sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O medo e o esvaziamento de propostas para uma sociedade justa. José Mauricio de Carvalho

 



Em Indícios da pós-modernidade (2023) Bauman avaliou um fato que mudou a vida da humanidade no final do século passado: o fim da União Soviética. Aquele acontecimento antecipou, na prática, o fim do século XX, ou da forma como ele se desenrolou, acelerando algumas mudanças que começavam a acontecer. Com o acontecido se perdeu a comparação entre a forma de vida ocidental, liberal e democrática, e o modo de vida das nações orientais, comunista e autoritária.

Houveram grupos que se perderam de início nesse novo mundo, a burocracia da guerra que pautava o desenvolvimento armamentista no medo que um bloco tinha do outro. Essa burocracia usava o medo da guerra e dominação estrangeira para controlar (BAUMAN, 2023, p. 262): “e extrair seu sustento da maior indústria de armas que existiu em qualquer tempo de paz da história.” Não era preciso que houvesse guerra para continuar a produzir armas, mas era preciso que houvesse medo.

Houve também um descaminho no universo intelectual, de um lado inúmeros departamentos e institutos de pesquisa que se dedicavam a conhecer e avaliar a vida dos habitantes do leste, ficaram sem objeto. E um impacto ainda mais profundo, o fim do comunismo colocou em dúvida as propostas de uma sociedade mais justa, mesmo no universo das sociedades livres. Setores à direita do espectro político passaram a considerar o regime da liberdade mercado livre como uma forma perfeita de vida. Bauman observou de forma exata (id., p. 264): “que mesmo que tecnicamente mais viável, ela pode ainda não ser totalmente impecável, nem a mais justa das ordens concebíveis; que pode estar urgentemente precisando de uma revisão e melhorias.” O problema é que o fim do comunismo real minou as propostas de uma sociedade menos injusta.

O primeiro problema que surgiu dessa interpretação é que os estados totalitários não eram apenas o comunista. Há setores à direita claramente favoráveis a alternativas totalitárias e o mal maior é o totalitarismo, quer de esquerda, quer de direita. Daí o obvio (id., 265): “sugerir que a utopia comunista foi o único vírus responsável pelas aflições totalitárias seria propagar uma ilusão perigosa, que é tanto tecnicamente incapacitante quanto politicamente desarmante – para as futuras oportunidades da democracia, um erro caro, talvez até letal.”

A questão de fundo é que muito do que se procurava no comunismo era parte do sonho de segurança da modernidade, que também estava presente, mesmo que de outra forma, no modo de vida ocidental. E a fluidez do mundo pós-moderno diluiu o sonho moderno, tanto o que se consolidou no comunismo, como o que havia na própria sociedade ocidental. Isso significa um problema complicado por que o ocidente sempre soube assumir suas crises e dificuldades como desafios para superar e seguir adiante na consolidação dos valores da pessoa humana. É claro que esse historicismo axiológico não se encontra em Bauman, mas parece uma alternativa coerente para superar os problemas que ele apontou.

O problema do ocidente hoje é que, ao contrário de outros momentos da história (id., p. 271): “ele não tem inimigos eficazes nem internos, nem bárbaros batendo em seus portões, apenas aduladores e imitadores.” Daí quem se beneficia desse estado de coisas trabalha para considerá-lo perfeito e eterno. E o estado do bem-estar social, que tinha seus méritos ficou a parte. O trabalho intelectual, a preservação e aprofundamento de aspectos da cultura vindos da modernidade foi deixado de lado e acabou sugerindo uma crise nas universidades.

Pois bem, ficam os intelectuais desafiados a encontrar repostas para o futuro da humanidade que estejam fora do comunismo, mas que não se restrinjam a sugestão de privatização da responsabilidade pelo futuro do cidadão. Não há respostas fáceis e prontas. Alerta Bauman precisamente (id., p. 274): “a crítica da liberdade apenas de mercado pode levar à destruição da liberdade como tal.” Isso porque já está claro (id., p. 275): “que a liberdade confinada à escolha do consumidor é claramente inadequada para a execução das tarefas de vida que confrontam uma individualidade privatizada (por exemplo, para a construção da identidade).” Um tal ambiente é um desafio, ele exige uma análise precisa do que está acontecendo para buscar alternativas a uma vida boa e decente, embora a crítica para tanto não seja simples. 

As críticas de Bauman à sociedade de consumo, os perigos que ele enunciou, mostram a extensão do desafio de reconstruir o universo intelectual com alternativas que não repitam as que vieram da modernidade sólida. Por outro lado, que não se pode acreditar que a sociedade de consumo e de massa atual, hedonista e consumista, tenha as repostas mais exatas para os dilemas humanos. Para nós, uma alternativa possível está no desenvolvimento do historicismo axiológico tal como o concebeu Miguel Reale, mas completado pelo que a filosofia atual identificou ser necessário para repensar a subjetividade moderna. E como parte desse processo intelectual parece necessário a reconstrução de um pensamento político de centro democrático, mais à direita e mais à esquerda, não importa. Um centro democrático é uma alternativa mais razoável que a polarização entre direita e esquerda atualmente alimentada pela radicalização da direita. Isso porque a esquerda ficou com pouca munição com o fim do comunismo e foi forçada a se aproximar do centro. Algo assim precisa vir da direita.

 

 

Um comentário:

  1. Uma sociedade justa?
    Não acredito num mundo de igualdade, onde todos tenham o pão de cada dia.

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