sexta-feira, 7 de outubro de 2016
A proposta de mudança no ensino médio. José Mauricio de Carvalho
O atual governo pretende implementar várias reformas no país. Algumas mais outras menos urgentes, todas igualmente polêmicas, se não na necessidade ao menos no conteúdo. A mudança não tem nada de especial, como a vida renova os desafios e exige novas respostas. Se renovar não é a questão, o tipo de ajuste é. O desenvolvimento da cultura humana ensina os motivos: as sociedades têm crenças, história, valores, costumes, conhecimentos, sensibilidades e isso precisa ser contemplado nas mudanças. Do contrário, as reformas não terão o efeito desejado.
No que se refere à proposta de mudança no ensino médio, baixada como medida provisória, é grave a intempestividade. Não que seus elementos não tenham sido ventilados, mas não foram discutidos pelos agentes do processo pedagógico.E a maneira de propor a reforma mostra algumas de nossas dificuldades, o autoritarismo e a pressa na hora de planejar e pensar o futuro. Uma proposta dessa natureza não pode ser executada rapidamente pela simples razão de que, uma vez implementada, é preciso que ela dure um pouco para ter efeito. E ela não vai durar se não considerar os elementos culturais acima indicados, se não tiver professores capacitados a conduzir as mudanças pretendidas e alunos convencidos da necessidade delas. Reformas numa instituição de tamanha importância não podem ser realizadas de afogadilho. Ao ser lançada por um governo que recém empossado, sem discutir previamente com a sociedade, mostra-se apenas a urgência de interesses não ditos.
Além da intempestividade, há outros problemas graves. Se a flexibilidade não é ruim, considerar apenas Matemática, Português e Inglês disciplinas obrigatórias é inoportuno. E por que o é? Para um povo que não cultiva a história como devia, sabendo-se que a história é um dos núcleos centrais da identidade nacional, retirar a disciplina do currículo é disparate. Para uma sociedade cada vez mais sedentária, retirar as aulas de educação física é outra temeridade. E por falar em sedentarismo e tecnologias, num tempo em que crianças e adolescentes estão presas aos celulares e computadores, com muita informação e pouco discernimento, é necessário ensinar a refletir criticamente. Em outras palavras, a contrapor os diversos lados de uma questão, a examinar pacientemente os argumentos antes de reproduzi-los, nesse contexto retirar a Filosofia é absurdo. E das ciências naturais nem é bom falar, retirar a Química e a Biologia, o que há por trás disso? O problema não é o excesso de disciplinas, mas o excesso de conteúdo e a distância entre eles e a vida.
Outra dificuldade da reforma é que ela não toca em problemas antigos e reais como professores mal pagos, despreparados e desmotivados e pequena valorização do mérito. A questão é menos de diminuir disciplinas do que reduzir o supérfluo que nelas se ensina, dissemos antes. É preciso estabelecer um mínimo pedagógico que o homem contemporâneo não pode deixar de conhecer. O que ninguém, hoje em dia, pode desconhecer sobre Ciência? Como entender a realidade mesma, os valores e elementos estruturadores da vida coletiva, questões de várias disciplinas filosóficas? O que é necessário para comunicar, conforme a norma culta, as Ciências, a Filosofia e as questões da rotina, assunto nuclear do ensino de línguas. Se se diminuir o número de disciplinas, mas aumentar a quantidade de conteúdos distantes da vida nas que permanecerem, o problema aumenta e não diminui. Além desse mínimo escolar, que todos precisam conhecer, o aluno poderia escolher alguns conteúdos para aprofundar e nisso a flexibilização pode ajudar. Aprovação sem mérito é outro problema histórico. O jovem precisa aprender que grandes conquistas são fruto de notáveis esforços. E
elas devem ser conquistadas de forma honesta. Sem valorizar o mérito e a honestidade na escola, alguém pensa que aparecerão na sociedade?
Há muitas questões no ar e não se viu tocar em elementos fundamentais que, de fato, mudariam o ensino médio para melhor. Esperemos que educadores e políticos consigam tratar dessa questão com a seriedade que ela merece em benefício do Brasil.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
A Reforma do Ensino e a Filosofia. Selvino Antonio Malfatti.
A inclusão ou não da filosofia no currículo do ensino
médio nos remete a Aristóteles: devemos ou não filosofar? Se devemos, então filosofamos. Se não devemos, então devemos filosofar
para justificar por que não devemos filosofar. Logo, sempre filosofamos.
Há, no meu entender uma questão de fundo que subjaz na à questão. É aquilo que Montesquieu chama de o “espírito”, Chateaubriand
de “gênio” e Tocqueville de “substrato natural. Um determinado comportamento
não tem necessidade de legaliza-lo quando a sociedade por si mesma o faz. Os
anglo-saxões tem-no na common law, por exemplo, pela qual a tradição é mais
importante que a legislação. No entanto,
há sociedades que necessitam legislar sobre tudo. Para os italianos, por exemplo,
não basta dizer: é proibido. Há que se enfatizar: “absolutamente proibido”. Se
for proibido, então é proibido, mas para eles não basta isso, tem que ser
absolutamente proibido.
Qual a função da filosofia no ensino médio? É ser um
instrumento para a cidadania para as sociedades que não têm o recurso do
“espírito”, “gênio” ou do “natural”. A filosofia, mal comparando, é uma prótese
que determinadas sociedades necessitam para formar cidadãos que os ajudem a avaliar
valores, enxergar as consequências de comportamentos, julgar atitudes e
criticar pensamentos ou ideologias. Diante disso, percebe-se que nem todas as
sociedades necessitam de filosofia para seu ensino médio que, além dos
conteúdos das disciplinas, forma o cidadão. Sociedades culturalmente homogêneas
estariam dispensadas. À medida que sobem
na escala da heterogeneidade cultural, preme a necessidade de filosofia para
sua cidadania. Os anglo-saxões, os japoneses, os hindus não necessitariam. Os
alemães, os espanhóis e franceses precisariam bem pouco. Os italianos e brasileiros,
carecem muito.
Se lançarmos um olhar rápido pelo mundo sobre o ensino da
filosofia no ensino médio, constatamos uma grande disparidade. Infelizmente o debate da filosofia
no currículo básico, na prática recai sobre o problema de custos econômicos,
pois o privado não vai querer pagar mais um professor e o público não vai
nomear mais um. Os ganhos espirituais no investimento não são levados em conta.
Como já frisamos os países de língua inglesa praticamente
não possuem filosofia no ensino médio. Como exemplo, pode ser citado Reino
Unido e América do Norte. Na Rússia a filosofia está ausente no ensino médio,
mas não há uma rejeição explícita. Na Irlanda, apesar da ausência da filosofia
nas escolas acredita-se que ela pode contribuir para formar cidadãos
esclarecidos. No Chile, há uma crença de que a filosofia pode exercer uma
influência positiva no convívio social, pois orienta os adolescentes quanto à
sexualidade, drogas e assuntos relativos a questões existenciais.
Embora em alguns países, como Nova Zelândia, dão ênfase às filosofias nativas, o mais corrente é considerar as filosofias oriundas da Grécia
antiga, Europa medieval, e as filosofias de França e Alemanha como universais.
Nos diversos encontros e colóquios bilaterais entre Brasil e Portugal surgiu a hipótese de que só existem filosofias nacionais, especificadas cada qual pelo seu problema, ou ênfase nas questões específicas. Com efeito, cada país possui uma temática própria que caracteriza sua filosofia como o SISTEMA na Alemanha, o ESPÍRITO na Itália, a RAZÃO na França e assim por diante. No Brasil o pano de fundo é a CULTURA e em Portugal DEUS.
Nos diversos encontros e colóquios bilaterais entre Brasil e Portugal surgiu a hipótese de que só existem filosofias nacionais, especificadas cada qual pelo seu problema, ou ênfase nas questões específicas. Com efeito, cada país possui uma temática própria que caracteriza sua filosofia como o SISTEMA na Alemanha, o ESPÍRITO na Itália, a RAZÃO na França e assim por diante. No Brasil o pano de fundo é a CULTURA e em Portugal DEUS.
A questão da cultura na filosofia brasileira reflete bem
o substrato social, qual seja a heterogeneidade: somos um conjunto de todas as
raças, religiões, embora haja predominância numérica de católicos, há um
caldinho de credos, ideologias mais desencontradas caminham pari passu, as
cores raciais são um estampado vivo.
No caso brasileiro a filosofia pode ser o tripé para a concertação
social.
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Escola para a vida e não escola sem partido. José Mauricio de Carvalho
A proposta contida no projeto de lei
denominada escola sem partido, criticada como conservadora e fundamentalista,
não é exatamente isso. Se o fosse, mas estivesse bem embasada, seria uma
perspectiva de entendimento do mundo da qual se pode discordar, mas como tal
contribuiria para esclarecer a realidade das pessoas e o conflito de interesses
da sociedade. Porém expressa a superficialidade contemporânea, incapaz de identificar
e enfrentar os problemas corretamente. Seus proponentes não se dão conta dos
problemas por tras do que querem resolver.
O ensino, para ser bom, precisa ser crítico
no sentido de mostrar ao aluno que há diferentes formas de interpretar a
realidade e entender o mundo, especialmente quando tratamos dos interesses das
pessoas. A ciência moderna foi uma grande construção humana, ela ajuda no
conhecimento do mundo e precisa ser bem ensinada e aprendida. Porém, o conhecimento
científico é limitado pelos métodos e objetivos que asseguram sua validade. Por
isso, a ciência não chega a um tipo de verdade sobre a totalidade da realidade,
sobre os interesses humanos e sua liberdade. A verdade da ciência é a verdade
que se mostra pela submissão de hipóteses testáveis. No entanto, e pelo que
pretende a ciência, ela é incapaz de dizer algo sobre o que não se pode testar,
como por exemplo, o fim da história ou o sentido da vida de cada existente. Um
pouco de conhecimento filosófico é essencial para se tratar desses assuntos,
mas há limites para as verdades filosóficas e limites nas teorias que formula
de interpretação do mundo. Ainda assim ela é imprescindível.
A razão, enquanto esforço de interpretação
dessa totalidade vai além das verdades da ciência, mas também não consegue
descrever a totalidade do real chegando a uma verdade absoluta. Formulando
teorias de interpretação do mundo a Filosofia revela aspectos parciais da
verdade. E é bom que a força da razão atue nas ciências como impulso que aponta
seus limites e a incentive a seguir em frente no que ela pode fazer para
explicar o mundo. A razão, empregada com a consciência dos seus limites, forma
o pensamento crítico, distingue as verdades da ciência das formulações sobre o
mundo. O pensamento crítico revela também as disputas de interesses presentes
na sociedade que não podem ser escondidas nem encobertas. Além disso, a
vida renova os problemas de modo que o
homem precisa continuamente construir novas teorias científicas e filosóficas. A
razão, trabalhando corretamente, aponta para além dos limites históricos como
força que transcende o tempo em direção ao eterno. Ela revela as lutas e
conflitos desse processo e nunca para de pensar o mundo. Ela se mostra nas
construções dos filósofos, o que nos leva a entender as lições da Filosofia,
como o caminho da razão. Se essa escola ensina isso ela ensina a diferenciar
explicações filosóficas, teses de interesse de grupos e pessoas e o
conhecimento científico e objetivo sobre a natureza. Ela ensina que
interpretações parciais do mundo se tornam falsas quando são propostas como
absolutas.
Minha geração foi criada numa escola sem
filosofia, sem pensamento crítico, com uma visão romântica de sociedade da qual
o resumo era a Educação Moral e Cívica (E. M. C.). Longe de formar o pensamento
crítico disciplinas como aquela ofereciam uma visão superficial e falsa do
mundo e da sociedade. A vingança veio na mesma moeda. Quando houve a abertura
política, as disciplinas sociais, construídas sob inspiração marxista,
arvorando-se em teoria científica que elas não eram, antes restritas a espaços
clandestinos, foram apresentadas como verdades para os jovens. Note-se que isso
ocorreu num momento em que o marxismo, como esquema de interpretação do mundo,
com seus dominados e dominantes, era considerado ultrapassado como visão de
mundo. Ortega y Gasset, por exemplo, o identificava com a ideia de homem
econômico e da sociedade do século XIX. Como as teses da E. M. C. que foram
apresentadas para uma geração como verdade sem o serem, as teses marxista o
foram para a geração seguinte, com o agravante de parecerem ciência. Ambas
limitadas e insuficientes interpretações do mundo. Ambas visões ideológicas e
superficiais, porque toda verdade que nasce numa filosofia, melhor ou pior, é
uma interpretação parcial do real, se degenera quando pretende ser absoluta.
Hoje não precisamos de uma escola sem
partido, precisamos de uma escola para formar a inteligência. Uma escola que
ensine a pensar a uma geração incapaz de fazê-lo, distraída de viver nos
aparelhos eletrônicos, incapaz de concentrar-se, envolvida em conversas vazias
nas redes sociais, que necessita aprender a pensar, necessita de tempo para meditar
as questões fundamentais da vida, além de aprender bem a ciência. Essa geração
precisa de uma escola que não forme pessoas superficiais e embotadas, com professores
mal pagos, desmotivados e revoltados. O problema a enfrentar não é uma escola
sem partido, mas uma escola onde ideologias sejam apresentadas como tal, como
interpretações limitadas do mundo, que precisam conversar entre si para buscar
a verdade. E há outros problemas graves na escola que essa proposta tangencia.
O mais grave é o fetiche da tecnologia digital. Não é preciso abandoná-la, mas
ela não pode ser mais que um método entre muitos que integram o processo
pedagógico, é instrumento algumas vezes válido, outras não. A escola não é um
grande videogame ou jogo eletrônico para divertir uma geração incapaz de pensar
e de trabalhar suas frustrações e limites. Os problemas humanos, os desafios
que a vida traz, os traumas e sofrimentos, não podem ser tratados superficialmente e nem se
resolvem nas redes sociais. Os problemas fundamentais do homem precisam ser
enfrentados com o pensamento crítico, com ciência, com meditação filosófica,
com professores bem formados e pagos e também com respeito pela dignidade
humana, para com as normas sociais, com o reconhecimento das diferenças entre
pessoas, com apoio para enfrentar os traumas e frustrações que a vida traz.
As discussões que a sociedade e o governo
precisam fazer sobre o futuro e o papel da escola estão num outro patamar e
incluem outras questões muito diversas dessa proposta superficial e sem graça
denominada escola sem partido.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALDO MORO. Selvino Antonio Malfatti
Neste
ano, 2016, ocorreu o centenário de nascimento de Aldo Moro, nascido em 23
de setembro de 1916 em Maglie e foi assassinado em 9 de maio de 1978 em Roma.
Tinha formação jurídica, foi professor universitário e atuou na política. Seu último mandato ocorreu em 1978, antes de ser assassinado pelas Brigadas Vermelhas. Estas, de cunho marxista-leninista, tinham uma matriz essencialmente comunista.
Moro, como
político deu continuidade à obra de Alcide de Gasperi no seio do partido político da
Democracia Cristã. Ocupou por cinco vezes o cargo de Primeiro Ministro e
encontrou a fórmula para transpor uma Itália do Pós-guerra para a Modernidade, entendendo-se com o transpor de
uma sociedade sustentada pelos princípios religiosos para uma sociedade
laica.
Na organização política italiana encontrou a fórmula para o funcionamento do governo.
O partido da Democracia Cristã conseguia mais ou menos 37% dos votos. O partido Comunista Italiano ficava em segundo lugar com aproximadamente 33% dos eleitores e o Partido Socialista Italiano em torno de 13% do eleitorado. Para conseguir maioria a Democracia Cristã unia-se ao Partido Socialista e com isso afastava do governo os comunistas.
Em 1976 ocorreram eleições e a ordem manteve-se. Mas a Itália estava num período de transição entre o religioso e o laico. O primeiro passo havia já sido dado, a aprovação do divórcio. A Igreja, por sua vez, estava abandonando o apoio à Democracia Cristã. O terror crescia dia a dia, com atentados provocados pelas Brigadas Vermelhas de vários matizes políticos, mas predominantemente comunistas. Foi nesse contexto que Aldo Moro é eleito Primeiro Ministro.
O partido da Democracia Cristã conseguia mais ou menos 37% dos votos. O partido Comunista Italiano ficava em segundo lugar com aproximadamente 33% dos eleitores e o Partido Socialista Italiano em torno de 13% do eleitorado. Para conseguir maioria a Democracia Cristã unia-se ao Partido Socialista e com isso afastava do governo os comunistas.
Em 1976 ocorreram eleições e a ordem manteve-se. Mas a Itália estava num período de transição entre o religioso e o laico. O primeiro passo havia já sido dado, a aprovação do divórcio. A Igreja, por sua vez, estava abandonando o apoio à Democracia Cristã. O terror crescia dia a dia, com atentados provocados pelas Brigadas Vermelhas de vários matizes políticos, mas predominantemente comunistas. Foi nesse contexto que Aldo Moro é eleito Primeiro Ministro.
Para as eleições políticas de deputados e
senadores, na Itália, de 20 de junho de 1976,
o resultado foi o seguinte-
-
Democracia Cristã: Deputados 38,7% e Senadores 38,9%.
-
Partido Comunista Italiano: Deputados 34,4% e Senadores 33,8%.
-
Partido Socialista Italiano: Deputados 9,6% e Senadores 10,2%.
-
Movimento Social Italiano: Deputados 6,1 % e Senadores 6,6%.
Com
este resultado, o sistema político italiano está atingindo seu ponto máximo de
bipolarização, e com isso a Democracia Cristã, para formar o governo, não
consegue aliados para formar maioria. O Partido Socialista, além de se tornar
um grande perdedor, vive um momento de crise interna. Com os demais pequenos
partidos, tradicionais aliados, sozinhos não conseguem dar-lhe maioria. A única
saída seria aliar-se ao seu adversário, a própria razão de seu existir, o
Partido Comunista. A única saída seria chamar todos os partidos ao governo,
formando um frente, batizada com a denominação de Solidariedade Nacional. Mas
para tanto era necessário encontrar um objetivo comum a todos os partidos ou ao
menos para quase todos. Ora, a segunda razão de ser da Democracia Cristã era o
combate ao Fascismo, razão esta comum aos demais partidos, com exceção dos
fascistas. Logo, sobre a ideia de uma coalizão antifascista tornou viável um
governo após o resultado eleitoral. Mas não seja de imediato. Os dois maiores
polos, Democracia Cristã e Partido Comunista, necessitavam digerir a estratégia
eleitoral de seu adversário. A Democracia Cristã fora acusada de corrupção
pelos comunistas, e estes apontados como perigo número Um pelos democratas
cristãos. Disso nasce um governo monocolor liderado por Giulio Andreotti,
denominado de “governo della nonsfiducia” ( não desconfiança). Isto somente era
possível porque os comunistas se abstinham de votar. Pela primeira vez, depois
da Segunda Guerra, os comunistas estão na área do governo, não diretamente, mas
no plano da atuação parlamentar. Era o fim da “conventio ad excludendum”. E com
ela nascia a “terceira fase” aquela da alternância sem excluídos.
O
apelo imediato deste governo era enfrentar o gravíssimo problema do terrorismo
que assolava o país. Em toda parte, mas principalmente no sul, atentados,
sequestros e assassinatos tornavam-se comuns desestabilizando as instituições e
desacreditando o governo. O país estava à beira da ingovernabilidade.
Dois
anos após, 1978, os comunistas resolvem dar o ultimatum à Democracia Cristã: ou
a Democracia Cristã permite ao Partido Comunista entrar diretamente no governo,
executivo, ou retira-se para a oposição. Mas devido ao sequestro de Aldo Moro,
Andreotti consegue formar mais um governo, e o Partido Comunista retira-se para
a oposição.
No
entanto, o acontecimento de maior repercussão, sem citar as consequências para
o partido, foi o sequestro e morte pelas Brigadas Vermelhas de Aldo Moro,
Presidente da Democracia Cristã. As Brigadas Vermelhas eram um dos vários
grupos ativos da extrema esquerda. Seu objetivo era atrair as massas
acenando-lhes com a mudança das estruturas sociais mediante a revolução. Na
verdade era apenas uma concepção simplória da realidade e não receberam o apoio
popular esperado. Inclusive mereceram a condenação do Partido Comunista. Este
ato terrorista pode ser visto como o apogeu deste movimento na Itália.
Há
tempo que esta organização terrorista planejava raptar um dirigente democrata
cristão de renome não só nacional, mas internacional. Já haviam sido cogitados
Amintore Fanfani e Giulio Andreotti. A escolha recaiu sobre Aldo Moro porque
havia sido o teorizador da “terceira fase”, isto é, post conventio ad
excludendum, pela qual o Partido Comunista poderia ser parceiro no governo, era
presidente do partido, e o protagonista número Um da Solidariedade Nacional. O
movimento de contestação nacional, iniciado em 1968, colocava em cheque as
próprias instituições políticas através da exigência por parte dos
participantes de os partidos políticos assumirem suas bandeiras. Com o projeto de Solidariedade Nacional o
movimento contestatório, do qual as Brigadas Vermelhas faziam parte, sentiu-se
frustrado, pois foram reafirmados os valores da democracia representativa e
suas instituições. Pela ação de Moro os conteúdos dos movimentos contestatórios
eram canalizados e absorvidos e as tensões sociais freadas em seus métodos
revolucionários.
Enquanto
Moro foi mantido na “ prigione del popolo” as Brigadas Vermelhas procuraram
tirar o maior partido possível do refém da Democracia Cristã. Primeiramente
instalaram um processo paralelo ao que estava ocorrendo em Turim contra membros
das Brigadas Vermelhas. Através de Moro, toda a História política da Democracia
Cristã era investigada. Numerosos cartas saíam da “Prisão do Povo” incriminando
membros do partido como Giulio Andreotti, Benigno Zaccagnini , Paolo Emilio Taviani e outros.
Tentaram
também provocar reações de violência por parte do Estado, com a finalidade de
desacreditar as instituições democráticas. Houve, até propostas de negociação
com o poder com o objetivo de forçar o Estado a reconhecer a existência de um
poder paralelo ao do Estado. As intervenções internacionais, os esforços da
Igreja e mesmo o apelo da família não conseguiram fazer o governo tomar
qualquer decisão. O Partido Socialista, parceiro de governo, na pessoa de seu
líder empurrou a decisão para a Democracia Cristã. Mas nem mesmo o partido quis
abertamente negociar com os terroristas e em 9 de maio de 1978 Aldo Moro foi
morto.
Abaixo
um trecho inédito do livro: ALDO MORO. LO
STADISTA E IL SUO DRAMMA, de Guido Formigoni, a ser publicado neste ano
pela Editora Il Mulino. O texto é do
embaixador norte-americano na Itália em 1974, John Volpe, ao secretário de
Estado americano Henry Kissinger:
Dal
nostro punto di vista, dobbiamo trattare con un primo ministro che è diventato
negli ultimi cinque anni il simbolo e l’immagine stessa della sinistra
democratica cristiana. Egli è l’unico membro dell’ala sinistra della Dc con una
statura sufficiente da godere del rispetto di tutti i partiti democratici come
uno statista che può essere scelto per la leadership del governo. Io penso che
le sue credenziali filo-occidentali sono valide ancora oggi come sempre, ma il
Moro della politica interna è in qualche modo alla sinistra del Moro statista
internazionale. Egli è spinto a sinistra dalla sua stessa natura piuttosto
fatalistica e dalla sua lungamente coltivata antipatia per Fanfani, che ora sta
ben alla destra di Moro. Con Fanfani pronto a sostituirlo, Moro farà ogni
sforzo per evitare problemi o scontri con i socialisti. Una rottura definitiva
con i socialisti significherebbe la fine della formula di centro-sinistra con
cui Moro è storicamente associato, e che egli ha definito «irreversibile».
Ci
si può attendere che egli paghi il prezzo di un accordo o di una deriva, come
necessari per tenere assieme il suo governo quanto a lungo sarà possibile. Io
inclino a pensare che il quarto governo Moro non durerà molto. Fazioni
importanti della Dc e addirittura esponenti del governo predicono solo pochi
mesi, e in effetti i sindacati e i socialisti sono già irrequieti e
insoddisfatti. Sarei però negligente a non ricordare, comunque, che quando Moro
ha buone ragioni per star saldo, come spiegato sopra, la sua ingegnosità e
tenacia sono fenomenali. Non è per coincidenza che Moro ha guidato il governo
italiano per un periodo di tempo più lungo di qualsiasi primo ministro dopo De
Gasperi.
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Lições deixadas pela tragédia de Amatrice e Accumoli. José Mauricio de Carvalho
Acompanhamos pela televisão e pela internet o drama provocado pelo
terremoto no centro da Itália. A televisão e a internet nos levaram para dentro
do que estava se passando no interior da Itália e mergulhamos no sofrimento da
população, do resgate dos corpos aos velórios coletivos. Entre as tristes imagens
os antigos casarões despedaçados pela força da natureza. O terremoto destruiu
algumas pequenas cidades e casas nas montanhas da região central da Itália, mas
em especial devastou as cidades de Amatrice e Accumoli. O terremoto ocorreu às
3 e 30h de quarta feira, ainda 22 e 30h de terça pelo horário de Brasília. O
sismo alcançou 6, 2 na escala Richter e provocou quase 300 mortes já
confirmadas até o momento da escrita deste artigo, muitos feridos e mais de
2000 pessoas desabrigadas. O grande número de mortos e feridos se explica pelo
fato do desastre ter acontecido à noite, quando as pessoas estavam dormindo.
Essa
tragédia, que atingiu as cidades italianas, permite introduzirmos questões
importantes, pois passamos por tragédias, muitas vezes, sem uma análise mais
cuidada. Acontecimentos tão impressionantes como esse suscitam indagações e
perplexidade. E tanto mais produzem inconformismo e comoção quando mais
próximos estamos dos que sofrem. É claro que tragédias naturais de tamanha
proporção são capazes de suscitar solidariedade e perplexidade em todas as
partes do mundo, mas ela é mais dolorosa num país como o nosso, que recebeu
grande imigração italiana e onde as essas famílias são tão numerosas no conjunto do população. Pois bem, em
qualquer dos casos, mais próximos ou distantes dos fatos, grandes tragédias
tocam o homem, pois lhe mostram sua fragilidade e lembram a limitada realidade
e falta de segurança de nossa existência.
A
limitação e finitude que nos marcam colocam na cena diária da vida as suas consequências,
então sofremos quando algo nos acontece e não temos como escapar desse
sofrimento, e precisamos sempre enfrentar em nossa existência circunstâncias
penosas, dores, mutilações e a morte. E essas realidades extremas nos levam a
pensar filosoficamente, pois na hora da tragédia não há como distrair-se, nem
iludir-se com a vida. Pois do trágico que toca o humano não nos salva ser mais
ou menos rico, mais ou menos jovem, mais ou menos atleta. Todos sofremos,
envelhecemos, adoecemos, morremos, nos sentimos perdidos e perturbados pela
culpa, todas essas coisas abalam nossas certezas e nos lançam no desafio de
enfrentar as situações dolorosas da existência.
As situações
trágicas revelam parte da condição humana. Como não há uma forma de esconder a
dor que toca, nem se iludir nos folhetins das redes televisivas ou nas luzes dos
grandes shoppings, o sofrimento leva ao questionamento e a busca de sentido.
Essa procura do homem pelo significado ganha força na objetivação dos produtos
culturais onde a alma coloca para fora o que de mais humano se dispõe, de fazer
o belo, de realizar o bem e de viver a verdade. E, nesse sentido, produzir
cultura, refazer o destruído, refazer-se da dor e seguir vivendo é nossa forma
de ir além do trágico e descobrir o lado mais generoso da existência. E estamos
certos de que os italianos saberão reerguer essas cidades, como fizeram
recentemente com Assis, reconstruirão os casarões e monumentos históricos como
eles sempre foram.
A
vida é assim, mistura dores e realizações, o choro e o riso, e nos cobra um sentido pessoal e a realização cultural dos
melhores valores que temos.
sábado, 3 de setembro de 2016
A Universidade deve preparar empregadores ou empregados? Selvino Antonio Malfatti
A redemocratização já estava feita mas a ideologia afim estava no poder. A oposição forçava furiosamente a divisória para chegar ao poder. Era um verdadeiro jogo, não de futebol, mas de política ideológica. Neste ambiente, não sei se por coragem ou ingenuidade, numa aula de Ciência Política, no curso de Direito, afirmei:
- A universidade deve preparar empregadores e não empregados. Deve ser um fator de multiplicação de empregos e não de ocupação de vagas.
Foi um "Deus nos acuda." Quase me tiraram o escalpo.
Mas qual minha surpresa nesta semana quando um professor - Carlinhos Costa Beber - do curso de administração da mesma UFSM praticamente abordou o mesmo tema em sala de aula. Vejam o texto publicado num jornal local.
1º EMPREGO: AS TRÊS BARREIRAS
Na semana passada conversei com alunos da Administração (UFSM), sobre empreendedorismo e mercado de trabalho.Confesso que fui muito duro com a gurizada, pois via que eles precisavam de “uma sacudida”. Usei palavras amargas, fugindo ao meu estilo habitual, mas precisava dar um alerta. Depois da palestra, resolvi escrever de forma sucinta sobre o tema abordado: as 3 barreiras que terão de ser vencidas, para quem sonha com a 1ª. oportunidade de trabalho.
1º. Atualmente, a recessão está fazendo com que as empresas estejam demitindo, ao invés de contratar pessoal. E por mais que a economia melhore no médio prazo, as oportunidades de emprego virão muito lentamente e serão bem seletivas.
2º. Muita gente experiente está desempregada. Foi o caso de um taxista que conheci em São Paulo. O cara era engenheiro responsável por uma obra numa grande construtora. Com a paralisação do mercado, ele e milhares de outros profissionais qualificados tiveram que buscar a sobrevivência onde fosse possível.
Com isso, atualmente as empresas podem garimpar profissionais de ponta, com experiência e que podem assumir de forma imediata. A meu ver, essa é “a maior concorrência” para os jovens em busca de emprego.
3º. A falta de experiência (e também do conhecimento da língua inglesa), é fatal nos dias de hoje. As empresas não querem perder tempo treinando e correndo o risco do candidato não dar certo. Daí a pergunta: se essas empresas não abrem suas portas para estagiários, como eles ganharão experiência ? Uma maior aproximação escola-empresa seria o melhor dos caminhos para essa questão.
Infelizmente esse é o pior momento em muitos anos, para quem busca emprego. Nossos governantes são os responsáveis por essa situação, mas a culpa também é de quem não se preparou adequadamente. Mas atenção: quem é bom, bom mesmo, sempre encontrará uma oportunidade, tanto como empregado, como empreendedor. Pela sua importância, voltarei a esse tema em outras oportunidades.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Ortega y Gasset e viver como atividade desportiva. José Mauricio de Carvalho
Os jogos olímpicos nasceram na Antiga Grécia. As primeiras disputas, realizadas em homenagem a Zeus, o Deus dos deuses do Monte Olimpo, datam de 2500 a. C. Entretanto, as primeiras olimpíadas, com participação das principais cidades-estados do mundo grego (Atenas, Esparta, Delfos, Ítaca, Tebas Eleusis, Samos, Lesbos, Pérgamo, Éfeso, Mileto) datam do ano 776 a. C. As olimpíadas eram, naquele momento, uma celebração importante, elas davam notoriedade aos atletas vencedores e projetava suas cidades.
Vencer
as olimpíadas era demonstração de vigor físico e destreza, qualidades
fundamentais entre os gregos. Por isso os vencedores dos jogos eram
homenageados com a coroa de louros e o reconhecimento público de que eram
agraciados e favorecidos pelos deuses. Os gregos se identificam com a polis a
que pertenciam e como representantes delas, entregavam-se completamente, de
corpo e alma, até o limite extremo de suas forças, às disputas e na preparação
para os jogos. Vencendo eles se tornavam reconhecidos em suas cidades e pouco
coisa contava mais que isso para o grego.
Os
jogos eram tão importantes que guerras eram interrompidas, rivalidades
esquecidas e tréguas estabelecidas no período de sua realização. As Olimpíadas
celebravam a vida, os deuses, a beleza física e a inteligência gregas.
Com
a invasão da Grécia por Roma, por volta do século II a. C., os jogos,
associados ao culto dos deuses gregos foram proibidos. Eles somente foram
retomados, muitos séculos depois, já na era moderna, em 1896, organizados por
Pierre de Frey, Barão de Cobertin.
Os
jogos do Rio de Janeiro estão permitindo aos brasileiros acompanhar mais de
perto as disputas olímpicas e a dedicação dos atletas. As disputas, guardadas
as diferenças dos tempos, continuam a assegurar aos vencedores o prestígio em
suas nações e aos países vencedores o reconhecimento internacional. Os atletas
olímpicos que ganham medalhas são cumprimentados e referenciados pelos seus
governos. E, aproveitando a imagem do atleta olímpico, recuperamos a metáfora utilizada
pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset para dizer de que modo devemos viver
desportivamente.
O
que a vida mostra? Primeiro ela é o encontrar-se,
é o ser transparente para si próprio. O viver não é distante para quem vive, ao
contrário, é próximo. E o que é mesmo a vida? Vida é o que fazer, ou o que escolher,
é traçar o rumo do existir entre as inúmeras possibilidades delineadas pelos
limites. Limite é o filósofo traduz por circunstância,
que é outra categoria fundamental para entender a vida, como ele diz em O que é Filosofia? (1971, 184): “Não se
vive num mundo vago, já que o mundo vital é constitutivamente circunstância, é
este mundo, aqui, agora”. Minha vida é um encontro com a situação concreta onde
estou e a partir da qual tenho que fazer algo para continuar vivendo. Estando
mergulhados nela, nosso olhar se lança para o futuro, ele direciona para o que
buscamos. Estou, pois, mergulhado na circunstância, mas isso não significa que
ela seja o ponto de chegada. Viver é o desafio de alterar a circunstância, de
modificá-la para dar sentido à minha vida. E Ortega queria que a essa tarefa os
homens se entregassem inteiramente, como fazem os atletas olímpicos quando
disputam as provas. Do contrário, a vida parece sem graça e insatisfatória.
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