sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Lições de uma viagem à Espanha. José Mauricio de Carvalho






Estando recentemente na Andaluzia-Espanha para evento acadêmico não poderia deixar de visitar, ainda que apressadamente, alguns lugares representativos da região. E fui a eles com o olhar encantado do turista e crítico do estudioso. De um lado, desejoso de conhecer elementos da presença árabe na região, em razão da influência que deixaram na Península Ibérica em Portugal e Espanha e de outro, querendo entender como os espanhóis mantêm esses monumentos grandiosos e o significado que o turismo tem para eles.
Para exemplo da presença árabe nada é mais representativo que o Palácio de Alhambra (Calat al Hambra ou fortaleza vermelha), o magnífico monumento situado junto à cidade de Goa e reconhecido pela Unesco, como patrimônio da humanidade, desde 1984. Este maravilhoso monumento foi edificado entre os anos de 1333-1391 pelo sultão Yusut I e seu filho Mohamed V. Os reis de Castela tomaram a fortaleza um século depois, em 1492, ano em que Colombo chegou à América. Portanto, um ano de glória para a Espanha. O Palácio ainda conserva parte dos arabescos originais em ouro, vermelho e azul, boa parte deles reconstituída em processos de restauro bem conduzidos. No palácio vê-se a presença da água, em fontes e canais muito importante na cultura árabe. Muita coisa foi feita no interior da fortaleza posteriormente, inclusive um mosteiro. Unindo o magnífico conjunto de edificações um maravilhoso jardim com canteiros e fontes. Como deles não havia qualquer registro histórico fidedigno foram reconstituídos de modo a dar uma ambiência próxima ao que seria o lugar. Também foram levantadas de novo as torres que o exército de Napoleão Bonaparte explodiu. Todo esse ambiente recomposto e maravilhoso remete à Idade Média e a ocupações posteriores. Contudo, muito do que ali está é uma recomposição pura e simples, boa parte sem qualquer purismo histórico, apenas para dar majestade ao que já é monumental.
Outro conjunto de edificações que chama atenção é a Plaza de España em Sevilla, o mais impressionante conjunto arquitetônico da cidade. Construída em 1929 para a exposição ibero americana, a Plaza de España foi levantada em tijolo e cerâmica em estilo neo-clássico e gótico, com um canal interior e semi-circular e quatro pontes em estilo mourisco, tudo ornado por um jardim maravilhoso. Apenas para lembrar os estilos arquitetônicos empregados neste conjunto de edificações estavam quinhentos anos deslocado do seu tempo, como os jardins e fontes de Alhambra (patrimônio cultural da humanidade) é uma reinvenção.
Felizmente para os espanhóis, os milhares de turistas que visitam o monumento e deixam uma fortuna da região não se colocam essas questões acadêmicas que muito encantam as autoridades e técnicos preservacionistas no Brasil. E isso para não falar de cidades inteiras que estão sendo reerguidas em outros países europeus apenas por serem referência afetiva para os povos, mas que naturalmente depois de refeitas irão arrecadar milhões de dólares anualmente. É uma boa lição a ser aprendida se quisermos ter de fato um turismo na região que falha a pena.


9 comentários:

  1. Estava lendo e imaginando como deixamos de aproveitar as oportunidades. Somos um país de tantas belezas para serem preservadas.

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  2. As torres são lembranças do poder.

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  3. Ao turista a alegria da viagem, as novidades e fotos.
    Para o estudioso creio que provoca em si sofrimento quando o conhecimento automaticamente o leva analisar a evolução da sociedade. Com certeza um dia a história contará como destruímos a natureza de nosso país.Nossos filhos e netos nos julgarão se souberem aproveitar para evoluir lutando pela sobrevivência de nosso patrimônio ambiental e cultural.

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  4. Uma bela e minuciosa REFLEXÃO.

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  5. Técnicos preservacionistas no Brasil, interessante ainda temos esperança se assim afirma teu artigo.

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  6. Um passeio muito legal.
    Sempre aprendemos nestas viagens.

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  7. As realidades diferentes, o olhar critico do conhecedor, observador e analista da realidade e da importância história do país que visita.
    A maioria são visitantes deslumbrados que só pensam no consumismo e em si mesmo. Assim vai vazio e volta só com as malas cheias.

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  8. Reflexão de um viajante observador.

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