sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O medo e a moralidade. José Mauricio de Carvalho

 



Há uma constatação preocupante mencionada por Bauman e Donskis no livro Cegueira Moral. Vivemos numa era de medo e sua cultura se espalhou pelo mundo, alimentando a incerteza existencial e tudo o que isso significa de ruim. E a grande tese dos dois autores é que esse medo está na base da insensibilidade moral que se espalha pelo planeta. E ainda está na base da depressão que se tornou (id., p. 122): “a doença psicológica mais comum.” E isso apesar de que vivemos um tempo relativamente calmo e de prosperidade. Não se trata de um assunto novo (id., p. 116): “o medo da modernidade é notícia requentada. Cada novo fenômeno pode causar um surto de pânico moral e uma reação exagerada.”

Há um ponto de partida e podemos resumi-lo assim. A sociedade luta para se proteger de diferentes perigos. A civilização foi a construção de um mundo mais seguro, mas (id., p. 123): “até agora nossa capacidade não está nem perto de eliminar a mãe de todos os medos, aquele medo mestre exalado pela consciência de nossa mortalidade e da incapacidade de escapar da morte.” Para os autores, a morte é a raiz última de todos os medos.

O sentir medo é de fato triste, essa emoção desestabiliza a malha psicológica. Talvez fosse necessário acrescentar a partir dos estudos de Frankl um esclarecimento, sentir medo sem propósito. O fenômeno encontra-se, segundo os autores de Cegueira moral, associado a emoções ruins, inclusive o ódio (BAUMAN e DONSKIS, 2021 c, p. 117): “o medo fala a língua da incerteza, da insegurança e da proteção que nossa época fornece em grandes quantidades e abundância.” Assim existe uma correlação entre medo e insensibilidade moral, o que faz algum sentido. Embora devamos ter claro que o ambiente não obriga ninguém a fazer o mal e muita gente não o fez mesmo em condições adversas e com o risco da própria vida.

Bauman identificou três razões para o medo: a ignorância, a impotência e a humilhação. Essas três razões explicam o porquê do medo, inclusive aquele que a modernidade líquida abomina que é perder o bem-estar material. Nossa sociedade associa, todo o tempo, felicidade ao consumo de coisas e à posse de coisas, embora isso não seja exatamente assim. Enfim, a vida em sociedade cobra seu preço, segurança e liberdade dos desejos é uma conta difícil de fechar.

 O assunto foi amplamente examinado em O retorno do pêndulo, obra que debateu a relação entre liberdade e segurança e a ênfase nos desejos e prazer da sociedade líquida foi associada à pulsão de morte identificada por Freud. O assunto volta em diversas obras, notadamente em Modernidade Líquida (2001) e em A sociedade individualizada, vidas contadas e histórias vividas (2008) e Vida a crédito (2010 b). E o que era a síntese do mencionado (id., p. 121): “a civilização é uma questão de permuta, você ganha alguma coisa, porém cede outra.”

Para nós o medo nuclear a vida, o da morte e do sofrimento em geral, encontra-se na raiz do esforço pelo sentido, por tornar a vida valiosa aos nossos olhos de modo a fazê-la ecoar na eternidade, mesmo sendo ela limitada encontra um enfrentamento possível e importante na meditação e na construção do pensamento filosófico que a sociedade atual desconsidera como pouco produtiva e importante. E assim, em nome da produtividade e de benefícios materiais imediatos, a sociedade líquida vem deixando de lado o melhor enfrentamento desse medo e da própria loucura. E a questão se estende para além do problema da morte, como bem lembra Karl Jaspers (1987, p. 21): “as situações-limites – morte, acaso, culpa e insegurança – mostram o fracasso. Que farei eu perante este fracasso absoluto a cuja intuição me não posso furtar se honestamente o apreendo?” A questão nos parece diversa do mencionado por Bauman e Donskis, o modo como se apreende o medo e a insegurança é que explica o caminho existencial escolhido. Muitos medos são enfrentados em nome de boas causas e quando há um sentido mesmo a morte ou a dor não parece algo devastador. Porém ela o será sempre se o propósito da vida for apenas a acumulação de bens materiais ou a vida orgânica, porque nosso pensamento pede muito mais e isso foi o que descobriu o psiquiatra Viktor Frankl quando forjou a noção de inconsciente espiritual. Esse conceito foi utilizado (CARVALHO, 2021, p. 41): “para explicar a repressão da ideia de Deus e dos assuntos espirituais ocorridos na modernidade.” Esse fenômeno se agravou nos últimos anos, no que passamos a conhecer como modernidade líquida e o psiquiatra observou o fenômeno no consultório e alimentou uma vida vazia de sentido que ele traduziu no conceito de frustração existencial, raiz de uma forma de depressão muito comum em nossos dias que ele denominou depressão noogênica.” Uma depressão nascida da percepção de que a vida não tem um significado válido.

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

ENCONTROS DE FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti

 



 ENCONTROS DE FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti

Nos dias atuais multiplicaram-se os encontros em formaturas, esportes, educação, ciência, profissão e dezenas de outros. Há um que chama atenção, de família. O motivo é óbvio. Os laços de sangue são os mais fortes. Por que agora? A resposta também salta aos olhos: tecnologia  da comunicação. Anos atrás, em torno de cinquenta anos, a comunicação teria que ser por carta ou a viva voz. Atualmente é instantânea. Isto tornou possível não só se comunicar como encontrar o parente. No passado quando alguém emigrava do local de sua família ninguém mais o achava. Hoje, ao contrário, os meios possibilitam encontrar alguém em qualquer parte do mundo.

Os encontros de família geralmente são na residência de um familiar, avós, pais, mãe, irmão ou primo. Nos encontros, o tradicional pai, mãe e irmãos se multiplicou atendendo ao mandamento bíblico. Agora são primos e primas, maridos e esposas, filhos destes e até netos. A minúscula família virou uma multidão.  Nem mais todos se conhecem. A pergunta mais frequente: tu és quem?

O lugar da festa é geralmente no interior, numa capela, casa ou na cidade num clube. No dia combinado todos se dirigem ao local. O momento é como um encontro de pássaros. Rebenta a festa. Todos gritam, cumprimentam, se abraçam, se beijam. Alguém aponta para um pica-pau que se gruda ao tronco da árvore, lembrando o melar dos matos. Outro para o “campanil” da igreja, recordando as travessuras de enrolar um pano no badalo. E outros para a ladeira onde se brincava de carrinhos de lomba. Tudo festa, abraços, beijos, risadas e choros.

Mas por que motivos os parentes sanguíneos  querem se encontrar? O que os move a procurar pais, irmãos, primos, tios ou avós? Num tempo em que a dispersividade  é o normal  o que nos move buscar os que compartilham o mesmo sangue? A resposta pode ser encontrada na aspiração existencial. E é nesta direção que iremos buscar as respostas.

O ser humano desde que despertou a consciência se pergunta quem ele é. E para saber a resposta pergunta-se de onde vem. A primeira confrontação se dá coma a família descobrindo certas identidades: traços físicos, modos de falar, histórias, valores. A partir daí procura reconstituir a própria história. Percebe que na fluidez da sociedade a família é a espinha dorsal que congrega os elementos dispersos. Com isso reconstitui a própria identidade.

O esforço na busca de saber de onde veio busca conectar o passado, presente e futuro, interligando-os. Ao deparar-se com o presente e passado, conhecendo avós e pais, conecta o tempo que cultura digital tende apagar, pois enfatiza só o presente. Com isso emerge a descoberta da continuidade no tempo através do laço sanguíneo.

Antes da vida racional experimenta-se a vivência afetiva. É através dos pais, irmãos e primos que se entra na vida adulta. O afetivo antecede o racional. O que eles me ensinaram? Quais os conflitos que se enfrentados? As ausências, rupturas e presenças que marcaram a vida. Buscar os familiares proporcionará reforçar boas experiências e superar as ruins.

Em alguns casos, de forma sutil e subliminar, transparece um desejo de reconciliação por problemas ao longo da jornada: separações, ausências de pai ou mãe, pobreza, preferências de filhos. Os encontros podem ser uma oportunidade de reparação e conciliação.

Menos influentes, mas ocorrem, curiosidades genéticas como doenças, comportamentos, aptidões cujos familiares, através de encontros, buscam respostas sobre si mesmos.

Pergunta-se: encontros de famílias são apenas capricho, momento de lazer, a saudade ou tem alguma justificativa mais profunda existencial e ontológica?

Em Aristóteles constatamos que o homem é um animal político cuja primeira experiência política é a família. Nela o homem é acolhido numa comunidade e aos poucos vai se preparando para a plenitude política que é o Estado. Cada encontro de família revive-se a vida gregária inicial podendo ser confrontada com as relações instrumentais e públicas.

Em Paul Ricoer encontramos ao que ele chama de identidade narrativa constituída de dois momentos: o idem - o núcleo permanente e o ipse – o adquirido ao longo do tempo. A família é o fio condutos que conecta os dois povos. Nos encontros volta-se ao tempo e experimenta novamente o ipse que é seu eu, presente na família.

Por sua vez, Zygmunt Bauman ao trazer o conceito de liquidez quer significar os vínculos frágeis e os de solidez. Como se vive mais os vínculos descartáveis as pessoas suspiram por vínculos sólidos. E estes podem ser reencontrados na família.

O mais humano dos grupos, a família, através da conexão dos laços e os vínculos se alimentam e se concretizam nos encontros.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A insensibilidade moral de nossos dias. José Mauricio de Carvalho.






O sociólogo Zygmunt Bauman se esforçou para mostrar que as mudanças na sociedade decorrentes da globalização e das transformações na economia dela decorrente, alteraram a vida quotidiana e a rotina das pessoas. A própria mudança do sujeito em mercadoria que é parte desse processo contribuiu para isso. A forma de vida estimulada pela sociedade de consumidores provocou alterações profundas na rotina das pessoas e na vida de família. Toda uma preocupação em consumir substituiu o tempo do afeto e dos encontros por compras e presentes. O afeto passou a ser demonstrado com a oferta de presentes.
Entre as transformações mais significativas dessa sociedade de consumidores, onde a essência da vida ida são as compras, está a criação de um grupo de excluídos absolutos que quase não consomem. São os consumidores falhos ou aqueles que deixam de cumprir seu papel de compradores e se tornam plantas indesejadas do jardim social, ele o compara em Vida para o consumo. Esses indivíduos são como (BAUMAN, Vida para o consumo, 2008 b, p. 158): “ervas daninhas, feias porém vorazes, que nada acrescentam à harmoniosa beleza do jardim e deixam as plantas famintas ao sugarem e devorarem grandes partes de seus nutrientes.” Ser parte da sociedade significa cumprir seu papel como utilizador de bens sem consumir recursos do Estado para a manutenção de incapazes de comprar. Os pobres tornaram-se inúteis criaturas dessa sociedade que emergiu da globalização. Ela os marginalizou e lhes ofereceu a ilusão de que haveria um lugar onde eles poderiam ser felizes. Estamos diante de uma lógica recente, ainda que os pobres pudessem ter um papel de pequena relevância em outros tempos. Atualmente eles são (id., p. 160): “reclassificados como baixas colaterais do consumismo, os pobres são agora, e pela primeira vez na história registrada, pura e simplesmente uma amolação.”
Como são indesejáveis, desamparados e inúteis podem ser retirados dos lugares públicos e se possível enviados para além das fronteiras. O que se lhes passa não interessa. Se a insensibilidade moral cresce em nossos dias em todos os campos da vida social, são esses indivíduos os que estão em pior condição.
A dormência moral é sintoma grave de enfermidade social porque quando se avaliava o que foi feito pelos nazistas, nada parecia errado ou inadequado, mesmo para pessoas comuns que se consideravam boas e éticas. Isso foi assim porque (id., p. 162/3): “as vítimas de violência, que há muito tempo não eram consideradas membros da família humana, não deviam ser alvos de empatia e compaixão moral.” Assim, quando alguém é colocado fora da sociedade, ou perde sua humanidade, e é visto como ameaça a ela, esses indivíduos são empurrados para fora, sem culpa e sem constrangimento.
E o que é mesmo essa insensibilidade? O sociólogo aprofundou o assunto em Cegueira moral que se tratava de um tipo de (BAUMAN e DONSKIS, 2021 c, p. 20): “comportamento empedernido, desumano e implacável, ou apenas uma postura imperturbável e indiferente, assumida e manifesta em relação aos problemas e atribulações das pessoas.” Algo como o entorpecimento dos sentidos para o sofrimento que se passa ao lado, uma anestesia à dor do outro. Trata-se da incapacidade de notar que algo está ruim no meio social e que não percebemos que a situação está piorando.
O que o sociólogo considerou, portanto, como um entorpecimento moral era pois a ausência (id., p. 16): “de reação ao sofrimento de outra pessoa, quando nos recusamos a compreender os outros, quando somos insensíveis e evitamos o olhar ético silencioso.” Deixar um estranho sofrer ou morrer considerando isso adequado é a forma de maldade que surgiu em nossos dias. Nessa nova versão do capitalismo, o sucesso nos negócios, o crescimento do país se coloca acima das pessoas e de seu destino. E a dormência moral se mostra quando deixamos alguém sofrer ao nosso lado, alimentando amigos nas redes sociais, deixando de ouvir quem sofre ao nosso lado em nome de relações imaginárias, discriminando, por exemplo, o migrante convivendo com a injustiça e seu sofrimento. Conferir dignidade ao outro, esse é o desafio para enfrentar o mal que se espalha em nossos dias.
Portanto, a insensibilidade ao sofrimento alheio é resultado de eles serem apresentados como demônios que atormentam a alma (BAUMAN, 2008 b, p. 168): “sua guetização e criminalização, a severidade dos sofrimentos que lhes são ministrados e a crueldade geral do destino que lhes cabe são – em termos metafóricos – as principais formas de exorcizar os demônios interiores.” O sociólogo mostrou os problemas que o homem comum e geralmente tido como bom (BAUMAN e DONSKIS, 2021 c, p. 15): “cria para o outro, recusando-se a conceder-lhe individualidade, mistério, dignidade e uma linguagem sensível.” Isso naquele sentido já identificado por Hannah Arendt de que um banal burocrata pode fazer um grande mal quando é incapaz de refletir criticamente sobre o que faz. E, o que o sociólogo acrescenta, é que é um fenômeno amplo. Ele não foi algo específico da Alemanha nazista, pode acontecer em toda a parte. E há ainda outro tipo de mal, mais extenso e nefasto, quando ele é visto como ação não de um indivíduo propriamente, mas de uma comunidade ou subclasse.
Bauman mostrou, a partir dos estudos de Auletta, que a subclasse dos consumidores falhos não se identifica perfeitamente com a pobreza, há entre esse grupo pessoas cujo comportamento é anti-social, inclui a recusa de valores, etc. Assim, mesmo se a pobreza for combatida, esse subgrupo continuará existindo, mas a questão econômica parece ser o fator mais importante na formação dessa classe. Trata-se do fator mais importante no seu estabelecimento. Ao se esforçar para consumir e fugir do estigma, esse indivíduo acaba ainda mais pobre. Por isso, sem algum amparo que ajude essas pessoas mais pobres, elas considerarão seus direitos políticos inúteis. Assim, Bauman lê as mudanças sociais provocadas por aquilo que ficou conhecido como neo-liberalismo da era Thatcher e Regan como a eliminação das preocupações sociais do Estado. Isso passou a se assumido por diferentes governos que se seguiram a era Tatcher – Regan.
A negligência moral ao sofrimento do outro tornou-se, avaliou o sociólogo, uma marca de nossos dias, ela é alimentada pelo consumo de bens e é sufocada antes de se tornar incômoda. Um descaso alimentado pelo consumo irrefreado considerado um ato moral e adequado numa sociedade que vê nas lojas e shoppings o remédio para aplacar as dores morais.
Clara Lucia Delage Lemos
Misericórdia Senhor!
Ana Lucia Monteiro de Assis
Falou muito bem, Professor
Adelmo José da Silva
Parabéns, Mauricio!
Um artigo muito interessante e oportuno.
Bruno Cunha
Interessante observar como esse consumismo chegou às igrejas e subverteu a mensagem da religião. Estes mesmos, que entendem a religião como troca de mercadoria, padecem de completa "dormencia moral". Odeiam pobres, minorias, são indiferentes ao sofrimento alheio e aversos a tudo que é diferente.
Bruno Cunha
Bauman é uma das vozes mais lúcidas da filosofia moral e política do século XX - XXI.
Lygia Toledo
Em interessante linguagem poética, uma amostra dos males da globalização. O consumo desenfreado, o afeto relegado a presentes, os excluídos ou os "indesejáveis" do jardim social... As lamentáveis "ervas daninhas". Uma perfeita e triste análise sobre os pobres e uma triste realidade ilusionista!

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