sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Moralidade e ética, José Mauricio de Carvalho

 




No capítulo 12 de 21 Lições para o século 21 (São Paulo: Companhia das Letras, 2018) o historiador Yuval Harari avaliou o peso da moral na vida das pessoas e a relação da moral com as religiões. Como um capítulo dessa discussão indaga-se pelo peso da moral judaica ou dos mandamentos de Moisés sobre outros códigos religiosos, uma vez que ele tem importância pelo menos em parte do ocidente. Tudo isso a partir da constatação de que mundo afora há religiões que têm uma quantidade de fiéis maiores que o judaísmo. Em seguida, ele se questionou como toda essa gente construiu sua moralidade sem considerar esses mandamentos que os judeus têm por basilares? De algum modo ele diminuiu o peso que a moral judaica teria em muitas comunidades e religiões mundo afora. Podemos contrapor que, pelo menos no caso do cristianismo com mais de dois bilhões de pessoas, o judaísmo estaria na sua base e, de forma um pouco diversa, está igualmente na raiz do islamismo.

Harari reduziu a importância da moral judaica, pois considerou que o cristianismo tem um código moral mais abrangente porque foi essa religião, notadamente a partir da síntese de Paulo de Tarso, que considerou os compromissos morais não apenas como um legado de Moisés para seu povo, mas para todos os povos. Ele esclareceu o que avaliava (p. 238): “o apóstolo Paulo estipulou em sua famosa epístola aos Gálatas que não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, nem há homem ou mulher, pois todos vós sois um em Jesus Cristo.” Porém, esse entendimento de que a lei mosaica é circunscrita aos judeus é uma leitura limitada da sua moral.

Para fundamentar sua posição, Harari afirmou que, ao contrário de boa parte dos estudiosos do judaísmo, os compromissos dos judeus são maiores entre si e que o código não trata os nãos judeus com a mesma dignidade. Em outras palavras (id., p. 237): “é permitido a um judeu profanar o Shabat para salvar um judeu da morte, mas é proibido fazer o mesmo para salvar um gentio.” Portanto, a moral judaica seria insuficiente ou inadequada porque se limita a estabelecer um código para o grupo, não possuindo abrangência universal

O historiador foi ainda mais fundo em sua crítica quando retrocedeu o horizonte das sociedades humanas e associou o comportamento moral ao processo evolutivo presente até nos animais sociais (id., p. 235): “os cientistas hoje afirmam que a moralidade, na verdade, tem profundas raízes evolutivas que precedem o surgimento do gênero humano em milhões de anos.” Ele disse que mesmo animais sociais como lobos, golfinhos e macacos possuem códigos éticos, mas o que seria correto afirmar é que os animais podem demonstrar uma conduta moral, ainda que pouco desenvolvida. Ele mencionou alguns exemplos como o do chimpanzé Oscar que ficou órfão e não tinha uma mãe disposta a acolhê-lo na sua tribo, sobrecarregadas que estavam aquelas fêmeas com as próprias crias. Em meio a suas dificuldades o pequeno animal foi adotado pelo macho alfa do grupo. Aquele animal acabou sensibilizado pela fome e fragilidade do pequeno chimpanzé órfão e passou a protegê-lo e a cuidar dele.

Há na exposição de Harari pontos a ajustar. Por exemplo, quanto à redução da universalidade de moral judaica o que nos parece mais exato é exatamente o contrário. Ao examinar o prefácio de El prójimo: cuatro ensayos sobre la correlación práctica de ser humano a ser humano según la doctrina del judaísmo, escrito pelo judeu neokantiano Herman Cohen, Martin Buber fez observações preciosas sobre a extensão da moral judaica como comentamos no capítulo A intersubjetividade em Martin Buber e na Filosofia Clínica no livro Diálogos, Martin Buber e a Filosofia Clínica (p. 41): “Ele resume a moral judaica a partir de algumas de frases como: “Ama o teu companheiro como alguém que é como tu”. E mais adiante completa: “Ama o hóspede como alguém que é como tu”. A partir de frases como essas, das quais Cohen comentou os compromissos da moral judaica e mesmo de um humanismo judaico, Buber considerou serem essas as bases de uma ética universal. Buber afirmou que devemos admitir, a partir das palavras de Cohen, que a moralidade e o humanismo judaico como sendo estabelecidos sobre a seguinte base: “Ama o teu próximo, pois ele é como tu, porque vocês conhecem a alma do ser humano que se encontra em situação de extrema necessidade, sede amorosos com ele, pois vocês mesmos também são seres humanos e padeceis a mesma e extrema necessidade humana. Assim há de ler-se a mensagem do Antigo Testamento.” Buber desconstrói inteiramente a limitação da moral judaica, mesmo que alguns judeus limitem sua ação ao próprio grupo.”

Quanto à observação de que grupos humanos e mesmo os animais sociais podem adotar comportamentos de cuidado mútuo de membros do grupo, isso é plausível. Frequentemente isso ocorre de forma natural ou espontânea, mas pode ser também aprendido. De toda forma, é preciso diferenciar esse comportamento pouco elaborado de ajuda da sistemática reflexão sobre os procedimentos que regulam a vida coletiva. No caso humano, sem uma justificativa, o comportamento imoral ou amoral pode ser perfeitamente defendido. A ética é mais que a adoção ou reconhecimento de uma conduta moral, é um modelo teórico construído sobre princípios racionais que estruturam comportamentos justificados como sendo os melhores numa dada situação. Essa distinção é relativamente simples e banal, mas tem sido deixada de lado quando não se considera a relevância da reflexão sistemática e a fundamentação dos costumes. Apenas ela assegura que certos comportamentos ganham consistência no respeito aos valores mais importantes da existência. Essa distinção pode ser melhor apresentada como está abaixo no livro Ética (CARVALHO, 2010, p. 11/12): “A Ética é uma disciplina filosófica, sua criação é atribuída ao grego Aristóteles que a organizou como estudo dos costumes. Neste sentido, seu material não é uma criação dos filósofos, embora o sejam as considerações racionais ou a forma de pensar os costumes. Muitos séculos mais tarde da origem histórica da Ética, o filósofo alemão Immanuel Kant torna o que disse Aristóteles mais claro ao propor na Doutrina da Virtude (1797) que “a Ética não dá a lei para as ações, mas apenas as máximas das ações”.   Os costumes que um grupo adota e a disciplina que nasce dos princípios reconhecidos como bons permitem a boa convivência entre os seus membros. Os costumes ou mores formam um conjunto de regras desejáveis de comportamento para o grupo.  Este é o primeiro sentido de moral, a primeira forma como ela foi conhecida. Moral é, portanto, um conjunto de normas sobre as quais se debruça o filósofo. Portanto, as lições de Aristóteles apontavam para uma disciplina que surge como necessidade de justificação racional dos costumes. Esta distinção foi usada durante muitos séculos. No mundo moderno a distinção não pareceu tão importante, Kant mesmo não a utilizou, pois a origem etimológica de Ética e Moral não é diferente. De todo modo, parece interessante observar que costumes e valores nascem espontaneamente na vida das pessoas e grupos e estes materiais se tornam objeto de estudo para os filósofos. Logo, a Ética, como disciplina filosófica, faz a análise racional dos costumes para apontar seu fundamento, validar suas razões, esclarecer seus objetivos, etc.”

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