas a admitir é, em última instância, a concordância com, ou a possível adequação às verdades por Deus reveladas.
Essa tradição adequava-se com a situação nacional. A formação cristã da nação brasileira era por demais arraigada e evidente, para se pensar uma elaboração cultural toda outra, desconsiderando séculos e séculos da história luso-brasileira. Por outro lado, fortes e evidentes se tornavam também os apelos para a abertura às doutrinas que estavam fazendo a glória dos progressos modernos e constituíam fundamento de um mundo novo.
A tendência eclética entre nós tentou, pois, uma conciliação entre as bases cristãs da cultura brasileira, herança de tradição lusitana, e a necessidade de um avanço. Filiou-se, assim, ao movimento francês de pensamento, ligado a Hegel, através do historicismo de Cousin e Jouffroy. A problemática ética encontra-se no centro das preocupações dos ecléticos. Os motivos são bem claros, como tentamos elucidar, no início da nossa fala. Para a construção de um Estado sólido, urgia a solução de um impasse criado pelo surgir de nova perspectiva histórica, diante da antiga, originada e defendida no Cristianismo. O gancho que permitia reencontrar, em bases racionais e, até, com certa pretensão de cientificidade, a dimensão ética e religiosa da existência humana colocara-o Maine de Biran. Inicialmente ligado ao materialismo de Condillac, Maine de Biran, como afirma Henry Goutier, em Dictionnaire des Philosophes, evade para uma posição prepositivista, afirmando a aderência aos fatos, mas, ao mesmo tempo, reconhecendo a existência de um sentido íntimo de apreensão do mundo da vida, especificamente humana, como capacidade de ter iniciativa de ação. Escreve Goutier: Maine de Biran constata que na (expressão) eu sinto, o eu que se afirma como o que sente é um sujeito ativo, cuja gênese não pode se encontrar a partir de sensações passivas, ligadas ao mundo dos objetos. A consciência do eu emerge de um “sentido intimo” que, por sua vez, emerge com o “sentimento do esforço motor voluntário”; assim, eu quero levantar o braço: a iniciativa vem de mim (vontade) e ela provoca um movimento, em meu corpo (motricidade). Duas vidas, portanto: a vida animal, essencialmente passiva...; a vida humana, essencialmente ativa, a do sujeito que toma a iniciativa, mas de um sujeito não separado do seu corpo, já que suas iniciativas desencadeiam movimentos; meu corpo é, então, enquanto corpo, objeto dado pelos sentidos externos e estudado pelas ciências da natureza, enquanto meu (corpo) ele é conhecido a partir do interior e participa da subjetividade.
A esse gancho agarraram-se pensadores brasileiros. Em A filosofia brasileira de Antonio
Paim, editado em Lisboa em 1991, lê-se: a familiaridade com a doutrina da Escola Eclética é alcançada graças a ida a Paris, nos anos 30 (do século XIX) de dois jovens, em busca de uma alternativa tanto para o sensualismo, com quem se tinha familiaridade, como para o espiritualismo renascente, mais afeiçoado com o ciclo da denominada Escolástica decadente.
Os dois jovens foram: Domingos José Gonçalves de Magalhães, do Rio de Janeiro, e Salustiano José Pedrosa, da Bahia. Na França tornaram-se, os dois, discípulos de Theodore Jouffroy, “cujo magistério Magalhães exalta em correspondência com Monte Alverne, desde que se revela digno sucessor de Royer Collard e último discípulo de Cousin”. Em Pernambuco, as ideias de Cousin tornaram-se conhecidas, de maneira mais fundamentada, pelo fato de Antônio Pedro de Figueiredo ter-se dado ao trabalho de traduzir e publicar, em um volume, em 1843, a obra de Victor Cousin, intitulada Introdução à história da Filosofia e, logo em seguida, em dois volumes, o Curso de História da Filosofia.  Escreve: “Em Pernambuco, Antônio Pedro de Figueiredo reúne, em seu derredor, diversos intelectuais e, em pouco tempo, a única opção com que se defrontará será a tradicionalista”.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Tiago Adão Lara. José Mauricio de Carvalho – UNIPTAN e UFSJ





Faleceu na quinta-feira passada, dia 26 de setembro de 2019, o Prof. Tiago Adão Lara, pesquisador, filósofo, teólogo e estudioso da filosofia brasileira. Era natural de São Tiago – micro região de São João del-Rei. Nasceu em 24 de maio de 1930. Fez os estudos de filosofia no Seminário Salesiano de São João del-Rei e, no exterior, teologia em Turim entre 1953 e 1957 e especialização em filosofia na Universidade de Louvain, Bélgica (1971). Retornando ao Brasil tornou-se professor da Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, mantida pela Congregação Salesiana. Concluiu o mestrado na PUC/Rio em 1976 e o doutorado na Universidade Gama Filho/Rio em 1982.
As informações fundamentais dessas referências encontram-se em Contribuição contemporânea à História da Filosofia Brasileira (Londrina: EDUEL, 200, 605 p.). O comentário sobre as ideias de Tiago Lara está no capítulo 3, item 5, letra p.
Em 1981 ingressou, por concurso, no Corpo Docente da Universidade Federal de Uberlândia, jubilando-se em 1991. Desde então transferiu-se para Juiz de Fora, onde se tornou colaborador do programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, como professor visitante. Trabalhou também no CES – Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, onde lecionou filosofia na graduação e filosofia da educação no programa de Mestrado em Educação.
Seus interesses de pesquisa eram a filosofia brasileira e história da filosofia ocidental. Seus trabalhos mais importantes na área da filosofia brasileira são (CARVALHO, 2001, p. 360): “As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo (1977), Corrente eclética na Bahia (1979), Pombal e a cultura brasileira – em coautoria e Tradicionalismo católico em Pernambuco (1988). Como historiador da filosofia ocidental publicou: A filosofia nas suas origens gregas (4. ed. 2001), A filosofia nos tempos e contratempos da cristandade ocidental (1999), A filosofia ocidental do Renascimento aos nossos dias (7. ed. 2001). Tiago publicou ainda o polêmico livro A escola que não tive... o professor que não fui (2. ed. 1998) e um importante trabalho de teologia intitulado Experiência da finitude e apelo de transcendência parte do livro A sedução do sagrado (1998). Além desses trabalhos maiores publicou mais de vinte artigos em revistas especializadas, dos quais os mais significativos são: O pensamento de Vicente Ferreira da Silva em dialéticas das consciências e O republicanismo autoritário no Brasil, ambos na Revista Brasileira de Filosofia, fascículos 99 e 103 respectivamente, Humanismo e cultura (1989) e Universidade, cultura e religião (1988) na Revista Educação e Filosofia. As comunicações e conferências em Congressos acadêmicos somam mais treze trabalhos já publicados.”
Há outras referências importantes sobre Tiago Lara no item que lhe dedicou Antônio Paim em O estudo do pensamento filosófico brasileiro (2. ed. de 1986) e o verbete do Dicionário Biobibliográfico dos Autores Brasileiros da Coleção Básica Brasileira do Senado Federal (1999).
Como já foi assinalado, na condição de (id., p. 361): “historiador da filosofia, Tiago não se limitou a relatar a evolução do pensamento filosófico no ocidente. Ele fez também isso com precisão e cuidado, atualizando e revisando seus textos em edições sucessivas. No entanto, o projeto de Tiago foi muito mais ambicioso, ele pretendeu relatar os caminhos da razão no ocidente, mostrando como essas referências teóricas foram importantes nos acontecimentos humanos, porquanto marcaram o modo como o homem se pensava em diferentes momentos de nossa história.
Quando olhamos a cultura ocidental contemporânea muitas vezes perdemos de vista a sua historicidade. Os livros de Tiago nos recolocam no clima certo, mostram um pouco do processo formativo que fez do ocidente o que ele é hoje, uma civilização baseada nos ensinamentos cristãos, na organização jurídica romana e na compreensão racional da vida principiada na Grécia Antiga. Ele explicou porque para a formação do ocidente muito contribuíram a paidéia grega e a mensagem evangélica. Paidéia é uma forma de sabedoria que dá sentido à existência e no mundo grego encontrou na filosofia sua expressão mais vigorosa. A sabedoria evangélica também contém um tipo de conhecimento especial, oferecendo elementos para organizar e ordenar as ações humanas. Esses elementos foram combinados no principiar da história desta parte do mundo que denominamos de ocidente cristão, cuidando o nosso pensador de restringir suas considerações a uma parte do que foi elaborado pelo espírito humano. O legado oriental, ele fez questão de indicar, não foi examinado com maior cuidado.”
Como pesquisador da filosofia brasileira fez sua dissertação de mestrado sobre Antônio Pedro de Figueiredo. (id., p. 364): “Ao avaliar desse modo a filosofia elaborada por Figueiredo, Tiago precisou o modo como o ecletismo aproximou-se da mensagem cristã em nosso país. Ele também deixou claro que a solução encontrada pelo ecletismo mostrou-se frágil quando levada para o terreno moral. Melhor dizendo o tradicionalismo pretendeu fundamentar o que o ecletismo não conseguiu: a moral social. Coube então ao tradicionalismo suprir-lhe as deficiências”.
O estudo sobre o tradicionalismo foi sua tese de doutoramento (id., p. 361/2): “Tiago precisou as características assumidas pelo tradicionalismo em Pernambuco e, ao fazê-lo, ajudou a entender o movimento. No seu entendimento, o tradicionalismo pernambucano revelou-se pouco preocupado com os problemas sociais e econômicos, concentrando sua atenção na reforma moral da sociedade conduzida pela Igreja. Isso significava uma rejeição do projeto liberal de constituir uma ordem social laica. De uma perspectiva filosófica aceitam as teses básicas dos tradicionalistas europeus, especialmente as ideias tomistas. De uma ótica religioso-eclesial mostram-se partidários incondicionais do Pontífice Romano e voltados para as orientações de Roma. Para Tiago isso representa um desconhecimento do movimento histórico, pois essa ordem não mais tinha meios de ser mantida. No campo político negam a origem contratual da sociedade, entendem como imperfeita e limitada toda autoridade humana, apostando na origem divina do poder.
A exata localização histórica do movimento foi feita como se segue: constitui-se o tradicionalismo em Pernambuco (...) num movimento católico, leigo, conservador, pós-eclético e pré-neo-escolástico (LARA, Tiago. O tradicionalismo católico em Pernambuco, Massangana,1988, p. 142).
Tiago foi também um notável teólogo e deixou vários textos nesse campo. Para ele a experiência de Deus é concreta, não é uma especulação pura, abstrata e teórica, mas (id., p. 367): “nasce da vida humana concreta, das circunstâncias presentes e no horizonte da cultura. Somos temporalidade e qualquer referência a Deus não pode superar esse fio do qual somos tecidos. Por isso, Deus, por mais transcendente que o possamos conceber, revela-se para nós na sofrida imanência da vida dos povos e de cada um de nós.
As meditações de Tiago sobre Deus revelam um compromisso com os altos ideais que seguem a existência do homem e, nesse sentido, iluminam e dão visibilidade ao seu trabalho de historiador da filosofia e de filósofo.
Pelo acima indicado, os estudos de Tiago Lara constituem um capítulo importante de nossa compreensão dos problemas suscitados pela filosofia brasileira e das soluções que ela encontrou para eles. Essa assertiva é especialmente válida se nos deparamos com o modo como foi apreciada a herança cristã, que é uma das características fundamentais de nossa origem cultural.”


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