sexta-feira, 9 de maio de 2014

POLÍTICA E ÉTICA. Selvino Antonio Malfatti e José Maurício de Carvalho





   














Este pequeno livro sobre Ética e Política não foi concebido nos moldes acadêmicos da pesquisa científica, mas nos padrões didáticos. Ele pretende trazer esses dois assuntos ao público através de pequenos textos. No entanto, procuram revelar cuidado com os conceitos fundamentais das disciplinas e respeitam uma metodologia de  reflexão.
Os textos são curtos, mas enfrentam problemática densa, quer quando apresentam a existência do homem como permanente efetivação de escolhas, quer quando situam a vida do homem no âmbito das questões grupais. Foram organizados por temas embora a leitura possa ser feita separadamente. E eles têm por referência que a existência humana não se verifica fora da sociedade, o que estabelece de regras de convivência que orientam as relações sociais e práticas administrativas, de gestão da vida coletiva, e de planos para o destino dos grupos.
A Ética é uma disciplina filosófica e, como tal, consolidou-se como reflexão sobre os costumes. Nesse sentido, seu material não é criação dos filósofos, mas procedimentos desenvolvidos na vida coletiva. Moral é o conjunto de normas de um grupo sobre as quais se debruça o filósofo para entendê-las e justificá-las racionalmente. A política, por sua vez, é destino, uma forma de orientar o futuro das sociedades.
As reflexões aqui apresentadas tratam de assuntos que emergiram da problemática ética e política predominante no Brasil, mas também se estendem a questões transnacionais. É que o universal é alcançado pelas experiências concretas da vida. O pensamento político decorreu das vicissitudes enfrentadas pelos debates, eleições e confrontos partidários. O conteúdo ético, por sua vez foi ensejado pela práxis política. Por isso, há um intercâmbio entre a prática e a teoria da política para a ética, e desta para a política.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

A sarneyrização do governo Dilma. Gustavo Müller, professor UFSM.




Pesquisa recente do Instituto DataFolha mostra um medo generalizado da volta da inflação. Os dados demonstrados pelo referido instituto dão conta de que para 69% dos que têm renda mensal acima de dez salários mínimos a inflação deve aumentar. Obviamente tal faixa de renda possui também o maior nível de escolaridade.  Não obstante, o dado mais significativo mostra que cerca de 90% dos que ganham até dois salários mínimos já perceberam o aumento da inflação. Como é sabido, os que se situam nessa faixa consomem grande parte de sua renda com os alimentos, e mesmo que estes sejam sujeitos a aumentos sazonais – causados por quebra de safra por exemplo –o que estamos assistindo é uma reindexação da economia provocada pela deterioração das expectativas dos agentes econômicos.
Pesquisas na área de comportamento eleitoral já demonstraram fartamente que o desempenho econômico dos governos é um fator determinante para a decisão do voto. Com a base eleitoral do governo (eleitores na faixa de dois salários mínimos) alarmada pela elevação dos preços é razoável supor que mesmo reeleita, os ajustes que terão que ser feitos em 2015 “minarão” a legitimidade conferida à Dilma pelas urnas. Não bastasse isso, é pouco provável que os “aliados” darão suporte para eventuais reformas que poderão ser tentadas em um rompante de lucidez pouco provável.

Há de se constatar que, por razões ideológicas, o governo seguiu o roteiro do desastre incentivando o consumo sem tomar medidas para o aumento da produtividade, o que fez com que a conta não feche. Medidas “heterodoxas” foram promovidas pelos governos militares e pelo governo Sarney,  e deram com os burros n’água. O triste é ver toda a arquitetura de desindexação levada a cabo na transição da URV para o Real se desmontada por quem não leu (ou esqueceu que viveu) a historia recente do país.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Airton Senna, 20 anos. José Maurício de Carvalho




Em maio de 1994, morando fora do país, assisti chocado a morte de Airton Senna, um brasileiro cidadão do mundo. Tão impressionante quanto o próprio acidente eram as imagens que chegavam à Europa de um país ferido. O povo em estado de choque, as pessoas com olhar perdido caminhando pelas ruas, as crianças chorando. Brasileiro acima de tudo, com a bandeira nacional erguida depois de cada vitória, Senna transformou nossas manhãs de domingo dos já  distantes anos 90, numa realidade mágica. Um brasileiro cidadão do mundo, pois não havia canto do planeta em que Airton Senna não fosse conhecido e admirado.
Ao recordar o corredor talentoso e humilde, vinte anos após sua morte em Ímola, nem de longe penso em retratá-lo como santo, o jovem corredor tinha angústias e contradições próprias da juventude. Errava como qualquer humano. No entanto, o garoto tímido fazia do seu projeto de correr algo tão grande quanto nosso país continental. Ele corria por todos nós e seu projeto de vida ultrapassava sua existência singular, para ser, para nós, figura exemplar de dedicação, exemplo de um país que dava certo. De alguma forma ele nos fazia sentir orgulho do Brasil. Isto não é pouco.
O fato de viver completamente sua vocação de corredor até o limite extremo do quanto alguém pode ser fiel ao que tem de mais singular no seu íntimo, o fato de querer melhorar o país com seu esforço, o seu desejo de fazer de todos nós vencedores em nossa luta diária, fez dele o ídolo de uma geração. O que há de mais profundo em cada um de nós não são os limites, mas as pontes que nos levam para além deles. E Airton sabia como poucos transcender seus limites, sem deixar de ser humanamente limitado: pela dor, pelo sacrifício e, finalmente, pela morte trágica que o levou tão jovem.
O ser alguém capaz de entregar-se completamente a sua missão e, sobretudo, por fazer dela a causa de uma nação, ela fez dele um herói. Herói como tantos que este país produziu e produz, mas cuja memória não cultivamos nem divulgamos. Ou pior, sou de uma geração que não acreditava em heróis, ou que um povo não precisasse deles. Airton me obrigou a pensar diversamente e romper esta lógica niveladora da mediocridade. Um povo precisa de heróis, como a Igreja de santos. Pois uns e outros são pessoas comuns, capazes de fazer gestos simples que possuem a força dos gigantes. Ambos ensinam a fazer o melhor, a procurar o melhor, a ser melhor, em não se conformar com menos.
Um homem e uma nação podem funcionar sem este espírito, mas dificilmente chamaríamos de vida às escolhas que brotam dessa existência sem fidelidade completa ao mais íntimo de si. Ser o melhor que posso ser é uma experiência humana maravilhosa, marcada pelo espírito de uma ética da fidelidade a si e do sacrifício que leva à vitória.

A morte de Aírton, iluminada por este olhar que clareia sua vida, não foi um desperdício que terminou no acidente trágico daquela manhã de domingo. Sua vida ganhou, pela exemplaridade e amor que os brasileiros lhe dedicavam, dimensão de permanência e eternidade. Airton viveu uma vida de significado pleno. Então, viva Aírton.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Pela Filosofia. José Maurício de Carvalho



Ao inserir na prova de Filosofia do ensino médio uma questão sobre música da cantora Vaneska Popozuda, o Prof. Antônio Kubitschek, da cidade de Brasília,  levou a Filosofia para passear no jardim do ridículo. E diga-se logo, este não é lugar adequado para esta velha senhora de 2600 anos, ocupada com as questões fundamentais da existência do homem e do mundo. E por que não é um bom lugar para esta velha senhora? Porque em nosso tempo muitos não a compreendem, outros fingem respeitá-la, embora a desprezem. Há, finalmente, políticos oportunistas que querem vê-la fora das escolas pelos riscos que representa ensinando pensar de forma crítica os problemas da vida pessoal e da sociedade. Estes políticos desejam eliminar a Filosofia da Escola para evitar os questionamentos dos cidadãos e indiretamente poupar tostões com os quais se remunera mal os professores de Filosofia. Argumentam haver finalidade mais nobre para o dinheiro público. A mídia adorou divulgar a questão ridícula.
E quero desde logo esclarecer que não se critica aqui o uso de letras de música para provocar reflexão. Isto pode ser feito. Nem se trata de excluir de pronto o conteúdo da questão, pois sabemos que se pode falar de um simples copo d' água e isto ser Filosofia. Foi o modo de falar. Insisto, não é o tratar das coisas comuns da vida que afasta a Filosofia, pois sempre é possível retirar das experiências quotidianas um sentido profundo, buscar no  rotineiro as origens da certeza universal ou caminhar na autoconsciência do ser. É sempre possível perguntar-se se não respeitar a fila ou empurrar alguém ao entrar na condução encontra justificação universal. Porém, o fenomênico e o banal na reflexão filosófica hão de ser interrogados para se abrirem ao  amplo e fundamental. Refletir sobre o simples não significa que qualquer coisa é válida como Filosofia e isto a mídia não ajudará a esclarecer após a lamentável divulgação da prova. A opinião pública ficará com o que ouviu da questão infeliz.
A Filosofia foi levada ao jardim do ridículo também porque o Professor disse pretender a polêmica. Conseguiu a polêmica, mas promoveu reflexão filosófica? Ajudou a popularização ou a compreensão da Filosofia? Não acredito. Pode parecer que o propósito da Filosofia seja criar controvérsia, iniciar debate, promover a discussão, mas não é. O debate filosófico tem sentido como instrumento, quando se realiza em torno a questão específica, quando todos os debatedores estão comprometidos com o propósito de pavimentarem juntos o caminho até a verdade.  Dito de outro modo, embora a reflexão filosófica seja sempre individual ela precisa considerar o argumento de outras reflexões, pois ninguém na absoluta solidão de sua consciência encontra a certeza do fundamento. Não faz sentido a polêmica pela polêmica, mas faz sentido o diálogo que busca a verdade e esclarece os problemas.
A Filosofia foi levada ao ridículo porque apontar Valeska Popozuda como grande pensadora contemporânea sugeriu que a tradição filosófica é uma banalidade. Um lugar onde se coloca qualquer um. Como a cantora se apresenta ao público? O que a diferencia das outras Valeskas (e não Valeskas)? Qual é sua singularidade? O fato de ser Popozuda, isto é, segundo o Aurélio, o possuir grandes nádegas ou popa. E tão grande ela tem que não é só uma popa de respeito, mas é Popozuda. É assim que ela se identifica, é o que a diferencia das outras mulheres e, por extensão, de todo o restante da humanidade. E nada do que ela tenha escrito parece significativo no esforço de aprofundar a consciência do homem durante mais de dois milênios e meio. A tradição filosófica está bem demarcada no espaço da cultura pelo propósito de penetrar no fundamento do mundo e da vida. A tradição filosófica é movimento intelectual em torno as suas grandes obras e ser grande aqui não é simples. É preciso possuir grande reflexão.

Embora a Filosofia comporte muitas definições e interpretações, ela é reflexão pela qual o homem se pergunta pelo que existe e pela forma como se insere nisto que ele chama mundo ou realidade. É atividade séria, mas pode ser leve e didaticamente ensinada.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

QUASE UM SÉCULO DE CULTURA. Selvino Antonio Malfatti




Hoje Reflexão homenageia ANTONIO PAIM, o intelectual brasileiro que completou 87 anos.
Inicialmente projetado para ser o guru do socialismo-comunismo no Brasil – inclusive com formação acadêmica em Moscou – quando percebeu o dogmatismo dessas ideologias, converteu-se à liberal-democracia. Devido à perseguição movida pela KGB russa teve que abandonar aquele país deixando por lá mulher e filha. 
No Brasil passa a lecionar em universidades fundando cursos de pós-graduação. Como resultado conseguiu formar escola e ter seguidores. Estes poderiam ser divididos em três categorias: os de primeira geração como Ricardo Vélez Rodriguez, Leonardo Prota, Anna Moog Rodriguez e outros. Os de segunda geração, como José Maurício de Carvalho, Tiago Lara, Selvino Malfatti e os de terceira geração que receberam formação de discípulos de Paim.
Nada melhor ouvirmos seu discípulo, um dos mais completos, Ricardo Vélez Rodriguez:

O ANIVERSÁRIO DO MESTRE ANTÔNIO PAIM




No passado 7 de Abril, um grupo de familiares, amigos e discípulos de Antônio Paim,  comemoramos em São Paulo os 87 anos do mestre. O evento aconteceu na Tasca do Zé e da Maria, em Pinheiros. A filha Augusta (que mora em S. Paulo) e a amiga Rosa Mendonça de Brito (residente em Manaus), planejaram tudo. Foi uma festa surpresa para o querido mestre. As organizadoras teriam gostado que mais amigos e discípulos do Antônio Paim estivessem presentes. Mas com o corre-corre foi difícil entrar em contato com mais pessoas. 

Estiveram presentes: Maria e Arsênio Corrêa (S. Paulo), Leonardo Prota (Londrina), Anna Maria Moog (Petrópolis), Ricardo Vélez Rodríguez (Londrina), Rosa Mendonça de Brito (Manaus), Augusta Fonseca Paim (S. Paulo) e Antônio Roberto Batista (S. Paulo).

Antônio Paim é um desses educadores que conseguem manter nexos de amizade com as várias gerações de discípulos que passaram pelas suas aulas. Coloco, a seguir, os depoimentos de duas discípulas do mestre: Anna Maria Moog e Rosa Mendonça de Brito. 

Eis o depoimento da Anna Maria Moog: "Ao receber o e-mail de Rosa (Mendonça de Brito)  propondo que eu fosse, dali a dois dias, participar de um jantar comemorativo do aniversário de mestre Antonio Paim, pensei que não conseguiria me desvencilhar dos compromissos prévios.  Mas logo decidi colocar tudo de lado e viajar para S. Paulo .  Valeu a pena. Foi uma enorme alegria estar com amigos de longa data, unidos justamente pela amizade, respeito e admiração que nutrimos pela figura de Paim. Ao longo dos anos, Antonio Paim tem sido nosso norte, a referência inelutável para seus amigos, ex-alunos e admiradores de sua obra, sobre todos os temas relativos à cultura, à filosofia, à moral e à política.  Acima de ser referência intelectual, reconhecemos nele o homem de bem, de postura discreta mas capaz de iluminar com suas palestras inteligentes e, por vezes, espirituosas, nossas reuniões.  O homem que nunca faltou  com seu apoio aos que a ele recorreram e jamais, jamais deixou um amigo 'na mão'.Inúmeros depoimentos sobre sua pessoa já o declamaram de sobejo. Por esse, e muitos mais motivos, o jantar dos 87 anos do jovem Antonio Paim foi festejado  com alegria, mormente porque proporcionou aos amigos a oportunidade de lhe demonstrar mais uma vez o carinho que lhe temos e a alegria de o abraçarmos".

A seguir, o depoimento de Rosa Mendonça de Brito: "O encontro com Paim, Augusta, Anna Moog, Leonardo Prota e Ricardo Vélez,   encontro de mestre e discípulos, colegas e amigos, em São Paulo, na Tasca do Zé e da Maria me fez retroceder no tempo e chegar a 1975, 39 anos atrás, quando da seleção para o Mestrado em Filosofia da PUC/RJ. Vencidas as duas etapas da seleção, a avaliação do projeto de dissertação e prova de língua estrangeira, tinha que encarar uma entrevista com três professores do Programa. Lembro-me que tive de passar pelo crivo de Celina Junqueira e de Antonio Paim, não me recordo do nome do outro professor. Naquele momento, quando da entrevista, uma pergunta de Paim me marcou profundamente. O mestre perguntou: 'EU GOSTARIA QUE VOCÊ ME EXPLICASSE POR QUE O HUME DESPERTOU O KANT DO SONO DOGMÁTICO?' Minha resposta foi: 'não sei, faço tal afirmação porque ela sempre esteve presente nos livros que estudei e nas aulas dos meus professores, mas nunca li ou ouvi qualquer explicação sobre a afirmação'. A resposta para o desconhecimento foi uma bela aula que nunca mais esqueci. Aceita, após aprovação na seleção, para compor a turma de Mestrandos de 1976, voltei a encontrar Antonio Paim em sala de aula. Minha intenção era fazer o Mestrado em Filosofia da Ciência, mas suas aulas me levaram a optar pela área de Filosofia Brasileira e procurá-lo para pedir - e confesso que bastante temerosa -, para que ele me orientasse. Para minha satisfação, ele aceitou. Naquela jornada, a fim de suprir a minha deficiência de conhecimentos - me sentia uma formiga diante de elefantes - e não decepcioná-lo, estudava pelo menos 18 horas por dia. Entrava na PUC às sete da manhã e saía às dez da noite, quando a Biblioteca fechava. Em casa, estudava pelo menos até 2 da madrugada, mas valeu a pena! Paim se colocava a disposição e, além disso, disponibilizava livros, orientava na busca de documentos e obras que deveria estudar. Defendida a Dissertação, em 1979, voltei para Manaus, mas não perdi o contato com o Mestre, que já considerava amigo. Com a criação do Doutorado em Filosofia Luso-Brasilera, na Gama Filho, submeti para a seleção de 1982 o meu Projeto de Tese com tema sugerido por Paim, feito da seguinte forma: 'Você topa realizar um estudo sobre a Filosofia de Kant no Brasil? É um estudo denso, mas é muito importante para o pensamento brasileiro'. Eu lhe perguntei: 'O senhor acha que eu tenho competência para realizar este trabalho?'  A resposta foi: 'sim, tenho certeza que você fará um bom trabalho'. Era um estudo que ele pretendia realizar 5 anos mais tarde, mas que, acreditando na minha capacidade, o delegou a mim. Diante da demonstração de confiança,  senti-me lisonjeada e, apesar de apavorada com a dimensão e profundidade do estudo, resolvi aceitar o desafio. Enfrentei algumas dificuldades: doença, fechamento do setor de obras raras da Biblioteca Nacional, 2 filhos pequenos (Márcio com 1 ano e meio e Gisele com dois anos e oito meses), falta de empregada de confiança. Apesar disso, consegui com a orientação segura e indispensável de Paim, concluir o doutorado em três anos, tendo a honra de ter como membros da banca de defesa, além de Antonio Paim, Anna Maria Moog, Creuza Capalbo, Ricardo Vélez e Aquiles Guimarães, amigos queridos a partir de então.Naquele momento, além da dimensão de educador, descobri em Paim uma dimensão humana fantástica. Nunca passou a mão na minha cabeça, ao contrário, exigia o máximo de mim, cobrava o tempo todo, mas ajudava sempre através de discussões, de indicação de onde encontrar com pessoas ou instituições o material para o desenvolvimento do trabalho que envolvia pesquisa em obras raras. Evaristo de Moraes Filho, por intermédio de Paim, me disponibilizou a sua biblioteca particular, em sua casa, para que ali realizasse estudos em obras não encontradas em outro lugar. Paim fez muito mais! Levando em consideração que eu tinha duas crianças pequenas, fazia a minha orientação em seu apartamento no Leme, com isso, tornei-me amiga de Rita, sua mulher, e suas filhas Juliana e Augusta. Toda semana, quando ia para o encontro de orientação e não tinha com quem deixar os meus filhos, eu os levava. Juliana e Augusta ficavam com eles enquanto me era dado o privilegio de receber magníficas aulas. Paim foi fundamental para o meu desenvolvimento intelectual. Ser-lhe-ei eternamente grata. Ele será sempre o meu guru e mestre favorito!"



sexta-feira, 4 de abril de 2014

E a música é …? José Maurício de Carvalho.


    http://www.youtube.com/watch?v=Z-2AngS_Z5k

O crescimento econômico do Brasil nas últimas décadas, somado à consolidação da democracia no mesmo período, deu ao nosso país destaque e visibilidade que ele não tinha. O mundo voltou os olhos para o Brasil, como passou a observar com maior atenção outros grandes países que cresceram economicamente: Rússia, Índia e China. É claro que apesar do desenvolvimento econômico continuamos com muitos problemas sociais e de infra-estrutura, o que não é estranho já que mudanças profundas são para mais de uma geração. Ainda assim o modo de ser brasileiro tornou-se uma curiosidade universal até porque o país se propôs a realizar dois grandes eventos da atualidade: a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. A visibilidade aumentará mais ainda nos próximos anos.
Esta redescoberta contemporânea do Brasil pelo mundo não deixa de ser curiosa e ajuda a olhar para nós mesmos com outros olhos, isto é, com os que de fora nos enxergam. A satisfação e espírito patriótico cresceram aqui dentro e o mundo começa a enxergar as coisas boas que estamos realizando. No entanto, esta onda brasílica que percorre os cinco continentes possui um lado meio cômico, meio histérico que antes de divertir me incomodou bastante: Luan Santana e sua música nomeada de brega sertaneja. A tal música está longe de ser sertaneja, pelo menos não tem nada a ver com a chamada música de raiz, mas hoje é tocada nas grandes cidades e no interior. Quanto a ser prega isto pode ser, eu não saberia classificar.
E depois de Ai se eu te pego, o país de músicos do quilate de um Pe. José Mauricio, Carlos Gomes, Ari Barroso, Francisco Braga, Henrique Oswaldo, Leopoldo Miguez, Lorenzo Fernandez, Radamés Gnattali, Cláudio Santoro, e outros tantos populares como Pixinguinha, Lamartine Babo, Francisco Alves, Cartola, de ritmos tão diversos como bossa nova, jovem guarda e tropicalismo, de folclore tão rico e variado com: baião, batuque, bossa nova, choro, lundu, maracatu, maxixe, samba, modinha, virou o país de Michel Teló: ... Delícia, Delícia, assim você me mata (...). Nos últimos meses é um tal de jogador de futebol, jogador de tênis, jogador de basquete imitar a pornodancinha de Luan Santana para celebrar seus triunfos atléticos que a cena ficou cômica. E a moda ganhou mundo, pois não apenas os atletas e artistas, mas o público imitando seus ídolos procura também repetir a já conhecida dancinha. Como português é língua pouco conhecida o povo pelo mundo afora não tem a menor ideia do que se canta e viaja na fantasia dos gestos mesmos. O aborrecimento inicial que tive hoje é pura diversão, povos que imaginavam que nossa capital era Buenos Aires ou que aqui se chamava Bolívia estão sob nossa influência cultural e de que nível! Estou adorando e a vingança será completa quando os americanos, protestantes de raiz, aderirem a dancinha pornoerótica, se chegarem a tanto. O que não farão quando descobrirem a música de Vila Lobos? Terão orgasmos múltiplos na Quinta avenida. Até os frios japoneses se curvarão ante produção tão magnífica, não? Se eles gostam de Michel Teló como responderão a Carlos Gomes? Acredito que em êxtase completo.
Enquanto o mundo gira e o país real encontra-se afogado pelas águas de verão na sua habitual imprevidência e falta de planejamento, o mundo dança ao som de ai se eu te pego, ai se eu te pego. Como classificar mesmo a música: brega sertaneja? Não, é lixo mesmo. E a ela a história dará o mesmo destino do último sucesso do nível: minha equinha pocotó. O que se espera é que nenhum movimento popular de protesto resolva levar também o jovem cantor brega sertanejo e seu rebolado ao Parlamento, como levou o cantor de minha equinha pocotó. Aí já não me divertiria tanto.



domingo, 30 de março de 2014

A CORRUPÇÃO POLÍTICA NO BRASIL: QUEM PODE ACABÁ-LA? Selvino Antonio Malfatti.





Todos os cidadãos desejam acabar com a corrupção. Mas quem pode fazê-lo? Apliquemos o método da eliminação. Comecemos com o executivo. Este evidentemente não será capaz, pois é ele exatamente quem a promove. É ele que negocia com parlamentares, empresários, partidos ou mesmo intelectuais para receber os apoios. Então, o executivo fica descartado.
O legislativo? Com certeza não, porque individualmente um que outro aceitaria pautar-se pela honestidade, mas o todo engole o individual. Como a pressão do executivo se faz sobre a totalidade, isto é, corporativamente, as individualidades devem se curvar perante o todo.
O Judiciário? Com certeza é o único que poderia acabar com a corrupção. Embora tenha um agravante da nomeação do executivo, o juiz deveria rasgar a ficha de filiação partidária quando ingressasse neste poder. No Brasil, por exemplo, a maioria da suprema corte ou foi nomeado por Lula ou Dilma. Mas mesmo assim o judiciário é a última esperança. Vejamos o que aconteceu com a horrenda corrupção política italiana apoiada pela máfia. O judiciário italiano conseguiu vencê-la inclusive com sacrifícios cruentos até mesmo no judiciário.
O mundo político italiano, nos anos Noventa, vinha marcado pelos radicalismos partidários que caracterizavam as administrações Provinciais e Municipais. Estes radicalismos eram decorrentes de facções partidárias estruturadas em cima de ódios e rancores entre  famílias tradicionais e aristocráticas locais. Cada facção identificava-se com um partido. Esta, ao chegar ao poder fazia a política da exclusão dos adversários, fechando os espaços na administração, ensino, sistema financeiro. As listas de candidatos privilegiavam os amigos e parentes do partido majoritário.  Se alguém levasse o caso perante a Corte judiciária, o processo, ou chegava atrasado ou depois da eleição. Taxavam-se impostos conforme as exigências dos correligionários. A própria justiça era influenciada pela ação dos partidos[1]. Mas, até que esta rede de corrupção se manteve dentro de parâmetros que não levassem perigo à sociedade como um todo, foi tolerado. Afinal, depois de alguma reviravolta, o novo vencedor faria o mesmo e compensaria. No entanto o quadro começou a chegar ao limite do tolerado, quando ocorrem suspeitas de que já se haviam estabelecidos liames entre a política e o crime organizado. Começou então o poder judiciário organizar uma ação sobre esta suspeita convocando políticos para deporem. Este foi um dos acontecimentos mais devastadores em termos de desgaste perante a opinião pública e de discórdias internas para os partidos políticos tradicionais, em particular na Democracia Cristã. Os mais importantes tiveram lugar em Milão, batizados com o nome de Mani pulite (mãos limpas). Como o grau de corrupção era endêmico na cobrança de valores extras, chamados “tangenti”, a opinião pública criou um quase “ideal-tipo” de corrupção, localizado numa cidade imaginária, a Cidade das Tangentes, ou Tangentopoli.
O ponto de partida ocorre em fevereiro de 1992 com a detenção do socialista Mario Chiesa. Em março, como se viu, é assassinado, em Palermo, o eurodeputado Salvo Lima. Em maio, novamente em Palermo acontece o atentado com morte contra  o juiz Giovanni Falcone. Em julho acontece a morte de outro juiz Paolo Borselino, também em Palermo. E em dezembro, o deputado socialista Bettino Craxi é convocado pela Justiça. Há tentativas de serem freados os inquéritos por parte do governo que previa uma solução política para a questão. No entanto, em março de 1993, o Presidente da República Oscar Luigi Scalfaro veta o decreto. No mesmo mês, o judiciário de Palermo convocado para depor o democrata cristão Mario Andreotti, Presidente do Conselho. A partir deste, foram envolvidos grandes expoentes da política italiana, mormente membros do partido da Democracia Cristã. Um após outro, os cabeças do partido foram chamados a prestar depoimentos, tais como Arnaldo Forlani e Antonio Gava. Nestes inquéritos a justiça não se preocupou em distinguir os diversos tipos de crimes, nem mesmo resguardar a possível inocência dos acusados. No mesmo banco dos réus estavam juntamente  ministros, executivos, empresários, e bandidos, sem se falar que  o processo para os políticos era de tal maneira que, pelo simples fato de serem convocados pela justiça, publicamente transparecia a idéia que estavam imputados de culpa, ao menos moralmente atingidos.  As acusações, embora não confirmadas culposas, perante a opinião pública apareciam como definitivas. Com isso, muitas vezes tardiamente,  foi reconhecida de não poucos a inocência dos acusados. Os processos envolviam financiamentos ilícitos de partidos e corrupção estabelecendo-se uma correlação real com o mundo do crime, quando deveria ter sido apenas hipotética, que somente poderia ser reconhecida, como mais tarde foi, em poucos casos. No entanto, naquele momento, Mani Puli igualou a todos os acusados, provocando verdadeiras decapitações políticas.  Os inquéritos queriam levar à conclusão de que havia uma relação sistêmica entre política e negócios econômicos e com isso envolveu o mundo empresarial, políticos e máfia.
A reação imediata foi a fuga tanto de filiados dos partidos, mormente os tradicionais, como Democracia cristã e Partido socialista, como dos homens de negócios da política. Claro que este fenômeno atingiu também partidos de oposição mas em menor escala e com efeitos menos sensíveis. Os grandes partidos de governo, e em primeiro lugar a Democracia Cristã que estava no governo desde 1945, foram atingidos no coração. O grau de desgaste político foi incomensurável, e seu poder  ficou  corroído.
A queda livre, porém, não havia chegado ao final, era apenas o início do tornado. Em março ocorre o assassinato de Salvo Lima, na Sicilia, amigo de Giulio Andreotti.  Este acontecimento leva a uma hipótese, por parte da Justiça, de que haveria relações de interdependência entre os partidos e a máfia, objetivando com isso explicar os homicídios e atentados tais como dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borselino. Evidentemente que isto levou a Andreotti, que  fora Presidente do Conselho,  1991, pela Democracia Cristã. Apesar de ter sido absolvido após dez anos, a absolvição não convenceu a opinião pública, pois a sentença não se apoia sobre a inocência, mas sobre falta de provas materiais para que o poder jurídico pudesse enquadrá-lo dentro do crime organizado, isto é, não se pôde constatar uma relação entre o mundo legalidade-economia-criminalidade. A idéia que aflorou foi que Andreotti não era um mafioso que fazia política, mas um político que usa a máfia. As questões ético-políticas continuaram a subsistir.[2] No entanto, Andreotti, como homem público da Democracia Cristã, estava irremediavelmente atingido.   Aliás em 1999, quando da absolvição,  o partido da Democracia cristã nem mais existia. Perante a opinião pública, a Democracia Cristã provocou uma sensação de frustração, de vazio e mesmo de traição. Os estratos médios baixos, os agricultores, as mulheres, enfim, todo o eleitorado que a sustentava, além dos motivos políticos tinha outros valores nos quais se identificava na democracia cristã, entre os quais os religiosos. Aquela confiança atribuída à Democracia Cristã converteu-se primeiramente em incredulidade, depois em estupefação e finalmente em revolta, por ter sido, como pensou, tão cinicamente traída
No Partido Socialista o mais atingido foi o líder Bettino Craxi que também fora Presidente do Conselho por duas vezes, em 1983 e 1986. Craxi se tornou um símbolo de um político corrupto, que entrelaçava sistemicamente política com negócios.
Os crimes de Tangentopoli podem ser classificados sob vários critérios. Seguimos o critério de Luca Ricolfi[3]. Conforme este autor, as acusações de crimes podiam ser classificados em a) abuso de poder, b) econômico-fiscais e patrimônio, c) potencialmente de mera transgressão, d) Comportamentos violentos ( atentados, homicídios, seqüestro de pessoas),  e) associações ( mafioso, delinqüente, subversiva, militar, partido fascista), f) Opinião e informação ( revelações de segredos de ofício, instigação a desobediência às leis, difamação, vilipêndio de instituições, apologia ao fascismo, e outros),  g) Rixa e conflito, h) outros ( danos efetivos, comportamentos dolosos, atos provocativos).  
Um sintético inventário dos inquéritos judiciais nos levaria a nada menos que 914 processos, envolvendo 179 tipos de crimes. Dentre estes, os mais citados foram corrupção inerente ao cargo ( 165), extorsão ( 167), divulgação de notícias falsas ou tendenciosas ( 170), falsidade ideológica, de informação e escrita  ( somadas as três:  511), Inobservância de ordens de autoridades ( 179), ameaças obrigando a cometer crime ( 169), acordo entre contribuintes para o não pagamento de impostos ( 162), atentados ( 156), homicídios ( 75),  enfim uma infinidade de acusações.  
Em que pese o volume do(s) processo(s), a justiça levou e está levando à conclusão. Os corruptos foram julgados, condenados e a justiça foi feita. 
É um exemplo para o Brasil  







[1] MINGHETTI, Marco. I Partiti Politici e la loro Ingerenza nella Giustizia e nell’Amministrazione. Milano, Società Aperta, 1997, p. 103 a 105
[2] SCHIARRONE, Rocco. Il Processo Andreotti e La lotta alla Mafia, Il Mulino. Bologna,  p. 496 a 501,  settembre-ottobre 2001. 
[3] RICOLFI, Luca. L’Ultimo Parlamento: sulla Fine della Prima Republica. Roma, La Nuova Italia Scientifica, 1993, p. 157 a 161.

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