Em Indícios da pós-modernidade (2023) Bauman
avaliou um fato que mudou a vida da humanidade no final do século passado: o
fim da União Soviética. Aquele acontecimento antecipou, na prática, o fim do
século XX, ou da forma como ele se desenrolou, acelerando algumas mudanças que
começavam a acontecer. Com o acontecido se perdeu a comparação entre a forma de
vida ocidental, liberal e democrática, e o modo de vida das nações orientais,
comunista e autoritária.
Houveram grupos que se perderam de início nesse novo
mundo, a burocracia da guerra que pautava o desenvolvimento armamentista no
medo que um bloco tinha do outro. Essa burocracia usava o medo da guerra e
dominação estrangeira para controlar (BAUMAN, 2023, p. 262): “e extrair seu
sustento da maior indústria de armas que existiu em qualquer tempo de paz da
história.” Não era preciso que houvesse guerra para continuar a produzir armas,
mas era preciso que houvesse medo.
Houve também um descaminho no universo intelectual,
de um lado inúmeros departamentos e institutos de pesquisa que se dedicavam a
conhecer e avaliar a vida dos habitantes do leste, ficaram sem objeto. E um
impacto ainda mais profundo, o fim do comunismo colocou em dúvida as propostas
de uma sociedade mais justa, mesmo no universo das sociedades livres. Setores à
direita do espectro político passaram a considerar o regime da liberdade
mercado livre como uma forma perfeita de vida. Bauman observou de forma exata
(id., p. 264): “que mesmo que tecnicamente mais viável, ela pode ainda não ser
totalmente impecável, nem a mais justa das ordens concebíveis; que pode estar
urgentemente precisando de uma revisão e melhorias.” O problema é que o fim do
comunismo real minou as propostas de uma sociedade menos injusta.
O primeiro problema que surgiu dessa interpretação é
que os estados totalitários não eram apenas o comunista. Há setores à direita
claramente favoráveis a alternativas totalitárias e o mal maior é o
totalitarismo, quer de esquerda, quer de direita. Daí o obvio (id., 265):
“sugerir que a utopia comunista foi o único vírus responsável pelas aflições
totalitárias seria propagar uma ilusão perigosa, que é tanto tecnicamente
incapacitante quanto politicamente desarmante – para as futuras oportunidades
da democracia, um erro caro, talvez até letal.”
A questão de fundo é que muito do que se procurava
no comunismo era parte do sonho de segurança da modernidade, que também estava
presente, mesmo que de outra forma, no modo de vida ocidental. E a fluidez do
mundo pós-moderno diluiu o sonho moderno, tanto o que se consolidou no
comunismo, como o que havia na própria sociedade ocidental. Isso significa um
problema complicado por que o ocidente sempre soube assumir suas crises e
dificuldades como desafios para superar e seguir adiante na consolidação dos valores
da pessoa humana. É claro que esse historicismo axiológico não se encontra em
Bauman, mas parece uma alternativa coerente para superar os problemas que ele
apontou.
O problema do ocidente hoje é que, ao contrário de
outros momentos da história (id., p. 271): “ele não tem inimigos eficazes nem
internos, nem bárbaros batendo em seus portões, apenas aduladores e
imitadores.” Daí quem se beneficia desse estado de coisas trabalha para
considerá-lo perfeito e eterno. E o estado do bem-estar social, que tinha seus
méritos ficou a parte. O trabalho intelectual, a preservação e aprofundamento
de aspectos da cultura vindos da modernidade foi deixado de lado e acabou
sugerindo uma crise nas universidades.
Pois bem, ficam os intelectuais desafiados a
encontrar repostas para o futuro da humanidade que estejam fora do comunismo,
mas que não se restrinjam a sugestão de privatização da responsabilidade pelo
futuro do cidadão. Não há respostas fáceis e prontas. Alerta Bauman
precisamente (id., p. 274): “a crítica da liberdade apenas de mercado pode
levar à destruição da liberdade como tal.” Isso porque já está claro (id., p.
275): “que a liberdade confinada à escolha do consumidor é claramente
inadequada para a execução das tarefas de vida que confrontam uma
individualidade privatizada (por exemplo, para a construção da identidade).” Um
tal ambiente é um desafio, ele exige uma análise precisa do que está
acontecendo para buscar alternativas a uma vida boa e decente, embora a crítica
para tanto não seja simples.
As críticas de Bauman à sociedade de consumo, os
perigos que ele enunciou, mostram a extensão do desafio de reconstruir o
universo intelectual com alternativas que não repitam as que vieram da
modernidade sólida. Por outro lado, que não se pode acreditar que a sociedade
de consumo e de massa atual, hedonista e consumista, tenha as repostas mais
exatas para os dilemas humanos. Para nós, uma alternativa possível está no
desenvolvimento do historicismo axiológico tal como o concebeu Miguel Reale,
mas completado pelo que a filosofia atual identificou ser necessário para
repensar a subjetividade moderna. E como parte desse processo intelectual
parece necessário a reconstrução de um pensamento político de centro
democrático, mais à direita e mais à esquerda, não importa. Um centro democrático
é uma alternativa mais razoável que a polarização entre direita e esquerda
atualmente alimentada pela radicalização da direita. Isso porque a esquerda
ficou com pouca munição com o fim do comunismo e foi forçada a se aproximar do
centro. Algo assim precisa vir da direita.
Uma sociedade justa?
ResponderExcluirNão acredito num mundo de igualdade, onde todos tenham o pão de cada dia.
Reconstruir um pensamento político, passa pelo entendimento que falhamos, hoje temos preço.
ResponderExcluirE chegamos ao fundo do poço, precisamos sair desta bolha de um paternalismo miserável, porque não temos um governo.
ExcluirTemos os intocáveis e um povo sofrido, pagando altos impostos, para manter o desgoverno.
Menos a esquerda, que abandonou todo projeto político, só tem projeto de poder e bem estar, aos companheiros.
ResponderExcluirFalar de sociedade justa, seria falar de ética e honestidade, estamos carentes de bons exemplos.
ResponderExcluirTalvez direita ou esquerda, não importe mesmo.
ResponderExcluirO sistema está falido, homens estão na vitrine, manequins com preço.
Democracia no brete.
ResponderExcluirEsvaziamento, medo, insegurança, pior não pode ficar.
Precisamos apreender as lições não existem salvadores, precisamos de planejamento, metas claras e representantes do povo comprometido com os eleitores.
Descaminho no universo intelectual???
ResponderExcluirVamos dar o nome CERTO, viraram doutrinadores, que triste!, poderiam ter formado algumas gerações de homens que amam a pátria e se orgulham de ser brasileiros.
A ditadura ao menos ensinava o respeito, ética e amor ao BRASIL.
Cantar o hino nacional, frente a nossa bandeira, era emoção, amor e orgulho de ser brasileiro.
Concordo com você.
ResponderExcluirHavia ordem, crianças e adolescentes sabiam e respeitavam pais e professores.
O quê está aí é o que não dá Certo, é desconstrução de valores.
ResponderExcluirA falência de tudo isto, é o que vemos, o descrédito.
Falta confiança.
É uma reflexão muito complexa, mas é isto, as ciências dialogam, os grandes pensadores procuram respostas.
ResponderExcluirO mundo é uma obra espetacular, perfeita.