sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Kant e o iluminismo. José Maurício de Carvalho - Doutor e Filosofia

 



O texto Resposta à pergunta que é o esclarecimento (Aufklärung) (tradução de Raimundo Vier em Textos Seletos, Petrópolis, Vozes, 1985, p. 100-117) de Immanuel Kant, propõe nos uma questão interessante: o papel da razão foi diferentemente concebido entre franceses (Rousseau e Montesquieu, Condillac e os enciclopedistas) ingleses (Berkeley e Hume), alemães (Wolff, Lessing, Baumgarten, Kant) portugueses (geração pombalina), etc. Isso não significa, entretanto, que não houvesse um pano de fundo entre todos esses pensadores, ele existiu e era o entendimento de que a razão subjetiva era a guardiã da verdade. Em outras palavras, a verdade exigia o reconhecimento, herdado da filosofia cartesiana, de que a verdade/validade de um assunto estava assegurada pela certeza íntima da razão individual e crítica, ainda que o caminho percorrido por essa razão fosse compreendido de forma diferente pelos iluministas.

Esse percurso era singular porque a forma de compreender a relação entre as duas coisas cartesianas: a extensa e a pensante forjou trilhas distintas na tradição filosófica. A historiografia filosófica as organizou colocando de um lado os racionalistas, que consideravam que a definição de verdade se encontrava de antemão num princípio absoluto, forjado no interior da própria razão. E de outro os empiristas como Hume, que negavam a possibilidade de acesso a esse princípio absoluto pela via racional e diziam que aquilo que estava no pensamento era uma crença, ou melhor, uma certeza psicológica e tinha origem na experiência sensível. Assim, o princípio absoluto do conhecimento acabou se deteriorando nesse debate filosófico que vai de Descartes à Hume, mas permitiu reconhecer e proclamar que a verdade era fruto da razão individual. O magistral trabalho investigativo de Kant encontrou uma solução para: a. salvar a razão, b. justificar a ciência, c. recusar a antiga metafísica e d. justificar a atividade reflexiva e crítica da razão.

A reflexão kantiana se pautou sobre dois eixos. O primeiro foi a recusa da metafísica tal como se consolidara na tradição grego-medieval e na afirmação de um pensamento crítico que estabelece novas formas de pensar. O segundo que, com base nessa crítica, pretende realizar uma nova forma de investigação filosófica, não mais voltada para o que as coisas são em si mesmas, mas para estabelecer os limites da razão. A síntese construída por Kant foi exposta na magistral Crítica da razão pura onde o filósofo concebeu um tipo de pensamento que capta o real fenomênico e o organiza, de forma objetiva e válida, através de categorias da razão. No entanto, entrar nos meandros dessa discussão nos levaria para longe do eixo proposto no ensaio O que é o esclarecimento.

O tema do uso público da razão aparece em diferentes obras de Kant, inclusive na sua famosa Crítica da Razão Pura. No ensaio que examinaremos Immanuel Kant apresentou pontos fundamentais a investigação e a prática das boas formas de pensar. Kant esclareceu o que é a boa forma de pensar e contribuiu para o entendimento do que seja um pensamento crítico. Para o filósofo alemão o pensamento crítico é aquele que:

 

1. Nasce da própria meditação, ou do exame pessoal detido e cuidadoso de um assunto, isto é, não se pode bem pensar sem proceder a esse criterioso exame pessoal. “A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento.” (p. 100)

2. É necessário vencer a preguiça e a indolência que impedem de se atingir a forma crítica de pensar, porque elas “são as causas pelas quais grande parte dos homens (...) continuam, de bom grado menores durante toda a vida.” (p. 100)

3. Para pensar criticamente é necessário vencer o controle dos que querem tutelar o uso pessoal e público da razão, pois é esse controle “que torna a maioridade difícil e além do mais perigosa.” (p. 102).

4. O pensar criticamente exige um ambiente de liberdade, onde se possa expor a todo o público e ouvir as críticas de forma honesta e não xingamentos ou perseguição, (condição necessária para o exercício do pensamento crítico) porque essa circunstância é condição para “o uso público da razão, que deve sempre ser livre.” (p. 104)

5. O uso privado da razão é diferente do uso público, não se refere a forma de pensar do indivíduo na sua intimidade e não produz pensamento crítico. Privado, nesse contexto, é uma forma de pensar que, estando a serviço de uma instituição ou cargo, defende os interesses deles, gerando aquilo que chamamos no ambiente de pesquisa de conflito de interesse: “o uso privado é aquele que o sábio pode fazer de sua razão em certo cargo público ou função a ele confiado.” (p.106)

6. Mesmo quem pratica o uso privado da razão, pode fazer o uso público dela quando não estiver falando pelo cargo, pois nessa outra situação ele “tem completa liberdade, e até mesmo o dever, de dar conhecimento ao público de todas as suas ideias.” (p. 106)

7. As instituições, ainda que tenham seus interesses contrariados, não podem impedir seus membros de exercer o uso público da razão, pois essa atitude de censura atingiria toda a humanidade e não teria validade, pois isso “seria um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste precisamente neste avanço.” (p. 108) Em outras palavras, agir contra o esclarecimento “quer para si mesmo, quer ainda mais para sua descendência, significa ferir e calcar os pés nos sagrados direitos da humanidade.” (p. 110)

8. Nenhum governante ou dirigente de instituição pode renunciar ao esclarecimento, pois ninguém está acima dessa lei da natureza: “Caesar non est supra gramáticos” (p. 112). O governante (como Frederico II da Prússia) que autoriza o uso crítico da razão deve ser “louvado pelo mundo agradecido e pela posteridade como aquele que pela primeira vez libertou o gênero humano.” (p. 112)

9. O uso público da razão não desorganiza a sociedade porque, até que seu conteúdo seja reconhecido institucionalmente, permanecem valendo as regras em vigor ou as teorias admitidas. Assim, os cidadãos que usam publicamente a razão não são violentos, nem ameaçadores. “Um grau maior de liberdade civil parece vantajoso para a liberdade de espírito do povo e, no entanto, estabelece para ela (razão) limites intransponíveis.” (p. 114)

10. Permitir o uso crítico e público da razão significa reconhecer algo próprio do sujeito humano e tratá-lo “de acordo com sua dignidade.”

Nesse pequeno ensaio, Kant reafirmou o que também escreveu na Crítica da Razão Pura, quando observou que o século que vivia criticava a religião e os dirigentes políticos e que somente o correto uso da razão podia justificar críticas razoáveis. Na distinção entre os usos público e privado, explicitou-se o tipo de pensamento que pode ser usado nas teorias científicas porque estabelece as condições para formular um juízo verdadeiro. Derivando o que foi dito uma conclusão possível podemos dizer que a publicidade de uma ideia é condição para integrar a comunidade construtora da verdade, seja ela científica, política ou qualquer outra.

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

DA ESCASSEZ À PRIVAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti.

 



Quando a sociedade se ressente de escassez de bens materiais, saúde, educação, segurança o primeiro setor afetado é a cultura. Constatei que quando se disseminou a pandemia do coronavirus ao mesmo tempo os itens culturais desapareceram das “prateleiras” culturais.

Ao preparar algum artigo costumava verificar na parte cultural de alguns jornais nacionais e estrangeiros bem como revistas, como revisão, conteúdos iguais ou afins. Fui constatando que à medida que o tempo ia passando e a epidemia aumentava e se alastrava as notícias escasseavam sempre mais. Jornais como Corriere, Le Monde e El Pais de artigos sempre abundantes na secção “cultura”, agora praticamente deixaram de existir. Fiz-me então a pergunta? Estaria relacionada à pandemia a este fenômeno? Teríamos entrado num período intermediário? Entre o “antes”, com sua cultura própria, e o período ainda “vazio”?

Evidentemente que o exemplo histórico acendeu a luz do alerta na mente. Como foi a produção intelectual na antiga Atenas na Guerra do Peloponeso? Roma na guerra com Cartago, a Europa nas Invasões dos Bárbaros, a Peste Negra na Europa, os Conflitos Mundiais?

Na Atenas clássica o florescer cultural se seguiu após o término das guerras médicas. Despontaram escritores, historiadores, escultores e filósofos. A cultura grega foi ao auge servindo de modelo para os demais povos que a copiavam e imitavam.

Aqui também se percebeu um período de retração, as guerras, e logo após o rebroto de uma nova cultura.

Não é outra a situação das invasões dos bárbaros na Europa. Além de destruírem o maior império da antiguidade, o substitui por outra cultura que dará seus frutos durante mil anos, a cultura cristã. Pelos poros da cultura antiga penetrou a cristã e paulatinamente substituiu seu conteúdo, embora muitas vezes tenha mantado a forma antiga, como a formação de novos reinos, novas línguas, nova arquitetura e oxigenados pelo sangue cristão.

“Queima o que adoraste e adora o que queimaste”, São Remígio, ao rei dos Francos, Clóvis.

Com igual intensidade devastadora foi a Peste na Europa. Curiosamente também inspirou obras culturais, evidentemente depois superada a crise. Da inspiração da Peste Negra surgiram obras primas da lava de Bocaccio, Petrarca, Chaucer e Pushkin e da pintura figuram Konrad Witz, Bernt Nötke e Hans Holbein.

Não será diferente do que irá acontecer após a pandemia do Coronavirus. Um novo mundo cultural despontará com as premissas culturais deflagradas pela crise.

O que a pandemia impôs sociologicamente? A ruptura da convivência social do indivíduo. Foi retirado da profissão e confinado na família, afastado do convívio cultural e isolado no seu Home Office, desligado de sua religião publicamente e abandonado a seu destino sem relação com ser superior. O distanciamento social- como o próprio nome designa - isolou-o como ser individual sem referências com os demais seres. Aconteceu a inversão da inserção social. Em vez do pacto social, aplicou-se o pacto individual. Em vez de o homem individual, natural, do pensamento de Rousseau, passar para o social, com a pandemia acontece a involução. Voltou o homem à natureza solitária, confinado no domicílio, sem ligações com seus semelhantes, sem desejo de prejudicar ninguém, sem reconhecer sua própria individualidade, autossuficiente e único, sem passado nem continuidade. O homem sempre criança. Neste estado, não há desigualdade. Foi o saldo inverso: da sociedade para a individualidade.

Agora vivemos o jejum cultural aguardando o novo rebroto civilizatório. Como será? Algumas constatações:

- A pandemia rompeu com as consagradas dinâmicas sociais e culturais em voga.

- Sufocamento da cidadania política do indivíduo transformando o trinômio do cidadão trabalho-renda-consumo em um mero homem-consumidor.

- A dinâmica do bem pessoal como favorecimento do bem comum, foi substituída pela dinâmica tão somente individualista.

- Como consequência o liame ético entre indivíduo-pessoa-cidadão-bem comum foi abandonado em prol de um liame solipsismo individualista.

- Os estratos sociais passaram a ser impulsionados somente por interesses econômicos e valores hedônicos, abandonando o bem comum.

- O homem foi despido do estrato social, nacionalidade, raça. Sele só existe como um número na rede virtual.

- A obrigatoriedade de “ficar em casa”, amputaram as conexões interpessoais, intergrupais, recreativas, esportivas, culturais. A própria presença em casa deixou de ser natural e se transformou em um habitat estranho a si mesmo, artificial.

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

David Hume e as bases do materialismo moderno. José Mauricio de Carvalho – pós doutorando do PPG Psicologia/ NUPES/UFJF.

 


David Hume (1711-1776) foi filósofohistoriador britânico, nascido na Escócia. Ele ficou conhecido na tradição filosófica pela proposta de um empirismo radical e por defender um ceticismo filosófico. Hume foi um dos maiores nomes da filosofia na modernidade.

Como compreender esse seu papel na tradição filosófica? Há quatro nomes essenciais à sua volta que ajudam a entender suas ideias: ele é herdeiro do subjetivismo moderno de René Descartes, mas crítico de seu racionalismo subjetivista; é o ponto de chegada do empirismo e do iluminismo britânicos por continuar a reflexão de John Locke e George Berkeley e ainda o inspirador do filósofo alemão Emmanuel Kant. Não é pouco o que deixou na história do pensamento. Esse último filósofo lhe atribuiu o papel de despertá-lo do sono dogmático por melhor formular o problema da metafísica (Crítica da razão pura, Nova Cultural, 1987 – os pensadores - p. 32) além de ser o responsável pela crítica devastadora da noção de causalidade (p. 26) que exigiu de Kant o desenvolvimento das chamadas formas puras da intuição.

Como o filósofo se relaciona com seus antecessores? Berkeley dera sustentação ao empirismo, mas deixara um resto de pensamento metafísico com o acolhimento das ideias cartesianas de substância pensante ou espírito. Berkeley porém atacara a noção de substância material do cartesianismo, que ficara preservado no empirismo de Locke. Ao radicalizar o psicologismo de Berkeley, Hume destruiu a noção de substância material deixada por Locke e a de substância espiritual, ainda presente nas teses de Berkeley. Em resumo: Descartes dizia existir as duas substâncias (pensante e extensa) mais Deus, Locke concordava com Descartes, Berkeley dizia existir eu e Deus, mas não a substância material. Hume concluiu simplesmente que não há eu, nem mundo, nem Deus.

Como ele propôs e defendeu essas ideias? Empregando um novo método de investigação que associou os dados da sensibilidade às ideias que temos. Assim se experimentamos uma impressão (ou dado sensorial) pelo contato com o pôr do sol, por exemplo, mais tarde poderemos lembrar desse astro e formar dele uma ideia. Temos aí uma ideia simples que nasce do contato direto com a coisa. E como concebemos as outras ideias não associadas às impressões sensíveis? Como formamos a ideia de substância, acima mencionada, seja ela material ou espiritual, como ela surge? Hume avaliou que ela não veio de nenhuma impressão que recebi, nem a reunião delas. Ele concluiu que ela é fruto da imaginação, o que equivale a dizer que é uma ideia fictícia, uma criação do homem. Se não acho no mundo uma impressão para a substância material, ele disse, também não encontro nenhuma impressão para associar ao eu. O que se denomina assim é um conjunto de vivências interiores, mas não há propriamente um eu observado nelas. Assim chegamos às ideias complexas.

Essas ideias complexas, por exemplo: substâncias, eu, causa, realidade não são, entretanto, uma criação a esmo da imaginação. Em sua vida prática, o homem observa uma certa regularidade no mundo e se vale dela em sua vida. Logo que acende o fogo, observa a claridade e sente o calor, então, por conta da associação psicológica desses estímulos, afirma que luz e calor foram causados pelo fogo. O que permite associar essas coisas é, contudo, apenas o hábito. Em outras palavras temos uma certeza psicológica. Não há propriamente um vínculo metafísico entre elas, ou eu não posso concluir isso pelo que é possível experimentar no mundo.

O que nos ficou das meditações desse filósofo? Há quem destaque o seu ceticismo destruidor da metafísica, das ideias sobre espiritualidade e todas as ideias complexas. Porém não se pode considerar nesse ceticismo apenas seu caráter demolidor, ele possui também uma dimensão crítica, pois aprofunda os mecanismos de operação do intelecto.

Hume é o ponto de chegada do empirismo inglês e defensor de um psicologismo que estabeleceu no costume e no hábito a base do pensamento científico. Ele fez isso considerando verdade as regularidades obtidas com a observação. E justamente por defender esse psicologismo radical, consideramos o filósofo como o ponto de partida do positivismo e do materialismo modernos, não porque Hume acreditasse na possibilidade de uma resposta metafísica para o problema da realidade, mas por que disse que realidade é o que se obtém com a associação dos dados da sensibilidade. E isso foi decisivo para que parte dos cientistas deixasse de lado qualquer questão metafísica ou espiritual, parecendo-nos a raiz do movimento moderno que Martin Buber denominou de eclipse de Deus no mundo ocidental. Esse movimento suprimiu adicionalmente a linguagem metafísica e da psicologia espiritualista do pensamento ocidental. O movimento identificado por Buber mostra como o pensar, conforme categorias materialistas, suprimiu (O eclipse de Deus, Verus, 2007, p. 19): “a ideia de Deus e, dessa forma, também a realidade de nossa relação com Deus.” Além disso, antecipou o simplificador discurso da inutilidade da filosofia, discurso ingênuo que não se dá conta de que é ele próprio metafísico, mas bem ao gosto do anti intelectualismo das massas de nosso tempo.

Esse movimento começou com a valorização dos sentimentos e instintos que, conforme Hume, está na base da vida prática, do utilitarismo inglês e da moral da simpatia. Essa moral foi a forma pela qual o empirismo de Hume chegou ao mundo do trabalho e do mercado. Simpatia, resumiu Adam Smith é o sentimento que me permite olhar para mim mesmo com os olhares dos outros e me julgar segundo a expectativa que eles têm de mim. Ortega y Gasset fez uma crítica demolidora a essa forma de comportamento que me leva a querer ser como todo mundo e a agir como todo mundo, mas isso é tema para outro dia.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

SONHO E REALIDADE DO HOME OFFICE . Selvino Antonio Malfatti- professor titular aposentado da UFSM.

 


Quando o Home Office, antes do Cobiv-19, era apenas uma possibilidade, uma prospecção, diga-se, uma hipótese, os efeitos perversos não se evidenciavam e ansiava-se, por isso, para vivê-lo na realidade. Imaginava-se um m undo de tempo liberados, solto das amarras do tempo e lugar, uma vida de trabalho livre, imaginado desde os tempos remotos nos quais máquina e homem juntavam-se no dia a dia no cumprimento das tarefas profissionais. Pensava-se que o novo mundo podia ter suas desvantagens,  mas eram facilmente superáveis. Previam-se as principais mudanças: as formas contratuais e as tarefas. Mas, com generalização da pandemia, tudo mudou e acordados dos sonho escancarou-se a nova realidade.

O Forum de Davos, de 2020, previu uma redução de 7.1 milhões de vagas de trabalho, a maior parte nos setores administrativos. No mesmo período haveria um aumento de 2 milhões de vagas no setor de tecnologia, matemática e engenharia. Vê-se que a defasagem seria de 5,1 milhões de vagas de trabalho.

A tendência continuava sendo a substituição do homem pela máquina nos postos de trabalho, aliás, a constante desde a Revolução Industrial.

E se olharmos para uma previsão mais futura, para a década de trinta, ocorrerá até mesmo a substituição do homem pela máquina em setores que se poderia considerar monopólio da atividade humana: agricultura, pesca, manufatura e até mesmo o comércio.

Projetou-se para os setores de educação e saúde ainda eram imunes. Os cuidados com a saúde, mesmo as coadjuvadas pela tecnologia biomédica parecem que por ora não poderão dispensar a presença humana no atendimento do paciente. Da mesma forma na educação pareia que, por enquanto, não se poderia dispensar professores de quadro-negro. Menos ainda provável se podia imaginar a substituição de um psicólogo por uma máquina de auscultar na terapia. No entanto, as consultas por vídeo conferência estão aí. Eu mesmo já utilizei.

No entanto educação e saúde foram os setores que mais foram afetados pela atividade virtual. As aulas passaram a ser ministradas por vídeo conferência, wbcam, zoom, lives  e outros programas disponibilizados aos alunos. Deixaram de ser presenciais e passaram a virtuais. Na época questionou-se  se a política estava preparada para tal guinada?

A educação e a saúde estão prevendo estas mudanças e provendo o fechamento das lacunas? O poder público, o Ministério da Educação e Ministério da Saúde, estão atentos a estas demandas que baterão à porta? O que se está fazendo para preparar as próximas gerações perante as demandas que estão chegando rapidamente?

Com a chegada da pandemia o comércio foi um dos setores que mais rapidamente reagiu até chegar ao e-comércio. Sempre mais empresas estão investindo sobre as vendas online através de entregas diretas ao consumidor drive thru. Gerentes administrativos de e-comércio atualmente já estão consagrados.

Somos hoje em dia uma sociedade informatizada, desde os celulares, até os computadores de grandes empresas administrativas. Cada minuto são criados, imaginados e compartilhados milhões de dados. Os bancos transformaram-se em online, Bastou um aplicativo para que o bando coubesse na mão de cada cliente.E até mesmo dados ultrassensíveis  são difundidos, como cirurgias à distância.

O que ninguém esperava é que estas mudanças viessem compulsoriamente. Bastou uma pandemia para mudar tudo. Isto aconteceu em meados de março de 2020. As principais empresas transferiram dispensaram seus empregados de seus escritórios e deixaram as tecnologias separadas de seus operadores. Trabalhadores em casa e tecnologia nos escritórios. Os empregados passaram a trabalhar remotamente de dentro de suas casas.

No Brasil, 20,8 milhões de pessoas passaram a trabalhar no regime de Home Office, aproximadamente 22,7% dos postos de trabalho. Profissionais ligados à ciência e intelectuais logo se adaptaram, seguidos de diretores e gerentes, de apoio e administrativo e técnicos de nível médio.

Quando os empregados, agora em casa, que são também pais, maridos, filhos, genros etc. abrem seu laptop, imediatamente duas crianças postam-se uma de cada lado e começam as perguntas. Enquanto isso, a esposa, na mesma situação, pergunta da cozinha:

- O que faço para almoço?

A partir daí começa o calvário, os efeitos não desejados do Home Officer? Listados, quais os mais citados:

- A DESPREPARAÇÃO para operar as máquinas. Nem todos estão preparados, além disso, há desproporção de aprendizado. Uns dominam mais outros menos. Daí nasce um descompasso no ritmo de trabalho e produção entre uns e outros.

- SINTOMAS “DAS SOMATIZAÇÕES”.  Problemas digestivos, ciclo de sono, alimentação, descanso. As pessoas começam a perceber o aumento dos níveis de colesterol, triglicerídeos. Apresentam-se problemas de artrose e perda de mobilidade.

- HORÁRIOS ESTENDIDOS. As pessoas passam a trabalhar mais, na hora de refeições, viagens, descanso, lazer. Estão continuamente conectadas ao trabalho. Antes o trabalho tinha um lugar e um tempo. Agora é contínuo em toda parte. Agora voltamos para solidão, sem encontros informais e conversas na roda de café.

- ALÉM DO TRABALHO PROFISSWIONAL soma-se outros, como tarefas escolares dos filhos, teletrabalho, videoconferências, tudo ao mesmo tempo.

- DESMOTIVAÇÃO. O estresse e a monotonia das atividades deixam de ser atraentes e ja se tornam monótonas.

 

 

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Descartes e a Filosofia Moerna. José Mauricio de Carvalho – Pós doutorando do NUPES/UFJF.

 

René Descartes, nasceu na França, em La Haye, em março de 1596 e morreu em Estocolmo, em fevereiro de 1650, antes de completar cinquenta e quatro anos. Foi filósofo, físico e matemático e é considerado o pai da filosofia e da matemática modernas. Também é conhecido pelo nome latino Renatus Cartesius.

Como matemático, Descartes aproximou a álgebra da geometria, o que lhe permitiu criar o sistema de coordenadas que ficou conhecida com seu nome. Apesar de seus estudos matemáticos serem relevantes, nossa atenção, nesse texto, estará voltada para sua contribuição ao pensamento filosófico e para o aprofundamento dos problemas culturais dos séculos XVI e XVII. Conforme resumido em História da Filosofia e Tradições Culturais (Porto Alegre, EDIPUCRS, 2001. p. 191): “A filosofia parece-lhe, legítima ciência, porquanto examina o princípio que garante o funcionamento da razão.”

Nos séculos XVI e XVII surgiu e se consolidou na Europa a ciência moderna na esteira do humanismo renascentista. Os dois problemas fundamentais do período, como sabemos eram o da justificativa de construção dos Estados Nacionais e, especialmente, a fundamentação epistemológica da ciência moderna. Os filósofos foram desafiados a explicar o processo político e, principalmente, fundamentar a nova forma de fazer ciência, diversa da praticada na antiguidade e Idade Média. Estavam, sem síntese, diante do desafio de explicar porque, no âmbito do conhecimento, a ciência moderna conseguia se apresentar como verdade que tranquilizava os espíritos.

Como se sabe (id., p. 181): “o século XVI foi um tempo de mudanças na cultura ocidental. As navegações revelaram um mundo diferente do descrito nos livros, a experiência direta mostrou-se importante fonte de informação para conhecimento do mundo, e, com ela, os paradigmas para o entendimento da realidade cósmica se modificaram.”

No que tange à fundamentação dessa nova forma de compreensão da realidade cósmica, Galileu Galilei articulou os métodos indutivo e dedutivo num novo ordenamento no estudo da natureza, capaz de fornecer um outro paradigma para entendimento do mundo natural. Dessa forma, o método científico pediu não apenas uma justificação epistemológica, a razão pela qual é válida a nova forma de conhecer o mundo, quanto metafísica, porque trazia uma nova maneira de percepção do cosmo, tema de nossa última exposição nessas meditações filosóficas. Essa nova compreensão da realidade natural suscitou ainda uma questão antropológica, o que é o homem nesse mundo descrito pela ciência? Ele se submete às mesmas leis da natureza ou tem algo que o singulariza dos seres naturais? São diversas questões. Descartes encontrou para elas uma resposta de síntese: o homem é parte natureza e parte pensamento ou espírito, realidades diferentes com funcionamento diverso. Portanto, ele esclarece, o homem é um ente dual no qual se somam sua realidade material (res extensa) e a dimensão espiritual (res cogitans), irredutíveis uma à outra.

Descartes chegou a esse dualismo não estudando o funcionamento do mundo natural, mas se perguntando pelo fundamento do conhecimento. O que assegura o conhecimento e o torna válido? A certeza subjetiva obtida de forma clara e distinta. Como ele chegou a essa conclusão? “No Discurso do Método (1637), ele explicou o significado dessa tarefa: a busca de um procedimento de investigação capaz de dar unidade ao saber. O novo método devia substituir o escolástico, que não se ocupava da experiência.” Esse novo método para pensar o mundo era diferente do que fora desenvolvido pelos cientistas naturais: Bacon e Galileu, embora não fosse incompatível com as investigações dos cientistas. Devido a sua formação matemática, Descartes recuperou a questão trabalhada por Galileu Galilei. Como se poderia proceder, perguntou Descartes, para se compreender a realidade? Sua resposta foi: partindo-se de um princípio inquestionável do qual fosse possível deduzir outras verdades? Será possível obter um tal princípio? Como?

Para responder a essa questão, o filósofo começou duvidando de tudo, elevando a dúvida ao máximo grau e concluindo que todos os conhecimentos eram falsos ou poderiam sê-lo. Porém, esse momento de dúvida extrema lhe ofereceu uma única certeza, a saber, é possível se enganar sobre tudo, menos sobre a existência da consciência que duvida, pois se ela não existisse não poderia duvidar. Chega, então a uma intuição fundamental na quarta parte do Discurso do Método, não a uma dedução, mas a uma intuição: penso, logo sou, ou ainda melhor: penso, sou. Há em mim uma consciência que, independente do objeto do pensamento, permite chegar a essa certeza básica. Dela é possível extrair uma fórmula de certeza: é verdade tudo aquilo que se mostra para minha consciência de forma clara e distinta, tanto como intuo a minha própria existência. Assim, a dúvida hiperbólica do início da investigação levou a uma certeza inquestionável: a realidade da consciência subjetiva. Isso coloca como certo que o verdadeiro é aquilo que a razão me propõe como tal, nada mais, apenas aquilo que aparece na consciência de forma clara e distinta.

O legado cartesiano foi percebido de forma diversa nas diferentes tradições filosóficas, na Inglaterra foi apreendida pelas reflexões sobre a experiência no desenvolvimento do empirismo e na França e Alemanha do racionalismo. Em Portugal, o racionalismo cartesiano levou ao acirramento da moral contra reformista como foi explicado em Caminhos da moral moderna, a experiência luso-brasileira (Belo Horizonte, Itatiaia, 1995), mas não temos como entrar sem tema de forma rápida.

Toda a meditação cartesiana, em que pese suas limitações e problemas discutidos ao longo de toda Idade Moderna, nos coloca diante de uma questão atual recuperada pela fenomenologia: o homem possui diferentes dimensões e não pode ser considerado um ente puramente espiritual ou simplesmente material.


 

sábado, 15 de agosto de 2020

O SHOAH - DE DEMONÍACO A ROMÂNTICO-CÔMICO. Selvino Antonio Malfatti- Professor titular da UFSM.

 

Depois do que tudo foi dito, mostrado, escrito, representado, filmado, imaginado sobre Shoah haveria lugar para mais?

Quando se surpreende algo desconhecido, original, oculto, na história, filosofia ou mesmo ciência abre-se aos olhos a uma nova visão, como o Homem da Lenda da Caverna. A exclamação: “como não tinha visto antes?” Diz meu colega filósofo José Maurício de Carvalho: “À medida que avançam os anos e as pesquisas, mudamos o olhar para o passado e ele começa a ficar diferente quando fica iluminado pelos novos estudos. Em outras palavras, quanto mais sabemos do passado mais diferente ele nos parece do que dele nos fora dito.”

Foi o que aconteceu com Frediano Sessi (AUSCHWITZ,1940-1945) ao reestudar Auschwitz, precisamente nos anos Sessenta quando a Alemanha resolveu refletir sobre si mesma e o que foi o Genocídio do Povo Judeu, conforme atesta Marcello Flores. Sessi debruçou-se sobre o cotidiano, o habitual, o dia a dia. Conseguiu com isso, visualizar as rebeliões contra o SS, que as vítimas não foram tão dóceis como geralmente descritas.

Na verdade firam necessários oitenta anos para saber mais e melhor o que de fato aconteceu em Auschwitz. Este acontecimento foi um dos mais trágicos da História, a própria personificação da política nacional-socialista e tentativa em parte bem sucedida de exterminar com os judeus não só na Europa, mas da face da terra. Se perguntássemos a estudantes e mesmo a historiadores o que foi Auschwitz é muito provável que obteríamos respostas vagas.

Frederico Sessi, precisamente no ano de aniversário da abertura do campo de concentração na cidade polonesa de Oswiecim defronta-se com uma síntese ampla e exaustiva do volume Auschwitz (da ed. Marsílio) para compreender o significado daquele nome e antever quanta história naquele símbolo, a referência a uma tragédia, sobre os quais se interrogaram filósofos e teólogos, políticos e cientistas sociais sem nunca ter colimado – de modo convincente, coerente, completo – o drama daquele acontecimento histórico.

O que acontece quando uma nova realidade da pesquisa histórica, confrontada com a existente não  fecham entre si? É preciso proceder a uma exumação do cadáver e voltar à estada zero nas conclusões. Foi precisamente o que aconteceu com a pesquisa de Sessi.Foi necessária toda uma revisão das conclusões.

A peculiaridade de Sessi reside na singeleza da narrativa factual. Dotado de uma linguagem acessível, não deixa de enfrentar questões complexas, sem necessidade de elucubrações filosóficas e teóricas, o que muitas vezes é sinal de conhecimento deficiente sobre o objeto.

Na primeira parte, o texto de Sessi parte de questões simples como a fundação do campo de concentração e sua estrutura organizativa. Desenrola-se o cotidiano (comida, vestuário, trabalho, doenças)  surpreende a complexa realidade que lança luz sobre aspectos pouco visíveis (médicos detidos, a visita da Cruz Vermelha, a sexualidade, os quais nos adentram para a “normalidade” do universo carcerário da concentração.

A segunda parte pode ser considerada o miolo duro dos campos. São mencionados e analisados os extermínios, os locais onde isso acontecia, o pessoal do SS, a agonia e os últimos momentos de vida das vítimas, as divisões em categorias, o destino das mulheres e crianças entre outros.

Sessi se detém com mais atenção sobre os Sonderkommando, isto é, nazistas encarregados de recrutar dentre os prisioneiros – geralmente novatos – para execução de tarefas sigilosas, como câmaras de gás e crematórios. Sobre este assunto são escassas as informações por que os algozes não fotografavam o que faziam e de tempos em tempos os comandados eram mortos e substituídos por novos novatos como aconteceu na rebelião de 1944.

Foi graças à pesquisa de Sessi, a imersão no cotidiano do campo de concentração, que ficou evidente a falsa ideia da resignação pacífica das vítimas à morte. O capítulo que trata das “resistências”, caracterizadas por atitudes individuais e de pequenos grupos, a maioria das vezes fracassadas, demonstra que a falta de liberdade provoca revolta, rebelião e espírito de solidariedade, mesmo em condições de extrema submissão e escravidão, como atesta Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz.

O enigma do por que do “esquecimento” foi baseado naquilo que pode ser chamado de sublimação do “crime mais demoníaco”, conforme Primo Levi. Acontece que os acontecimentos passaram para os museus, as memórias das vítimas e algozes. A representação nos deu, cinema, literatura, música, inclusive um filme romântico-cômico, como A Vida é Bela, modelo perfeito de deturpação histórico-literária.

 

shadoDepois do que tudo foi dito, mostrado, escrito, representado, 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O humanismo renascentista de Mirandola. José Mauricio de Carvalho – Pós-doutorando do NUPES/UFJF


Ao olharmos para a tradição filosófica acabamos envolvidos com o problema de encontrar nesse passado da Filosofia algo que ajude a entender o nosso tempo e seus problemas. Isso parece mais ou menos evidente, mas merece atenção. Só se as filosofias de outros tempos puderem inspirar nossas questões atuais isso dá sentido a esse olhar para o retrovisor da História. Muitos filósofos já disseram que a Filosofia não é uma coleção de pensamentos mortos, mas uma especulação que embora tenha proximidade com os problemas e a visão de certo tempo, possui um elemento original e imprescindível que reaparece a cada tempo e inspira as gerações. Cada filosofia realiza esse encontro com a originalidade da verdade que se encontra subjacente a cada tentativa dos filósofos. E é isso que temos que ir buscar em cada uma delas.

 

 Quando olhamos o final da Idade Média e início da modernidade, encontramos uma visão de síntese com elementos da ciência moderna emergente, do pensamento filosófico de então e da fé religiosa. O humanismo renascentista que nasceu do diálogo com os clássicos (Antiga Grécia e Roma) permitiu uma síntese entre esses vários elementos culturais. Isso significa que, na perspectiva daquela geração dos séculos XIV e XV, a ciência não nasceu e não precisava ser feita contra a racionalidade filosófica e nem contra a fé religiosa. Ali encontramos um humanismo que conseguiu agregar essas várias dimensões do espírito: razão experimental, especulativa e fé. O que foi mesmo aquele humanismo? Há nele lições importantes para o homem contemporâneo? Vamos responder a essas perguntas recordando as reflexões do filósofo neoplatônico Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494).

 

Entre os diversos humanistas do período como Francesco Petrarca (1304-1374), Leonardo Bruni (1374-1444), Mario Nizolio (1498-1576), Miguel de Montaigne (1533-1592), queremos destacar a contribuição de Pico della Mirandola porque ele combinou a reflexão filosófica com as conclusões da teologia da época. Em seu texto mais conhecido o Discurso sobre a dignidade do Homem (1486) ele procurou resumir o que era essencialmente o homem. Mirandola escreveu qual era o destino do homem enquanto construtor da história como se segue (MIRANDOLA, São Paulo: GDR, 1988, p. 6): “tu, porém, não estás coartado por amarra nenhuma. Antes, pela decisão do arbítrio, em cujas mãos te depositei, hás de determinar a tua complexão pessoal.”

 

Nessa citação, o filósofo tratava da liberdade humana de uma forma que fora inicialmente pensada como atributo de Deus. Mirandola ajustou a ideia de liberdade para se ajustar a forma como o homem pode usá-la. A vida do homem encontra-se em suas mãos, dizia. A liberdade por ele apregoada realçava a possibilidade de escolher um caminho existencial, consistindo nisso a singularidade e dignidade humanas. O que diferenciava o homem dos outros entes não era a pura racionalidade, como preconizara Aristóteles, pois isso deixaria os seres espirituais em melhor condição, mas a liberdade para criar uma vida singularíssima e dar-lhe a direção desejada rumo ao futuro ao futuro.

 

No livro O Homem e a Filosofia há um comentário dessa obra e da contribuição de Mirandola que passo a citar (Porto Alegre: MKS, 2018, p. 168/9): “O homem era, nesta interpretação daquele humanista renascentista, aquele ser que usa a razão para criar a si mesmo e melhorar sua natureza animal. A ideia de liberdade forjada pelo filósofo italiano deixou essa lição instigante, o homem pode construir sua existência. E, nesse sentido, ele é criador como Deus ou co-criador junto com Deus, pois é o responsável pelo seu destino. Ele divide com Deus esse importante atributo: a liberdade. Naquele momento da história dizer isto significou que ele podia mudar para melhor a natureza de que fora criado. É verdade que o pensador ainda tinha Deus como referência, mas já fazia a dignidade da criatura depender mais do que ela fizesse. Não fechava os olhos para o fato de que os homens podem dominar, matar, escravizar, mas acenava para uma possibilidade de autocontrole dessa sua natureza violenta. Ele indicava, ainda, a possibilidade de cada homem poder se valer de uma interdição de natureza moral e se guiar por valores que a razão e a cultura lhe apontavam. O pensador tanto se refere ao sujeito singular como ao homem, em geral, membro de uma sociedade. Como membro da espécie cada sujeito é igual a todos os outros, mas como indivíduo é único, e pode construir seu futuro. Neste sentido, a espécie é portadora de esperança, seus membros podem fazer boas escolhas. Quando, diversamente, escolhe mal a humanidade se torna indigna do seu Criador.

 

A obra de Mirandola mostrou que o homem é aquele ente que constrói o seu mundo. Ao pensar o homem como senhor de seu destino, Mirandola reconhece-lhe uma dignidade que não está em outros entes. Retirada as referências metafísicas da época e afastada das crenças renascentistas, as análises de Mirandola emergem plenas de significado e atualidade em nossos dias.”

 

E onde foi resgatada as lições desse humanismo? Ela reaparece na tese existencialista de que o homem é quem faz seu destino e é fruto de suas escolhas. A existência humana única e singular, realiza um projeto ou sentido, foi o tema de Ortega y Gasset e Viktor Frankl. Em outras palavras, não importa de onde esteja partindo, não importa o quanto se desviou do mapa interior que tem inconsciente, cabe ao homem viver por um sentido único. O esforço para construir a singularidade acaba fazendo efeito. A singularidade existencial, reconhecida como jornada única e responsável e que aparece nessa meditação de Mirandola como um valor é um legado importante do filósofo italiano.


 


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