sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O público e o privado. José Maurício de Carvalho



A passagem de ano para 2015 foi um momento de renovar as esperanças numa vida melhor e num futuro menos incerto. E chegou com belas festas pelo mundo. Esperamos mais momentos felizes e menos sofrimentos no ano que se inicia. O homem exercita todo início de ano a aprendizagem da esperança e nunca parece aprender o suficiente dessa arte, pois a vida sempre surpreende de um ou outro modo. Mesmo depois de ultrapassar os cinquenta ou sessenta anos, ainda nos encantamos com as boas surpresas e nos angustiamos na iminência do sofrimento. E embora muito do que vivemos simplesmente nos acontece independente de nossas ações, boa parte de nossos momentos mais ou menos felizes dependem das escolhas que fazemos.
Em meio aos votos de felicitações do novo ano, multiplicaram-se nas redes sociais selfs e fotos da vida privada, popularizando um novo hábito: o de dar publicidade aos acontecimentos da vida particular. Será essa mania parte de um novo estilo de viver no século XXI? O que as pessoas esperam com esse novo hábito? O que pode interessar ao público em geral o prato do jantar de alguém, o retrato do vestido, o mostrar que está soltando foguete, ou bebendo em um clube, ou ainda dando um beijo?  Até pouco tempo era elegante manter no âmbito privado aquilo que era da esfera particular. Elegante e sábio, pois podia-se ser vítima de exposição indevida. Havia mesmo o temor de que a vida particular das pessoas fosse invadida por algum tipo de bisbilhoteiro eletrônico. A literatura do final do século que findou explorou e criticou a existência de um poder intrometesse nos detalhes particulares da vida. Refiro-me particularmente ao Big Brother (não o reality show), mas ao personagem de Georg Orwell, expressão de uma tirania terrível. No romance de Orwell havia em todo canto aparelhos de TV que repetiam a frase "o Grande Irmão está te observando", ele zela por você. Ninguém estava a salvo daquele olhar indiscreto.
No mundo real, até pouco tempo apenas personalidades públicas tinham a vida penetrada pelas câmaras de jornalistas indiscretos e fotógrafos de ocasião, sempre prontos a ganhar notoriedade e algum dinheiro com a exposição de alguma figura pública. Essa exposição sempre incomodou os famosos, pois tinham colocado a público coisas íntimas: o decote que mostrava mais do que devia, a calcinha que surgia com um vento indiscreto, a nudez colhida na piscina particular, etc. Mais que os famosos, o políticos sempre detestaram a publicidade da vida particular, pois ela podia trazer algo que não agradasse os eleitores ou que agradasse à Polícia.
Pois bem, de uma hora para outra, sem que fosse necessário nenhum poder total, nem nenhum bisbilhoteiro de plantão, as pessoas começaram a expor a vida particular: seus passeios, seus amigos, sua comida, sua casa, seus bichinhos de estimação, suas tatuagens, etc. Aspectos íntimos da vida.

Dentre as esperanças de ano novo permito-me também esse voto, que essa mistura entre o privado e o público vista nas redes sociais, não se estenda para outros aspectos da vida diária, pois é preciso distinguir que o que se pode fazer na sala de casa não é o mesmo que se pode fazer na rua, que os bens públicos não podem ser tratados como os particulares, que não se pode usar ruas e praças como coisas privadas, pois a mistura entre o público e o privado é o desastre da vida social.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

DIA DA CONFRATERNIZAÇÃO UNIVERSAL: 1º DO ANO. Selvino Antonio Malfatti.




O Dia da Confraternização Universal, que é celebrada universalmente em 1º de janeiro da nossa era, não necessariamente coincide com o primeiro dia do ano em outros povos. Para nós ocidentais identifica-se pois o primero dia do ano é também o Dia da Confraternização Universal. Mas, para uma parte da humanidade, o dia 1º do ano não é em 1º de janeiro e por isso não concide com o dia da Confraternização Universal.

O costume de se celebrar um novo ciclo, o dia 1º do ano, está ligado a dois fatores: o ecológico e o religioso, e atualmente acrescente-se o cultural. Todos foram foram associados.
Um dos mais remotos martcos que conhecemos foi na Babilônia que marcava o início da primavera, com data de 23 de março da era cristã. Já os gregos comemoravam o renascimento do deus Dionísio, com desfile de um bebê no cesto. Os egípcios festejavam o novo ano quando a estrela Sírius surgia no horizonte de Mênfis, cidade dos faraós. A data de 16 de julho coincidia com enchente anual do rio Nilo.
Já em Roma o imperador Júlio Cesar, 46 a.C., dedicou esta data ao deus Jano, deus dos portões. Daí o nome de janeiro.
Na China, pelo nosso calendário, seria no fim de janeiro ou início de fevereiro, pois seu calendário segue o ciclo lunar.
Os Hebreus o celebram no primeiro dia do mês de Tishrei, isto equivaleria para nós  a meados de setembro ou começo de outubro. É denominado de Rhos Hashaná, ou Festa das Trombetas.
Já para os islâmicos, o ano novo cai em maio pelo nosso calendário. Isto por que está baseado no aniversário de Hégira (emigração), equivalente ao ano 622 da era cristã. Neste ano o profeta Maomé sai de Meca e se estabelece em Medina.
Estes são alguns exemplos das disparidades de datas quanto ao Dia da Confraternização Universal. No entanto, a data existe como instituição e não como data. Ela começou a existir a partir de 21 de setembro de 1981, mas foi reconhecido pela ONU em 1º de janeiro. Antes disso, o papa PAULO VI, em 1967, propôs uma data para promover votos de alegria e felicitações entre as nações e em 1981 a data foi consagrada pelo ONU.
Evidentemente que há uma estreita ligação entre o Dia da Fraternidade Universal e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, também da Organização das Nações Unidas, de 1948. Pode-se dizer que a data de 1º de janeiro seja uma continuidade e uma consagração do conteúdo da Declaração.


La Déclaration universelle des droits de l’homme

Déclaration universelle des droits de l'homme
Article premier
Tous les êtres humains naissent libres et égaux en dignité et en droits. Ils sont doués de raison et de conscience et doivent agir les uns envers les autres dans un esprit de fraternité.
Article 2
Chacun peut se prévaloir de tous les droits et de toutes les libertés proclamés dans la présente Déclaration, sans distinction aucune, notamment de race, de couleur, de sexe, de langue, de religion, d'opinion politique ou de toute autre opinion, d'origine nationale ou sociale, de fortune, de naissance ou de toute autre situation.
De plus, il ne sera fait aucune distinction fondée sur le statut politique, juridique ou international du pays ou du territoire dont une personne est ressortissante, que ce pays ou territoire soit indépendant, sous tutelle, non autonome ou soumis à une limitation quelconque de souveraineté.
Article 3......
http://www.lexilogos.com/declaration/texte_francais.htm





terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Jesus. José Mauricio de Carvalho



Ele nasceu em Belém e foi criado em Nazaré, uma pequena cidade da Galiléia, há 2014 anos. Muito pouco se sabe, com certeza, de sua trajetória histórica, quase nada de seu nascimento e infância. Seus primeiros anos foram cercados do mistério representado pela enormidade de um Deus que se faz homem. Um acontecimento que desafia a inteligência. Durante sua gestação sua presença ficou restrita à confiança de sua mãe Maria na promessa de Deus. Ela no íntimo aguardou a realização da promessa feita pelo anjo (Lc. 1, 46-55) e depois do nascimento, sem alarde, criou o menino. O Pai carpinteiro lhe deu o nome e o educou na lei judaica. E Jesus, mais tarde, se valeu da imagem desse carpinteiro para ensinar o que toda inteligência procura, o que todo homem aspira conhecer: o princípio fundador de tudo, uma razão segura para viver pode ser chamado de Pai. Onde depositar a crença de que vale a pena viver? O conhecimento do arquétipo que tanto mexeu com os gregos Jesus anunciou de forma simples e fácil: qual é o princípio no qual nascemos e morremos? O princípio é o Pai, podemos chamá-lo assim, o entenderemos melhor assim.
Crescido Jesus deixou a lida diária do carpinteiro depois de ser batizado por João Batista. Trabalhara muitos anos fazendo cidades, mas precisava, depois de batizado, de um tempo para trabalhar o coração das pessoas. Ao aparecer adulto anunciando a boa notícia, uma forma nova de ler a lei judaica, causou desconfiança entre os seus. E havia razão para a desconfiança. Jesus, o filho de José, vinha da Galiléia, de uma cidade pequenina chamada Nazaré. Seu pai era um humilde carpinteiro. Não era nobre, nem sacerdote, nem sequer fora criado nos palácios.
É o nascimento desta criança, cercada do mistério que envolve a aparição humana de Deus, o episódio que celebramos em dezembro. É o natal deste menino simples e pacífico que a humanidade celebra. E por que ainda precisamos celebrar seu nascimento? Porque é para Ele que olhamos quando sentimos a necessidade de recriar e recomeçar. É Ele que veio para renovar para melhor todas as coisas, é Ele a esperança numa fé que livra o mundo da maldade. Esse mundo acordou hoje com mais notícia de corrupção, descobriu assustado a morte de mais de cem crianças por um grupo religioso que diz agir em nome de Deus. Sim, necessitamos celebrar o natal, pois é para esse menino que olha o homem quando sente que precisa de um mundo melhor.
Então que celebremos o Natal, revivamos esse episódio de mais de dois mil anos. Precisamos Vê-lo para enxergar além da rotina, para iluminar além daquilo que se manifesta na fenomenalidade da existência, para encher o coração da esperança de um dia vivermos em paz. Necessitamos Dele para fortalecer a esperança que a vida comum e imanente das coisas não fornece. Precisamos Dele para nos ensinar a ser melhores, para fortalecer nossa fraqueza, para mostrar a rota para um mundo mais gentil, mais justo e fraterno, o mundo que sonhamos em nosso íntimo e uma vez por ano ousamos apresentá-lo aos demais em forma de uma festa: natal.

Para enxergar o sentido desse natalício, para falar do menino que dá ao viver as melhores possibilidades, é necessário acreditar no que o homem pode realizar de melhor.





                 

RETRATO FALADO DE CRISTO PELO SENADOR ROMANO PÚBLIUS LENTULUS
EM CARTA DIRIGIDA A TIBÉRIO CÉSAR
“Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado JESUS, que pelo povo e inculcado o Profeta da verdade Seus discípulos dizem que e filho de Deus, Criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado Em verdade, o Cesar, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse JESUS: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma só palavra, é um homem de justa estatura e muito belo no seu aspecto. Há tantas majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou temê-lo Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, são distendidos ate as orelhas e das orelhas ate as espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes
Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos Nazarenos.  O seu rosto e cheio, o aspecto e muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face de uma cor moderada, o nariz e a boca são irrepreensíveis.
A barba e espessa, semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio. Seu olhar é muito especioso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém, ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar, faz-se amar e alegre com gravidade
Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos, na palestra, contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele alguém se aproxima, verifica que é muito modesto na presença e na pessoa. E o mais belo homem que sê possa imaginar, muito semelhante à sua Mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo, jamais visto, por estas partes, uma mulher tão bela’ Se a Majestade Tua, o Cesar, deseja ver este JESUS, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível
De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém, Ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porem, em sua presença, falando com Ele, tremem e O admiram
Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes.  Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram, jamais, tais conselhos, de tão grande doutrina, como ensinam este JESUS. Muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que e contra a Lei de Tua Majestade.  Eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus
Diz-se que este JESUS nunca fez mal a quem quer que seja, mas ao contrário, aqueles que o conhecem e com Ele tem praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém a Tua obediência estou prontíssimo, aquilo que Tua Majestade ordenar será cumprido
Vale, da majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo
Publius Lentulus

Senador da Judéia Lindizione sétima, luma seconda — Documento dos Arquivos do Duque Cezarini . Acervo da Biblioteca de Roma da, Ordem dos Padres Lazaristas.
https://www.youtube.com/watch?v=KlTm-xG3pO0

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Lições de uma viagem à Espanha. José Mauricio de Carvalho






Estando recentemente na Andaluzia-Espanha para evento acadêmico não poderia deixar de visitar, ainda que apressadamente, alguns lugares representativos da região. E fui a eles com o olhar encantado do turista e crítico do estudioso. De um lado, desejoso de conhecer elementos da presença árabe na região, em razão da influência que deixaram na Península Ibérica em Portugal e Espanha e de outro, querendo entender como os espanhóis mantêm esses monumentos grandiosos e o significado que o turismo tem para eles.
Para exemplo da presença árabe nada é mais representativo que o Palácio de Alhambra (Calat al Hambra ou fortaleza vermelha), o magnífico monumento situado junto à cidade de Goa e reconhecido pela Unesco, como patrimônio da humanidade, desde 1984. Este maravilhoso monumento foi edificado entre os anos de 1333-1391 pelo sultão Yusut I e seu filho Mohamed V. Os reis de Castela tomaram a fortaleza um século depois, em 1492, ano em que Colombo chegou à América. Portanto, um ano de glória para a Espanha. O Palácio ainda conserva parte dos arabescos originais em ouro, vermelho e azul, boa parte deles reconstituída em processos de restauro bem conduzidos. No palácio vê-se a presença da água, em fontes e canais muito importante na cultura árabe. Muita coisa foi feita no interior da fortaleza posteriormente, inclusive um mosteiro. Unindo o magnífico conjunto de edificações um maravilhoso jardim com canteiros e fontes. Como deles não havia qualquer registro histórico fidedigno foram reconstituídos de modo a dar uma ambiência próxima ao que seria o lugar. Também foram levantadas de novo as torres que o exército de Napoleão Bonaparte explodiu. Todo esse ambiente recomposto e maravilhoso remete à Idade Média e a ocupações posteriores. Contudo, muito do que ali está é uma recomposição pura e simples, boa parte sem qualquer purismo histórico, apenas para dar majestade ao que já é monumental.
Outro conjunto de edificações que chama atenção é a Plaza de España em Sevilla, o mais impressionante conjunto arquitetônico da cidade. Construída em 1929 para a exposição ibero americana, a Plaza de España foi levantada em tijolo e cerâmica em estilo neo-clássico e gótico, com um canal interior e semi-circular e quatro pontes em estilo mourisco, tudo ornado por um jardim maravilhoso. Apenas para lembrar os estilos arquitetônicos empregados neste conjunto de edificações estavam quinhentos anos deslocado do seu tempo, como os jardins e fontes de Alhambra (patrimônio cultural da humanidade) é uma reinvenção.
Felizmente para os espanhóis, os milhares de turistas que visitam o monumento e deixam uma fortuna da região não se colocam essas questões acadêmicas que muito encantam as autoridades e técnicos preservacionistas no Brasil. E isso para não falar de cidades inteiras que estão sendo reerguidas em outros países europeus apenas por serem referência afetiva para os povos, mas que naturalmente depois de refeitas irão arrecadar milhões de dólares anualmente. É uma boa lição a ser aprendida se quisermos ter de fato um turismo na região que falha a pena.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

CANTE ALENTEJANO É PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE. Selvino Antonio Malfatti.




No momento em que se estreitam mais e mais os laços culturais entre Brasil e Portugal com promoções, projetos e programas conjuntos como Os Colóquios de Tobias Barreto, em Portugal, e Antero de Quental, no Brasil, queremos destacar uma conquista cultural de Portugall que, sobretudo, engrande os países lusófonos. Trata-se do reconhecimento pela UNESCO do Cante Alentejano como Patrimônio Imaterial da Humanidade.
O Cante Alentejano caracteriza-se como um canto de coro, sem instrumentos. Alternam-se um cantor só e um coro. Entre as pausas há um alto que arremata as estrofes. A sequência segue uma cadência que, depois de concluída, inicia novamente. Inicia-se com um ponto o qual cedendo lugar ao alto interrompe para dar lugar ao coro, a este juntam-se o ponto e o alto. Terminada a estrofe, inicia-se o processo novamente. (em anexo há o Cante: Rosa Branca, desmaida, para ilustrar e apreciar).
Os especialistas associam o cante aos gregos e romanos, posteriormente teria sido assimilado pelo canto gregoriano e tradição árabe. Esta canção era comum nas lides das lavouras portuguesas, nas horas de ócio, em atividades domésticas e até mesmo em solenidades religiosas.
Atualmente, devido à mecanização da lavoura, com o conseqüente êxodo rural, bem como a presença de rádio e televisão o gênero musical está em decadência. O cante ficou confinado a grupos oficiais e especializados. Tem se apresentado em grupos folclóricos e festas populares ou mesmo apresentações eruditas. Evidentemente não se deve confundir com o Fado, que ha dois anos também é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, mas com outra estrutura.




https://www.youtube.com/watch?v=M9Glstve450


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A CRISE DE LIDERANÇAS POLÍTICAS NA ATUALIDADE. Selvino Antonio Malfatti.



D. Pedro II, numa estação de trem.

Um líder político é diferente de um dirigente. O dirigente cumpre uma função. O líder é uma pessoa que se identifica com seu povo e seu povo se identifica com ele. O Mestre definiu bem o líder político: é quando “eu conheço minhas ovelhas e elas me conhecem”. O líder é diferente do populista vaidoso e egoísta. Este só quer seu próprio bem. O líder mesmo é simples, desprendido e espontâneo. Ao natural as massas o buscam por que sentem atração por ele. Além disso, e aqui está o diferencial essencial: embora seu governo não esteja bem, ainda assim as massas acreditam nele e lhe são fiéis, desprendidamente. É o carisma como definiu um sociólogo. Quando segmentos são fieis a alguém por alguma vantagem, não há um verdadeiro líder, mas um aval daqueles interesses.
Um líder democrata é diferente de líderes de outros em regimes. O líder democrata deve preencher alguns requisitos para poder ser considerado assim. Deve emergir de sociedades que tenham livre liberdade de expressão. Ele mesmo respeitar e ser respeitado na manifestação de idéias, sentimentos e crenças.  Pertencer a sociedades que tenham liberdade de constituir-se e integrar-se em grupos organizados. O líder numa democracia deve surgir através de eleições livres e limpas. Esta emergência como fruto da competição entre outros líderes e partidos. Não pode surgir onde não houver fontes alternativas de informação. E seu governo manter-se dentro dos limites constitucionais em sociedades livres.
Por isso, o líder político não se iguala a qualquer dirigente político. Os faraós do Egito, os déspotas da Babilônia e do mundo antigo oriental, os imperadores romanos eram dirigentes políticos. Este líder político é o produto de uma forma peculiar de governo: a democracia. É muito reduzida e podemos dizer recente, embora deite suas raízes na história. Podemos encontrar seu berço na democracia direta dos antigos gregos atenienses. Nos tempos modernos ela se transmuda em representativa. Nesta ainda não temos lideranças políticas, por que primeiramente ela aparece como a representação de notáveis e posteriormente com a representação restrita através do voto econômico – isto é – o censitário. Foi somente nos Novecentos que surgiram partidos de massas com o voto universal, e é dessa democracia que falamos com suas lideranças políticas.
O mundo atual está em crise de lideranças políticas. Na Europa, o presidente da França, François Hollande, está longe de ser um líder, o da Itália, Giorgio Napolitano, uma figura apagada, O Vladimir Putin da Rússia um tirano, a rainha da Inglaterra e a primeira ministra da Alemanha, Isabel II e Ângela Merkel respectivamente, poderiam se aproximar do modelo de lideranças políticas. As demais lideranças seriam dirigentes ou governantes vaidosos.
Na América, é um desastre. Barac Obama, que apareceu como uma esperança, logo perde o brilho. Na Argentina, Cristina Kirchne, está afundando no próprio atoleiro. O Uruguai, com seu presidente chacareiro, José Mujica, não convence. No Brasil, basta cotejar o mapa geográfico com o eleitoral.
Aliás, o Brasil na sua história, teve poucas lideranças políticas. Vez que outra aponta alguma. Pode-se dizer que D. Pedro II, se alçou à condição de verdadeiro líder com exemplo de desprendimento e simplicidade, conseguindo construir uma nação. Grau médio de liderança conseguiu Juscelino Kubitschek. Certamente se a morte não o tivesse ceifado repentinamente Tancredo Neves estaria entre os grandes. De resto são ou foram dirigentes ou populistas vaidosos, mas sem liderança.






sexta-feira, 21 de novembro de 2014

José Mindlin e a vocação de reunir livros. José Maurício de Carvalho



No dia 28 de fevereiro do ano de 2010 morreu aos noventa e cinco anos o empresário, advogado e jornalista José Mindlin. É uma pena que homens extraordinários morram. O país perdeu um deles e dono de um dom raríssimo: era amigo dos livros.  E ele possuía uma amizade bonita que ia além das palavras, era uma espécie de devoção aos livros que Midlin alimentou durante toda sua vida. No final de sua longa existência conseguiu reunir cerca de 45000 volumes dos mais representativos da cultura ocidental e brasileira. Por este trabalho em defesa da cultura e das letras foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2006, um dos raros momentos de reconhecimento ao seu amor à cultura.
Quem foi José Mindlin? Ele nasceu em São Paulo em 1914 quando o mundo assistia o início da I Grande Guerra. Era filho de judeus russos cuja família mudou para o Brasil (São Paulo) em busca de paz e segurança. Do pai aprendeu o amor pela cultura e a dedicação aos livros, paixão que alimentou em toda sua vida. Trabalhou desde cedo, começando a atividade profissional como jornalista no Estado de São Paulo quando ainda não tinha quinze anos de idade. Concluído o ensino médio fez Direito na Universidade de São Paulo e, posteriormente, cursos na área jurídica nos Estados Unidos da América. Largou a carreira brilhante de advogado que se iniciava em 1949 para se dedicar a sua vocação empresarial tendo organizado a Metal Leve. A empresa se dedicava à fabricação de peças para automóveis e chegou a ter 7000 mil funcionários e duas fábricas nos Estados Unidos. Ser empresário não é uma vocação fácil, mais difícil quando se lidera 7000 pessoas. Em 1996, com mais de oitenta anos de idade vendeu a empresa para a Mahle e se entregou por inteiro à outra vocação que o consumira vida afora: descobrir e adquirir livros importantes da cultura ocidental e brasileira. Para se ter uma noção do que ele reuniu basta mencionar o exemplar dos Lusíadas de Camões da primeira edição (1572), os originais do Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa e a primeira edição ilustrada dos Triunfos (1488), de Petrarca, livro mais antigo que o Brasil. Uma vida plena é a realização de uma vocação e pode ser mais de uma como no caso de Mindlin.
Um fato que nos mostra a dimensão moral desta vocação. Ele doou 25000 livros que tratavam da cultura brasileira para a Universidade de São Paulo. Os livros são para os homens e para enriquecer o espírito. Ao fazê-lo adotou a atitude típica e generosa dos filantropos norte-americanos que deixam parte de sua fortuna ou bens para obras de caridade ou para instituições culturais. Isto é quase uma regra entre eles, o sentimento de gratidão à nação e o espírito público da vida bem sucedida. Atitudes assim são ainda raras entre nós, mas começam a acontecer.
Outro episódio marcante que dá a dimensão moral desta vida foi o pedido de demissão da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo em 1975, depois da morte na prisão do jornalista Vladimir Herzog, que ele havia indicado pessoalmente para chefiar o jornalismo da TV Cultura.

 Mesmo sem conhecer a intimidade deste intelectual amigo dos livros, empresário de sucesso, advogado por formação, benemérito da USP e imortal da Academia de Letras, estas linhas são o reconhecimento das vocações importantes que ele cultivou e homenagem a um homem da cultura que colocou sua vida a serviço da sociedade brasileira. Que nosso país possa ter, cada vez mais, homens dedicados aos diferentes aspectos da cultura, como Mindlin foi no cuidado com os livros, sem precisar deixar de ser advogado e empresário.


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