sexta-feira, 24 de junho de 2016

AS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS AMERICANAS VISTAS POR TOCQUEVILLE. Selvino Antonio Malfatti.


NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA o governo está alicerçado sobre a maioria, e esta é a democracia. É a democracia de um governo senão de todos, ao menos da maioria. Se essa maioria não se consegue diretamente, ao menos seus representantes serão a expressão da maioria. As minorias devem se submeter.  Sua engenharia política é denominada de sistema representativo.
ESTE SISTEMA é invenção anglo-saxônica. Nasceu ao longo da história inglesa e se disseminou pelo mundo. Aliás, uma das características dos anglo-saxões é de  ”construírem sua própria cidade”, como disse um historiador da antiguidade.  Construíram seu sistema de medidas como Mil, Polegadas, Pés, Jarda, Rod, Milha, Légua etc. que, embora outros países tenham outras, eles continuam com a sua. Um exemplo atual é a moeda. Praticamente quase toda Europa adota o Euro, a Inglaterra permanece com a Libra. E a partir de agora, abandona também a Comunidade Europeia.
O SISTEMA REPRESENTATIVO inglês tem como suporte último a soberania do povo. É um sistema hierárquico de elos interligados desde o mais alto até o ínfimo. Em última instância está o povo.

            TOCQUEVILLE CONSTATOU que isso acontecia na América. A começar pelo legislativo, eleito diretamente e por curto espaço de tempo. As duas casas, dos deputados e senadores, são eleitas pelo mesmo eleitorado e seus movimentos são simétricos. Analisam as mesmas matérias, procedem da mesma forma e, algumas vezes, agem juntas. Acresce-se a isso, o costume de os eleitores traçarem um plano de conduta para o deputado. É praticamente a fórmula da democracia direta.
            O PODER JUDICIÁRIO, ao menos nas instâncias inferiores e em quase todos os estados, é eleito diretamente e pela maioria. Seus salários dependiam da maioria do legislativo.
            CONTUDO, a mais significativa das instituições norte-americana era o sistema eleitoral, o distrital. Primeiramente, produziu duas grandes correntes de pensamento, expressas em partidos: o republicano e o democrata. Estes dois partidos se alternam no poder, ora um, ora outro, contabilizando uma média de 94% dos votos. Há outros, mas estes dois constituem as maiorias que dão estabilidade ao governo.  Este sistema, ao mesmo tempo que tornava o país governável, pelas maiorias que produzia, poderia ser uma ameaça às minorias nos seus direitos individuais. Tocqueville encontra uma explicação sociológica para o fato de esta maioria não se tornar tirana. É a igualdade natural dos povoadores da América e a ausência de divergência de interesses. Em outras palavras, a sociedade era compactamente homogênea quanto à ideologia, isto é, liberal. Isso significa que, por ser homogeneamente liberal, poderia incorporar e praticar os princípios democráticos.  No entanto, Tocqueville antecipa e alerta para o perigo de que pode se revestir um princípio absoluto da maioria, quando foge ao âmbito da política. Ele mesmo cita o exemplo do sistema carcerário. Os detentos atuais vivem uma situação deprimente. Alguém levanta a bandeira dos direitos humanos e a maioria acata. Passa-se então a construir prisões mais humanas, sempre com o apoio da maioria. No entanto, os miseráveis das prisões antigas são esquecidos e não há mais ninguém que zele por eles. Isso tudo com o apoio da maioria. Outra questão cruciante apontada por Tocqueville, no ange os direitos individuais, foi a escravidão. Sobre isso havia algo que se impunha inexoravelmente: sua extinção. No entanto, os Estados Unidos ficariam entre duas alternativas que o levariam a um beco sem saída: se fosse concedida a liberdade aos negros, eles cometeriam abusos; se não fosse concedida, eles a tomariam à força. Quanto à primeira, houve abusos, mas superados, embora alguns com violência. Quanto à segunda alternativa, com certeza nem Tocqueville imaginaria: um negro eleito presidente: Barack Hussein Obama Segundo, do Partido Democrata, elege-se presidente, enfrentando seu adversário do Partido Republicano, John Mccain, nas eleições presidenciais de novembro de 2008, nos Estados Unidos da América.
CENTO E CINQÜENTA anos depois, Tocqueville, através de Paul Gray, “revisita” os Estados Unidos para fazer um balanço sobre suas previsões, mormente no que concerne a questão das minorias. O problema levantado por ele no século XIX, da fraqueza e indefesas minorias, agora elas se constituem na sua força. Primeiramente, as minorias se tornaram tantas que há uma maioria de minorias. Em segundo, quando uma minoria pretende reivindicar algum direito é exatamente o método da fraqueza que é invocado. Além disso, as minorias, além de sua proliferação ruidosa, lançam mão do argumento da fraqueza e, com isso, conseguem acesso a poderosos meios de influência da opinião pública, a mídia, e através dela, defendem, de forma barulhenta, seus direitos.   
                        TOCQUEVILLE FAZ uma reflexão sobre a questão da maioria e coloca que, acima dela, deve estar a justiça. Essa é a maioria do gênero humano e não apenas de uma determinada comunidade. Era necessário um legislativo que representasse a maioria, mas sem ser escravo de suas paixões. Um executivo com força própria e um judiciário independente dos outros dois poderes. Tocqueville queria aproximar os princípios liberais e democráticos. Entendia que todos são chamados a participar do governo, no entanto, através de um processo racional e justo, com uma representação detentora real de poder e o controle através de sua divisão.
                        DESSA FORMA, percebe-se que os norte-americanos conseguiram aproveitar o que havia de bom nas instituições políticas inglesas e afastar o que elas tinham de nocivo. Afastaram, por exemplo, a aristocracia, a desigualdade estruturada, a discriminação racial, a intolerância religiosa e outras. Aproveitaram-se do sistema de vigilância dos poderes - pesos e contrapesos - a eletividade dos cargos públicos, a preocupação com os direitos individuais e, acima de tudo, do processo eleitoral distrital que propicia o afunilamento de interesses.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

Viver o sentido José Mauricio de Carvalho






Tratar da vida parece inevitável. Ela é o que somos na nossa relação com o mundo. Pode ser mais ou menos intensa, mais ou menos meditada, mais ou menos amada, mas é o que no fundo nossa existência mesmo é. Vivemos no que fazemos, especialmente em nossas escolhas. Nem todos dedicam a atenção devida às escolhas que fazem, mas são elas que tecem nossa existência. E por que não dão atenção a algo tão sério? Por conta das dificuldades naturais que estão na vida e que são entre outras: as atribulações que nos alcançam, as dores que nos penetram, a correria dos nossos dias, as ilusões de uma felicidade proposta como compra ou venda, a grande pressa que está longe de ser a ausência de viver. Tudo isso tira o foco e distrai. E há ainda a inconsciência de nossos desejos mais profundos e a despreocupação com o futuro que desejamos dar à aventura que somos.
Para enfrentar os problemas da sobrevivência e do bem estar que almejamos, criamos a ciência e a técnica, e elas se tornaram imprescindíveis e sua aprendizagem cada vez mais exigente. E por isso essa é uma tarefa a que quase  todos se dedicam, desde a tenra infância. Aprender uma ciência ou uma técnica é o principal desafio de nosso tempo. Os pais ensinam desde cedo que ser bom profissional é condição para  ter sucesso em muitos campos. E estão certos tanto em dizer que a ciência é fundamental, quanto na preocupação com a profissionalização dos filhos. E a isso se soma, muitas vezes, a preocupação com a saúde física e psicológica e haja aula de línguas, ginástica, natação e academia ao lado do ensino regular. Os melhores pais ainda se dedicam à conversa amorosa com os filhos, ao exercício do diálogo e a compreensão, magnífica tarefa de dar e reconhecer a razão. Muitos fazem isso com sucesso, mas essa é a tarefa por excelência dos avós que são mais vividos. Esses últimos tocam nas questões essenciais, com maior ou menor sucesso ou intensidade.
Aprender ciência é fundamental, mas não é tudo o que fazemos, há outras coisas importantes como a arte, a religião e a meditação filosófica. Porém, a ciência moderna ganhou grande destaque porque seu sucesso é enorme no controle da natureza e nos agrada estar no controle do mundo. O que fazemos quando criamos todas essas coisas e experimentamos tantos amores é viver.
O essencial para viver vem do viver mesmo. Algumas coisas aprendemos olhando e conversando com quem nos rodeia, outras aprendemos em nós mesmos. Com nossos erros e acertos. Para entender a vida como um tecido que fazemos a cada momento é essencial aprender a ir ao futuro. E essa criação é também uma arte, ou uma forma distinta de arte para a qual muito ajudam a ciência, a religião, a filosofia e o cultivo do belo. Porém essa arte magnífica que é viver é uma abertura para o futuro. Abertura que significa deixar para traz algo que pode ter sido magnífico, mas que não esgotou nosso propósito de amar, de explorar as possibilidades de viver, de preencher toda esperança de experimentar algo bom. Essa força que nos move para frente guiada por uma bússola interna é o que entendemos ser o sentido. O sentido é o que nos move e nos moverá com propriedade se estivermos atentos a essa bússola íntima. É ela que o filósofo espanhol José Ortega y Gasset denominou magistralmente de fidelidade íntima. Ao dedicar nossa vida a fazer as coisas conforme essa fidelidade íntima teremos uma existência mais do nosso jeito.
E o olhar para frente é o que estabiliza cada movimento. Algo assim como o ciclista que somente se mantém sobre a bicicleta enquanto a pedala e a faz andar numa direção. O ciclista pode parar e andar para trás, mas não com a mesma força e com o mesmo ímpeto de quando se lança em direção à linha de chegada. Assim é o sentido de nossa vida.

sábado, 11 de junho de 2016

Estado, Política e sociedade, na Interpretação de Touraine. Selvino Antonio Malfatti


Dos três elementos constitutivos da realidade política da América Latina - Estado, sistema político e sociedade - o mais importante evidentemente é sistema político, e no seio deste, a organização partidária. Os regimes populistas, quando atuam por partidos, estes se tornam populistas. Por sua vez, partidos populistas e representação excluem-se mutuamente. Não há, nesses casos, uma relação de representantes e representados. O partido tem "chefe", o qual, por seu carisma, consegue a mobilização através da lealdade de seus membros e não pela imantação de conteúdos unificadores. Os atores políticos de partidos populistas estão mais interessados nas benesses proporcionadas pelo Estado do que pelos interesses e necessidades da sociedade. O apelo ao povo é tão somente para se conseguir chegar ao poder. Colimado o desiderato os atores aninham-se no Estado transformando-o os interesses particulares em interesses nacionais. O líder, após chegar ao poder através de uma ampla mobilização popular, molda o Estado e adapta-o aos objetivos populistas. O apelo se faz tendo como fator mobilizador em direção um problema, o qual, superado, daria bem-estar a toda sociedade. Como exemplos, podem ser citados Juan Peron na Argentina, José Figuerez da Costa Rica, Eduardo Frei do Chile e Getúlio Vargas do Brasil. O apoio popular teve como idéia-eixo a indústria nacional com Peron, agricultura com Figuerez, reforma agrária com Frei e a industrialização com Vargas. Conforme o Touraine, o Brasil e o México, constituem-se mais em nacionalistas e desenvolvimentistas do que puramente nacional-populistas porque as elites dirigentes foram resultado da ação do Estado, protetor das oligarquias locais. Não eram os líderes, no Brasil, que controlavam o Estado, mas este controlava aqueles. Isto significa que o Estado é uma força centralizadora. Quem quisesse progredir deveria permanecer em sua réstia, e não tentar possuir "motu próprio". No México, a situação é diversa, devido ao papel do partido. Este se constitui num modelo de Estado. É um partido - Estado. A ideologia subjacente é o progressismo, o qual, com Cárdenas, se manifestou na nacionalização do petróleo, reforma agrária e nas leis sociais. Nas organizações políticas e democráticas os partidos políticos têm pelo menos três grandes funções: representação, agentes de mobilização, portadores e projetos através de seus programas. As três funções podem ser colocadas em situações reais de super desenvolvimento do sistema político ou do Estado, de fraco desenvolvimento do sistema político ou médio desenvolvimento. Em situação de super desenvolvimento, o Estado é centralizador e o promotor da integração, como é o caso do Brasil. Em tal situação os partidos são fracos e sem autonomia. Nestes países, além do Brasil, podemos citar também México. A mobilização se dá através do Estado. Os próprios partidos servem de instrumento de controle social. O Brasil, após a década de oitenta está superando esta situação, principalmente pelos seus partidos e sindicalismo. No outro extremo, há países onde o sistema político é forte e o Estado fraco. Estes países têm fraca integração social. Um dos exemplos típicos é o Chile. Nestes, parece, o regime político democrático tem mais chances de vingar. Os partidos políticos são fortes, tais como a Democracia Cristã, Partido Socialista e Partido Comunista. Estes partidos cumprem as três funções que lhe são ínsitas tais como: doutrinar, mobilizar e representar. Neste país, o centro do sistema político, a referência maior, é o partido. Aproxima-se deste modelo o Uruguai através de seus partidos Blanco e Colorado. E há os tipos intermediários, nos quais o partido nem forte, nem fraco e conseqüentemente, nem o Estado é muito forte, nem muito fraco. É nesta situação que o Nacional-Populismo encontra seu terreno mais fértil como é o caso do Peru, Venezuela, Equador, e outros.
O Parlamento, por sua vez, oscila de acordo com o modelo. Somente onde há partidos fortes é que o parlamento pode assumir seu papel de representação. E como na América Latina, os modelos ora privilegiam o Estado forte, com partidos fracos, ora Estado fraco e partidos fracos, a função do parlamento é sempre limitada. Onde o Estado é forte a ação preponderante cabe ao Executivo, e onde Partido e Estado são fracos, abrem-se espaço para movimentos pára-políticos, marginais como terrorismo e revolucionarismo. Ora, estes movimentos são os responsáveis pelas crises institucionais que intermitentemente assolam os países latino-americanos. 

Touraine crê que a solução do problema está dentro do homem. Tampouco crê na solução marxista. A idéia de classe, ligada à luta revolucionária, foi substituída pela idéia de movimento social, emerso de uma dinâmica social. Não eliminou conflito do movimento, mas civilizou-o pela idéia de dinâmica e principalmente pela idéia de atores sociais. Este conceito, por sua vez, transfere o "motu" da história do externo para o interno. Não são as leis de superestruturas ou infra-estruturas que comandam a história, mas atores conscientes. Por isso, às forças econômicas, Touraine contrapõe as forças morais. É nesse sentido que ele tenta uma síntese entre Marx e Weber. O substrato cultural, decorrente do sujeito, é o móvel social.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

AS ASSOCIAÇÕES E SEU PAPEL POLÍTICO-SOCIAL. Selvino Antonio Malfatti.




Por ocasião da instalação de uma associação, á qual participei, veio-me à mente a genial percepção de Alexis Tocqueville ao estudar a sociedade norte-americana XVIII e XIX: uma sociedade assentada sobre associações por ela mesma criadas. Somente alguém de fora, um francês, acostumado a que tudo fosse feito pelo governo, poderia captar outra realidade: uma sociedade autogovernada. Sempre o povo era chamado a participar. Na escolha do pastor, na nomeação do professor, na designação do juiz, na eleição do xerife, nas atividades de comércio, indústria e serviços. Sempre havia a chancela da sociedade.
Nas classes sociais os indivíduos não têm escolhas. São estigmatizados nesta ou naquela. Na associação o indivíduo escolhe a associação e dentro delas as classes são eliminadas. Na associação todos são iguais: ricos, pobres, cultos, autoridades. Todos têm voz, participam das decisões e ocupam postos.
Uma genuína democracia deve refletir a soberania popular. Alexis Tocqueville reconhece que, nem sempre, esse princípio é evidente ou está à tona. No entanto, ele deve comandar todas as demais instituições numa democracia. O autor percebeu que, excepcionalmente, na América, naquele período, esse princípio aflorava e podia ser visto nos costumes. Era proclamado pelas leis, alastrava-se livremente e atingia seus objetivos. Assim, o povo escolhe seus governantes desde os mais distantes rincões até o governo central. O povo é quem escolhe aqueles que lhe fazem as leis e lhe dão o consenso. Escolhe quem faz a lei depois se submete a ela. Elege os encarregados de executar as leis que também a elas são submissos. O povo escolhe o júri que julga e pune. Enfim, sempre por trás de qualquer ato político está a vontade popular.
Numa sociedade cujas bases são as associações o povo participava diretamente nos negócios públicos, principalmente nas comunas. Estas eram um refúgio do cidadão contra o perigo do avanço do poder central. Na comuna, o cidadão possuía a fração de soberania, proporcional e igual, a da comunidade toda. Por isso, o espírito que a anima é que cada cidadão é tão virtuoso, esclarecido e forte como seus semelhantes. Os franceses também dividiram igualitariamente os cidadãos, mas a diferença é que os cidadãos não se sentiam iguais e nem se respeitavam como iguais. Nos Estados Unidos, havia o substrato moral que sustentava a lei. Como consequência, os cidadãos não obedecem às leis ou à sociedade por serem inferiores, mas por que entendem que seja útil. Ele, o cidadão, considera o dever como algo natural e como bom para todos. Ele não se submeteu e, por isso, permanece livre.
Percebe-se como Tocqueville consegue captar o espírito subjacente da democracia norte-americana: os direitos individuais como pano de fundo da organização política. O cidadão considera-se igual e livre, simultaneamente, através de sua participação na gerência dos negócios públicos, mormente os relacionados diretamente a sua pessoa, família e posses na comuna. As comunas são submetidas ao governo central somente nos negócios gerais e no social, como diz Toqueville. Nos demais assuntos, as comunas são corpos independentes. Sustenta-se esse princípio pela cultura popular, segundo a qual, o governo central não pode e não deve intervir nas comunas. Mas elas têm consciência que é seu dever auxiliar o governo central com dinheiro, licença para abrir estradas, polícia, instrução. Na França, é o agente estatal que impõe ordens às comunas e exige-lhes os deveres citados. Nos Estados Unidos, é a própria comuna que executa as obrigações exigidas pelo governo central.
Por isso é sempre um passo à frente o surgimento de uma nova associação. Neste caso é cultural. Chama-se Associação Pe. Daniel Cargin - APEDAC). Padre Daniel foi o responsável pela pesquisa, organização e preservação de material fóssil, popularmente conhecido como “árvores petrificadas”, fenômeno praticamente único no planeta presente aqui na região central do Rio Grande do Sul, Brasil.( https://pt.wikipedia.org/wiki/Daniel_Cargnin)



sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ortega y Gasset e nosso tempo. José Mauricio de Carvalho - Professor do IPTAN




Acaba de ser publicado, pela Filoczar de São Paulo, Ortega y Gasset e nosso tempo. O livro é uma continuidade de nossos estudos sobre o filósofo espanhol. Em certo sentido continua o que foi proposto em Introdução à Filosofia da Razão Vital de Ortega y Gasset, publicado em 2002, pela editora Cefil, de Londrina. Não se trata de uma ampliação da temática abordada naquela ocasião, mas de uma reconstrução de aspectos fundamentais do pensamento orteguiano, a partir dos estudos mais recentes e sistemáticos feitos sobre sua obra. Desde a publicação daquele livro muitas dezenas de tese de doutoramento foram defendidas sobre o autor, surgiu a revista do Centro de Estúdios Orteguianos, que estuda exclusivamente sua obra, e uma nova edição comentada de suas Obras Completas foi publicada pela Taurus. Muitos desses estudos renovaram nossa compreensão do pensamento do filósofo.
Questões que no primeiro livro foram apresentadas como intuição e rapidamente comentadas, por exemplo a aproximação do raciovitalismo com a fenomenologia de Husserl, assunto controverso pois era negado pelo próprio filósofo, foram confirmadas com estudos mais recentes de uma nova geração de pesquisadores. Ficou bem demonstrado que Ortega conhecia apenas uma parte pequena da obra do criador da fenomenologia. Também ficou demonstrado o impacto do pensamento de Heidegger sobre a razão histórica e os livros da chamada segunda navegação. Além disso, a noção de razão vital apresentada como aprofundamento da ideia de autenticidade da vida em circunstância, isto é, dos assuntos propostos nos primeiros escritos parecem consolidadas com as últimas pesquisas sobre o autor. Ficou mais claro que os textos da década de trinta constituem uma segunda navegação, mas não propriamente uma mudança nos rumos da meditação inicial. E há muito mais novidade, os estudos sobre o tempo das massas nos permite entender melhor os dias que vivemos, ainda que muitos aspectos de nosso tempo Ortega tenha apenas vislumbrado, e há ainda a inédita aproximação com Karl Jaspers que estamos também antecipando.
O livro, portanto, é essencial para todos os interessados na obra do pensador espanhol e nos estudos de Filosofia em geral, mas destina-se a um público maior. O entendimento de que estamos num tempo de crise de valores é percebido hoje ainda mais que nos dias em que viveu Ortega e esse desvio do homem contemporâneo de crenças que guiaram as gerações anteriores, pede a compreensão da realidade humana, impregnada por questões onde a ética se torna um esforço de sentido. Esse compromisso de fidelidade do homem consigo mesmo e com o significado de sua vida é apresentado por Ortega como resposta a um tempo histórico e a uma sociedade que, sem referentes comuns, exige o extraordinário empenho de todos nós para encontrar sua missão. Missão entendida como concreta vocação que exprime o legado que somente o indivíduo é capaz de deixar para todos os homens em todos os tempos. Isto porque as escolhas que fazemos marcam não só nossa história pessoal, mas a trajetória da sociedade que vivemos.

Finalmente, o livro permite entender a Filosofia como atividade necessária e adequada a todo homem. A Filosofia é mais ou menos procurada ao longo da sua longa tradição de mais de dois mil e quinhentos anos de história. Em nossos dias refletir sobre a vida, tema essencial de Ortega, é exigência para a superação da rotina de trivialidades, de trabalhos superficiais e da luta pela sobrevivência, que geralmente ofuscam o que a vida tem de mais encantadora, desafiadora, saudável e realizadora. Não é a toa que pesquisas recentes mostram que o estudo da Filosofia melhora a inteligência das crianças e torna melhor a vida do adulto.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

AS RELIGIÕES E SUAS ÉTICAS. Selvino Antonio Malfatti






1.    Modelos de Teodiceias
O pensamento religioso de Max Weber tem como pano de fundo as Três Formas da Teodiceia.  As teodiceias são grandes construções teóricas que tentam encaixar toda realidade existente dando-lhe coerência e sentido. São como as teorias, no entanto sob o ponto de vista religioso. Para Weber existem três grandes modelos de teodiceias:

1º O Dualismo. É uma das formas mais difundidas e existe em diversas religiões. O zoroastrismo talvez fosse o modelo mais perfeito desta forma de teodiceia. O conteúdo religioso contempla a dualidade entre o bem e o mal religioso. Nesse sentido há o puro e o impuro. O deus do bem e o do mal, o virtuoso e o pecador. O problema é que esta crença ou teodiceia envolve uma contradição. Há um deus que possui seus poderes limitados por um rival. A ideia de salvação, através de um Salvador, como na teodiceia cristã, avançou esta concepção para a vitória do bem. Para os bons ficaria reservado o céu e para os maus o inferno. O responsável pelo inferno é uma criatura subordinada ao Deus do céu. O Deus do céu, superior, castiga o deus do inferno com todos os seus, condenando-os ao sofrimento infinito e eterno.

2º Predestinação. Nessa teodiceia se acredita que o homem é incapaz de conhecer qualquer desígnio de Deus. E por isso nada de bom pode fazer, cabendo a Deus a liberdade de escolher quem quer para a salvação. O condenado é um réprobo que merece este castigo e nada pode reclamar.
3º Salvação universal. Esta crença se poderia encontrar na religiosidade dos intelectuais indianos. A autorrealização do homem está garantida na salvação universal.

2.    A Ética das Religiões Mundiais
Weber propõe, como hipótese, que a confissão religiosa cria uma ética e esta influi tanto na atividade como no desempenho econômico. Ele a denomina genericamente de “ética econômica”. Pensa que o que anda nas consciências tem eco na economia. Há, por isso, conforme ele, um imbricamento entre religião, ética e economia. Isto não significa que uma economia seja exclusivamente determinada pela religião. Não significa, igualmente, que uma determinada ética produzirá sempre a mesma atividade econômica e nem mesmo que uma determinada atividade econômica só pode adaptar-se a uma determinada ética.
Em cada sociedade, com uma determinada religião há camadas sociais. Entre estas camadas sociais há uma que se sobressaia e influencia a religião mais que as outras e, consequentemente, tem mais peso ético e em decorrência também é preponderante na economia. As grandes religiões mundiais também tinham uma determinada camada que era mais significativa que as outras.

 1º confucionismo e taoismo era a ética dos prebendários, cuja educação literária provocava o racionalismo secular. Quem não pertencia a esta camada culta não tinha influência. A ética desta camada determinou o modo de vida dos chineses para sua própria camada e das demais. Esta camada distribuía o poder dentro da sociedade. Determinava o papel do imperador e das províncias. As funções dos mandarins (burocratas). O universo era visto como uma ordem eterna – Tao. Desenvolveu através de Lao-tsé uma mística que evoluiu para a magia e como consequência impediu o surgimento de práticas racionais.

2º hinduísmo e budismo. Era praticado por casta hereditária de letrados, que, embora não tivessem cargos, atuavam como conselheiros ritualistas e espirituais para indivíduos ou comunidades. Era uma sociedade de castas, as quais formavam uma ordem hierárquica, cujo topo era ocupado pelos brâmanes. Depois vinham os guerreiros, comerciantes, agricultores e por fim os trabalhadores. O intercâmbio entre as castas era proibido. Acreditavam na reencarnação e como todas as religiões orientais eram místicas. Os brâmanes constituíam um centro em torno do qual gravitava toda a organização social. Os brâmanes, educados nos Veda, era o estamento plenamente aceito. Mais tarde surge outro estamento, não brâmane, que passou a competir com eles. O budismo era constituído por monges contemplativos, mendicantes e errantes. Eram considerados membros integrais das comunidades religiosas. Os demais eram considerados inferiores, objetos e não sujeitos de religiosidade.

3º O islamismo. Inicialmente uma religião de guerreiros cujo objetivo era conquistar o mundo. Eram como os cruzados cristãos, mas sem o seu ascetismo sexual. Em torno do século VII d.C, surgiu o misticismo maometano, cujo resultado foi um simbolismo complexo. 

4º judaísmo. Após o exílio, os hebreus perambularam como um povo pária, isto é, o único vínculo era o Deus comum, Javé. Com a elaboração de uma lei sacerdotal, levada adiante pelos levitas, juntamente com a pregação dos profetas, abriu espaço para um caráter prático e ético, expurgando as crenças de magias que grassavam no meio do povo. Durante a Idade Média conseguiu que uma camada de intelectuais que imantava os diversos grupos esparsos pelo mundo. Esta camada representou a intelectualidade pequeno-burguesa, racionalista, mas quase proletária.

4º O cristianismo. O cristianismo - pensa Weber-  iniciou como uma doutrina de artesãos, jornaleiros itinerantes. Permaneceu sempre como uma religião urbana e cívica. Em todos os períodos manteve este caráter: antiguidade, Idade Média e Época moderna. A cidade do ocidente, diferente de todas do mundo da época, com um corpo de cidadãos, foi o palco do cristianismo. A ética pregada era privação, do ascetismo. A verdadeira vida vinha após a morte.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

PORTA SANTA. Selvino Antonio Malfatti













No dia 8 de maio deste ano em várias dioceses do Brasil foram abertas as Portas Santas. Em Santa Maria, o evento religioso foi comemorado no Santuário estadual da Medianeira e Santuario de Schoenstatt. Este acontecimento religioso católico está inserido no contexto do Ano Jubilar da Misericórdia, determinado pelo Papa Francisco. O período durará de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016, considerado Ano Santo da Misericórdia. Os católicos que cumprirem com as exigências poderão receber o perdão completo dos pecados até mesmo dos sujeitos à excomunhão como aborto e crimes de sangue.
Nas dioceses escolhidas pelo papa, os bispos indicarão os templos que terão a Porta Santa. Consiste numa porta de entrada de igreja, devidamente assinalada com as cores do Vaticano, que será aberta pelo bispo no dia indicado. Quem, com intenção de arrependimento, entrar por aquela Porta receberá o perdão dos pecados. Para tanto, os católicos deverão:
– Passar pela Porta Santa
– Confessar-se
– Comungar e refletir sobre a misericórdia
– Rezar nas intenções do Papa (a Profissão de Fe ou Credo).
A origem da prática da Porta Santa é pré-cristã. Os fundamentos estão no Jubileu hebraico que consistia em cada 50 anos propiciar o repouso da Terra. Evidentemente era uma medida com o objetivo de tornar a terra mais produtiva para os anos seguintes. Neste ano eram devolvidas as terras confiscadas para pagamentos de dívidas e a libertação de uma boa parte dos escravos. A origem da palavra jubileu está no corno de carneiro, jobel, que soava marcando o início da data.
Da parte dos cristãos a instituição do Jubileu surgiu com a prática da peregrinação a Roma a qual iniciou mais ou menos espontaneamente. Desde os primeiros séculos da era cristã periodicamente multidões de peregrinos costumavam a se dirigir a Roma. No século sétimo a cidade de Roma foi substituída por Jerusalém. No entanto, as peregrinações de fim de ano continuavam a afluir a Roma. Foi então que Bonifácio VIII, no ano de 1300, lançou o primeiro Ano Santo. Determinava que quem visitasse durante o período de 30 dias, para os romanos, e 15 para os peregrinos, as basílicas de São Pedro e São Paulo receberia o completo perdão dos pecados.
Já no século XV as peregrinações continuavam a se sucederem e passaram a ser fonte de rendimentos para hospedeiros, banqueiros e comerciantes. Evidente que enormes somas iam parar nos cofres da Igreja. O papa Nicolau V, no século XV, inovou ao determinar que quem não pudesse ir a Roma poderia receber a indulgência pagando uma determinada quantia de dinheiro.
Embora a ganância pelo dinheiro aumentasse sempre mais e as touradas passaram a ser o grande evento dos peregrinos, a celebração mantinha-se dentro dos padrões. A venda das indulgências, contudo, extrapolou os limites. Tornou-se um mercado. Quem não tinha algum pecado escondido no fundo do baú louco para se livrar? Agora se tornou fácil. Bastava pagar, e pronto! Estava livre. Propagou-se de tal maneira que levou ao cisma do cristianismo ocidental europeu após a reforma de Lutero e o esfacelamento religioso cristão.
Foi no pontificado de Alexandre VI que se fizeram algumas modificações na instituição da Porta Santa. Foi com ele que se introduziu a prática da Abertura da Porta Santa nas quatro basílicas jubilares. Mais tarde a instituição foi estendida às dioceses sob a responsabilidade do Bispo.
No entanto, continuavam a se sucederem os anos jubilares com as aberturas das Portas Santas em meio à corrupção e devassidão, vícios, jogos, procissões com alegorias carnavalescas, problemas de higiene e saúde pública, com epidemias como a bubônica. Inclusive, no jubileu do ano de 1600, houve o julgamento e cremação do filósofo Giordano Bruno, pelo Tribunal da Inquisição.
A situação tornou-se tão insuportável que em 1725 o Papa Bendito XIII estabeleceu algumas proibições. Foi o caso da proibição das loterias, de cheirar tabaco no interior da Basílica de São Pedro e suspensão das touradas no Coliseu. Mas foram apenas reformas periféricas, sem atingirem o essencial.
O jubileu de 1875 em Roma ocorreu em meio a problemas entre o Vaticano e o poder civil romano, pois aquele havia sido anexado ao Reino da Itália. O Papa Pio IX trancou-se no Vaticano declarando-se prisioneiro dos “usurpadores piemonteses”.
O ano de 1950 foi marcado por novos tempos. Dois milhões e meio de fiéis participaram. Os peregrinos puderam viajar de avião. Foi canonizada Maria Goretti e proclamado o dogma da Assunção da Virgem Maria.
Já em 2000, João Paulo II estendeu a indulgência a quem acompanhasse as cerimônias por rádio ou televisão e as Portas das quatro basílicas foram abertas. As Portas Santas se espalharam pelo mundo, inclusive atualmente até há até portáteis, como as das Ilhas de Salomão.
 (Fonte: http://www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis/208511/O-Ano-Santo-da-Miseric%C3%B3rdia-Anistia-geral-a-todos-os-cat%C3%B3licos-arrependidos.htm)
             Porta Santa móvel em peregrinação pelas Ilhas Salomão


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