sexta-feira, 24 de julho de 2020

O reencontro homem moderno com o mundo natural. José Mauricio de Carvalho – pós-doutorando do NUPES/UFJF


Quando tentamos fazer síntese do que houve num século ou num tempo ainda mais extenso que uma centúria, corremos dois grandes riscos. O primeiro é saber como bem caracterizar e apontar o essencial de um período tão longo. O segundo é a superficialidade e o engano porque à medida que avançam os anos e as pesquisas, mudamos o olhar para o passado e ele começa a ficar diferente quando fica iluminado pelos novos estudos. Em outras palavras, quanto mais sabemos do passado mais diferente ele nos parece do que dele nos fora dito. Para falar do novo olhar para o mundo natural, próprio do homem no início da modernidade, temos que ter uma boa compreensão do universo cultural europeu dos séculos XVI a XVIII separando dois momentos: uma primeira metade com a ênfase nos estudos de matemática e uma segunda com os trabalhos de Física. Porém, não se pode começar a falar desse novo olhar para o mundo natural sem voltar mais para trás e é isso que procuraremos fazer a seguir.

O século XVI, e seus estudos de matemática, foi preparado pelo século anterior. Leonardo da Vinci (1452-1519) e seus contemporâneos, como Nicolau Copérnico (1473-1543), viram que a razão podia identificar os segredos do mundo e o reconstituíram com o cálculo, não mais necessitando voltar à experiência. Na esteira dessas ideias, foi que mais tarde Galileu Galilei (1564-1641) afirmou que a matemática era o alfabeto do mundo. A medida e a representação matemática da natureza foram as bases da nova ciência que nasceria em seguida. Foi nessa perspectiva que Kepler (1571-1630) descreveu o funcionamento do sistema solar, destruindo de uma só vez, a cosmologia antiga de Aristóteles e a visão medieval da natureza. Adicionalmente estimulou novas formulações filosóficas a partir do heliocentrismo. Note-se que todos esses homens não contestavam a Teologia, nem a Filosofia. A autonomia dos estudos da natureza deixava, ao contrário, mais consistente a Filosofia e a Teologia do que as antigas formulações escolásticas, pois as construções medievais amarravam os dois mundos: o da natureza e o da transcendência.

Na segunda metade do século XV, Pico della Mirandola (1463-1491) ajudou a preparar o novo momento combinando a ideia de racionalidade, resumida pela filosofia da época, com a noção teológica de criatura de Deus. (CARVALHO, O homem e a Filosofia, Porto Alegre: MKS, 2018, p. 168): “Ele escreveu em A dignidade do Homem (1988) qual era o destino humano naquele novo tempo que se iniciava: tu, porém, não estás coartado por amarra nenhuma. Antes, pela decisão do arbítrio, em cujas mãos te depositei hás de determinar a tua complexão pessoal.”

O surgimento da ciência moderna foi preparado, portanto, nos séculos XIV e XV pelo legado de homens como Mirandolla, Leonardo da Vinci e Nicolau Copérnico. Ele foi um período de transição para uma nova maneira de compreender o mundo. Esses dois séculos se seguiram aos quatrocentos ainda cheio de grandes construções metafísicas, lembro de Alberto Magno, Roger Bacon e Guilherme de Ockam. A característica mais marcante desses dois séculos foi a investigação autônoma do funcionamento da natureza. Note-se que, nesse estilo de compreensão do mundo natural não há espaço para o ateísmo, antes nota-se a importância e significado da presença de Deus, além de não se contestar o valor da Filosofia. O que então se fez foi olhar mais atentamente o funcionamento do mundo, não ainda como na ciência moderna, mas já preparando a nova mentalidade.

Se o ideal da ciência nos quatrocentos era ainda descobrir a essência pura das substâncias, com a perspectiva copernicana, trabalhada nos séculos XVI e XVII por Kepler e Galileu, esse propósito mudou na direção apontada pelo método experimental. Esse método consistia na observação dos fenômenos naturais, sua tradução em relações quantitativas e numéricas, a formulação de hipóteses explicativas dos futuros fenômenos (indução) e a verificação da hipótese com o cálculo. Se o fato observado e o cálculo chegam a resultado igual, criava-se uma lei válida para explicar a natureza.

Embora atento aos movimentos do mundo, o homem dos séculos XIV e XV fora marcado pelo humanismo, não mais o cristão da Idade Média, mas o da antiguidade clássica, redescoberto junto ao esforço de valorização das realizações humanas. E esse homem, olhando para o mundo clássico, desenvolveu um novo olhar para as relações de fé. Em que pese a existência das novas religiões cristãs, provocando o cisma da cristandade medieval, popularizou-se a ideia de uma religião natural e um direito natural, ambos acima das diferentes religiões e dos sistemas positivos do Direito. Essa forma de ver a religião ajudou a entender verdades naturais que não separavam, mas aproximavam as religiões. Quanto ao jusnaturalismo moderno, no século XVII com Samuel Puffendorf ajudou não apenas na formulação dos códigos de Direito, mas na organização do Estado Moderno sob bases diferentes da medieval. Como se encontra em O Homem e a Filosofia (Porto Alegre, MKS, 2018, p. 277): “No início da modernidade a consciência da diferença entre ética e política provocou uma crise, pois significou uma mudança radical no modo de pensar da Idade Média. Porém, aos poucos foi possível compreender a singularidade da Política.” Muito interessante que o Leviatã, livro de Thomas Hobbes (1588-1679), embora ainda concebido sob a noção de poder absoluto, admitiu um acordo onde as pessoas renunciavam ao interesse próprio em nome dos benefícios de todos e logo depois, um ajuste nessa teoria do contrato social, permitiu passar do absolutismo de Hobbes para o liberalismo e a ideia de tolerância desenvolvida por John Locke (1632-1704).

Os séculos XIV e XV prepararam, portanto, o desenvolvimento da razão experimental, afirmaram a dignidade e valor do homem com a recuperação do platonismo, contestaram a leitura de Aristóteles, popularizada na Europa Medieval, por Averróis. Ambas as coisas propiciaram, não eliminar Deus do espaço cultural, mas desnaturalizá-lo e construir uma nova ciência e um novo espaço social para substituir a cristandade medieval.

As diversas leituras e releituras feitas por especialistas desses movimentos intelectuais da modernidade mostraram que embora a ciência nunca tenha contestado a fé ou o funcionamento da razão, houve uma filosofia que começou a fazê-lo, séculos mais tarde, o positivismo. Na esteira do positivismo, já na segunda metade do século XIX, desenvolveu-se uma teoria materialista da ciência que foi nessa direção.

Na segunda parte do clássico Eu e Tu, Martin Buber resumiu a história do indivíduo e das primeiras civilizações através das expressões: mundo do Isso, que se refere à objetividade, à civilização e à ciência e mundo do Tu para se referir às relações do homem com a transcendência. As civilizações se iniciaram, lembrava Buber, com poucos objetos, o que significava que a consciência humana começou devagar a se articular na compreensão das coisas. Aos poucos, além das próprias experiências, essas antigas civilizações receberam influências de outras civilizações e os antigos impérios trocaram conhecimento sobre o mundo do Isso, quer diretamente como Roma fez da Grécia, quer indiretamente como foi a relação da sociedade medieval com a antiga Grécia. O mundo do Isso é o mundo da experiência e da utilidade. Assim, quando aumenta o experimentar e o utilizar no espaço social, amplia-se o mundo do Isso. Foi assim que Martin Buber explicou o que se passou também com a nova ciência. Ocorreu uma espécie de renovação do que houve no início das grandes civilizações. A ampliação da preocupação com as coisas e o funcionamento da natureza provocou, isso no século XIX, o esquecimento dos elementos espirituais que estavam presentes nos séculos XIV e XV. O que Buber observou não foi que Deus acabou esquecido ou a Filosofia abandonada ao longo da modernidade, mas que quando a razão humana reduz as relações espirituais e fortalece as relações com o isso, os aspectos transcendentes, metafísicos ou teológicos, ficam obscurecidos no espaço cultural e no mundo mental de cada pessoa. Ficam eclipsados para usar a expressão que o filósofo utiliza. Conhecer os mecanismos do mundo é imprescindível para o homem, mas ele também necessita das referências metafísicas e religiosas para viver. Isso significa que precisamos retomar aquela perspectiva humanista dos séculos XIV e XV, pois a ciência não nasceu e não precisa ser feita contra a transcendência e a fé.

 



sexta-feira, 17 de julho de 2020

Aristóteles, coragem para dias difíceis. José Mauricio de Carvalho – Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos.


A vida alterna momentos doces e amargos, fáceis e difíceis, realizadores e frustrantes, cheio de chegadas e partidas. É essa dinâmica existencial que se acelera nesses dias de confinamento e isolamento social. Por um lado, estamos privados dos lazeres das ruas, viagens, ansiosos pela perda dos rendimentos, do trabalho e infelizes com os planos adiados e, por outro, na intimidade, tocados pelas dores emocionais, cansaços, medos, inseguranças e incertezas do momento. Isso porque não é simples passar pelo sofrimento. Ele expõe as limitações pessoais e nossa finitude. Ela evidencia que coisas ruins simplesmente nos acontecem. Para dias difíceis, além da serenidade, a virtude da coragem é nossa melhor vestimenta. Aristóteles, como bom filósofo, ajudou a tecê-la.  

Quando olhamos a história do pensamento encontramos duas formas de considerar a coragem, ambas necessárias para dias como esse: a moral ou a justa escolha e a ontológica, isto é, a coragem de realizar o sentido do que somos, de assumir o que faz sentido para nós. Da primeira tratou Aristóteles, que viveu na antiga Grécia entre 385 e 323 a. C., a outra foi estudada por autores contemporâneos como Ortega y Gasset, Paul Tillich e Viktor Frankl.

Aqui vamos nos concentrar no que Aristóteles ensinou sobre coragem no segundo livro da Ética a Nicômaco. Naquela obra, o filósofo afirmou que “o homem que tudo teme e de tudo foge, não fazendo frente a nada, torna-se um covarde, e o homem que nada teme, mas vai ao encontro de todos os perigos torna-se temerário.” (Ética a Nicômaco, São Paulo, Nova Cultural, 1987 – os pensadores, p. 28). O que Aristóteles quis dizer é que coragem não é não sentir medo, muito menos se lançar de qualquer modo contra o perigo. O corajoso sente medo, mas o enfrenta e sabe se mover contra as dificuldades inevitáveis. Não é covarde, nem temerário. Portanto, coragem é uma virtude que está no justo meio entre a covardia e a temeridade, sendo “destruída pelo excesso e pela falta, e preservadas pela mediania.” (Id., p. 29). E do mesmo modo que o homem fica forte por ingerir bons alimentos e fazer exercícios, a coragem também se fortalece quando nos abstemos de prazeres dispensáveis e somos mais capazes de fazê-lo.

Essas lições de Aristóteles realçam que, quando nossas escolhas têm em vista o prazer puro e imediato, caímos em desejos irresponsáveis e numa existência superficial. Quem escolhe apenas o que lhe dá prazer torna-se, para o filósofo, intemperante, isto é, irresponsável ou capaz de magoar pessoas queridas e fragilizar a própria vida, comprometendo saúde e projetos.

Para Aristóteles a suprema forma de coragem é a capacidade de morrer pelo essencial. No caso essencial era ser bom cidadão e contribuir para o desenvolvimento da Polis. Ainda que seu intento seja discutível aos olhos do homem de hoje, o essencial dessa lição é que coragem não é apenas vencer os impulsos de covardia, mas fazê-lo pela grandeza dos motivos. O que fizeram, por exemplo, Sócrates e Jesus de Nazaré, ambos aceitando a morte injusta que lhes foi imposta pelos governos de suas sociedades. A aceitação corajosa da morte foi a marca de ambos. Coragem é o que caracterizava o soldado grego, sempre disposto a morrer por sua Atenas, aquela flor da Grécia democrática, linda exceção entre os antigos Impérios.

Aristóteles deixou lições preciosas para tempos difíceis. E essa capacidade de descobrir o justo meio, em cada ato, o que diferencia o homem dos outros seres. Ele é capaz de escolher uma coisa ou outra. E, pelo exercício, pelo estudo, pela meditação filosófica e treino que se aperfeiçoa a prática da coragem, sem a qual não seguimos pelo caminho da justiça, como é defender o bom, o belo, a verdade, ou seja, nosso Deus, nossa família, nossos amigos e nossa pátria. Quando agimos querendo o que é bom purificamos nossas ações e nos afastamos do ódio e de tudo o que destrói pessoas e sociedades.

Aristóteles nos convida a agir com coragem, a nos mover com a claridade da razão, tomando cuidados com a saúde, mas seguindo imperturbável na realização das tarefas que não podemos deixar. Vivendo numa sociedade superficial e incapaz de aprofundar a discussão política, perdida em discussões inúteis, cabe preservar a justa indignação contra o mal, não fazer concessões a ele, não fugir das responsabilidades, e viver sereno seguindo o exemplo daqueles que, pelo esforço e dedicação, venceram seus medos e, por isso, se tornaram o melhor tipo de homem: os que vencem a situação e a si mesmos.


 


sexta-feira, 10 de julho de 2020

SAÚDE E POLÍTICA. Selvino Antonio Malfatti.


                                                                       


O ator brasileiro, Flávio Migliaccio suicidou-se deixando uma Carta acusando, genericamente, não se sabem bem quem:

“Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é (…) como tudo aqui. A humanidade não deu certo. A impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este e com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”, disse na carta.

Questiona-se: o quê e por que não “deu certo” a velhice. Responderia que foi pelo seguinte: a saúde fez a sua parte, mas a política se omitiu. A ciência melhorou a saúde, deu mais anos de vida, aprimorou a qualidade de vida, ofereceu a possibilidade de alegria de viver na velhice. A política não providenciou assistência à saúde, não disponibilizou locais próprios, abandonou-os à própria sorte ou encerrou-os em casa junto com filhos e netos: sem saúde, sem alimentação adequada, sem acesso a bens materiais e imateriais, sem lazer, sem passeios, como poderia dar certo?

O que está em jogo é estruturar o período da velhice para que seja prazeroso e o menos dolorido possível. Em sociedades adiantadas, os vários períodos da vida possuem uma organização cujo trajeto flui normalmente. Assim acontece com o período de criança, infância, adolescência, juventude e vida adulta. Em cada período destes as pessoas ingressam e saem naturalmente. Para cada uma delas esperam-se comportamentos adequados e o ingresso e saída se dá sem traumas, a não ser os próprios do período. Uma criança passa da infância para a adolescência sem sentir e transcorre o tempo no estágio sem transtornos.

Isto é ocorre com a velhice. Quando a pessoa ingressa nela se vê perdido, abandonado, sem finalidade. Não há uma estrutura que abrigue a velhice. Refiro-me uma estrutura institucional assumida pelo poder público e coadjuvado pela iniciativa privada.

Este é o princípio da solidariedade entre as gerações. Há uma geração anterior que originou a atual, uma geração atual que precisa cuidar desta quando envelhecer. São três momentos: anterior, atual e posterior. O fluxo solidário não pode ser interrompido com o perigo do rompimento do vínculo cultural. Se o elo estabelecido se romper as gerações deixarão de se identificar umas com as outras como um nós.( Cf. Manuel Castells, sociólogo espanhol, em artigo publicado por La Vanguardia, 20-06-2020).

Acresce-se o aumento da expectativa de vida em lugares de ciência mais avançado, mas de estruturas de assistência não tão avançados, causa desequilíbrios quando não houver políticas públicas adequadas.  Até pouco causava admiração os septuagenários, depois vieram os octogenários, em seguida os nonagenários e agora já aparecem os centenários. A gerontologia  requer cuidados especiais: saúde, alimentação, lazer, assistência 24 horas. O problema é que não há estruturas públicas para isso e as privadas são caríssimas. As famílias não conseguem dar suporte econômico a esses seus familiares. E o poder público é omisso. Com isto as gerações de idosos ficam à mercê das famílias que não podem suportar economicamente e muito menos emocionalmente os idosos.

(http://www.ihu.unisinos.br/600225-geracoes-artigo-de-manuel-castells?fbclid=IwAR29FVM-OiQJnYdYAXG-V3-0gLFcsgb-PreBXnsIeH_uWNxkkdnKmavkAiU).


sábado, 4 de julho de 2020

Sócrates e a vida virtuosa. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei



Sócrates viveu aproximadamente setenta anos entre 470 a.C. até 399 a.C. Morreu depois de um julgamento injusto, como também foi o julgamento de Jesus de Nazaré. A forma como ambos aceitaram a condenação revela grandeza moral e extrema coragem, embora Sócrates no tribunal se comportasse como um bom grego, isto é, argumentando e desmontando racionalmente os argumentos da sua condenação, enquanto Jesus respondeu rapidamente a Pilatos, mas se recusou estabelecer uma polêmica contra seus perseguidores: “Acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos líderes religiosos, ele nada respondeu. Então Pilatos lhe perguntou: ‘Você não ouve a acusação que eles estão fazendo contra você? Mas Jesus não lhe respondeu nenhuma palavra, de modo que o governador ficou muito impressionado.” (Mateus 27:12-14). O evangelho de Mateus mostra que, ao ser denunciado Jesus não retrucou, recusando-se a responder às falsas acusações por julgar que a verdade devia se impor e se ele estivesse num reino de justiça ela deveria se impor. Se Sócrates se defendeu de forma diferente de Jesus, ao ouvir a condenação não fez nada que a modificasse. Aceito-a.

Quando Sócrates viveu, era comum em Atenas, que os cidadãos não somente se reunissem para fazer as leis, mas para zelar pelo seu cumprimento. Cabia, em outras palavras, o exercício direto do poder legislativo e judiciário. Assim foi composto, por sorteio, um júri com 500 cidadãos para julgar Sócrates, depois de ser acusado de corromper os jovens. A vida de Sócrates teve outra semelhança com Jesus, depois de um tempo de juventude dedicando-se aos combates e a defesa de Atenas, passou a vida adulta andando e ensinando, não uma doutrina religiosa, mas as pessoas a pensarem logicamente e a justificarem seus argumentos. Enfim, a viver de forma racional e a não cultivar pensamentos sem a devida fundamentação. Sócrates tinha como sua missão aquilo que depois passou a ser feito por seus discípulos, a defesa do pensamento racional na compreensão do mundo, da vida, do bem e do belo.

O que nos ensinou Sócrates, sua vida e morte? Na sua vida se dedicou a compreensão racional da realidade pessoal e do mundo. E, como consequência, a ajudar os cidadãos de Atenas a fazerem o mesmo. Ao invés de negócios e enriquecimento, ele cultivou o propósito da vida virtuosa como condição não apenas de boa cidadania, mas daquilo que é básico na vida pública e privada. Em outras palavras, não que não se possa viver trabalhando e desejando enriquecer-se, mas ele avaliou que isso somente valia a pena numa sociedade justa e construída com base na confiança de seus cidadãos. Um lugar onde a violência, a irracionalidade (cidadãos invadirem hospital para verificar se ali há doentes de covid 19, como aconteceu nesse fim de semana no Espírito Santo) e inverdades (ou fake News, o novo nome da mentira) imperam não é um bom lugar para viver. Sócrates quis dizer que uma sociedade assim não é um espaço político digno de alguém que entendeu o sentido de viver em comunidade. Isso porque, numa sociedade de violência, irracionalidade e mentira, não era possível viver e confiar no que era dito, inclusive pelas autoridades políticas, sem o que os cidadãos não sabem no que acreditar e mergulham no vazio e na insegurança.

Além dessa atitude de profundo significado político, que o impediu de propor uma pena alternativa à sua morte, o que certamente seria aceito pela assembleia e de fugir enquanto poderia, ele aceitou com serenidade a condenação. O filósofo preferiu viver segundo suas convicções, a assumir que tinha culpa e merecia a condenação. Por outro lado, uma vez expedida a condenação não lhe cabia recusá-la, como honesto cidadão. Sócrates é um homem que não traiu suas crenças, valores e altas convicções. Não cometeu atos indignos dos quais depois se envergonharia. Ele venceu suas dúvidas ao assumir com autenticidade sua missão de vida. Ele mostrou que a viver somente vale a pena quando tem um sentido, um para quê, cujo significado é o compromisso com o mais autêntico de si mesmo. Viver pela verdade, política, científica, filosófica e pessoal, é o que nos fica de Sócrates, sua vida e morte.

 


sexta-feira, 26 de junho de 2020

É possível querer o mal? José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei


No livro Imagens do Bem e do Mal, Martin Buber mencionou dois momentos marcantes onde se tratou o problema do mal frente a uma realidade Absoluta ou Deus. No oriente e na antiga Grécia acreditava-se que os homens e deuses habitavam a mesma terra e deviam viver sob as mesmas leis, formando uma única comunidade. Os pré-socráticos tinham, por verdade inquestionável, a submissão do homem à essa ordem sagrada do mundo e à necessidade de expiar as culpas quando se desobedecia tal ordem. Platão pensava diferente, mas não venceu a posição tradicional e os sofistas que vieram depois dele promoveram profunda crise cultural ao relativizar os valores e colocarem o homem como medida das coisas. As dúvidas dos sofistas promoveram verdadeiro caos no mundo antigo. A outra tentativa de abordar o mal diante de um Absoluto foi feita pelos hebreus. Eles aceitavam que as leis oferecidas ao povo no Sinai eram divinas e desobedecê-las levava ao castigo. Nesses casos, o vínculo entre o religioso e o moral só pode ser considerado se o homem for livre e responsável para obedecer a essas leis. Nisso está a base da autonomia e liberdade humanas pela qual o homem faz escolhas. E essas escolhas comportam a possibilidade de escolher o mal.

O citado livro de Martin Buber nos apresentou como se compreendia o Bem e do Mal no mundo antigo diante de uma exigência absoluta, o que inaugurou o problema da realidade do mal. Para tratar disso a Bíblia associou duas tradições distintas, uma mais própria dos povos semitas que falava na queda para o mal a partir das escolhas humanas (episódio da desobediência de Adão e Eva no Éden) e a outra vinda do oriente, especialmente da Pérsia, que entendia o mal como realidade radical que se contrapunha ao bem. Dessa segunda tradição é exemplo a revolta de Lúcifer contra Deus (Is. 14) ou a insatisfação do grande Querubim (Ez. 28) que foi lançado nas trevas. Nas duas tradições, a vida humana se desenvolve nas escolhas que faz diante do mal.

Além da tradição bíblica e da forma como o tema foi tratado antes de Sócrates, o ocidente também examinou a escolha do mal a partir dos modelos éticos fruto da meditação filosófica. Esses modelos se desenvolveram desde a antiga Grécia, Aristóteles foi o construtor de um primeiro e sistemático modelo ético, modelo cristianizado por Santo Tomás, ao qual se contrapuseram as éticas modernas racionalista e empirista, a ética kantiana do imperativo da razão e a ética dos valores de Max Scheler. Todas reconhecem a autonomia do homem e sua possibilidade de escolher o mal, embora considerem o mal de maneira distinta.

A questão da escolha do mal nesses últimos modelos éticos (Kant e Scheler), além de não fugir da tradição de que é possível escolher o mal, adiciona o problema de entender as diferentes formas de querer o mal. Em síntese, pode-se dizer que se pode querer o mal simplesmente cedendo aos desejos e inclinações instintivas, rebaixando o homem ao nível dos animais. Nesse caso, evitar o mal significava kantianamente conter os desejos da besta fera. Se essa besta não for contida a responsabilidade afasta-se da liberdade e a pessoa age para obter o prazer do momento. Uma segunda forma de escolher o mal é se omitindo em situações difíceis, escolhendo o bem apenas quando isso não a prejudica ou não lhe pede grande esforço. Foi o que fez Pilatos no julgamento de Jesus. E há ainda uma terceira forma de querer o mal: é praticá-lo com gosto, desejar escolher o mal. Frankl relatou que nos campos de concentração havia aqueles que gostavam de fazer o mal. Frankl escreveu (Fundamentos antropológicos da psicoterapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 179): “nos campos de concentração os homens se diferenciavam. Os salafrários deixavam cair as máscaras. E os santos se manifestavam. A fome fazia vir a qualidade de cada um.” Isso é assim porque os homens podem escolher e há os que escolhem praticar o mal em suas diversas formas.


  


sexta-feira, 19 de junho de 2020

CEM ANOS DE ESPÍRITO WEBERIANO. Selvino Antonio Malfatti


Em todo mundo está-se relembrando os cem anos do desaparecimento do maior sociólogo do século XX: Max Weber, falecido em 14 de junho de 1920, em Munique.  Sua obra é imensa, desde A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo até Economia e Sociedade.

Destacamos alguns conteúdos estudados por Max Weber:

1.            Burocracia. O seu estudo sobre a burocracia, conteúdo chave para entender os tipos de organizações, mormente as estatais. As organizações começam geralmente de modo espontâneo, mas pouco a pouco se burocratizam.  E daí espontaneidade cede lugar à impessoalidade,  garantia de previsão e dotação dos meios para a administração e um sistema de autoridade praticamente indestrutível. Max Weber foi um crítico da burocracia, consequentemente denunciou o poder do aparelho burocrático estatal. Para ele a burocracia trabalha para manter a superioridade de sua posição. Para tanto mantém segredo das informações e intenções. Como exemplo e modelo é o sistema jurídico estatal. Nada penetra a justiça do Estado. A interpretação somente cabe a um corpo de juristas que só a eles compete interpretar e julgar.

2.            A religião. Aborda as diversas teodiceias: a dualista, a da predestinação e a da salvação universal. Analisa também rapidamente as psicologias das religiões mundiais, Entre elas o confucionismo e taoísmo, hinduísmo e budismo, islamismo, judaísmo e cristianismo. As religiões percorrem etapas, dependendo de seu caráter. As ocidentais, baseadas principalmente no ascetismo chegam à racionalização, enquanto que as orientais, devido ao seu misticismo não conseguem evoluir para a intencionalidade e racionalidade. Dentro de cada religião há três aspectos, entre outros que são fundamentais: econômico, político e intelectual, causadores da estrutura social de grupos, casses e status.

 

3.            O Tipo Ideal necessariamente não precisa se adequar exatamente à realidade, já que o objetivo do tipo ideal é ressaltar aspectos comparativos, a partir dos quais fazemos observações e criamos hipóteses (ou teorias) sobre a realidade analisada. Importante ressaltar que os tipos ideais são meros construtores e não tem nenhum objetivo normativo ou teleológico. Sobre esta característica do tipo ideal.

 

4.            Sociologia Compreensiva. Compreender que a Sociologia é uma ciência que se propõe a entender e interpretar para em seguida explicar a ação social; Conhecer o procedimento interpretativo de Max Weber, a construção do tipo ideal identificando os tipos ideais de ação social.

 

5.            Racionalização da ação social. A racionalização é o fio condutor da macrossociologia weberiana no estudo das transformações sofridas pelas sociedades ocidentais modernas. Nesse sentido, o longo processo

histórico de transição das sociedades de configuração tradicional para os padrões de formatação específicos da modernidade tem como principal característica, conforme constatou Weber, a crescente diferenciação e especialização das diversas esferas culturais de valor, em oposição à conjunção de instituições relativamente informes e indiferenciadas das sociedades tradicionais.

Neste processo, os diferentes domínios da vida coletiva passam a progressivamente desenvolver maior autonomia, arregimentando uma estrutura interna lógica, coesa e crescentemente complexa, devidamente orientada para a obtenção dos resultados aos quais se destina, conforme os respectivos aspectos e finalidades inerentes a cada domínio, seja ele o jurídico, o político, o

econômico ou o religioso. Por sua vez, este processo de racionalização encontra-se imbricado ao processo paralelo de inteletualização ou desencantamento religioso do mundo. Tal fenômeno consiste tendência ao predomínio hegemônico nas sociedades ocidentais de uma visão de mundo segundo a qual a realidade material passa a ser compreendida como um complexo de mecanismos causais, passíveis

de serem apreendidos através da abstração e, portanto, sujeitos ao controle humano por intermédio

do raciocínio lógico.

 

6.            O Sentido da Ação humana, conjugada com a teoria das formas de dominação, pode lançar luz sobre a questão. Conforme Weber, a ação humana pode ter quatro sentidos:

Ação racional, tendo presente uma verdade, avaliada sob a luz da razão como um fim em si e escolhida sem qualquer tipo de coação. Neste caso há uma perfeita sintonia entre o ser buscado e a razão. Ação racional, tendo presente um valor, avaliado sob a luz da razão como um bem em si e escolhido sem qualquer tipo de coação.

Ação sentimental, tendo presente uma emoção, avaliada pelo sentimento como uma sacralidade e escolhida de conformidade com a satisfação.

Ação tradicional, tendo presente um costume, avaliado tradicionalmente como eficaz e escolhido sob a égide da repetição.

 

7.            Formas de dominação ou de legitimação do domínio, Weber apresenta três formas puras:

A tradicional se refere aos costumes sagrados dos ancestrais. É o “ontem eterno” sacralizado na tradição. Este, na forma mais pura, o aparelho estatal, confunde-se com a vontade pessoal do governante. Não se estabelece uma distinção entre o governante e a pessoa física de quem o governa. É o patrimonialismo, pelo qual o bem público se confunde com o privado.

A carismática, baseada no dom pessoal, na unção, no dom da graça conferido a alguém.

A legal, baseada na força da lei. Há regras preestabelecidas e universalmente válidas. É o domínio exercido em virtude da lei.

 

8.            A Política e os partidos. O Estado moderno, detentor da violência física legítima, depositou nas mãos dos dirigentes os meios necessários para sua gestão. Os antigos funcionários do Estado foram substituídos e, em seu lugar, apareceram outros, os políticos profissionais. Esta é uma categoria nova a princípio a serviço do príncipe e de sua luta política dos quais extraíam o pão cotidiano. O próprio poder do príncipe passou a depender deles e, com isso, cresceram de importância.

Os políticos, inicialmente, apareceram como homens que viviam para a política e, mais tarde, homens que viviam da política. Entre outros.

Estes são alguns tópicos estudos por Weber.

 

 

 

 

 


sexta-feira, 12 de junho de 2020

JONATHAN SACKS, UM BEM QUE CONGREGUE OS POVOS. Selvino Antonio Malfatti

 

 


 

O rabino Jonathan Sacks é um pensador que ultrapassa a cultura estritamente hebraica para se lançar como um pensador global. Com efeito, é filósofo, teólogo e um combatente            que não arreda no ao mal que assola o mundo. Se amiúde debruça-se sobre a Bíblia para obter inspiração não significa que não passe daí, isto é, no plano hebraico. Para ele somos muito infelizes e não conseguimos melhorar. Falta uma moral do bem comum que perpasse a economia e a sociedade.

Sua voz é reconhecida em todo mundo. Nascido em 1949, foi nomeado rabino chefe da Grã Bretanha e da Commonwealth de 1991 a 2013. A rainha Elisabeth tornou-o Sir por causa da promoção das relações inter-religiosas e posteriormente Barão com assento na Câmara dos Lordes. Possui aproximadamente 25 livros até agora, tem transmissão na BBC, é seguido por milhares de pessoas no site pessoal apresentando lições do Torah, intervenções de temáticas políticas e sociais atuais.

A essência de seu pensamento consiste numa proposta cujo centro é o bem, um bem que possa congregar todos os povos, progredir juntos, ao escrever há poucos anos “Não em nome de Deus”. É um texto que deixa todo mundo perplexo ao perguntar por que tanta violência jorra precisamente das matrizes religiosas, mormente do fundamentalismo islâmico, quando, na verdade consultando-se o texto comum às três religiões monoteístas se pode, ao invés, encontrar uma resposta unificante. Com efeito, a rivalidade fraterna entre Caim e Abel, entre Isaac e Ismael, Jacó e Isaú, entre José e seus irmãos, não são definitivas nem indirimíveis, mas um ponto de partida para qualquer homem de fé.

Para Sacks o bem de cada um não pode prescindir do bem de todos, pois estamos interligados uns aos outros. Isto é ainda mais válido em época de Covid-19. Se cada um não fizer sua própria obrigação toda comunidade será afetada, como uso de máscaras, higienização, controle térmicos, distanciamentos. Somos todos interdependentes. Da mesma forma, se cada um não fizer a sua parte numa democracia todo o edifício ruirá. Somos co-dependentes na liberdade, dignidade, solidariedade os quais não podem ter seu apoio apenas na economia de mercado e no estado. É um princípio moral, acima e anterior ao Estado e ao mercado.

Neste momento desponta a questão onde apoiar este princípio. Um deles é a origem religiosa, isto é, uma moral decorrente da religião. Neste ponto o hebraísmo leva imensa vantagem em relação a outras culturas. Uma religião que se perde no início dos tempos, se manteve intacta e congrega a sociedade. Cada membro se identifica com o todo da sociedade e por isso de fato o eu é um nós.

Mas há outras culturas e sociedades que são heterogêneas, constituídas de várias culturas, algumas conflitantes entre si. È o caso do Brasil que só para falar no caldinho religioso entram na sua constituição catolicismo, protestantismo, espiritismo, religiões africanas e também religião hebraica. Qual delas pode ser considerada o ímã dos eus? Qual pode imantar as vontades pessoas para comporem a vontade do nós?

Neste caso só é possível através do consenso representado pelas instituições jurídico-morais. É uma construção artificial de um nós.  Conseguir-se-á o consenso? Os resultados não são nada animadores. Veja-se, por exemplo, o soberanismo no Brexit , o antissemitismo no Labour inglês, as revoltas violentas dos coletes amarelos franceses, as divisões provocadas por Trump e Bolsonaro, o crescimento do populismo e o ressentimento em decorrência da descrença nas instituições, no Brasil a desconfiança no judiciário, enfim o fracionamento grupal da sociedade e a projeção das minorias que se arvoram representantes da sociedade. É um quadro típico da Revolução francesa.

A proposta de Sacks é um apelo moral voluntário. A começar pela economia deveria nascer um novo “ethos “ social que substitua o lucro pelo bem comum. E se não acontecer a decisão espontânea? E se não for seguido o preceito de Deus confiado a Moisés? “Amarás o próximo como a ti mesmo”?

O maior problema está no conflito de princípios, isto é, solidariedade versus competição. Somente em pequenas  comunidades poderia haver uma economia solidária. Tais atividades abrangeriam a produção, distribuição, consumo, crédito sem visar lucro individual, apenas coletivo, como cooperativas.  Já em sociedades globais, com economias multinacionais a atividade econômica se faz na forma que visam lucros, tais como:  Motorola, Nokia, Siemens, Vivo, Sony, Coca Cola, Pepsi, Unilever, Mc Donald's, Nestlé, Nike, Adidas, Puma, Volkswagen, General Motors, Toyota, Peugeot, Petrobras etc. . Por isso, é impossível uma solidariedade econômica nessas, pois são essencialmente competitivas e lucrativas. Uma organização social pode ser solidária, mas numa econonia do tipo competitiva os princípios da solidariedade e competição chocam-se. É impossível erigir um sistema econômico global baseado na solidariedade. Uma instituição econômica particular até pode organizar-se sobre a solidariedade, mas ao relacionar-se com outras instituições passará a competir com as demais.

Por isso, só em parte a proposta de Sacks pode ser contemplada: a solidariedade econômica e social em pequenas comunidades, preferencialmente de cunho cultural homogêneo, como a hebraica.


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