No capítulo 12 de 21
Lições para o século 21 (São Paulo: Companhia das Letras, 2018) o
historiador Yuval Harari avaliou o peso da moral na vida das pessoas e a
relação da moral com as religiões. Como um capítulo dessa discussão indaga-se
pelo peso da moral judaica ou dos mandamentos de Moisés sobre outros códigos
religiosos, uma vez que ele tem importância pelo menos em parte do ocidente.
Tudo isso a partir da constatação de que mundo afora há religiões que têm uma
quantidade de fiéis maiores que o judaísmo. Em seguida, ele se questionou como
toda essa gente construiu sua moralidade sem considerar esses mandamentos que
os judeus têm por basilares? De algum modo ele diminuiu o peso que a moral
judaica teria em muitas comunidades e religiões mundo afora. Podemos contrapor
que, pelo menos no caso do cristianismo com mais de dois bilhões de pessoas, o
judaísmo estaria na sua base e, de forma um pouco diversa, está igualmente na
raiz do islamismo.
Harari reduziu a
importância da moral judaica, pois considerou que o cristianismo tem um código
moral mais abrangente porque foi essa religião, notadamente a partir da síntese
de Paulo de Tarso, que considerou os compromissos morais não apenas como um
legado de Moisés para seu povo, mas para todos os povos. Ele esclareceu o que
avaliava (p. 238): “o apóstolo Paulo estipulou em sua famosa epístola aos
Gálatas que não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, nem há homem ou
mulher, pois todos vós sois um em Jesus Cristo.” Porém, esse entendimento de
que a lei mosaica é circunscrita aos judeus é uma leitura limitada da sua
moral.
Para fundamentar sua
posição, Harari afirmou que, ao contrário de boa parte dos estudiosos do
judaísmo, os compromissos dos judeus são maiores entre si e que o código não
trata os nãos judeus com a mesma dignidade. Em outras palavras (id., p. 237):
“é permitido a um judeu profanar o Shabat para salvar um judeu da morte,
mas é proibido fazer o mesmo para salvar um gentio.” Portanto, a moral judaica
seria insuficiente ou inadequada porque se limita a estabelecer um código para
o grupo, não possuindo abrangência universal
O historiador foi
ainda mais fundo em sua crítica quando retrocedeu o horizonte das sociedades
humanas e associou o comportamento moral ao processo evolutivo presente até nos
animais sociais (id., p. 235): “os cientistas hoje afirmam que a moralidade, na
verdade, tem profundas raízes evolutivas que precedem o surgimento do gênero
humano em milhões de anos.” Ele disse que mesmo animais sociais como lobos,
golfinhos e macacos possuem códigos éticos, mas o que seria correto afirmar é
que os animais podem demonstrar uma conduta moral, ainda que pouco
desenvolvida. Ele mencionou alguns exemplos como o do chimpanzé Oscar que ficou
órfão e não tinha uma mãe disposta a acolhê-lo na sua tribo, sobrecarregadas
que estavam aquelas fêmeas com as próprias crias. Em meio a suas dificuldades o
pequeno animal foi adotado pelo macho alfa do grupo. Aquele animal acabou
sensibilizado pela fome e fragilidade do pequeno chimpanzé órfão e passou a
protegê-lo e a cuidar dele.
Há na exposição de
Harari pontos a ajustar. Por exemplo, quanto à redução da
universalidade de moral judaica o que nos parece mais exato é exatamente o
contrário. Ao examinar o prefácio de El
prójimo: cuatro ensayos sobre la correlación práctica de ser humano a ser
humano según la doctrina del judaísmo,
escrito pelo judeu neokantiano
Herman Cohen, Martin Buber fez observações preciosas sobre a extensão da moral
judaica como comentamos no capítulo A
intersubjetividade em Martin Buber e na Filosofia Clínica no livro Diálogos, Martin Buber e a Filosofia Clínica
(p. 41): “Ele resume a moral judaica a partir de algumas de frases como: “Ama o
teu companheiro como alguém que é como tu”.
E mais adiante completa: “Ama o hóspede como alguém que é como tu”. A partir de
frases como essas, das quais Cohen comentou os compromissos da moral judaica e
mesmo de um humanismo judaico, Buber considerou serem essas as bases de uma
ética universal. Buber afirmou que
devemos admitir, a partir das palavras de Cohen, que a moralidade e o humanismo
judaico como sendo estabelecidos sobre a seguinte base: “Ama o teu
próximo, pois ele é como tu, porque vocês conhecem a alma do ser humano que se
encontra em situação de extrema necessidade, sede amorosos com ele, pois vocês
mesmos também são seres humanos e padeceis a mesma e extrema necessidade
humana. Assim há de ler-se a mensagem do Antigo Testamento.” Buber desconstrói
inteiramente a limitação da moral judaica, mesmo que alguns judeus limitem sua
ação ao próprio grupo.”
Quanto à observação de que grupos humanos e
mesmo os animais sociais podem adotar comportamentos de cuidado mútuo de
membros do grupo, isso é plausível. Frequentemente isso ocorre de forma natural
ou espontânea, mas pode ser também aprendido. De toda forma, é preciso
diferenciar esse comportamento pouco elaborado de ajuda da sistemática reflexão
sobre os procedimentos que regulam a vida coletiva. No caso humano, sem uma
justificativa, o comportamento imoral ou amoral pode ser perfeitamente
defendido. A ética é mais que a adoção ou reconhecimento de uma conduta moral,
é um modelo teórico construído sobre princípios racionais que estruturam
comportamentos justificados como sendo os melhores numa dada situação. Essa
distinção é relativamente simples e banal, mas tem sido deixada de lado quando
não se considera a relevância da reflexão sistemática e a fundamentação dos
costumes. Apenas ela assegura que certos comportamentos ganham consistência no
respeito aos valores mais importantes da existência. Essa distinção pode ser
melhor apresentada como está abaixo no livro Ética (CARVALHO, 2010, p.
11/12): “A Ética é uma disciplina filosófica, sua criação é atribuída ao grego
Aristóteles que a organizou como estudo dos costumes. Neste sentido, seu
material não é uma criação dos filósofos, embora o sejam as considerações
racionais ou a forma de pensar os costumes. Muitos séculos mais tarde da origem
histórica da Ética, o filósofo alemão Immanuel Kant torna o que disse
Aristóteles mais claro ao propor na Doutrina
da Virtude (1797) que “a Ética não dá a lei para as ações, mas apenas as
máximas das ações”. Os costumes que um
grupo adota e a disciplina que nasce dos princípios reconhecidos como bons
permitem a boa convivência entre os seus membros. Os costumes ou mores
formam um conjunto de regras desejáveis de comportamento para o grupo. Este é o primeiro sentido de moral, a
primeira forma como ela foi conhecida. Moral é, portanto, um conjunto de normas
sobre as quais se debruça o filósofo. Portanto, as lições de Aristóteles
apontavam para uma disciplina que surge como necessidade de justificação
racional dos costumes. Esta distinção foi usada durante muitos séculos. No
mundo moderno a distinção não pareceu tão importante, Kant mesmo não a
utilizou, pois a origem etimológica de Ética e Moral não é diferente. De todo
modo, parece interessante observar que costumes e valores nascem
espontaneamente na vida das pessoas e grupos e estes materiais se tornam objeto
de estudo para os filósofos. Logo, a Ética, como disciplina filosófica, faz a
análise racional dos costumes para apontar seu fundamento, validar suas razões,
esclarecer seus objetivos, etc.”
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