sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Aquele Outro que nasceu em Belém. José Mauricio de Carvalho





Há na Bíblia um lindo texto onde Rute fala para Naomi que a seguiria. Onde você estiver aí estarei (Rt. 1,16): "Não insistas comigo que te deixe que não mais te acompanhe. Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus!”

O que há de especial nas palavras de Rute é que quem faz a experiência com YHVH e O descobre como um Tu, não encontra outro lugar melhor para estar. A expressão Tu para designar Aquele Outro que contemplo e que me contempla, não por eventuais belezas que eu tenha, virtudes, utilidades ou qualidades que eu possa ter, mas que me sonda como sou e, apesar de meus vazios, me deixa vê-lo em si mesmo é alguém especial, uma pessoa. Se essa Pessoa for Deus, esse será o maior encontro de nossas vidas.

Uma das mais criativas análises e comentários sobre as relações pessoais encontra-se no livro escrito por Martin Buber intitulado Eu – Tu, (1923). A primeira parte da obra descreve as relações humanas, resumindo-as em dois pares de vocábulos. Os dois pares são respectivamente: Eu-Tu e Eu-Isso, sendo o Isso substituível por Ele ou Ela. Para Buber, quando se fala Tu ou Isso, pronunciam-se palavras-princípios, que resumem todas as relações possíveis aos homens.

A expressão Eu - Tu exprime, nessa descrição, o encontro íntimo ou mais estritamente a relação com o inobjetivável. Nesse sentido, nesse encontro é imprescindível a presença e a relação e não sobrevive sem elas. O que permanece sem a presença é o Objeto que não é duração, coisa pensada, fixidez, interrupção, ou ausência de relação. E aqui se manifesta o aspecto nuclear do caráter relacional do homem, as relações Eu - Tu, na ausência do Tu, se mudam em Eu - Isso, o que significa que aquilo que ficou depois da presença foi uma representação de algo que é dinâmico, indizível e inatingível.

Quando a relação perde as características próprias do encontro Eu-Tu, o Outro da relação deixa de ser Tu para tornar-se Isso. Como nem sempre o processo é linear o mundo, às vezes Deus, aparece na duplicidade, ele é Tudo, Ser, o que não se objetiva, mas pode ser objetivado. A totalidade ou Deus é quem (p. 71): "confronta, mas sempre como uma presença e cada coisa Ele a encontra somente como presença, aquilo que está presente se descobre a Ele no acontecimento e o que acontece, se apresenta a Ele como Ser". E, assim, na relação com o Tu surge o amor, pois o amor não se manifesta quando o que se pretende é experimentar, aproveitar, gozar e utilizar, os modos do Isso que é o tipo de relação objetiva, de posse, utilidade ou qualidade. A relação com o Tu tem características únicas e especiais que podemos resumir em: imediatez, reciprocidade, presença, totalidade, estar além do tempo e do espaço, fugacidade, não se tornar objeto.

Assim, nesse tempo de natal, o melhor presente é um encontro com Jesus de Nazaré, descobri-lo num encontro Eu – Tu. O frágil menino do presépio foi Alguém que, mais que qualquer Outro, fez com Deus (Pai) um encontro Eu – Tu. Aquele menino cujo nascimento foi descrito tão singelamente por Lucas Lc. (2, 6-7): “Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê, e ela (Maria) deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” é a mesma Pessoa que chamava JHVH de Pai. Pai é o parceiro de um diálogo de eterno amor. Isso fica claro quando a criança do presépio, ao ser batizada, Dele ouviu (Mt. 3,16): “Este é meu Filho amado, em quem muito me agrado”.

E, assim, nesse advento de tempos líquidos e mentiras gerais que povoam as redes sociais, que Deus o livre de transformar Jesus num Isso para Dele se valer em negócios e mentiras. Porque o menino que veio trazer a salvação é causa de condenação para os que mentem sobre Ele e sobre os planos do Espírito Santo de Deus.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

O NASCIMENTO DE JESUS. Selvino Antonio Malfatti.

 



Estamos em tempos natalinos: festas, presentes, decorações, promessas, augúrios. Comemora-se o quê? A festa natalina da pessoa mais importante da História universal: Jesus. Quem nos noticia o Nascimento de Jesus são dois evangelistas, Lucas e Mateus. Os dois evangelhos são considerados Certidões de Nascimento de Jesus.

Cada um dos historiadores narra de forma diferente, mas sem contradições essenciais entre eles. Os dois focos principais são os históricos e os teológicos. Embora a preocupação dos evangelistas não era escrever fatos históricos, mas subsídios para serem lidos nas reuniões das comunidades cristãs. Por isso, há algumas discrepâncias entre eles. Os evangelhos eram, por assim dizer, cartas e mais tarde foram compiladas para formarem uma unidade e se tornarem evangelhos.

Evangelho de Mateus

Escreveu o Evangelho entre 60 a 100 d.C. na Galineia.[i]

É considerado fonte para os demais evangelistas. Mateus define claramente o local do nascimento de Jesus, Belém, dizendo ainda que foi em cumprimento das escrituras na profecia de Miquéias (Mq 5:2). Acrescenta outros elementos complementares noticiando que Magos vindos do Oriente seguiram uma estrela para encontrar Jesus. Fala da matança dos inocentes por Herodes querendo atingir o recém-nascido. Em consequência a família de Jesus foge para o Egito.

A preocupação de Mateus é demonstrar que Jesus é o Messias prometido pelas escrituras, por isso cita os escritos da Escritura relacionando-os à vida de Jesus.

A crítica diz que não existem fontes externas que comprovem a estrela. Quanto à matança dos inocentes não aparece em outros registros fora da Bíblia. Com relação à fuga para o Egito pode ter acontecido por que eram comuns as migrações para esta região.

Evangelho de Lucas

Escreveu entre 60 a 105 numa cidade da Gécia.[ii]

Lucas é médico e historiador. Caracteriza-se por acrescentar detalhes aos acontecimentos narrados.

O local de nascimento de Jesus é Belém que coincide com Mateus.

Os detalhes que não constam em Mateus: foi em Belém devido a um decreto de Cesar Augusto que obrigou José a ir para esta cidade.  Outros descritos foram a manjedoura, por que não havia lugar na hospedaria, anjos anunciam o nascimento a pastores.

Lucas quer inserir o nascimento de Jesus no cenário do Império romano. O censo mencionado tem questionamentos, embora os censos fossem comuns, no entanto para este não foram encontradas provas da obrigatoriedade da cidade de origem. O contexto dos pastores e manjedoura quer contrastar com a pompa do império romano e mesmo da corte de Herodes.

Diante das narrativas de Mateus e Lucas podemos concluir que, em que pese Lucas contextualizar o nascimento ao ambiente político-social romano-judaico, não consegue encontrar provas externas às suas afirmativas e Mateus ao associar Jesus às tradições judaicas, em vez de esclarecer, dificulta a sua compreensão. Por isso, somente pela fé cristã os Evangelhos são documentos basilares e complementares entre si.

 

 (15) Noite Feliz (com letra) - Música de Natal - YouTube



[i] Mateus nasceu em Cafarnaum na Galileia. Era cobrador de impostos do governo romano. Conheceu Jesus e pregou na Judeia, Etiópia e Pércia. Foi martirizado na Etiópia e seus restos mortais estão na cidade italiana de Salerno.

[ii] Lucas nasceu na Antioquia, Síria. Profissão médico. Não conheceu Jesus pessoalmente, mas através dos apóstolos. Além do Evangelho escreveu os Atos dos Apóstolos, um relato das atividades dos apóstolos nos primeiros tempos da Igreja. Foi martirizado, mas não se sabe bem qual o local: Roma, Pátara ou Tebas. Seus restos mortais se encontram na Basílica de Santa Giustina, em Pádua, Itália.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Filosofia Clínica, aprofundamentos necessários. José Mauricio de Carvalho

 


                                                            Prof. Dr. José Maurício de Carvalho


A editora Filoczar, de São Paulo, está concluindo a edição de um novo livro sobre Filosofia Clínica. Já fizemos outros, além de participar de livros de colegas. Esse, no entanto, nos é particularmente caro. E por qual motivo? Primeiro por que acolhe pesquisas e sistematizações recentes que dão maior densidade e a aproximam das grandes técnicas de psicoterapia. A obra incorpora os estudos da Matemática Simbólica tal como vêm sendo conduzidos pelo criador da técnica o Prof. Lúcio Packter. Segundo por que é uma técnica com recursos para ajudar as pessoas nesse tempo de crise, contradições e dificuldades. Tempo marcado por mudanças na forma como foram consolidados o pensamento, sonhos e crenças da sociedade moderna.

O sociólogo Zygmunt Bauman fez uma leitura dessas dificuldades e apesar de pontos controversos em suas explicações, ele foi preciso ao mostrar que, entre as transformações em curso, encontra-se o surgimento de uma sociedade pouco estável. Tempos líquidos, ele nos disse, em resumo. E, esses dias em que nada está seguro e tudo pode acontecer, traz muitas dificuldades para a maioria das pessoas, algumas pela ausência da estabilidade profissional, outros afetiva, outros, ainda, institucionais. Estamos vendo desenvolver-se uma nova forma de viver a individualidade, que é parte da crise da subjetividade iniciada no século passado. São modificações que tentam ser compreendidas por vários representantes da filosofia contemporânea que esmiuçam esses problemas. E isso nos coloca diretamente na maneira como a cultura havia estruturado as instituições sociais para oferecer certas garantias e seguranças, todas elas postas em causa pela globalização e pela revolução nas comunicações. Essa confusão deu origem a um neoconservadorismo, com elementos religiosos e políticos. Mas um conservadorismo pouco crítico e inteligente que postula um modo de vida inadequado para os nossos dias, já que não podemos repetir o passado quando a vida renova os problemas.

Quanto à Filosofia Clínica, há algum tempo em evidência nos meios intelectuais, podemos dizer que ela não é desconhecida do público brasileiro. Em que consiste? Essencialmente é um método de abordagem psicoterapêutica desenvolvido sobre três colunas: análise categorial, estrutura de pensamento e submodos. Essas três colunas são apresentadas e comentadas nessa obra que não deixa de trazer um resumo do método, oferecendo uma compreensão ampla do assunto. No entanto, a obra não fica nessa exposição didática dos momentos do método, ela inclui um aprofundamento sistemático de procedimentos clínicos, considerando as pesquisas recentes. Em outras palavras, incorpora resultados de pesquisas avançadas lideradas por Lúcio Packter e oferece um conhecimento mais profundo da Filosofia Clínica, trazendo as atualizações necessárias para quem deseja estar atualizado no assunto. Por isso, é um livro tanto para quem está querendo conhecer a Filosofia Clínica como para aqueles que querem aprofundar seus estudos na área.

Cabe observar que, como técnica, ela é diferente da Psicologia pelo diálogo mais estreito com a Filosofia. Entretanto, a Filosofia Clínica se distingue de outras abordagens que usam a Filosofia nos trabalhos clínicos, porque não emprega as teorias filosóficas no aconselhamento psicológico. O método foi singularmente construído por Lúcio Packter que fez um diálogo criativo com a tradição filosófica. No entanto, para nós esse diálogo com a herança filosófica, que é singular como método, tem uma marca do tempo em que foi criado e possui elementos estruturantes da fenomenologia-existencial. Uma fenomenologia existencial considerada mais como filosofia que como método. Ou de forma mais simples, a Filosofia Clínica tem, por pano de fundo, as referências da filosofia contemporânea desenvolvidas na Europa continental, mesmo sem deixar de dialogar com a filosofia analítica e com o pragmatismo norte-americano.

Trata-se de um livro com muitas novidades, mesmo para aqueles que já têm um conhecimento da Filosofia Clínica. Esperamos que seja bem acolhido e examinado pelo público.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

E POSSÍVEL A DEMOCRACIA DIRETA? Selvino Antonio Malfatti

 



Atualmente a democracia é atacada pela frente e pela retaguarda, ou pela direita e pela esquerda. Pela direita temos o exemplo de Trump do Estados Unidos e de esquerda e direita os “coletes amarelos”( gilets jaunes) de França. Todos os excluídos tanto de direitas como de esquerda detestam os políticos e as instituições democráticas. Estudiosos da política como professor  Christian Le Bart ,( Política ao contrário)  “La Politique à l'envers”, constata a desconfiança dos cidadãos em relação à política e aos políticos. Seu trabalho conclui que a democracia representativa está ameada de morte. Todos querem sua cabeça. Já não se contentam os manifestantes com o atendimento das reivindicações, mas a mudança do sistema.

A ideia democrática surgiu na Grécia, mais precisamente na Cidade de Atenas. Todos os que tinham o status de cidadãos podiam votar. Não eram muito numerosos e, portanto, seria viável convocar a todos.

 As populações das nações posteriores tinhamuma população muito numerosa. Diante deste quadro não se pensar numa democracia direta. Seria impossível reunir milhares de cidadãos numa praça e decidir diretamente. Foi então que, na Inglaterra, surgiu a ideia de alguns cidadãos representariam o todo. A Igreja católica provavelmente deu a ideia: alguns cardeais em nome de todo povo católico elegiam o papa. Comparemos a democracia direta de Atenas e como poderia ser a atual:

1.      Democracia direta grega.

A democracia direta foi praticada em Atenas no Século V a.c. no denominado “período clássico”. Os cidadãos participavam diretamente nas decisões sem intermediação participar. Todos os cidadãos do sexo masculino, com mais de 18 anos podiam tomar parte.  Faziam assembleias, Eclésia,  40 vezes ao ano numa colina chamada de Pnyx.

Nas assembleias os cidadãos discutiam e votavam diretamente em decisões que afetavam a Polis com leis, políticas internas e externas, assuntos militares e financeiros.

As decisões eram tomadas por maioria simples, geralmente por votação aberta (mãos levantadas).

2.      Democracia censitária

Na Inglaterra, na Idade Média, participava das decisões governamentais somente nobreza alta. O enriquecimento dos proprietários forçou a nobreza abrir-lhe espaço para participar das decisões. O próprio rei dependia dos proprietários para pagar seus soldados. Como não podiam participar todos, decidiu-se que seriam escolhidos representantes. Disso decorreu de que cada cem proprietários um os representaria. Surge então a democracia censitária ligada a posses.

3.      Evolução da ideia da democracia.

No decorrer dos séculos XIX e XX continua evoluir a democracia grega e a censitária, devido às novas realidades políticas, econômicas e sociais, secundadas pelas novas descobertas culturais e científicas.

Um exemplo são os avanços na extensão do voto. Isso se deu com a extensão do voto à classe média urbana que estendeu o voto aos trabalhadores urbanos. Mas ainda o voto continua somente masculino nas reformas de 1832, 1867 e 1884 que inclui os trabalhadores rurais. Estas reformas ocorrem na Inglaterra, mas é seguida por outros países ocidentais.

O último estágio foi alcançado com voto feminino que ocorreu em 1920 nos Estados Unidos em 1932 no Brasil. Estas reformas deram-se devido aos avanços sociais como a abolição da escravatura e melhorias nos salários graças aos sindicatos e parlamentos.

4.      A forma da democracia – forma direta.

Até o momento prevalece a democracia representativa. Como disse D. João VI a D. Pedro I em relação à Independência do Brasil: faze tu antes que algum aventureiro a faça. E foi com acerto. D. Pedro ao fazer a Independência do Brasil garantiu à América portuguesa unidade territorial, ao contrário da América Espanhola que se fragmentou seu império em dezenas de republiquetas. Este modelo nos sugere que a forma reformista da democracia é melhor que o revolucionário.

Por isso é melhor introduzir a democracia direta pela via institucional do que pela via revolucionária. O passo a ser dado será substituir democracia representativa pela direta através do processo institucional. Não significa colocar abaixo todo o arcabouço da democracia representativa  apenas substituir pela direta. Em linhas gerais, sem burocracia, em cada localidade instalar uma sala com computador e internet ou celular com aplicativo em comunicação com uma central. O governo proporia a pauta e os cidadãos concordariam ou apresentariam sugestões, as quais apresentadas aos cidadãos novamente para votação. Os assuntos aprovados entrariam em vigor experimentalmente e se comprovada a eficácia estariam aprovados definitivamente.

Quanto às casas manter-se-ia o senado, pois a função dos deputados seria exercida diretamente pelos cidadãos. Ao senado se atribuiriam as mesmas das  atuais. Da esma forma ao judiciário.

Estas, em linhas gerais, seriam estas as reformas propostas para adoção da democracia direta.

A IA poderia nos ajudar fazendo o bem.

 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O acirramento da violência. José Mauricio de Carvalho

 



O dia 25 de novembro pretende dar visibilidade à violência contra a mulher. A ONU escolheu esta data porque foi nesse dia, no ano de 1960, que o ditador da República Dominicana Rafael Trujillo torturou e executou as irmãs Mirabal: Pátria, Teresa e Minerva. No último dia 25 a ONU divulgou dados assustadores da violência contra a mulher, mostrando que se trata de um comportamento infelizmente espalhado pelo mundo, tendo havido 85 mil assassinatos de mulheres em 2023, uma a cada dez minutos. Na Europa é onde a violência é menor, mas também está crescendo nesses últimos anos.

No Brasil a situação não é nada confortável, havendo o Ministério das Mulheres divulgado uma pesquisa feita em outubro deste ano com uma amostra representativa da população brasileira. Ela revela que 20% das mulheres relataram que já haviam sido agredidas ou ameaçadas de morte por companheiros e/ou ex-companheiros. A tendência de agravamento do quadro identificado pela ONU no mundo também se verifica em nosso país. O que explica esse aumento da violência?

Algumas razões são apresentadas nesses estudos, há, geralmente, motivos culturais relacionados à crença na submissão da mulher. Há o crescimento dos divórcios pedido por mulheres que buscam a independência financeira e profissional. Há uma crescente preocupação feminina com o êxito e carreira profissional a interferir em relacionamentos. Essa situação inserida num tempo em que a independência financeira e autonomia feminina são estimuladas em diversas partes do planeta, cria tensões nas sociedades mais conservadoras. Por detrás da violência há também uma leitura anacrônica de morais religiosas que submetem as mulheres a rígido controle de costumes, regras que nasceram em outro momento histórico e de uma interpretação machista da vontade de Deus. Enfim, são muitos os motivos para a violência, inclusive a pequena importância que as polícias atribuem às denúncias e queixas das mulheres contra ex parceiros.

Sem deixar de considerar a correção dessas explicações, devemos ir mais fundo recordando que a criatura humana, o que não exclui as mulheres, é instintivamente agressiva. Os maiores estragos são de responsabilidade masculina, pois o homem é, geralmente, fisicamente mais forte que a mulher. No entanto, o controle da agressividade é um dos desafios de nosso tempo, quando diversas sociedades assistem ao crescimento da violência também contra idosos e crianças, contra o pobre, as minorias e o estrangeiro. Enfim, a violência vem crescendo em função de dificuldades variadas que inclui o aumento das guerras regionais, da perseguição ao diferente e da procura de melhoria de vida pelas populações mais pobres.

Isso significa que o aumento da violência contra mulher é parte de um quadro geral do aumento da violência pelo mundo, pelo atual crescimento de um tipo de pensamento que se auto intitula conservador, com pautas radicais que apontam para a derrota da vida civilizada, da racionalidade iluminista e dos propósitos de paz e progresso visíveis na belle époque. A desconsideração da razão e dos esforços por pautar a vida nos seus limites, tem aberto as portas para todo tipo de violência, inclusive a praticada contra a mulher, as crianças e velhos. E, nesse mundo, quando mais se considera normal a violação das normas e leis em geral, maior a violência contra os mais fracos. Pois quem não tem limites no controle dos instintos é uma ameaça para a sociedade. E a despreocupação com a violência cresce na mesma proporção que se reduziu: o ensino das humanidades, da educação não tecnológica, do respeito às normas de uma moralidade ética.

Enfim, a violência contra a mulher é parte de um tempo que assiste ao crescimento das outras formas de brutalidade, todas alimentadas pela intolerância de um conservadorismo que atinge os fracos do mundo, o pobre, o estrangeiro, o diferente, as minorias, etc. Violência que precisa ser combatida como forma de reestabelecer uma sociedade mais fraterna e comprometida com as boas causas.

 

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

FRÉDÉRIC BASTIAT E SEU PENSAMENTO SOBRE A LEI. Selvino Antonio Malfatti.

 


Neste mês de dezembro ocorre o trigésimo aniversário de morte de Fédéric Bastiat. Nasceu em França no início do século XIX e faleceu em Roma na véspera de Natal de 1850. Viveu um período efervescente e conturbado na Europa. A França, depois do período napoleónico, apensar de inúmeras tentativas, se encontra só no final do século. A Inglaterra vive o apogeu da era vitoriana. Alemanha, em que pese a preocupação com sua unificação, forma o império com Oto Bismark. A Itália consegue sua unificação de um conglomerado de pequenos reinos sob Vitor Emanuel. Permeando tudo isso há os debates do voto, do socialismo, do sindicalismo, da escravidão, esta condenada “in limine” por Bastiat.

No conturbado meio político da Europa, mormente na França, com a República, Restauração, Constituição e novamente República, Bastiat escreve La Loi (a Lei), no final de sua vida. O que o levou a escrever este pequeno livro? Pequeno só em tamanho, pois seu conteúdo é imenso! Da mesma forma que Alexis Tocqueville que escreveu A Democracia na América, buscando no espírito do povo americano a explicação de suas instituições, Bastiat preocupado com seu país que não encontrava o espírito do povo,  pois vivia continuamente em crise: não servia a monarquia, não servia a República, não servia o Império, finalmente volta para a República.  Por quê esta instabilidade e inquietude? - se pergunta Bastiat. Por que não há uma legitimidade alicerçada nas tradições do povo. Os políticos inventavam leis que saíam de suas mentes, mas não tinham nada a ver com o povo. Era preciso buscar novamente o coração do povo, a intimidade da consciência de cada um, aquilo que o povo espontaneamente praticava.

E qual é este fundamento? O que o povo praticava?  A lei natural. No fundo Bastiat, um conservador como Edmund Burke, que no livro L´Ancien Régin condena Revolução que pôs abaixo todas as tradições do antigo Regime, as obsoletas, mas também as válidas , pede para repensarem Jonh Locke, Segundo Tratado do Governo Civil, no qual nos Capítulos IV e V estabelecem magistralmente os direitos individuais naturais, dos quais derivam todos os demais direitos, vida, liberdade, igualdade, inclusive o de propriedade. Este direito natural é sim o espírito do povo, enraizado em toda história da França desde Aristóteles, na Política,  Santo Agostinho na Cidade de Deus e dos Homens, em Santo Tomás na Suma Teológica, em Kant na Metafísica dos Costumes,  o qual institui o dever como algo natural,  e continua o desfilar de pensadores que se alicerçam sobre a lei natural.  Por isso, a lei deve começar com eles e não com derivações mentais que não tem ressonância na natureza e que só servem para tiranizar o povo com promessas filantrópicas, do calibre socialista e enciclopedista, mas no fundo o que praticam é a espoliação.

À guisa de conclusão podemos dizer que Bastiat coloca como alicerce da lei os direitos naturais, os quais fundamentam a liberdade e a justiça. Defende que a prosperidade e a paz só podem ser alcançadas quando a lei tem por objetivo assegurar os direitos naturais, e não para proteger privilégios ou interesses específicos em detrimento dos gerais. Se a lei natural for consagrada para proteger os direitos individuais, estes erguerão uma barreira contra o poder estatal.

 Nota do Autor: A questão dos direitos individuais é tão importante no Pacto de Paz de Pedras Altas,  Rosário do Sul, 1923, entre Chimangos e Maragatos do Rio Grande do Sul consta três vezes O RESPEITO AOS DIREITOS INDIVIDUAIS.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

O G2O Rio-024. Selvino Antonio Malfatti

 




Nos “G20” reúnem-se as maiores economias mundiais abrangendo 85% da produção internacional.  A presidência é rotativa cabendo ao Brasil para este ano de 2024, até dezembro.

A agenda geralmente tem um ponto focal, este ano a questão da fome sob a sugestão do Brasil. Nos encontros quase nunca faltam as questões abaixo, embora também quase sempre fica só no papel, com algumas exceções. Abaixo as resoluções deste ano.

1.   Mudanças Climáticas e Sustentabilidade

Neste tema as discussões envolvem redução de emissão de carbono, atualização de energias buscando as renováveis, financiamento climático para países em desenvolvimento financiamentos de produções agrícolas sustentáveis.  

2.   Economia Global e Comércio

A economia global veio para ficar. As tentativas para implantar as alternativas redundaram em fracasso, inclusive as alternativas  já em funcionamento pouco a pouco estão se tornando globais, como China e Rússia.

As soluções apontadas são no sentido de estancar a inflação global e as consequências da pós-pandemia.

3.   Tecnologia e Inovação

A emergência da Inteligência Artificial requer urgentemente de regulamentação, cibersegurança e segurança de dados.

Questões relacionadas à cibersegurança e proteção de dados. Incentivar a conectividade e a inclusão na educação de novas tecnologias

Expansão da conectividade digital e inclusão tecnológica.

4.   Segurança Alimentar e Recursos Naturais

Incentivos governamentais à agricultura sustentável e evitar o desperdício alimentar.

5.   Saúde Global

Previsão de epidemias, saúde pública e provisão de vacinas.

Apoio à Organização Mundial da Saúde e preparação para enfrentamento global às crises sanitárias

6.   Geopolítica e Segurança Global

Gerenciamento pacífico de conflitos bélicos.

Estímulo ao combate ao terrorismo, tráfico de drogas e crimes cibernéticos.

Além desses temas foram discutidas e aprovadas medidas para garantir o desenvolvimento e Inclusão Social, energia e Transição Energética, estratégias para acelerar a transição para fontes de energia limpa e outros temas relevantes para o mundo ou comunidades particulares.

Sob a presidência do Brasil este ano o tema principal foi a fome. Foi aprovada a sugestão da criação de uma Aliança Global contra a fome e Pobreza. Para tanto foi levantada a hipótese de criação de um fundo internacional para dar suporte às políticas públicas e programas que visem a eliminação da fome.

O encontro conclui que a fome é uma consequência das desigualdades estruturais, potencializadas por crises globais, adventos climáticos adversos e guerras, ligadas à Agendas 2030 da ONU. O Brasil assumiu a responsabilidade de levar adiante a proposta.

 


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