Nos dias atuais multiplicaram-se os encontros em formaturas,
esportes, educação, ciência, profissão e dezenas de outros. Há um que chama
atenção, de família. O motivo é óbvio. Os laços de sangue são os mais fortes. Por
que agora? A resposta também salta aos olhos: tecnologia da comunicação. Anos
atrás, em torno de cinquenta anos, a comunicação teria que ser por carta ou a
viva voz. Atualmente é instantânea. Isto tornou possível não só se comunicar
como encontrar o parente. No passado quando alguém emigrava do local de sua
família ninguém mais o achava. Hoje, ao contrário, os meios possibilitam
encontrar alguém em qualquer parte do mundo.
Os encontros de família geralmente são na residência de
um familiar, avós, pais, mãe, irmão ou primo. Nos encontros, o tradicional pai, mãe e
irmãos se multiplicou atendendo ao mandamento bíblico. Agora são primos e
primas, maridos e esposas, filhos destes e até netos. A minúscula família virou
uma multidão. Nem mais todos se conhecem. A pergunta mais frequente: tu és quem?
O lugar da festa é geralmente no interior, numa capela, casa ou na cidade num clube. No dia combinado todos se dirigem ao local. O momento é como um encontro de pássaros. Rebenta a festa. Todos gritam, cumprimentam, se abraçam, se beijam. Alguém aponta para um pica-pau que se gruda ao tronco da árvore, lembrando o melar dos matos. Outro para o “campanil” da igreja, recordando as travessuras de enrolar um pano no badalo. E outros para a ladeira onde se brincava de carrinhos de lomba. Tudo festa, abraços, beijos, risadas e choros.
Mas por que motivos os parentes sanguíneos querem se encontrar? O que os move a procurar pais, irmãos, primos, tios ou avós? Num tempo em que a dispersividade é o normal o que nos move buscar os que compartilham o mesmo sangue? A resposta pode ser encontrada na aspiração existencial. E é nesta direção que iremos buscar as respostas.
O ser humano desde que despertou a consciência se
pergunta quem ele é. E para saber a resposta pergunta-se de onde vem. A
primeira confrontação se dá coma a família descobrindo certas identidades:
traços físicos, modos de falar, histórias, valores. A partir daí procura
reconstituir a própria história. Percebe que na fluidez da sociedade a família
é a espinha dorsal que congrega os elementos dispersos. Com isso reconstitui a
própria identidade.
O esforço na busca de saber de onde veio busca conectar o
passado, presente e futuro, interligando-os. Ao deparar-se com o presente e
passado, conhecendo avós e pais, conecta o tempo que cultura digital tende
apagar, pois enfatiza só o presente. Com isso emerge a descoberta da
continuidade no tempo através do laço sanguíneo.
Antes da vida racional experimenta-se a vivência afetiva.
É através dos pais, irmãos e primos que se entra na vida adulta. O afetivo antecede
o racional. O que eles me ensinaram? Quais os conflitos que se enfrentados? As
ausências, rupturas e presenças que marcaram a vida. Buscar os familiares
proporcionará reforçar boas experiências e superar as ruins.
Em alguns casos, de forma sutil e subliminar, transparece
um desejo de reconciliação por problemas ao longo da jornada: separações,
ausências de pai ou mãe, pobreza, preferências de filhos. Os encontros podem
ser uma oportunidade de reparação e conciliação.
Menos influentes, mas ocorrem, curiosidades genéticas
como doenças, comportamentos, aptidões cujos familiares, através de encontros,
buscam respostas sobre si mesmos.
Pergunta-se: encontros de famílias são apenas capricho,
momento de lazer, a saudade ou tem alguma justificativa mais profunda
existencial e ontológica?
Em Aristóteles constatamos que o homem é um animal
político cuja primeira experiência política é a família. Nela o homem é
acolhido numa comunidade e aos poucos vai se preparando para a plenitude
política que é o Estado. Cada encontro de família revive-se a vida gregária
inicial podendo ser confrontada com as relações instrumentais e públicas.
Em Paul Ricoer encontramos ao que ele chama de identidade
narrativa constituída de dois momentos: o idem - o núcleo permanente e o ipse –
o adquirido ao longo do tempo. A família é o fio condutos que conecta os dois
povos. Nos encontros volta-se ao tempo e experimenta novamente o ipse que é seu
eu, presente na família.
Por sua vez, Zygmunt Bauman ao trazer o conceito de
liquidez quer significar os vínculos frágeis e os de solidez. Como se vive mais
os vínculos descartáveis as pessoas suspiram por vínculos sólidos. E estes
podem ser reencontrados na família.
O mais humano dos grupos, a família, através da conexão dos laços e os vínculos se alimentam e se concretizam nos encontros.
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