Yuval Noah Harari
Nos nossos dias as massas foram
condicionadas ao que o historiador denominou ética do consumismo, no qual ética
é um termo singular e diverso do utilizado na tradição filosófica, na qual
surgiram diversos modelos éticos desde a antiga Grécia. Os modelos éticos desde
o aristotélico, que consideramos o primeiro com boa justificação filosófica,
sempre apontaram para como alcançar uma vida boa, justa e humana e, algumas
vezes, feliz. Isso através de esforço pessoal e de uma fundamentação racional
dos comportamentos adotados.
O sociólogo Zygmunt Bauman escreveu em Vida
para o consumo que o consumo é um conceito essencial para entender a
sociedade contemporânea, ainda que possa não expressar perfeitamente tudo que
nela ocorre. O conceito é válido porque esclarece parte significativa do que
está ocorrendo. Em outras palavras (2008 b, p. 40): “consumismo, sociedade de
consumidores e da cultura consumista (...) são ferramentas adequadas à tarefa
de compreender um aspecto fundamental da sociedade que hoje habitamos.” E o
assunto também foi tema de outra obra de Bauman, 44 cartas do mundo líquido
moderno, onde o sociólogo ofereceu uma descrição preciosa dessa nova forma
de vida. O consumismo, que caracteriza nosso tempo, não se explica pela simples
capacidade de consumir, que é condição para estar vivo, mas por transformar o
ato numa forma de viver (BAUMAN, 2011, p. 83): “não basta consumir para
continuar vivo se você quer viver e agir de acordo com as regras do consumismo.
Ele é mais, muito mais que o mero consumo. Serve a muitos propósitos.” É uma
atitude que se apresenta como forma de vida e de resolver os problemas
inclusive os de saúde pela compra cada vez maior de medicamentos. E estar
sempre em compras tornou-se uma forma de enfrentar todas as incertezas que
temos. Quanto ao pertencimento ao grupo social, ele se define pela capacidade
de consumo de marcas e produtos (BAUMAN, 2008 b, p. 108): “o processo de
autoidentificação é perseguido, e seus resultados são apresentados com a ajuda
de marcas de pertença visíveis, em geral encontráveis nas lojas.”
O que Harari denominou ética do consumismo
é esse comportamento descrito em 44 cartas do mundo líquido moderno.
Trata-se de uma forma de viver amplamente estudada por Bauman e consiste na
síntese do historiador (HARARI, 2020, p. 357): “garantir que as pessoas sempre
comprem o que quer que a indústria produz.” E não apenas a indústria, mas
qualquer produto do mercado, da agricultura aos variados serviços. Como se vê
ética consumista é um uso heterodoxo do conceito, descreve uma forma de viver
de nossos dias.
Não custa recordar que a ética, disciplina
filosófica, ocupa-se de outras coisas. Nos (CARVALHO, 2004, p. 9): “Tempos
modernos teve como tema central a separação entre a moral e a religião, o que a
distinguiu do que se fez na Idade Média e que não chegou a se modificar no
renascimento. Conforme sabemos (...) a investigação moral no período
contemporâneo se afastará da preocupação moderna que fora de assegurar uma
fundamentação racional para a ética, ao mesmo tempo que firmava as bases de uma
moral social laica e consensual. A discussão sobre a moral social consensual
dependia do reconhecimento da diversidade de religiões presentes no cenário
social e mesmo de uma disposição natural do homem para ser religioso. O
pensamento contemporâneo se volta para a experiência moral do homem e a
investigação se desenvolve em terreno próprio, diverso do que fora a
preocupação dos moralistas de outras gerações.”
Oi. Maurício. Boa noite.
ResponderExcluirAchei genial a análise. Explica, v.gr., os indivíduos que não conseguem se livrar das contas, os cheios de cartões, os credores etc.etc. O interessante são os impulsivos em comprar, os vendedores cheios de metas a alcançar. E assim por diante. Será um sucesso este artigo. Abraço.
Realmente, um ótimo artigo.
ResponderExcluirUma perfeita reflexão.
Ao refletir sobre esta análise é incrível como nos encaixamos, somos o produto final de toda está engrenagem.
ResponderExcluirConsumimos, muitas vezes, atraídos pelas propagandas, facilidade de pagamentos e o cartão de crédito.
E em todas facilidades de crédito fácil, surgem as famílias endividadas e as dificuldades para quitar compromissos assumidos.
Somos condicionados, consumidores inconscientes, análise surpreendente e verdadeira.
ResponderExcluirOs apelos, as promoções e todas as necessidades criadas, verdade, somos a massa condicionada.
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