sexta-feira, 24 de junho de 2011

CRACK - DROGA DA DESOLAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti


Não sou da área da saúde, nem biólogo e muito menos químico. Dedico-me às ciências humanas, mais precisamente à sociologia e filosofia. No entanto, penso que o provérbio popular de que a saúde é demasiado importante para ser deixada só para médicos – adágio este citado por Mark G. Field, da Escola da Universidade de Harvard de Saúde Pública - tem sua razão de ser, desde que se enxergue o homem como um ser multidimensional.

E esta me parece deva ser a postura em relação ao problema (ou epidemia ou praga?) das drogas, mormente o crack. Por isso, quero me deter um momento neste. Sabemos que há nas ruas do Brasil um milhão de usuários, entre 15 a 25 anos. Esta droga basta ser experimentada uma só vez e o sujeito está indelevelmente viciado. A vontade de querê-la aloja-se no cérebro e ninguém mais consegue extirpá-la. A ânsia de fumar mais uma pedra é incontrolável. O usuário sempre vai querer mais uma, outra e outra mais. A fissura pela droga aumenta na medida em que a vontade for satisfeita. Um pesadelo infindável.
O tratamento é prolongado, caro e nada animador. Somente 10% conseguem manter-se na abstinência por que, conforme alguns, curar não cura mais. A vigilância se torna eterna. Como diria Dante Aleghieri na entrada do Inferno:  abandonai toda esperança vós que entrais (lasciate ogni speranza voi ch´entrate). 
E nada de impactante se faz. Isto significa que o Brasil está jogando no ralo seu maior potencial dos próximos anos: seres humanos inúteis a si mesmos e aos outros. Serão cidadãos que vão necessitar de tudo por que se tornarão totalmente incapacitados. Não estudarão, não terão profissão, não formarão famílias, não trabalharão. E o pior de tudo, é que, como diria Sartre, isoladamente será um esforço inútil da sociedade e de si mesmos. Como mortos-vivos, carregam seu próprio corpo, perambulando nos lares e ruas, roubando e destruindo tudo o que encontram pela frente para saciar o vício. Destroem famílias, matam seus próprios pais ou irmãos, cidadãos inocentes. É uma guerra “sem reféns”. E o pior, neste cenário, tudo o que for feito por si sós, em termos de esperança, muito pouco valerá. 
O crack é uma guerra que o Brasil – e outros países – enfrenta. Numa guerra as divergências políticas, religiosas, científicas, educacionais devem ceder lugar à união. É preciso deixar de lado picuinhas e se focar no principal. E o principal são nossos jovens dizimados pela pior de todas as drogas, a cocaína em pedra, fumada em cachimbos de fabricação caseira.
Mas o que fazer? Não é fácil, mas muitas vezes de onde menos se espera pode vir uma sugestão luminosa. A minha é esta. Convido outros a apresentarem sugestões. É preciso organizar um grupo – tarefa, nos moldes de uma operação de guerra, fechando todos os espaços físicos, sociais, políticos e jurídicos. A presidência (deve ser a presidência para haver legitimidade e respeitabilidade) nomeará um coordenador nacional. Este instará junto aos governos estaduais e distrito federal para que os governadores façam o mesmo que a presidência. Os coordenadores estaduais se encarregarão para que haja coordenadores municipais. A estes coordenadores das três esferas se aglutinarão autoridades e lideranças – federais, estaduais e municipais - para uma ação conjunta terapêutica, educativa, preventiva e repressiva à cocaína e ao crack, envolvendo usuários e distribuidores. É possível? Sim. Já há experiências com relativo sucesso. Por que não aperfeiçoá-las?     

9 comentários:

  1. É um assunto complexo,muito interessante sua informação e colocação.

    ResponderExcluir
  2. Perfeita colocação,todos realmente precisamos nos preocupar com a saúde e,para tanto a sociedade que vivemos deveria ser menos contraditória, visto que de um lado com suas propagandas enganosas incentiva o uso do álcool, porta de entrada para as demais drogas.A humanidade em toda sua história conviveu e convive com as mais diversas drogas,mas atualmente como colocaste, o crack tornou-se uma epidemia.Esta droga tornou-se popular nos EUA em 1980 chegando em São Paulo em 1988...Bom tempo para que houvesse uma pesquisa para desenvolver políticas pontuais para não chegarmos a verdadeira epidemia que hoje visualizamos.O tratamento eficaz é o conhecimento,a troca de informações,orientação.Hoje precisamos correr atrás porque não houve a prevenção,como sempre o socorro chega depois da tragédia.Uma politica eficaz e pontual mantem-se atenta para trabalhar a prevenção,onde todas as redes sociais participariam com informações nas escolas,associações de bairros,postos de saúde etc.Sim,a falta de conhecimento ainda é o que paralisa as pessoas para procurar ajuda quando enfrenta tais situações de dependência.

    ResponderExcluir
  3. Todas as drogas deveriam ser motivo de preocupação,mas o crack veio para sacudir e mostrar o que está acontecendo....muita propaganda,muita fala mas o atendimento está devagar.

    ResponderExcluir
  4. Concordo precisamos de redes sociais que funcionem afinal a sociedade é um todo,o que acontece aos outros é um alerta para tomarmos conhecimento,ler entender,saber desta doença.

    ResponderExcluir
  5. Temos ainda muito preconceito sobre dependência quimica,porém nos hospitais após as baladas são pessoas de todas as idades chegando carregadas,é o usuário de drogas,dependente de medicamentos etc.o crack é apenas um dos destruidores dos muitos chamados prazeres,que estão ceifando tantas vidas.Muito bom seu alerta,saúde é preocupação para todos.

    ResponderExcluir
  6. É complicado,sabemos pouco sobre o assunto.

    ResponderExcluir
  7. A epidemia do crack destruindo vidas foi um pequeno movimento,pouco resultado,agora veio o oxi,também derivado da cocaína.É verdade sem todos trabalhando para a educação e recuperação restará apenas a boa.........vontade nos gabinetes.

    ResponderExcluir
  8. As colocações a cima foram desafiadoras, tanto por parte de quem entende do assunto como de quem se interessa, mas tem pouca experiência. Pediria para que, quem puder, faça alguma coisa: informando, ajudando concretamente com apoio moral ou material. Obrigado a todos.

    ResponderExcluir
  9. O crescimento do uso do crack no Brasil pegou de surpresa as famílias e os especialistas em saúde pública. Em pesquisa feita pela Confederação Nacional de Municípios sobre o consumo de drogas no Brasil, 98% das quatro mil cidades brasileiras participantes declaram ter problemas com drogas, incluindo o crack.

    ResponderExcluir