sexta-feira, 1 de julho de 2016

BREXIT: uma tradição britânica. Selvino Antonio Malfatti.




A Britânia nunca aceitou se integrar ao Império Romano, símbolo da Europa continental, na antiguidade. Na Idade Média emancipou-se do cristianismo europeu, aproveitando a Reforma de Lutero, fundando a igreja anglicana com sua própria autoridade, o Arcebispo de Cantuária. Na Idade Moderna não acolheu as reformas científicas como as unidades de pesos e medidas adotadas na Europa, permanecendo com as próprias. Na atualidade, o Reino Unido só aceitou participar politicamente da União Europeia, pois não acolheu o euro, isto é, ficou de fora monetariamente da Europa continental. E no momento atual, 22 de junho de 2016, aprova por plebiscito a saída da União Europeia. Por isso, para quem conhece a trajetória histórica da Inglaterra não foi nenhuma surpresa. O britânico parece que adota o lema paulista: non ducor duco. Seria o mesmo que dizer: não me associo a ninguém, os demais que se associem a mim.
E foi o que aconteceu. Os ingleses votaram o “leave” e decidiram sair da União Europeia. Todos sabiam que o Reino Unido torcia mais para acabar com a União Europeia do que incentivá-la. A consolação é que vale mais perder um membro revoltado do que teimar em mantê-lo através de concessões, status especiais, privilégios e outras formas algumas vezes até humilhantes.
Consumados os fatos, saída do Reino Unido da União Europeia, surgiram as explicações. E a velha explicação, que na verdade não explica nada: a culpa é dos “velhos” que votaram o “leave” preferindo o passado ao futuro, às recordações aos sonhos, o bom senso à ilusão. Os jovens, ao invés, preferem o crescimento sem fronteiras, livre educação continental e fronteiras de trabalho mais amplas, por isso votaram “remain”.
Será, no entanto, tão simples assim? Apenas um conflito de gerações? Evidentemente, não. É um argumento fajuto. Basta apenas ler os dados. Somente 36% dos jovens compareceram às urnas. E todos teriam sido europeístas? Basta verificar que somente um terço dos jovens preferiu ir às urnas e os outros dois terços ficaram em casa. O mais quer se poderia dizer, neste caso, é que os jovens deserdaram das urnas. Portanto, a explicação de conflito de gerações não se sustenta.
Na verdade, o que acontece realmente, é que a União Europeia era apenas nominal. Se observarmos os fatos, o intercâmbio é cada vez mais rigoroso com os países em dificuldades e sempre mais distante da ideia de solidariedade, um projeto coletivo de progresso social. Não basta ter um hino, uma bandeira para criar um povo culturalmente identificado. Atrás de tudo continuam os velhos problemas: a gravíssima crise da economia global e com ela a zona do euro, os salários, as aposentadorias, a educação, a pesquisa, a cultura e os serviços essenciais não se fazem com decretos como se faz crer. E parece que a escolha dos britânicos sinalizou para isso.
No entanto, permanecem as perguntas no ar em relação aos efeitos da decisão para a Europa e para o resto do mundo.
1.    Entre positivos podem ser enumerados, entre outros, a absorção das empresas pela União Europeia que se afastarão do Reino Unido. Mas os efeitos no comércio serão majoritariamente negativos devido às restrições em relação à Londres e às incertezas bancárias. De um modo geral, tanto a Inglaterra como a União Europeia, se ressentirão da decisão do Reino Unido.
2.    O Reino Unido costumava apor numerosos vetos. Agora a União Europeia estará livre deles e poderá por isso ter mais agilidade em suas decisões, inclusive conquistar novos mercados.
3.    Em contrapartida, vislumbra-se um cenário econômico-político anglo-saxão, reunindo Reino Unido, Estados Unidos e provavelmente Canadá concorrendo com a União Europeia. Para tanto, esta deverá atrair novos mercados. Se não fosse a fragilidade, esta seria uma oportunidade para o Mercosul de aliar-se à União Europeia. Resta saber: os orientais, com quem se alinharão.

Quanto à decisão, diz um provérbio antigo: quer ir? Então vá! Bye, bye. Ou, mais ou menos parafraseando Cícero:  Si mundus vult decipi, decipiatur.

10 comentários:

  1. Um povo que tem total independência.

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  2. Azar do ingleses que se acham.

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  3. Está ótimo, uma reflexão e tanto.

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  4. Considero uma boa critica.

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  5. Sorria, os gringos se afastam, porque querem o comando total.

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  6. É bem verdade, talvez venham novas mudanças para o cenário internacional.

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  7. Está perfeito. Mas o MERCOSUL ainda existe?

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  8. Não creio no conflito de gerações, mas numa grande desilusão da juventude inglesa e de jovens do mundo inteiro.

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  9. Pois bem, os orientais se alinharão somente ao Brasil, espera para ver acontecer.

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  10. Está aí a confirmação de suas projeções:
    Para diretora do FMI, temas que sofriam veto britânico podem ser apreciados.( G1, dia 03/07/2016)

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