O sociólogo Zygmunt Bauman se esforçou para mostrar que as mudanças na sociedade decorrentes da globalização e das transformações na economia dela decorrente, alteraram a vida quotidiana e a rotina das pessoas. A própria mudança do sujeito em mercadoria que é parte desse processo contribuiu para isso. A forma de vida estimulada pela sociedade de consumidores provocou alterações profundas na rotina das pessoas e na vida de família. Toda uma preocupação em consumir substituiu o tempo do afeto e dos encontros por compras e presentes. O afeto passou a ser demonstrado com a oferta de presentes.
Entre as transformações mais significativas dessa sociedade de consumidores, onde a essência da vida ida são as compras, está a criação de um grupo de excluídos absolutos que quase não consomem. São os consumidores falhos ou aqueles que deixam de cumprir seu papel de compradores e se tornam plantas indesejadas do jardim social, ele o compara em Vida para o consumo. Esses indivíduos são como (BAUMAN, Vida para o consumo, 2008 b, p. 158): “ervas daninhas, feias porém vorazes, que nada acrescentam à harmoniosa beleza do jardim e deixam as plantas famintas ao sugarem e devorarem grandes partes de seus nutrientes.” Ser parte da sociedade significa cumprir seu papel como utilizador de bens sem consumir recursos do Estado para a manutenção de incapazes de comprar. Os pobres tornaram-se inúteis criaturas dessa sociedade que emergiu da globalização. Ela os marginalizou e lhes ofereceu a ilusão de que haveria um lugar onde eles poderiam ser felizes. Estamos diante de uma lógica recente, ainda que os pobres pudessem ter um papel de pequena relevância em outros tempos. Atualmente eles são (id., p. 160): “reclassificados como baixas colaterais do consumismo, os pobres são agora, e pela primeira vez na história registrada, pura e simplesmente uma amolação.”
Como são indesejáveis, desamparados e inúteis podem ser retirados dos lugares públicos e se possível enviados para além das fronteiras. O que se lhes passa não interessa. Se a insensibilidade moral cresce em nossos dias em todos os campos da vida social, são esses indivíduos os que estão em pior condição.
A dormência moral é sintoma grave de enfermidade social porque quando se avaliava o que foi feito pelos nazistas, nada parecia errado ou inadequado, mesmo para pessoas comuns que se consideravam boas e éticas. Isso foi assim porque (id., p. 162/3): “as vítimas de violência, que há muito tempo não eram consideradas membros da família humana, não deviam ser alvos de empatia e compaixão moral.” Assim, quando alguém é colocado fora da sociedade, ou perde sua humanidade, e é visto como ameaça a ela, esses indivíduos são empurrados para fora, sem culpa e sem constrangimento.
E o que é mesmo essa insensibilidade? O sociólogo aprofundou o assunto em Cegueira moral que se tratava de um tipo de (BAUMAN e DONSKIS, 2021 c, p. 20): “comportamento empedernido, desumano e implacável, ou apenas uma postura imperturbável e indiferente, assumida e manifesta em relação aos problemas e atribulações das pessoas.” Algo como o entorpecimento dos sentidos para o sofrimento que se passa ao lado, uma anestesia à dor do outro. Trata-se da incapacidade de notar que algo está ruim no meio social e que não percebemos que a situação está piorando.
O que o sociólogo considerou, portanto, como um entorpecimento moral era pois a ausência (id., p. 16): “de reação ao sofrimento de outra pessoa, quando nos recusamos a compreender os outros, quando somos insensíveis e evitamos o olhar ético silencioso.” Deixar um estranho sofrer ou morrer considerando isso adequado é a forma de maldade que surgiu em nossos dias. Nessa nova versão do capitalismo, o sucesso nos negócios, o crescimento do país se coloca acima das pessoas e de seu destino. E a dormência moral se mostra quando deixamos alguém sofrer ao nosso lado, alimentando amigos nas redes sociais, deixando de ouvir quem sofre ao nosso lado em nome de relações imaginárias, discriminando, por exemplo, o migrante convivendo com a injustiça e seu sofrimento. Conferir dignidade ao outro, esse é o desafio para enfrentar o mal que se espalha em nossos dias.
Portanto, a insensibilidade ao sofrimento alheio é resultado de eles serem apresentados como demônios que atormentam a alma (BAUMAN, 2008 b, p. 168): “sua guetização e criminalização, a severidade dos sofrimentos que lhes são ministrados e a crueldade geral do destino que lhes cabe são – em termos metafóricos – as principais formas de exorcizar os demônios interiores.” O sociólogo mostrou os problemas que o homem comum e geralmente tido como bom (BAUMAN e DONSKIS, 2021 c, p. 15): “cria para o outro, recusando-se a conceder-lhe individualidade, mistério, dignidade e uma linguagem sensível.” Isso naquele sentido já identificado por Hannah Arendt de que um banal burocrata pode fazer um grande mal quando é incapaz de refletir criticamente sobre o que faz. E, o que o sociólogo acrescenta, é que é um fenômeno amplo. Ele não foi algo específico da Alemanha nazista, pode acontecer em toda a parte. E há ainda outro tipo de mal, mais extenso e nefasto, quando ele é visto como ação não de um indivíduo propriamente, mas de uma comunidade ou subclasse.
Bauman mostrou, a partir dos estudos de Auletta, que a subclasse dos consumidores falhos não se identifica perfeitamente com a pobreza, há entre esse grupo pessoas cujo comportamento é anti-social, inclui a recusa de valores, etc. Assim, mesmo se a pobreza for combatida, esse subgrupo continuará existindo, mas a questão econômica parece ser o fator mais importante na formação dessa classe. Trata-se do fator mais importante no seu estabelecimento. Ao se esforçar para consumir e fugir do estigma, esse indivíduo acaba ainda mais pobre. Por isso, sem algum amparo que ajude essas pessoas mais pobres, elas considerarão seus direitos políticos inúteis. Assim, Bauman lê as mudanças sociais provocadas por aquilo que ficou conhecido como neo-liberalismo da era Thatcher e Regan como a eliminação das preocupações sociais do Estado. Isso passou a se assumido por diferentes governos que se seguiram a era Tatcher – Regan.
A negligência moral ao sofrimento do outro tornou-se, avaliou o sociólogo, uma marca de nossos dias, ela é alimentada pelo consumo de bens e é sufocada antes de se tornar incômoda. Um descaso alimentado pelo consumo irrefreado considerado um ato moral e adequado numa sociedade que vê nas lojas e shoppings o remédio para aplacar as dores morais.
Clara Lucia Delage Lemos
Misericórdia Senhor!
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Ana Lucia Monteiro de Assis
Falou muito bem, Professor
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Adelmo José da Silva
Parabéns, Mauricio!
Um artigo muito interessante e oportuno.
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Rogerio Medeiros Garcia de Lima
Excelente 

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Bruno Cunha
Interessante observar como esse consumismo chegou às igrejas e subverteu a mensagem da religião. Estes mesmos, que entendem a religião como troca de mercadoria, padecem de completa "dormencia moral". Odeiam pobres, minorias, são indiferentes ao sofrimento alheio e aversos a tudo que é diferente.
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Bruno Cunha
Bauman é uma das vozes mais lúcidas da filosofia moral e política do século XX - XXI.
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Lygia Toledo
Em interessante linguagem poética, uma amostra dos males da globalização. O consumo desenfreado, o afeto relegado a presentes, os excluídos ou os "indesejáveis" do jardim social... As lamentáveis "ervas daninhas". Uma perfeita e triste análise sobre os pobres e uma triste realidade ilusionista!
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