sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Emanuele Severino. Selvino Antonio Malfatti- Doutor em Filosofia

 



Com 90 anos (1929-2020) desaparece o filósofo italiano Emanuele Severino na Brescia, sua cidade natal. Concentrou sua pesquisa e elaboração filosófica em três teses: a verdade do ser, a morte e a eternidade de Deus.  Licenciado em Filosofia pela Universidade de Pávia, com a tese sobre Heidegger e a Metafísica, transitou também na história do pensamento ocidental sob os pontos de vista religioso, científico e filosófico. Batia de frente com as teses católicas ao negar o Além, a Salvação e outros temas. Paulatinamente vai sendo expelido da Universidade católica de Milão pelas suas posições ateias como sustentar que a fé é uma contradição e o cristianismo é uma alienação essencial do ocidente.

Para ele a pergunta “o que é a filosofia” é tão decepcionante pelas respostas tão díspares e numerosas que passa até a vontade de querer saber a resposta. Prefere apresentar a metáfora da matilha de cães correndo atrás de filosofia ferida de morte. Cada um se gabando a seu modo dizendo que foi ele que a reduziu a isto. Dizem: "Fui eu que a reduzi assim!", "Não, fui eu!", "Estávamos todos juntos!". Severino, no entanto, prefere outra explicação. Não foi a ciência moderna, nem a sociedade burguesa, nem o cristianismo. Ninguém a matou, apenas a matilha demonstra que o mundo  pode viver sem ela. Seu ferimento mortal consiste em ter-se auto-infligido o mortal propósito: querer ser a verdade absoluta do vir-a-ser do mundo. Esta vontade é a ferida mortal que condenou a filosofia à morte. Pergunta-se o filósofo: o que aconteceria se o devir do mundo (sair a voltar a nada) fosse uma evidência? Não seria uma loucura extrema?

Frases marcantes de Emanuele Severino:

“Nascere vuole dire […] uscire dal niente; morire vuol dire tornare nel niente: il vivente è ciò che esce dal niente e torna nel niente.“

(“Nascer significa [...] sair do nada; morrer significa voltar a nada: o viver é o que sai do nada e volta a nada ”.

“„La democrazia è una fede.“

("A democracia é uma fé. ")

“Ogni civiltà, e soprattutto quella occidentale, non è stata altro che edificante – anche e proprio quando ha prodotto l'estremo della distruzione e dell'orrore. Potrà mai accadere all'uomo di non essere edificante?“

(“Cada civilização, especialmente a ocidental, não foi nada além de edificante - mesmo e precisamente quando produziu o extremo da destruição e do horror. Pode acontecer ao homem não ser edificante?)

„È del tutto fuorviante condannare l'«Occidente» e il capitalismo per aver dominato e sfruttato il resto del mondo. I popoli non hanno morale. Se ne è mai visto uno sacrificarsi per un altro? Quando hanno potenza si impongono sui più deboli, come la natura riempie il vuoto.“

(É completamente enganoso condenar o "Ocidente" e o capitalismo por dominar e explorar o resto do mundo. Os povos não têm moral. Você já viu um sacrifício pelo outro? Quando têm poder, impõem-se aos mais fracos, pois a natureza preenche o vazio. ”)

„In quanto destino della necessità, la verità è l'apparire dell'esser sé dell'essente in quanto tale (ossia di ogni essente); e cioè l'apparire del suo non esser l'altro da sé, ossia dell'impossibilità del suo divenir l'altro da sé, ossia del suo essere eterno. L'apparire dell'essente è l'apparire della totalità degli enti che appaiono […] Le parti sono un molteplice. L'apparire di una parte è la relazione dell'apparire trascendentale a una parte di tale totalità […] Ciò significa che esiste una molteplicità di queste relazioni. In questo senso, molteplice non è solo il contenuto che appare, ma anche il suo apparire.“

(“Como destino da necessidade, a verdade é a aparência do próprio ser do ser como tal (isto é, de todo ser); ou seja, a aparência de não ser o outro de si mesmo, ou seja, a impossibilidade de se tornar o outro de si mesmo, ou seja, de seu ser eterno. A aparência do ser é a aparência da totalidade das entidades que aparecem [...] As partes são um múltiplo. A aparência de uma parte é a relação da aparência transcendental com uma parte dessa totalidade [...] Isso significa que há uma multiplicidade dessas relações. Nesse sentido, múltiplo não é apenas o conteúdo que aparece, mas também sua aparência. ”)

„La posizione di Parmenide è singolare perché è anche il punto di maggiore contatto con l'Oriente. […] La soluzione radicale di Parmenide è questa: il divenire non minaccia più, non può essere nocivo perché non esiste. […] Tutto l'angosciante, tutto il terribile, tutto l'orrendo del mondo è illusione; questo è il senso della doxa di Parmenide. Ebbene questa è anche la strada percorsa dall'Oriente: i Veda, le Upanishad, la ripresa buddista del bramanesimo sono tutti grandi motivi che convergono su questo punto: l'uomo è infelice perché non sa di essere felice, perché non sa che il dolore è al di fuori di lui, e che lui è un puro sguardo che non è contaminato dal dolore che gli passa innanzi, così come lo specchio non è contaminato dall'immagine che si riflette in esso.“ 

(“A posição de Parmênides é única porque também é o ponto de maior contato com o Oriente. [...] A solução radical de Parmênides é esta: tornar-se não mais ameaça, não pode ser prejudicial porque não existe. [...] Todo o sofrimento, todo o terrível, todo o horror do mundo é ilusão; este é o significado da doxa de Parmênides. Bem, este também é o caminho percorrido pelo Oriente: os Vedas, os Upanishads, o renascimento budista do Bramanismo são todos grandes motivos que convergem neste ponto: o homem é infeliz porque não sabe que é feliz, porque não sabe disso a dor está fora dele, e que ele é um olhar puro que não se contamina com a dor que passa diante dele, assim como o espelho não se contamina com a imagem que nele se reflete ”.)

(Fonte: https://le-citazioni.it/autori/emanuele-severino/)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 23 de janeiro de 2021

Globalismo ou a destruição das boas causas. José Mauricio de Carvalho

 



O aumento do número de mortes no Amazonas e em todo o país resulta das aglomerações nas festas do final do ano e de uma nova variação mais contagiosa do vírus. Uma combinação ruim agravada pela má condução da pandemia pelo governo federal. Esse último fator mostra-se na pouca importância com que o governo tratou o assunto desde o início da doença, menosprezando o poder letal do vírus. A autoridade e seguidores veicularam maciça propaganda nas mídias sociais menosprezando o poder da doença. Propagaram o contrário do que ensinavam os especialistas em saúde pública. Sua estratégia pode ser resumida em dois pontos: menosprezo à letalidade da doença e ridicularização dos cientistas. O procedimento é semelhante ao que fizeram os nazistas quando usaram a ciência para justificar o racismo, isso contra as evidências. Com base nisso mataram milhões de pessoas com a justificativa de que eram vidas inferiores ou de segunda classe.

Esse desprezo à ciência e atitude irresponsável com a pandemia foi igualmente adotada pelo governante norte-americano recentemente derrotado nas eleições. E como ele justificou lá sua atitude radical e contrária a essa e outras boas causas? Com a mesma estratégia de cá, maciça propaganda na mídia, com um número infindável de mentiras, acusando lá de comunistas, como fazia a turma de cá chamando de petista, a todo crítico de suas ideias. Nesse meio tempo atacaram a imprensa livre porque os jornalistas, por dever de ofício, deviam verificar a autenticidade das notícias veiculadas. Como descobriram rapidamente e denunciaram a mentirada, lá e cá, foram atacados pelos governantes da mesma forma implacável.

Como foi possível legitimar o obscurantismo contra a ciência e ainda ter outros ganhos como o afastar-se de acordos internacionais de proteção ambiental? Como destruir a legislação de proteção ambiental sem provocar uma comoção pública? O governante derrotado nos Estados Unidos apresentou à classe média americana algo que ela gosta de ouvir, vamos colocar o país acima de tudo, vamos valorizar a América: America First era seu lema. E assim, parecendo defender o obvio e algo querido entre os americanos, implantou e levou adiante uma política de destruição da proteção ambiental, como se os Estados Unidos vivessem num planeta à parte das demais nações. A condução dessa política foi mais longe do que sonhava o americano médio, promoveu a rejeição das políticas internacionais e acordos internacionais batizados, reconheça-se genialmente, em terras tupiniquins, de globalismo. A política de destruição da legislação ambiental foi levada adiante, lá e aqui, sob o argumento de que era imposição de um certo poder global contrário aos interesses nacionais. Entenda-se acordos internacionais patrocinados pela ONU e que reúnem a quase totalidade das nações. E há mais, o desprezo pelos direitos civis e humanos que resultou do aumento de morte dos cidadãos pobres e negros nasceu pela tolerância aos grupos de supremacistas brancos. Seguindo seu mentor, o nosso governante quer dar à polícia o poder de matar sem punição quando merecido, ampliando na legislação elementos de proteção às ações violentas (a tese do excludente de ilicitude). E assim um instrumento legal para situações muitos especiais passará a ser a atitude normal das forças de segurança.  O que fazer com quem denuncia tais coisas? Intitulá-los lá de comunistas e aqui petistas, aproveitando-se desses conceitos desgastados nos dois países. Estratégia também muito utilizada para desacreditar as críticas é atacar a honra das pessoas (o famoso Argumentum ad hominem). Por isso atacam impiedosamente a todos que apontam essas coisas. Feito isso, vão passando a boiada.

 

A jogada mais genial para levar adiante esse discurso contra: as políticas globais de defesa dos direitos civis, direitos humanos, legislação ambiental, vacinação global contra COVID 19 e outras lutas da ONU (nomeadas de globalismo) é associá-las a um poder do mal, um governo mundial e supranacional que está se formando para servir ao anticristo, que já vive entre nós. Assim, por mais alucinada que essa tese possa parecer, a extrema direita aproximou-se de setores evangélicos para enganá-los e fazê-los ver nessas políticas internacionais a antessala do governo do anticristo, conforme interpretação torpe do livro do Apocalipse. E para agradar setores evangélicos radicais espalham que o anticristo é o Papa Francisco e seu auxiliar o Presidente da França, Emmanuel Macron. Não foi à toa que muitos evangélicos apoiaram os radicais trumpistas em seus protestos recentes contra todas as evidências da legitimidade da eleição do candidato democrata.

Portanto, a enxurrada de fakes news nas redes sociais, a alcunha de comunistas ou petista para qualquer crítico desse projeto político, o uso do Argumentum ad hominem para destruir a honra dos críticos, as críticas aos órgãos de imprensa, o aumento do racismo, o aumento da morte dos negros nos Estados Unidos, o desrespeito à Constituição (como na invasão do Congresso americano), a desconsideração aos cientistas e o discurso radical com componentes religiosos são partes do mesmo todo, que só pode ser entendido em seu conjunto.

 

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Giorgio Galli - o estudioso dos sistemas bipartidários incompletos: Selvino Antonio Malfatti - pós-doutorado em Ciência Política.

 


 

As ciências humanas acabam de perder uma dos maiores pensadores de sua área: Giorgio Galli, professor da Universidade Estatal da Itália, em Milão. Nasceu em Milão em 10 de fevereiro de 1928 e faleceu em Camiogli em 20 de dezembro de 1920. Tinha 92 anos. 

Sua tese fundamental é sobre o sistema político italiano. Acha que é um sistema bipartidário incompleto. Os dois maiores partidos italianos, a democracia cristã e o partido comunista italiano, eram até o década de Noventa os candidatos naturais para formarem as maiorias partidárias e disputarem a Presidência do Conselho. No entanto, nem a Democracia cristã conseguia maioria absoluta (para ser maioria aboluta teria que conseguir 50% dos votos)  e só atingia 35% e nem o Partido Comunista, que fazia em torno de 29%.  A Democracia cristã alia-se ao partido socialista que faz uma média de 22% dos votos, forma maioria e deixa de fora o partido comunista. A alternância não se forma e a democracia cristã, eleição pós-eleição, exclui o partido comunista. Nisso consiste o bipartidarismo incompleto de Galli.

Isto vem ao caso com a celeuma criada na eleição americana, cujo modelo é de um sistema bipartidário completo, considerado perfeito, para ano qual só dois partidos formam maioria e absoluta, nem assim mesmo evitou a crise, apesar de tê-la superado.

Na Itália, logo após a derrota do Fascismo tem início a ação de reconstrução do Estado. Já durante o conflito, e pressentindo-se seu fim, nos bastidores do Vaticano organizava-se uma força política, sob a liderança de Alcide de Gasperi, para substituir o regime fascista. Se este regime totalitário estava em decadência, outro, também totalitário estava em ascensão, o comunismo. A nova organização católica devia ideologicamente ser capaz de apresentar-se como alternativa de ambos. O Fascismo, derrotado militarmente,  politicamente apresentara-se como uma alternativa ao liberalismo, propondo substituir a representação política pela representação econômico-profissional. Não eram os cidadãos e seus interesses que se deviam representar, de conformidade com a doutrina liberal, mas os diversos grupos econômicos. O Fascismo na Itália ideologicamente apresentava-se como uma força política capaz de pôr fim ao atraso econômico. Culpava o liberalismo pela defasagem econômica em relação aos demais países da Europa, pois, no liberalismo, tudo devia obedecer ao “laissez faire”. Em substituição ao “deixar fazer” era preciso introduzir o “obrigar fazer” propunham os mentores do Fascismo.

No entanto, outro regime rondava a Itália no fim da II Guerra Mundial. Tratava-se do comunismo. A Europa  tinha alguma experiência dele, e o que se sabia era o que acontecia no Leste Europeu e o que chegava da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas- URSS. Este regime também se apresentava como uma alternativa ao liberalismo. Em vez da representação, o comunismo propunha a vanguarda operária, encarnada no partido. O partido era a voz da maioria e ele gerenciaria o Estado. Economicamente propunha a coletivização dos bens de produção a proibição da propriedade privada e uma economia livre de lucros.

O modelo do bipartidarismo imperfeito irá encontrar outro inimigo, o interno, que o levará à bancarrota. Trata-se da currupção endêmica que tomará conta de todos os partidos e pessoas de todos os partidos, mesmo fora do trinômio Democracia Crista, Partido Socialista e Partido Comunista, cujo início tem lugar com a prisão do socialista Mario Chiesa, feito prisioneiro sob a acusação de envolvimento com o crime organizado. Neste momento começa o movimento Mani Pulite ou Tangentopoli que sacudirá todo o sistema político-partidário, levando à sua completa reformulação, inclusive com o fechamento dos partidos da Democracia Cristã e Socialista, os quais, com o concurso de outros três partidos, menores formavam o pentapartido da chamada Primeira República.(GALLI, Giorgio. Mezzo Secolo di DC.  Milano,  Rizzoli, 1993, p. 418)

Também neste caso, pelo o que acontecia no Leste Europeu e pelas notícias chegadas da URSS, o preço do regime era alto demais. Milhões de pessoas sacrificadas, outras tantas deportadas, bem como desaparecidas. Era o regime totalitário, da desolação, no qual até mesmo a consciência era invadida. Por isso, Galli mantém distância com o comunismo revolucionário, totalitário, fora da Europa.

Hitler E O Nazismo Magico: 1989

As Componentes esotéricas do III Reich

Esoterismo e politica 2010

Storia delle dottrine politiche 1995

Storia dela DC, 2007

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O desafio das sombras. Dr. José Mauricio de Carvalho

 



O ano começa mais leve, a perspectiva da vacina contra a pandemia do Coronavírus representa a esperança de uma vida próxima da normalidade nos próximos meses. O ano começa mais leve também pela iminência da posse de Joe Biden, o 46º presidente da história dos Estados Unidos. Com ele o Partido Democrata volta ao poder, mas o que chama atenção nessa transição não é a alternância de poder entre Republicanos e Democratas, o que é uma rotina na democracia americana, mas os novos ares na política da nação mais importante da terra. Esses ares, com certeza, logo alcançarão outros países, purificando o ambiente mundial.

Os tempos de Trump no governo americano foram marcados por um aumento estrondoso de mentiras nas redes sociais. Somente na última campanha eleitoral americana contou-se cerca de 900 mensagens falsas sobre fraudes nas eleições americanas. A conta pessoal do presidente americano foi tirada do ar pelo Facebook por veicular comprovadamente e reiteradamente inverdades. Grupos de supremacia branca, inspirados nas ideias de Trump, passaram a falar livremente contra negros e latinos e a defender abertamente a intolerância contra feministas e homossexuais. Algo semelhante ao que fez o  gabinete do ódio em nosso país, fazendo emergir tempos de obscurantismo que baniu do espaço público o compromisso com a verdade e com aquelas qualidades próprias da pessoa que os romanos denominavam humanitas.

O discurso do ódio aumentou as ações racistas nos Estados Unidos como a que resultou na morte de George Floyd, apenas um caso mais falado entre tantos outros nesses últimos anos. Esse mal se alimentou das redes sociais com os defensores da superioridade étnica e pela propagação da ideia nazista de existir vidas de segunda classe que não merecem ser vividas. O slogam vidas negras importam foi uma reação a tais ideias e práticas. Nesse mesmo espírito de ódio, Trump construiu um muro (ou parte dele) para separar os Estados Unidos do México, implantou uma política isolacionista e xenofóbica contra os árabes, facilitou o comércio de armas em benefício da indústria bélica americana (como fez o governo brasileiro ao liberar a compra de armas e facilitar a sua importação).

A Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, que acompanha a legislação ambiental americana, constatou um programa sistemático de desmantelamento regulatório de proteção ambiental (o equivalente tupiniquim ao passar a boiada do Ministro Sales). O governo Trump anulou 34 leis ambientais, enquanto 33 outras foram tiradas de vigor. Os cientistas alertaram que somente essas medidas aumentariam a temperatura do planeta e provocariam a morte de mais de 80 mil pessoas por ano, ao que Trump respondeu com crítica sistemática à ciência, radicalizando o obscurantismo e defendendo a ignorância e interesses mesquinhos criticando cientistas e ambientalistas.

Quanto aos filósofos foram lançados no vazio, com a exaltação de ideólogos pouco críticos, ficando encantoados na defesa da racionalidade e da inteligência. As boas práticas do raciocínio que foram para as gerações anteriores um ideal a ser buscado tornou-se coisa ridícula. Ainda assim, em meio ao deboche das redes e aos kkkkkkkk diante de qualquer tentativa de raciocínio, coube aos que vivem o compromisso com a verdade seguir as regras da razão e ao imperativo da bondade. Assim tentaram preservar um resto de humanidade e esperança em meio a um ambiente geral de fake news, intolerância e obscuridade.

Apesar desse esforço solitário de alguns poucos, ganhou força a mentira, dita sem constrangimento, abriram o caminho para afirmações sem comprovação ou descompromisso com a verdade. Desse fato consta a negação do aquecimento do planeta. Mentira repetida para atender parte (parece que minoritária) de setores do agronegócio, de empreendimentos imobiliários e das madeireiras, que pouco se importam com os efeitos da destruição ambiental e suas consequências, desde que garantam, no curto prazo, o aumento dos seus lucros.

Quanto ao ódio à ciência e a racionalidade, ele foi impulsionado por Trump com as críticas às medidas de proteção contra o coronavírus, inspirando nosso governante maior a igualmente menosprezar a recomendação das autoridades sanitárias. Trump e Bolsonaro foram os únicos presidentes a receitar medicamentos e prescrever protocolos terapêuticos contra o coronavírus sem possuir formação médica. E nunca foram acusados de prática ilegal da medicina, o que seria feito com qualquer outro cidadão. Então, mesmo sem entrar na relevância terapêutica da droga, ambos defenderam e propagaram a eficácia do uso da hidroxicloroquina para o tratamento e prevenção da Covid-19, que os dois presidentes afirmaram ter tomado sem impedir que fossem contaminados.  Naturalmente a audácia do governante americano inspirou seu fã tupiniquim a também prescrever a droga na prevenção e tratamento da Covid 19, por ele rebatizada de gripezinha.

Nesse novo ano esperamos a vacina, mas ainda mais que ela. Desejamos novos ares com o reconhecimento da validade da ciência e o entendimento de que o compromisso com a razão e a verdade é valor social, bem como o respeito às boas práticas da lógica.  Esperamos um 2021 com abertura para o diálogo racional e paciência para o estudo dos problemas. Razão que anda não só com a ciência, mas ao lado da fé, como sua companheira de jornada. Não para lhe ditar o rumo transcendente em direção a Deus, mas para lhe impedir que, na procura do Altíssimo, entre nos desvios da ignorância, superstição e irracionalidade.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

CICLO DAS FESTAS NATALINAS. Selvino Antonio Malfatti


 

Há um conjunto de comemorações no período do Natal denominado de cliclo de Festas Natalinas. A maior, para o Ocidente, é  Natal e a de Reis, para oriente. Ambas celebram o Nascimento de Jesus só que em datas diferentes: Natal, 25 de dezembro e de Reis, 6 de janeiro.

As outras do ciclo de Natal são: 

1. No Domingo entre os dias 25 e 1º de janeiro a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família

2.  No dia 1º de janeiro, Oitava do Natal, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

3. No Domingo, entre 2 e 8 de janeiro, a Epifania ou a Festa de Reis.

4. A festa do Batismo do Senhor, na Igreja Católica, Comunhão Anglicana e outras denominações ocidentais, é relembrada num dia da semana seguinte à Festa de Reis.  

Há um ditado italiano que diz: "La festa dell'Epifania le altre feste porta via" (a Festa da Epifania leva embora as demais festas". Com efeito, a Festa da Epifania encerra o cliclo das festas natalinas. 


FRESTA DE REIS OU EPIFANIA - Narra Mateus:

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. Onde está - perguntaram eles  - o rei dos Judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo.

Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.

Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.

Eles responderam: “Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta:

‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo'”.

Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.

Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: “Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”.

Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino.

Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.

Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-NO. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.

E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ano Novo. José Mauricio de Carvalho - pós-doutorando no NUPES/UFJF

 


                                           
                                            Jano

A contagem do tempo em anos é a forma humana de melhor identificar o que passou e colocar os fatos na ordem em que ocorreram. É mais simples localizar e ordenar os acontecimentos dessa maneira, situando-os nos séculos e lugares do mundo. Contudo, a celebração de cada novo ano no calendário solar mostra que vivemos no tempo com os olhos e a esperança no futuro. Já houve época em que a esperança era alimentada por ilusões. Hoje estamos mais maduros, não podemos nos iludir de que esperança se separe do compromisso de fazer boas escolhas e realizar com qualidade nossos trabalhos. Quando avaliamos que a vida é produto das escolhas, temos que assumir com responsabilidade a criação do futuro. O que vem não é mera continuidade ou repetição do passado.

Se a vida é um que fazer contínuo, isto é, proceder escolhas todo tempo em meio à insegurança desse processo, então viver é olhar o horizonte. Olhar o futuro a partir de qual ponto? Do presente pessoal e do da sociedade. Escolhe-se, especialmente, pelo que se projeta além desse presente, pelo que dá sentido a ele, pelo que lhe enche de esperança. Entretanto, se o futuro não é continuação do já vivido, não se pode sonhá-lo sem considerar nossa história, sem o impacto e a incorporação do passado.

O ano novo virá para nós com novas realizações, novas pessoas, novas tecnologias, novos conhecimentos, novas criações, novas crenças, enfim, muitas coisas novas. Mas esse mundo antevisto nos sonhos de esperança não é produto do acaso, ele é criação do homem iluminado por um projeto. E que mundo é esse a surgir na esperança de hoje? É um mundo capaz de vencer a violência das cidades, de assegurar dignidade a crescente número de pessoas, de superar guerras e revoluções como solução para as diferenças políticas. Violência que cresce quando queremos uma vida mais rápida do que ela pode ser experimentada, quando aspiramos mais coisas do que somos capazes de adquirir e o mundo de fornecer, quando perdemos o afeto nas relações e o sentido da dignidade no trato com as pessoas. O presente vivido na pressa, dirigida para o consumo ansioso e sem obrigação da excelência numa vida autenticamente nossa, é tempo de violência, de corrupção, de drogas, de insatisfação e de gozo irresponsável.

Não quero apenas desejar um feliz ano novo, é necessário pedir que todos o construam mais próximo de nossa esperança, realizando responsavelmente seu trabalho, vivendo relações pessoais mais iluminadas pela amizade e benevolência, descobrindo o significado particular e o sentido da própria vida.

E se reconheço que a vida que me anima é semelhante, mas não igual a dos animais que diariamente estão à minha volta, se essa diferença dos outros seres vivos nasce da fé e esperança em Deus, não importa o nome de Deus ou a forma como Ele seja cultuado, então a obrigação de renovar o mundo, aquele compromisso mencionado no parágrafo anterior, ganha uma outra justificativa. Nessa fé nasce um pacto não só com a humanidade presente em cada homem, mas com Deus que espera nossa colaboração para fazer o sol nascer, todos os dias, sobre um mundo melhor. Então toda história da humanidade, que não está além dos fenômenos experimentados, torna-se transfigurada e iluminada pela esperança capaz de vencer a insegurança, a ruína, a angústia e a morte.

Façamos um 2014 feliz, pois não se justifica a esperança que não nasce do reconhecimento da dignidade humana e da responsabilidade pessoal pela construção de um futuro melhor. Pois esperança não é otimismo ou ingenuidade, esperança é responsabilidade, é esforço consciente para mudar o futuro, dedicação ao que nos distingue dos outros entes.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

JESUS. O CRISTO. São João, 1.

  







 

1.No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.

2.Ele estava no princípio junto de Deus.

3.Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.

4.Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens.

5.A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

6.Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.

7.Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.

8.Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

9.O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.

10.Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu.

11.Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.

12.Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus,

13.os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

 14.E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.

Ἐν ἀρχῇ ἦν  λόγοςκαὶ  λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόνκαὶ θεὸς ἦν  λόγος2 οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόνπάντα δι’ αὐτοῦ ἐγένετοκαὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἓν  γέγονεν 4 ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦνκαὶ  ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων· 5 καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει καὶ  σκοτία αὐτὸ οὐ κατέλαβενἘγένετο ἄνθρωπος ἀπεσταλμένος παρὰ θεοῦ ὄνομα αὐτῷ Ἰωάννης· 7 οὗτος ἦλθεν εἰς μαρτυρίαν ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτόςἵνα πάντες πιστεύσωσιν δι’ αὐτοῦ8 οὐκ ἦν ἐκεῖνος τὸ φῶς ἀλλ’ ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτός9 Ἦν τὸ φῶς τὸ ἀληθινόν φωτίζει πάντα ἄνθρωπονἐρχόμενον εἰς τὸν κόσμον10 ἐν τῷ κόσμῳ ἦν καὶ  κόσμος δι’ αὐτοῦ ἐγένετο καὶ  κόσμος αὐτὸν οὐκ ἔγνω11 εἰς τὰ ἴδια ἦλθεν καὶ οἱ ἴδιοι αὐτὸν οὐ παρέλαβον12 ὅσοι δὲ ἔλαβον αὐτὸνἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν τέκνα θεοὺ γενέσθαιτοῖς πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αυτοῦ13 οἳ οὐκ ἐξ αἱμάτων οὐδὲ ἐκ θελήματος σαρκὸς οὐδὲ ἐκ θελήματος ἀνδρὸς ἀλλ’ ἐκ θεοῦ ἐγεννήθησαν14 Καὶ  λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖνκαὶ ἐθεασάμεθα τὴν δόξαν αὐτοῦδόξαν ὡς μονογενοῦς παρὰ πατρόςπλήρης χάριτος καὶ ἀληθείας.


"In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum 2.Ele estava no princípio junto de Deus. 2.hoc erat in principio apud Deum 3.Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.* 3.omnia per ipsum facta sunt et sine ipso factum est nihil quod factum est 4.Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens. 4.in ipso vita erat et vita erat lux hominum 5.A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.* 5.et lux in tenebris lucet et tenebræ eam non conprehenderunt 6.Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 6.fuit homo missus a Deo cui nomen erat Johannes 7.Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. 7.hic venit in testimonium ut testimonium perhiberet de lumine ut omnes crederent per illum 8.Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 8.non erat ille lux sed ut testimonium perhiberet de lumine 9.[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.* 9.erat lux vera quæ inluminat omnem hominem venientem in mundum 10.Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. 10.in mundo erat et mundus per ipsum factus est et mundus eum non cognovit 11.Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. 11.in propria venit et sui eum non receperunt 12.Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, 12.quotquot autem receperunt eum dedit eis potestatem filios Dei fieri his qui credunt in nomine ejus 13.os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.* 13.qui non ex sanguinibus neque ex voluntate carnis neque ex voluntate viri sed ex Deo nati sunt 14.E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. 14.et Verbum caro factum est et habitavit in nobis et vidimus gloriam ejus gloriam quasi unigeniti a Patre plenum gratiæ et veritatis"
São João, 1 - Bíblia Católica Online





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