sexta-feira, 24 de abril de 2026

A presença do Papa no mundo líquido. José Mauricio de Carvalho

 



O sociólogo Zygmunt Bauman nos descreveu uma imagem chocante do momento atual e ajudou a entender porque há tanta gente com dificuldade de conversar com nossa sociedade. Ele associou a insegurança existencial de nossos dias às profundas alterações econômicas devido às dificuldades impostas por um capitalismo financeiro e globalizado que deseja a liberdade de lucrar sem limites. A única liberdade de que falam seus defensores é essa. O resultado é a instabilidade econômica e a insegurança existencial pois não se vive seguro quando não se sabe (BAUMAN, 44 cartas do mundo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 142): “se amanhã ainda terei emprego.” E se o Estado garantirá a escola e o hospital. Esse processo tem, ainda outras fontes de instabilidade como: a transformação dos valores, das redes de apoio social, da vida educacional, da força das instituições, das mudanças nos relacionamentos amorosos, resultando em dias em que nada está assegurado e tudo pode mudar. Em resumo vivemos num (id., p. 143): “mundo líquido sempre em mudança, confuso, desordenado e cheio de brumas, imprevisível, em que abundam armadilhas e ciladas.”

Mesmo as relações pessoais, amores, família, amizade tudo ficou diferente e passou a ser tratado como fumaça, conduzidas que são pela lógica da mercadoria. Se uma não funciona troca-se sem problema ou sofrimento. Quero viver meus desejos, é só isso o que importa. Uma relação líquida, ou pura, como o sociólogo apresenta (BAUMAN, 2008 b, p. 33): “nega de forma enfática (...) a responsabilidade pelo outro, que é fundamental em termos éticos.” Portanto, uma relação amorosa pensada em termos de desejos pessoais deixa de fora o outro ou outros, no caso da família.

Havia tantas certezas, práticas e costumes sólidos até algumas décadas e tudo se liquefez e se tornou débil atualmente, quando as intensas mudanças corroeram certezas de séculos. E isso é sentido como uma crise que percebíamos, mas era pouco consciente. Não há como viver num mundo que não existe mais, mas há referências a serem preservadas para se viver nesse.    

Uma das novidades desses dias líquidos é o reaparecimento da extrema direita (fascista, nazista ou neofacista como quiserem) capaz de defender os interesses desse mundo líquido. Quero colocar entre essas coisas as críticas do Presidente Donald Trump ao papa Leão XIV, como já criticara o Papa Francisco e a qualquer um que se oponha a suas decisões ou ao propósito da liberdade de enriquecer sem limites. Trump acusou o Papa de ser fraco em política internacional e evocou a noção de guerra justa, enquanto o Pontífice chama atenção para outra forma de resolver os conflitos, expressando o desejo de uma humanidade pacífica. É claro que a guerra movida por Trump e Israel não são justas no sentido que a Igreja defende, embora seja preciso acabar com o apoio do Irã aos grupos terroristas que atacam Israel e não parece que essa guerra produzirá tal efeito.

Não se discute o direito de Israel se defender e nem das nações democráticas temerem uma república islâmica com artefatos nucleares, ambas as coisas causas de instabilidade. O Papa não aprova tais coisas, exorta que não apenas um dos lados deixe de guerrear, mas que a boa vontade de ambos exista para acabarem com a guerra e usem o caminho da razão e da paz. A convivência num mundo em paz é um sonho que vale a pena e o Papa o apresenta. Pede que os homens encontrem o caminho da paz, com a democracia, a razão e preocupações morais. Numa perspectiva religiosa, o Papa Leão XIV retomou o que o filósofo Emanuel Kant escreveu no ensaio A paz perpétua de 1795. Mesmo tendo inclinações egoístas (ou a pecar) os homens são chamados a organizar a vida de forma mais racional e moral.

Nesse mundo líquido o Papa, Francisco ou Leão, representam uma liderança moral não mais encontrada em outras instituições. Assim, as críticas inusitadas ao Papa são próprias de um tempo maluco. Traz coisas que nem loucos como Hitler e Mussolini ousaram fazer. Então que Leão tenha sucesso em sua visita pastoral aos países da África. E sobretudo possa ser a consciência visível da paz, do amor fraterno e da responsabilidade pelo outro nesse mundo líquido. Porque Francisco ou Leão são uma das poucas referências seguras nesse mundo líquido.  

 

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