sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A INVERSÃO DO REAL E O VIRTUAL. Selvino Antonio Malfatti




No transcurso dos tempos houve uma contraposição entre imaginação e o real, entre a ficção e o real e atualmente entre o virtual e o real. A tendência atual é de confundir o real e o virtual. O real tornou-se diáfano e o irreal concreto.
Você pode estar na multidão e estar só. Não é apenas anônimo, mas literalmente só. E, ao contrário, sózinho e imerso num mundo virtual.. Neste momento, por exemplo, estou só em meu gabinete de trabalho. Eu e uma máquina. Esta está conectada à rede de internet. Posso falar com quem eu quero em qualquer parte do mundo. E vice-versa, os outros podem falar comigo. Mas se estou no meio da multidão, desprovido desta tecnologia, estou só. Num coletivo, ônibus, metrô, ninguém fala com ninguém, apenas olham para as mãos e movimentam os dedos. Pode-se estar em casa com a família e, no entanto, estar só. Se estiver a milhares de quilômetros dela pode estar entre os familiares e conversar. Vive-se um mundo paralelo, um real e outro fictício, mas que é também real. Vive-se um mundo imaginário onde todos se comunicam, mas ninguém se reconhece.
A questão do real e virtual. Alguém pode dizer que tem um milhão de dólares. Mas onde está? Se acessar sua conta você verá que tem este valorconsta, embora ele concretamente não exista. O real tornou-se irreal e o irreal, real. O que não existe, existe e o que existe não existe. O espaço que necessariamente as coisas ocupavam, desapareceu e emergiu outro que antes era irreal, mas que agora é virtual e real.
O mesmo se dá com o tempo. Antes se falava em segundos, minutos, horas, anos, séculos. Agora um século é menor que um milésimo de segundo. A recriação do big bang entre França e Suíça demonstra que o tempo e o espaço praticamente foram neutralizados ou identificados. Large Hadron Collider - LHC) do CERN, é o maior acelerador de partículas e o de maior energia existente do mundo. Seu principal objetivo é obter dados sobre colisões de feixes de partículas, tanto de prótons a uma energia de 7 TeV (1,12 microjoules) por partícula, ou núcleos de chumbo a energia de 574 TeV (92,0 microjoules) por núcleo. O que acontecerá entre dois lugares em tempos diferentes?  Serão praticamente simultâneos e no mesmo local.
O virtual tornou o nada real. Se for ao mercado e comprar algo você não se dá nada em troca do que comprou. Apenas digita-se algo e pronto. E muitas vezes você compra sem comprar nada. Você adquire uma conta na internet, não existe nada concretamente. No entanto, aquilo que não existe, existe realmente. Pode trocar coisas por nada, nada por coisas e nada por nada.
Isso tudo parece sem importância. Mas vejamos as consequências. As categorias do saber na prática deixaram de existir ou de nada valem. A categoria de quantidade não existe mais a quantidade. Ela se esfumeou. É apenas um valor virtual, que existe e não existe. Qual a unidade de referência? Qual o parâmetro de um, vários, todos? Simplesmente desapareceram. O um é igual ao todo e vice-versa.
Onde está a qualidade? Aquela que aponta para a realidade, negação, limitação? Se o real é igual ao virtual, ao irreal, onde colocar o suporte do que é real ou a imaginação? Nunca tenho certeza de que algo é ou não é, pois ele pode ser e não ser ao mesmo tempo. Qual o parâmetro para o limite? Se não há critério para início e nem fim, como se pode saber o limite?
E quanto à relação? O que é essencial e o que é acidente? Quem é causa e quem é causado? O mundo virtual é a substância e o real acidente? Ou vice-versa? Em valores pecuniários ou bem realistas: que é mais importante: o montante mostrado pela internet ou as cédulas em caixa? E a relação entre ambos? Como influencia o virtual, que se tornou real, e o real, que se tornou virtual? Como posso saber em que dimensão eu estou? Na verdade parece o mundo dos mortos invadiu o dos vivos e trocaram de posições: mortos e vivos.
E por fim, a modalidade, isto é o que é possível e o que não é. Se eu estou na esfera da existência real ou virtual. Uma instituição financeira só reconhece meu número, senha, montante, débito, crédito. Eu concreto deixei de existir. Passei do real para o virtual. Sou apenas um valor atribuído. Para ser real novamente tenho que exibir o valor virtual.
E o moral, o ético o que são? Qual as relações, referências no qual se apoiam?





7 comentários:

  1. Pura verdade, incrível tudo o que estamos vivendo. Tempos modernos.

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    1. Tempos modernos ou tempos de deslaços.

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    2. Ser e sentir-se um valor monetário e´dolorido.
      A saudades é do abraço, do olho no olho, o carinho,um bom papo não tem preço.

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  2. Distância nas relações familiares, falta de dialogo, eis o resultado das novas tecnologias.

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  3. Uma bela e proveitosa REFLEXÃO.

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  4. Esquecemos muitas vezes quem está perto e nos ligamos só virtualmente.

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  5. Amigos distantes são perfeitos, não convivemos.
    Quem mora perto é real, humano e nos diz coisas que as vezes precisamos ouvir, mas não gostamos.

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