sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A proposta de mudança no ensino médio. José Mauricio de Carvalho





O atual governo pretende implementar várias reformas no país. Algumas mais outras menos urgentes, todas igualmente polêmicas, se não na necessidade ao menos no conteúdo. A mudança não tem nada de especial, como a vida renova os desafios e exige novas respostas. Se renovar não é a questão, o tipo de ajuste é. O desenvolvimento da cultura humana ensina os motivos: as sociedades têm crenças, história, valores, costumes, conhecimentos, sensibilidades e isso precisa ser contemplado nas mudanças. Do contrário, as reformas não terão o efeito desejado.
No que se refere à proposta de mudança no ensino médio, baixada como medida provisória, é grave a intempestividade. Não que seus elementos não tenham sido ventilados, mas não foram discutidos pelos agentes do processo pedagógico.E a maneira de propor a reforma mostra algumas de nossas dificuldades, o autoritarismo e a pressa na hora de planejar e pensar o futuro. Uma proposta dessa natureza não pode ser executada rapidamente pela simples razão de que, uma vez implementada, é preciso que ela dure um pouco para ter efeito. E ela não vai durar se não considerar os elementos culturais acima indicados, se não tiver professores capacitados a conduzir as mudanças pretendidas e alunos convencidos da necessidade delas. Reformas numa instituição de tamanha importância não podem ser realizadas de afogadilho. Ao ser lançada por um governo que recém empossado, sem discutir previamente com a sociedade, mostra-se apenas a urgência de interesses não ditos.
Além da intempestividade, há outros problemas graves. Se a flexibilidade não é ruim, considerar apenas Matemática, Português e Inglês disciplinas obrigatórias é inoportuno. E por que o é? Para um povo que não cultiva a história como devia, sabendo-se que a história é um dos núcleos centrais da identidade nacional, retirar a disciplina do currículo é disparate. Para uma sociedade cada vez mais sedentária, retirar as aulas de educação física é outra temeridade. E por falar em sedentarismo e tecnologias, num tempo em que crianças e adolescentes estão presas aos celulares e computadores, com muita informação e pouco discernimento, é necessário ensinar a refletir criticamente. Em outras palavras, a contrapor os diversos lados de uma questão, a examinar pacientemente os argumentos antes de reproduzi-los, nesse contexto retirar a Filosofia é absurdo. E das ciências naturais nem é bom falar, retirar a Química e a Biologia, o que há por trás disso? O problema não é o excesso de disciplinas, mas o excesso de conteúdo e a distância entre eles e a vida.
Outra dificuldade da reforma é que ela não toca em problemas antigos e reais como professores mal pagos, despreparados e desmotivados e pequena valorização do mérito. A questão é menos de diminuir disciplinas do que reduzir o supérfluo que nelas se ensina, dissemos antes. É preciso estabelecer um mínimo pedagógico que o homem contemporâneo não pode deixar de conhecer. O que ninguém, hoje em dia, pode desconhecer sobre Ciência? Como entender a realidade mesma, os valores e elementos estruturadores da vida coletiva, questões de várias disciplinas filosóficas? O que é necessário para comunicar, conforme a norma culta, as Ciências, a Filosofia e as questões da rotina, assunto nuclear do ensino de línguas. Se se diminuir o número de disciplinas, mas aumentar a quantidade de conteúdos distantes da vida nas que permanecerem, o problema aumenta e não diminui. Além desse mínimo escolar, que todos precisam conhecer, o aluno poderia escolher alguns conteúdos para aprofundar e nisso a flexibilização pode ajudar. Aprovação sem mérito é outro problema histórico. O jovem precisa aprender que grandes conquistas são fruto de notáveis esforços. E
elas devem ser conquistadas de forma honesta. Sem valorizar o mérito e a honestidade na escola, alguém pensa que aparecerão na sociedade?
Há muitas questões no ar e não se viu tocar em elementos fundamentais que, de fato, mudariam o ensino médio para melhor. Esperemos que educadores e políticos consigam tratar dessa questão com a seriedade que ela merece em benefício do Brasil.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A Reforma do Ensino e a Filosofia. Selvino Antonio Malfatti.




A inclusão ou não da filosofia no currículo do ensino médio nos remete a Aristóteles: devemos ou não filosofar? Se devemos, então filosofamos. Se não devemos, então devemos filosofar para justificar por que não devemos filosofar. Logo, sempre filosofamos.
Há, no meu entender uma questão de fundo que subjaz na à questão. É aquilo que Montesquieu chama de o “espírito”, Chateaubriand de “gênio” e Tocqueville de “substrato natural. Um determinado comportamento não tem necessidade de legaliza-lo quando a sociedade por si mesma o faz. Os anglo-saxões tem-no na common law, por exemplo, pela qual a tradição é mais importante que a legislação.  No entanto, há sociedades que necessitam legislar sobre tudo. Para os italianos, por exemplo, não basta dizer: é proibido. Há que se enfatizar: “absolutamente proibido”. Se for proibido, então é proibido, mas para eles não basta isso, tem que ser absolutamente proibido.

Qual a função da filosofia no ensino médio? É ser um instrumento para a cidadania para as sociedades que não têm o recurso do “espírito”, “gênio” ou do “natural”. A filosofia, mal comparando, é uma prótese que determinadas sociedades necessitam para formar cidadãos que os ajudem a avaliar valores, enxergar as consequências de comportamentos, julgar atitudes e criticar pensamentos ou ideologias. Diante disso, percebe-se que nem todas as sociedades necessitam de filosofia para seu ensino médio que, além dos conteúdos das disciplinas, forma o cidadão. Sociedades culturalmente homogêneas estariam dispensadas.  À medida que sobem na escala da heterogeneidade cultural, preme a necessidade de filosofia para sua cidadania. Os anglo-saxões, os japoneses, os hindus não necessitariam. Os alemães, os espanhóis e franceses precisariam bem pouco. Os italianos e brasileiros, carecem muito. 
Se lançarmos um olhar rápido pelo mundo sobre o ensino da filosofia no ensino médio, constatamos uma grande disparidade. Infelizmente o debate da filosofia no currículo básico, na prática recai sobre o problema de custos econômicos, pois o privado não vai querer pagar mais um professor e o público não vai nomear mais um. Os ganhos espirituais no investimento não são levados em conta.
Como já frisamos os países de língua inglesa praticamente não possuem filosofia no ensino médio. Como exemplo, pode ser citado Reino Unido e América do Norte. Na Rússia a filosofia está ausente no ensino médio, mas não há uma rejeição explícita. Na Irlanda, apesar da ausência da filosofia nas escolas acredita-se que ela pode contribuir para formar cidadãos esclarecidos. No Chile, há uma crença de que a filosofia pode exercer uma influência positiva no convívio social, pois orienta os adolescentes quanto à sexualidade, drogas e assuntos relativos a questões existenciais.
Embora em alguns países, como Nova Zelândia, dão ênfase às filosofias nativas, o mais corrente é considerar as filosofias oriundas da Grécia antiga, Europa medieval, e as filosofias de França e Alemanha como universais. 
Nos diversos encontros e colóquios bilaterais entre Brasil e Portugal surgiu a hipótese de que só existem filosofias nacionais, especificadas cada qual pelo seu problema, ou ênfase nas questões específicas. Com efeito, cada país possui uma temática própria que caracteriza sua filosofia como o SISTEMA na Alemanha, o ESPÍRITO na Itália, a RAZÃO na França e assim por diante. No Brasil o pano de fundo é a CULTURA e em Portugal DEUS.
A questão da cultura na filosofia brasileira reflete bem o substrato social, qual seja a heterogeneidade: somos um conjunto de todas as raças, religiões, embora haja predominância numérica de católicos, há um caldinho de credos, ideologias mais desencontradas caminham pari passu, as cores raciais são um estampado vivo.
No caso brasileiro a filosofia pode ser o tripé para a concertação social.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Escola para a vida e não escola sem partido. José Mauricio de Carvalho





A proposta contida no projeto de lei denominada escola sem partido, criticada como conservadora e fundamentalista, não é exatamente isso. Se o fosse, mas estivesse bem embasada, seria uma perspectiva de entendimento do mundo da qual se pode discordar, mas como tal contribuiria para esclarecer a realidade das pessoas e o conflito de interesses da sociedade. Porém expressa a superficialidade contemporânea, incapaz de identificar e enfrentar os problemas corretamente. Seus proponentes não se dão conta dos problemas por tras do que querem resolver.
O ensino, para ser bom, precisa ser crítico no sentido de mostrar ao aluno que há diferentes formas de interpretar a realidade e entender o mundo, especialmente quando tratamos dos interesses das pessoas. A ciência moderna foi uma grande construção humana, ela ajuda no conhecimento do mundo e precisa ser bem ensinada e aprendida. Porém, o conhecimento científico é limitado pelos métodos e objetivos que asseguram sua validade. Por isso, a ciência não chega a um tipo de verdade sobre a totalidade da realidade, sobre os interesses humanos e sua liberdade. A verdade da ciência é a verdade que se mostra pela submissão de hipóteses testáveis. No entanto, e pelo que pretende a ciência, ela é incapaz de dizer algo sobre o que não se pode testar, como por exemplo, o fim da história ou o sentido da vida de cada existente. Um pouco de conhecimento filosófico é essencial para se tratar desses assuntos, mas há limites para as verdades filosóficas e limites nas teorias que formula de interpretação do mundo. Ainda assim ela é imprescindível.
A razão, enquanto esforço de interpretação dessa totalidade vai além das verdades da ciência, mas também não consegue descrever a totalidade do real chegando a uma verdade absoluta. Formulando teorias de interpretação do mundo a Filosofia revela aspectos parciais da verdade. E é bom que a força da razão atue nas ciências como impulso que aponta seus limites e a incentive a seguir em frente no que ela pode fazer para explicar o mundo. A razão, empregada com a consciência dos seus limites, forma o pensamento crítico, distingue as verdades da ciência das formulações sobre o mundo. O pensamento crítico revela também as disputas de interesses presentes na sociedade que não podem ser escondidas nem encobertas. Além disso, a vida  renova os problemas de modo que o homem precisa continuamente construir novas teorias científicas e filosóficas. A razão, trabalhando corretamente, aponta para além dos limites históricos como força que transcende o tempo em direção ao eterno. Ela revela as lutas e conflitos desse processo e nunca para de pensar o mundo. Ela se mostra nas construções dos filósofos, o que nos leva a entender as lições da Filosofia, como o caminho da razão. Se essa escola ensina isso ela ensina a diferenciar explicações filosóficas, teses de interesse de grupos e pessoas e o conhecimento científico e objetivo sobre a natureza. Ela ensina que interpretações parciais do mundo se tornam falsas quando são propostas como absolutas.
Minha geração foi criada numa escola sem filosofia, sem pensamento crítico, com uma visão romântica de sociedade da qual o resumo era a Educação Moral e Cívica (E. M. C.). Longe de formar o pensamento crítico disciplinas como aquela ofereciam uma visão superficial e falsa do mundo e da sociedade. A vingança veio na mesma moeda. Quando houve a abertura política, as disciplinas sociais, construídas sob inspiração marxista, arvorando-se em teoria científica que elas não eram, antes restritas a espaços clandestinos, foram apresentadas como verdades para os jovens. Note-se que isso ocorreu num momento em que o marxismo, como esquema de interpretação do mundo, com seus dominados e dominantes, era considerado ultrapassado como visão de mundo. Ortega y Gasset, por exemplo, o identificava com a ideia de homem econômico e da sociedade do século XIX. Como as teses da E. M. C. que foram apresentadas para uma geração como verdade sem o serem, as teses marxista o foram para a geração seguinte, com o agravante de parecerem ciência. Ambas limitadas e insuficientes interpretações do mundo. Ambas visões ideológicas e superficiais, porque toda verdade que nasce numa filosofia, melhor ou pior, é uma interpretação parcial do real, se degenera quando pretende ser absoluta.
Hoje não precisamos de uma escola sem partido, precisamos de uma escola para formar a inteligência. Uma escola que ensine a pensar a uma geração incapaz de fazê-lo, distraída de viver nos aparelhos eletrônicos, incapaz de concentrar-se, envolvida em conversas vazias nas redes sociais, que necessita aprender a pensar, necessita de tempo para meditar as questões fundamentais da vida, além de aprender bem a ciência. Essa geração precisa de uma escola que não forme pessoas superficiais e embotadas, com professores mal pagos, desmotivados e revoltados. O problema a enfrentar não é uma escola sem partido, mas uma escola onde ideologias sejam apresentadas como tal, como interpretações limitadas do mundo, que precisam conversar entre si para buscar a verdade. E há outros problemas graves na escola que essa proposta tangencia. O mais grave é o fetiche da tecnologia digital. Não é preciso abandoná-la, mas ela não pode ser mais que um método entre muitos que integram o processo pedagógico, é instrumento algumas vezes válido, outras não. A escola não é um grande videogame ou jogo eletrônico para divertir uma geração incapaz de pensar e de trabalhar suas frustrações e limites. Os problemas humanos, os desafios que a vida traz, os traumas e sofrimentos, não podem  ser tratados superficialmente e nem se resolvem nas redes sociais. Os problemas fundamentais do homem precisam ser enfrentados com o pensamento crítico, com ciência, com meditação filosófica, com professores bem formados e pagos e também com respeito pela dignidade humana, para com as normas sociais, com o reconhecimento das diferenças entre pessoas, com apoio para enfrentar os traumas e frustrações que a vida traz.
As discussões que a sociedade e o governo precisam fazer sobre o futuro e o papel da escola estão num outro patamar e incluem outras questões muito diversas dessa proposta superficial e sem graça denominada escola sem partido.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALDO MORO. Selvino Antonio Malfatti



Neste ano, 2016, ocorreu o centenário de nascimento de Aldo Moro, nascido em 23 de setembro de 1916 em Maglie e foi assassinado em 9 de maio de 1978 em Roma. Tinha formação jurídica, foi professor universitário e atuou na política. Seu último mandato ocorreu em 1978, antes de ser assassinado pelas Brigadas Vermelhas. Estas, de cunho marxista-leninista, tinham uma matriz essencialmente comunista.
Moro, como político deu continuidade à obra de Alcide de Gasperi no seio do partido político da Democracia Cristã. Ocupou por cinco vezes o cargo de Primeiro Ministro e encontrou a fórmula para transpor uma Itália do Pós-guerra para  a Modernidade, entendendo-se com o transpor de uma sociedade sustentada pelos princípios religiosos para uma sociedade laica.
Na organização política italiana encontrou a fórmula para o funcionamento do governo. 
O partido da Democracia Cristã conseguia mais ou menos 37% dos votos. O partido Comunista Italiano ficava em segundo lugar com aproximadamente 33% dos eleitores e o Partido Socialista Italiano em torno de 13% do eleitorado. Para conseguir maioria a Democracia Cristã unia-se ao Partido Socialista e com isso afastava do governo os comunistas. 
Em 1976 ocorreram eleições e a ordem manteve-se. Mas a Itália estava num período de transição entre o religioso e o laico. O primeiro passo havia já sido dado, a aprovação do divórcio. A Igreja, por sua vez, estava abandonando o apoio à Democracia Cristã. O terror crescia dia a dia, com atentados provocados pelas Brigadas Vermelhas de vários matizes políticos, mas predominantemente comunistas. Foi nesse contexto que Aldo Moro é eleito Primeiro Ministro.

 Para as eleições políticas de deputados e senadores, na Itália,  de 20 de junho de 1976, o resultado foi o seguinte-
- Democracia Cristã: Deputados 38,7% e Senadores 38,9%.
- Partido Comunista Italiano: Deputados 34,4% e Senadores 33,8%.
- Partido Socialista Italiano: Deputados 9,6% e Senadores 10,2%.
- Movimento Social Italiano: Deputados 6,1 % e Senadores 6,6%.

Com este resultado, o sistema político italiano está atingindo seu ponto máximo de bipolarização, e com isso a Democracia Cristã, para formar o governo, não consegue aliados para formar maioria. O Partido Socialista, além de se tornar um grande perdedor, vive um momento de crise interna. Com os demais pequenos partidos, tradicionais aliados, sozinhos não conseguem dar-lhe maioria. A única saída seria aliar-se ao seu adversário, a própria razão de seu existir, o Partido Comunista. A única saída seria chamar todos os partidos ao governo, formando um frente, batizada com a denominação de Solidariedade Nacional. Mas para tanto era necessário encontrar um objetivo comum a todos os partidos ou ao menos para quase todos. Ora, a segunda razão de ser da Democracia Cristã era o combate ao Fascismo, razão esta comum aos demais partidos, com exceção dos fascistas. Logo, sobre a ideia de uma coalizão antifascista tornou viável um governo após o resultado eleitoral. Mas não seja de imediato. Os dois maiores polos, Democracia Cristã e Partido Comunista, necessitavam digerir a estratégia eleitoral de seu adversário. A Democracia Cristã fora acusada de corrupção pelos comunistas, e estes apontados como perigo número Um pelos democratas cristãos. Disso nasce um governo monocolor liderado por Giulio Andreotti, denominado de “governo della nonsfiducia” ( não desconfiança). Isto somente era possível porque os comunistas se abstinham de votar. Pela primeira vez, depois da Segunda Guerra, os comunistas estão na área do governo, não diretamente, mas no plano da atuação parlamentar. Era o fim da “conventio ad excludendum”. E com ela nascia a “terceira fase” aquela da alternância sem excluídos.
O apelo imediato deste governo era enfrentar o gravíssimo problema do terrorismo que assolava o país. Em toda parte, mas principalmente no sul, atentados, sequestros e assassinatos tornavam-se comuns desestabilizando as instituições e desacreditando o governo. O país estava à beira da ingovernabilidade.
Dois anos após, 1978, os comunistas resolvem dar o ultimatum à Democracia Cristã: ou a Democracia Cristã permite ao Partido Comunista entrar diretamente no governo, executivo, ou retira-se para a oposição. Mas devido ao sequestro de Aldo Moro, Andreotti consegue formar mais um governo, e o Partido Comunista retira-se para a oposição.
No entanto, o acontecimento de maior repercussão, sem citar as consequências para o partido, foi o sequestro e morte pelas Brigadas Vermelhas de Aldo Moro, Presidente da Democracia Cristã. As Brigadas Vermelhas eram um dos vários grupos ativos da extrema esquerda. Seu objetivo era atrair as massas acenando-lhes com a mudança das estruturas sociais mediante a revolução. Na verdade era apenas uma concepção simplória da realidade e não receberam o apoio popular esperado. Inclusive mereceram a condenação do Partido Comunista. Este ato terrorista pode ser visto como o apogeu deste movimento na Itália.
Há tempo que esta organização terrorista planejava raptar um dirigente democrata cristão de renome não só nacional, mas internacional. Já haviam sido cogitados Amintore Fanfani e Giulio Andreotti. A escolha recaiu sobre Aldo Moro porque havia sido o teorizador da “terceira fase”, isto é, post conventio ad excludendum, pela qual o Partido Comunista poderia ser parceiro no governo, era presidente do partido, e o protagonista número Um da Solidariedade Nacional. O movimento de contestação nacional, iniciado em 1968, colocava em cheque as próprias instituições políticas através da exigência por parte dos participantes de os partidos políticos assumirem suas bandeiras.  Com o projeto de Solidariedade Nacional o movimento contestatório, do qual as Brigadas Vermelhas faziam parte, sentiu-se frustrado, pois foram reafirmados os valores da democracia representativa e suas instituições. Pela ação de Moro os conteúdos dos movimentos contestatórios eram canalizados e absorvidos e as tensões sociais freadas em seus métodos revolucionários.
Enquanto Moro foi mantido na “ prigione del popolo” as Brigadas Vermelhas procuraram tirar o maior partido possível do refém da Democracia Cristã. Primeiramente instalaram um processo paralelo ao que estava ocorrendo em Turim contra membros das Brigadas Vermelhas. Através de Moro, toda a História política da Democracia Cristã era investigada. Numerosos cartas saíam da “Prisão do Povo” incriminando membros do partido como Giulio Andreotti, Benigno Zaccagnini ,  Paolo Emilio Taviani e outros.  
Tentaram também provocar reações de violência por parte do Estado, com a finalidade de desacreditar as instituições democráticas. Houve, até propostas de negociação com o poder com o objetivo de forçar o Estado a reconhecer a existência de um poder paralelo ao do Estado. As intervenções internacionais, os esforços da Igreja e mesmo o apelo da família não conseguiram fazer o governo tomar qualquer decisão. O Partido Socialista, parceiro de governo, na pessoa de seu líder empurrou a decisão para a Democracia Cristã. Mas nem mesmo o partido quis abertamente negociar com os terroristas e em 9 de maio de 1978 Aldo Moro foi morto.

Abaixo um trecho inédito do livro: ALDO MORO. LO STADISTA E IL SUO DRAMMA, de Guido Formigoni, a ser publicado neste ano pela Editora Il Mulino.   O texto é do embaixador norte-americano na Itália em 1974, John Volpe, ao secretário de Estado americano Henry Kissinger:



Dal nostro punto di vista, dobbiamo trattare con un primo ministro che è diventato negli ultimi cinque anni il simbolo e l’immagine stessa della sinistra democratica cristiana. Egli è l’unico membro dell’ala sinistra della Dc con una statura sufficiente da godere del rispetto di tutti i partiti democratici come uno statista che può essere scelto per la leadership del governo. Io penso che le sue credenziali filo-occidentali sono valide ancora oggi come sempre, ma il Moro della politica interna è in qualche modo alla sinistra del Moro statista internazionale. Egli è spinto a sinistra dalla sua stessa natura piuttosto fatalistica e dalla sua lungamente coltivata antipatia per Fanfani, che ora sta ben alla destra di Moro. Con Fanfani pronto a sostituirlo, Moro farà ogni sforzo per evitare problemi o scontri con i socialisti. Una rottura definitiva con i socialisti significherebbe la fine della formula di centro-sinistra con cui Moro è storicamente associato, e che egli ha definito «irreversibile».
Ci si può attendere che egli paghi il prezzo di un accordo o di una deriva, come necessari per tenere assieme il suo governo quanto a lungo sarà possibile. Io inclino a pensare che il quarto governo Moro non durerà molto. Fazioni importanti della Dc e addirittura esponenti del governo predicono solo pochi mesi, e in effetti i sindacati e i socialisti sono già irrequieti e insoddisfatti. Sarei però negligente a non ricordare, comunque, che quando Moro ha buone ragioni per star saldo, come spiegato sopra, la sua ingegnosità e tenacia sono fenomenali. Non è per coincidenza che Moro ha guidato il governo italiano per un periodo di tempo più lungo di qualsiasi primo ministro dopo De Gasperi.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Lições deixadas pela tragédia de Amatrice e Accumoli. José Mauricio de Carvalho



Acompanhamos pela televisão e pela internet o drama provocado pelo terremoto no centro da Itália. A televisão e a internet nos levaram para dentro do que estava se passando no interior da Itália e mergulhamos no sofrimento da população, do resgate dos corpos aos velórios coletivos. Entre as tristes imagens os antigos casarões despedaçados pela força da natureza. O terremoto destruiu algumas pequenas cidades e casas nas montanhas da região central da Itália, mas em especial devastou as cidades de Amatrice e Accumoli. O terremoto ocorreu às 3 e 30h de quarta feira, ainda 22 e 30h de terça pelo horário de Brasília. O sismo alcançou 6, 2 na escala Richter e provocou quase 300 mortes já confirmadas até o momento da escrita deste artigo, muitos feridos e mais de 2000 pessoas desabrigadas. O grande número de mortos e feridos se explica pelo fato do desastre ter acontecido à noite, quando as pessoas estavam dormindo.
Essa tragédia, que atingiu as cidades italianas, permite introduzirmos questões importantes, pois passamos por tragédias, muitas vezes, sem uma análise mais cuidada. Acontecimentos tão impressionantes como esse suscitam indagações e perplexidade. E tanto mais produzem inconformismo e comoção quando mais próximos estamos dos que sofrem. É claro que tragédias naturais de tamanha proporção são capazes de suscitar solidariedade e perplexidade em todas as partes do mundo, mas ela é mais dolorosa num país como o nosso, que recebeu grande imigração italiana e onde as essas famílias são tão numerosas  no conjunto do população. Pois bem, em qualquer dos casos, mais próximos ou distantes dos fatos, grandes tragédias tocam o homem, pois lhe mostram sua fragilidade e lembram a limitada realidade e falta de segurança de nossa existência.
A limitação e finitude que nos marcam colocam na cena diária da vida as suas consequências, então sofremos quando algo nos acontece e não temos como escapar desse sofrimento, e precisamos sempre enfrentar em nossa existência circunstâncias penosas, dores, mutilações e a morte. E essas realidades extremas nos levam a pensar filosoficamente, pois na hora da tragédia não há como distrair-se, nem iludir-se com a vida. Pois do trágico que toca o humano não nos salva ser mais ou menos rico, mais ou menos jovem, mais ou menos atleta. Todos sofremos, envelhecemos, adoecemos, morremos, nos sentimos perdidos e perturbados pela culpa, todas essas coisas abalam nossas certezas e nos lançam no desafio de enfrentar as situações dolorosas da existência.
As situações trágicas revelam parte da condição humana. Como não há uma forma de esconder a dor que toca, nem se iludir nos folhetins das redes televisivas ou nas luzes dos grandes shoppings, o sofrimento leva ao questionamento e a busca de sentido. Essa procura do homem pelo significado ganha força na objetivação dos produtos culturais onde a alma coloca para fora o que de mais humano se dispõe, de fazer o belo, de realizar o bem e de viver a verdade. E, nesse sentido, produzir cultura, refazer o destruído, refazer-se da dor e seguir vivendo é nossa forma de ir além do trágico e descobrir o lado mais generoso da existência. E estamos certos de que os italianos saberão reerguer essas cidades, como fizeram recentemente com Assis, reconstruirão os casarões e monumentos históricos como eles sempre foram.
A vida é assim, mistura dores e realizações, o choro e o riso, e nos cobra  um sentido pessoal e a realização cultural dos melhores valores que temos.

sábado, 3 de setembro de 2016

A Universidade deve preparar empregadores ou empregados? Selvino Antonio Malfatti



A redemocratização já estava feita mas a ideologia afim estava no poder. A oposição forçava furiosamente a divisória para chegar ao poder. Era um verdadeiro jogo, não de futebol, mas de política ideológica. Neste ambiente, não sei se por coragem ou ingenuidade, numa aula de Ciência Política, no curso de Direito, afirmei:
    - A universidade deve preparar empregadores e não empregados. Deve ser um fator de multiplicação de empregos e não de ocupação de vagas.
Foi um "Deus nos acuda." Quase me tiraram o escalpo.
Mas qual minha surpresa nesta semana quando um professor - Carlinhos Costa Beber - do curso de administração da mesma UFSM praticamente abordou o mesmo tema em sala de aula. Vejam o texto publicado num jornal local.

1º EMPREGO: AS TRÊS BARREIRAS

Carlos Costabeber
Na semana passada conversei com alunos da Administração (UFSM), sobre empreendedorismo e mercado de trabalho.Confesso que fui muito duro com a gurizada, pois via que eles precisavam de “uma sacudida”. Usei palavras amargas, fugindo ao meu estilo habitual, mas precisava dar um alerta. Depois da palestra, resolvi escrever de forma sucinta sobre o tema abordado: as 3 barreiras que terão de ser vencidas, para quem sonha com a 1ª. oportunidade de trabalho.
1º. Atualmente, a recessão está fazendo com que as empresas estejam demitindo, ao invés de contratar pessoal. E por mais que a economia melhore no médio prazo, as oportunidades de emprego virão muito lentamente e serão bem seletivas.
2º. Muita gente experiente está desempregada. Foi o caso de um taxista que conheci em São Paulo. O cara era engenheiro responsável por uma obra numa grande construtora. Com a paralisação do mercado, ele e milhares de outros profissionais qualificados tiveram que buscar a sobrevivência onde fosse possível.
Com isso, atualmente as empresas podem garimpar profissionais de ponta, com experiência e que podem assumir de forma imediata. A meu ver, essa é “a maior concorrência” para os jovens em busca de emprego.
3º. A falta de experiência (e também do conhecimento da língua inglesa), é fatal nos dias de hoje. As empresas não querem perder tempo treinando e correndo o risco do candidato não dar certo. Daí a pergunta: se essas empresas não abrem suas portas para estagiários, como eles ganharão experiência ? Uma maior aproximação escola-empresa seria o melhor dos caminhos para essa questão.
Infelizmente esse é o pior momento em muitos anos, para quem busca emprego. Nossos governantes são os responsáveis por essa situação, mas a culpa também é de quem não se preparou adequadamente. Mas atenção: quem é bom, bom mesmo, sempre encontrará uma oportunidade, tanto como empregado, como empreendedor. Pela sua importância, voltarei a esse tema em outras oportunidades.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ortega y Gasset e viver como atividade desportiva. José Mauricio de Carvalho






Os jogos olímpicos nasceram na Antiga Grécia. As primeiras disputas, realizadas em homenagem a Zeus, o Deus dos deuses do Monte Olimpo, datam de 2500 a. C. Entretanto, as primeiras olimpíadas, com participação das principais cidades-estados do mundo grego (Atenas, Esparta, Delfos, Ítaca, Tebas Eleusis, Samos, Lesbos, Pérgamo, Éfeso, Mileto) datam do ano 776 a. C. As olimpíadas eram, naquele momento, uma celebração importante, elas davam notoriedade aos atletas vencedores e projetava suas cidades.
Vencer as olimpíadas era demonstração de vigor físico e destreza, qualidades fundamentais entre os gregos. Por isso os vencedores dos jogos eram homenageados com a coroa de louros e o reconhecimento público de que eram agraciados e favorecidos pelos deuses. Os gregos se identificam com a polis a que pertenciam e como representantes delas, entregavam-se completamente, de corpo e alma, até o limite extremo de suas forças, às disputas e na preparação para os jogos. Vencendo eles se tornavam reconhecidos em suas cidades e pouco coisa contava mais que isso para o grego.
Os jogos eram tão importantes que guerras eram interrompidas, rivalidades esquecidas e tréguas estabelecidas no período de sua realização. As Olimpíadas celebravam a vida, os deuses, a beleza física e a inteligência gregas.
Com a invasão da Grécia por Roma, por volta do século II a. C., os jogos, associados ao culto dos deuses gregos foram proibidos. Eles somente foram retomados, muitos séculos depois, já na era moderna, em 1896, organizados por Pierre de Frey, Barão de Cobertin.
Os jogos do Rio de Janeiro estão permitindo aos brasileiros acompanhar mais de perto as disputas olímpicas e a dedicação dos atletas. As disputas, guardadas as diferenças dos tempos, continuam a assegurar aos vencedores o prestígio em suas nações e aos países vencedores o reconhecimento internacional. Os atletas olímpicos que ganham medalhas são cumprimentados e referenciados pelos seus governos. E, aproveitando a imagem do atleta olímpico, recuperamos a metáfora utilizada pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset para dizer de que modo devemos viver desportivamente.
O que a vida mostra? Primeiro ela é o encontrar-se, é o ser transparente para si próprio. O viver não é distante para quem vive, ao contrário, é próximo. E o que é mesmo a vida? Vida é o que fazer, ou o que escolher, é traçar o rumo do existir entre as inúmeras possibilidades delineadas pelos limites. Limite é o filósofo traduz por circunstância, que é outra categoria fundamental para entender a vida, como ele diz em O que é Filosofia? (1971, 184): “Não se vive num mundo vago, já que o mundo vital é constitutivamente circunstância, é este mundo, aqui, agora”. Minha vida é um encontro com a situação concreta onde estou e a partir da qual tenho que fazer algo para continuar vivendo. Estando mergulhados nela, nosso olhar se lança para o futuro, ele direciona para o que buscamos. Estou, pois, mergulhado na circunstância, mas isso não significa que ela seja o ponto de chegada. Viver é o desafio de alterar a circunstância, de modificá-la para dar sentido à minha vida. E Ortega queria que a essa tarefa os homens se entregassem inteiramente, como fazem os atletas olímpicos quando disputam as provas. Do contrário, a vida parece sem graça e insatisfatória.

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