sexta-feira, 22 de maio de 2026

A EXISTÊNCIA DÁ SENTIDO À VIDA. Selvino Antonio Malfatti.

 



A pergunta mais radical para quem quer ultrapassar o meio do caminho da vida é o sentido da existência. O foco são os seres animados, inanimados? Os humanos? Todos tem sentido ou só alguns? O sentido é só para vida ou também para pós - vida? O estigma que perpassa a consciência dos humanos, é a angústia. A angústia do viver, de saber que vive e de não saber por que vive. Não conhecer o sentido da existência desencadeia a angústia de existir.

A angústia que invadiu o pensamento existencial originou-se da consternação durante o século XIX pela banalidade atribuída à vida humana. O que vale a vida de milhões, mortos nas revoluções, nos conflitos decorrentes como as guerras napoleônicos? E mais precisamente o início do século XX? O filosofar existencial a emergiu entre a Primeira e Segunda Guerra mundial. Ao contrário do desenvolvimento intelectual que priorizava o homem abstrato, o existencialismo centrou-se na experiência individual, angústia e subjetividade. Os precursores do século XIX são considerados fundadores: Søren Kierkegaard (1813–1855) Friedrich Nietzsche (1844–1900) e como pontífice filósofo existencialista, Martin Heidegger (1889-1976).

Como revisão da ideia de existência, o filósofo italiano Umberto Regina repisa os passos dos citados pensadores. Destacou-se como filósofo atual, na disciplina de moral na Universidade de Verona. Inspirado na filosofia existencialista realiza pesquisas sobre niilismo e existencialismo sob o olhar da filosofia cristã abordando o divino e a fé. Analisando os pensadores Heidegger, Nietzsche e Kierkegaard encontra neles os fundamentos da dignidade humana, do valor e da liberdade.

Conforme ele, a existência é uma experiência dramática livre, diante da angústia e busca de sentido. Para tanto reflete o desespero de uma existência, vista por cada um dos pensadores.

Regina vê que em Søren Kierkegaard, no contexto político da Revolução Francesa e seus desdobramentos, a existência subjetiva e interior. Pouco adianta ao homem abstrações metafísicas e abstratas, por que ele é só diante de Deus e da existência. O que fazer com a existência? Na condição de livre diante de nada de certo, concreto, atreve-se a um salto no escuro, escolha entre opções, arriscar-se diante do perigo.  A liberdade o deixa angustiado porque deve escolher o que ser. Diante de uma acolhida de existência eterna possível ele se torna ele mesmo, autêntico.

A afirmação criadora da vida para Regina é a existência aurida de Friedrich Nietzsche. Constata que é preciso rejeitar valores absolutos transmitidos pela religião e moral. Contra eles se insurge com coragem e cria seus próprios valores já que Deus está morto. Pela existência institui o ideal além do homem como superação permanente.

De posse da existência de Martin Heidegger abre-se para o ser. O Dasein, o ser-aí humano se pergunta pelo próprio existir. Este é temporal, finito, superficial e consciente da morte. Isto leva o homem a assumir o próprio destino. Com certeza o reitor  Heidegger “olvida” a angústia causada pelo amigo Hitler aos perseguidos judeus, como a angústia da menina Anne Franck escondida num porão[i].

Frente a estes pensadores Regina encontra na existência de Kierkegaard uma decisão de sujeito perante Deus, em Nietzsche a opção de criação de valores próprios, em Heidegger o indicativo consciente de ser finito.

Umberto Regina encontra nos três pensadores, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, a problemática da existência como característica fundamental do ser humano e postura maiêutica. Em todos eles, Regina identifica uma preocupação comum: compreender o homem não como conceito abstrato, mas como ser concreto, inquieto e lançado no drama da existência. Em síntese, nesse núcleo conceitual, Regina procura mostrar que o homem não é um ente abstrato nem um simples objeto da razão, mas um ser lançado numa relação viva, dramática e aberta ao transcendente. Por isso ele aproxima Kierkegaard, Nietzsche e Heidegger: todos, segundo Regina, deslocam a filosofia da abstração conceitual para a experiência concreta da existência humana[ii].



[i] Anne Franck,  acolhida por sua família num esconderijo para não ser encontrada e enviada para os campos de concentração. Descreve com detalhes como horários, refeições, ruídos, silêncio etc no Diário de Anne Frank— chamado por ela de “Anexo Secreto” — como um espaço permanentemente marcado pelo medo, pela disciplina do silêncio e pela tensão psicológica, Angústia. O esconderijo ficava nos fundos da empresa do pai, Otto Frank, em Amsterdã, oculto atrás de uma estante móvel. Anne escreve sobre a vida cotidiana com riqueza de detalhes, mostrando como cada ruído podia significar perigo de morte. Ela relata que durante o dia todos precisavam permanecer quase imóveis e em silêncio absoluto, porque funcionários trabalhavam no prédio abaixo. Não podiam andar de sapatos, puxar descarga, mover cadeiras ou falar alto. Até a água precisava ser usada com extremo cuidado. O silêncio era quase uma regra de sobrevivência. Anne descreve horários rigorosos. Pela manhã cedo levantavam-se discretamente. Durante o expediente da empresa, entre aproximadamente oito da manhã e seis da tarde, o silêncio tornava-se obrigatório. Ela escreve que qualquer barulho no piso poderia denunciar a presença deles aos trabalhadores do depósito. À noite, quando os funcionários iam embora, o ambiente relaxava um pouco: podiam conversar mais livremente, cozinhar, ouvir rádio clandestinamente e caminhar um pouco pelo esconderijo.

As refeições eram simples e frequentemente escassas. Dependiam de pessoas de confiança que traziam comida escondida. Anne comenta muitas vezes a monotonia alimentar: batatas, legumes conservados, pouca carne e pão racionado. Em certos períodos havia fome real. Ela descreve o desconforto físico, mas também pequenos momentos de alegria quando conseguiam algum alimento diferente.

Os ruídos ocupam lugar central em suas memórias. Sons do relógio da igreja, passos na rua, aviões de guerra, sirenes, tiros e bombardeios aumentavam a angústia. À noite, especialmente, o medo de ladrões ou de uma invasão nazista tornava-se intenso. Anne relata episódios em que todos ficavam paralisados de terror ao ouvir barulhos vindos do prédio.

O confinamento também produzia tensão emocional entre os moradores do anexo. Anne descreve discussões constantes, irritação, nervosismo e dificuldades de convivência provocadas pelo medo contínuo e pela falta de privacidade. Apesar disso, ela também registra esperança, sonhos e reflexões profundas sobre a natureza humana.

Um dos trechos mais conhecidos mostra precisamente essa mistura de silêncio e medo:

“Durante o dia temos de andar na ponta dos pés e falar baixinho, porque no armazém podem nos ouvir.”

Em outro momento, Anne descreve a sensação sufocante do confinamento:

“Estamos presos aqui como leprosos.”

O valor do diário está justamente nessa descrição concreta da vida escondida: não apenas os grandes horrores da perseguição nazista, mas o cotidiano minucioso do medo — o silêncio forçado, os ruídos ameaçadores, a fome, os horários rígidos e a esperança persistente de sobreviver.

 

[ii] ·  Kierkegaard. L’arte dell’esistere
Nesta obra Regina interpreta Søren Kierkegaard como pensador da existência concreta, da escolha e da interioridade dramática. A ideia de que o homem não pode ser reduzido a conceito abstrato aparece de forma constante.

·  Esistenza e ironia
Aqui Regina desenvolve o tema da existência como tensão, abertura e inquietação. O tom maiêutico e a crítica aos sistemas fechados são bastante evidentes.

·  Introduzione a Kierkegaard
Obra introdutória, mas filosoficamente densa, em que Regina mostra a passagem da filosofia especulativa para a experiência existencial concreta.

·  Il pensiero dell’esistenza
Talvez a obra mais próxima da formulação mencionada. Nela Regina aproxima explicitamente Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Kierkegaard na crítica à abstração racionalista e na centralidade da existência humana concreta.

·  L’essere del pensiero
É nesta linha de reflexão que aparece a expressão sobre o ser como inter-esse, isto é, o ser entendido como relação e abertura ao outro/transcendente.

5 comentários:

  1. Um luxo de reflexão, sincero, profundo e provocativo.

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  2. O sentido da vida, descobrimos com o passar dos anos, a vida é uma surpresa, cada dia diferente, agradecemos o hoje e esperamos ver o amanhã.

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  3. A existência é um desafio, o sentido do VIVER, nos trás inquietações, sentimentos confusos e na velhice resignação, afinal cumprimos cada etapa, somos vencedores.

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  4. Tantos pensadores, explicações maravilhosas, mas o sentido da Vida é simples, a cada dia sobreviver e aprender.

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  5. Prefiro a simplicidade, pensar, pensar é entrar num labirinto, as vezes sem volta.

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