sexta-feira, 3 de julho de 2026

JAMES TOUR, A VIDA HUMANA E A VISÃO CRISTÃ. Selvino Antonio Malfatti.

 



James Mitchell Tour é um químico orgânico sintético nanotecnólogo de nacionalidade americana, descendente de judeus. Na atualidade é professor titular na Universidade de Nice, Houston, nas cadeiras de Química, Ciências dos Materiais, Nanoengenharia e Ciência da Computação.

Sua formação universitária consistiu no Bacharelado em Química, Doutorado Ph.D. em Química Sintética e Organometálica e Pós-doutorado na Universidade de Wisconsin-Madison (1986–1987) e na Universidade de Stanford (1987–1988). 

A formação oficial abrangeu somente a área das ciências exatas. Tour, concomitante à formação acadêmica dedicou-se, extraoficialmente à formação humanista abrangendo filosofia e religião, embora só particularmente tenha se interessado disso. Dedicava-se à leitura da Bíblia no período de faculdade e em casa não se falava em religião. E foi neste período que se converteu ao cristianismo. Paralelamente passou a desenvolver atividades educacionais e debates filosófico-científicos sobre química e origem da vida.

No estudo sobre química e biologia ao chegar a concepção de vida Tour conclui pelo criacionismo. Na pesquisa não prossegue até alcançar a vida humana. Fica a pergunta: como surgiu o homem? Criacionismo ou evolução? Para ambas as hipóteses surgem conjeturas. Pela evolução chegará o momento do salto, divisa, da linha divisória entre humano e não humano. Tour opta pela intervenção de uma inteligência superior que estabelece a linha divisória. Ou se opta pela evolução, a qual tem um fim ou não. Se tem será pelo criacionismo se não tem, não há ser humano. O criacionismo, por sua vez, alicerça-se na teologia que também é vista pela filosofia.

As grandes linhas da reflexão cristã cujo objeto são temas religiosos que abrangem Deus, bem, mal, pecado. James Tour não se preocupa diretamente com os temas, pois, como químico pesquisou o problema filosófico da origem da vida. Avançar outras questões como o pecado estão tangencialmente relacionados à vida humana. A teologia oficial do cristianismo ensina que o início da vida e dela para a vida humana tem como ponto de partida o imaginário Paraíso entendido como o local da emergência do homem. O homem no Paraíso é um ser humano completo. Já pela evolução um ser semi-humano, semirracional, emerso da de outros seres em contínua evolução. 

O homem do Paraiso devia mante-se dentro de um comportamento moral que não conhecia. A partir de então tinha um NÂO para guiar-se e apetites oferecidos pela natureza e desejados pelo seu corpo guiado pela alma. Como se porta um tal ser? Se se desviasse do NÂO cometeria pecado. Que pecado? Queda. O que era Queda neste contexto? O que o tentava ao NÂO e Quem o tentador e que consequências adviriam desta queda? Por que a ela estão associados bem, mal, pecado, Deus?

No criacionismo o ser humano concorda com sua companheira em dizer um NÃO ao não. Esta desobediência seria escolher um bem considerado pelo impostor como um bem, mas era um mal. Por que escolher o mal se podia escolher o bem não transgredindo o Não? Por que o mal se tornou um bem? O mal acontece porque o bem é visto como menor em que o mal. A transgressão era um pecado. O pecado atinge o pecador, mutila-o, corrompe esfrangalhando o corpo e a alma. Será, então, o pecado que dilacera o homem ou sua natureza mutilada que o conduz ao pecado? Pode o homem não pecar. Se pode, por que peca? A questão é porque sendo livre opta pelo pecado, para a corrupção. O mal e o pecado devem ser melhores que aquilo que se diz bem e virtude. Por isso não se pode não pecar. Poderia, por acaso, subsistir este mundo sem o pecado? A ânsia pelo pecado é sua própria recompensa enquanto sua concretização é o próprio castigo. A dialética não esmorece no castigo, mas na recompensa e por isso se volta a procurar o pecado. Recompensa e castigo complementam-se e retornam ao homem. Ele é feliz com o que não tem, mas quer ter. E infeliz com o que consegue, mas não queria tê-lo. O desejo de bem leva à corrupção de sua natureza, e a vontade de fugir do mal o degrau para a perfeição experiência concreta de fascínio, cegueira, remorso e busca de sentido.

O cristianismo se alicerça sobre três grandes pilares: o pecado, culpa, redenção e o perdão. Dentre eles o mais problemático é o pecado por que gera a culpa coletiva e hereditária da humanidade, a qual exige arrependimento individual e coletivo para obter o perdão. Só com isso se restabelece a ordem na sociedade. Mas o que é a culpa. É um sentimento individual ou coletivo de perda. O cristianismo apresenta como causa o pecado hipoteticamente dos primeiros seres humanos. Evidentemente não há uma autocritica mais profunda e sociologicamente nem é necessária. A filosofia se perguntaria: mas culpa de quê? E os emersos hipoteticamente da evolução? Chegar-se-ia refletir em seres da evolução, semirracionais, sem noção de moral? Que pecados poderiam cometer se só hipoteticamente seriam seres humanos? Desobedecer a Deus? Pobres semi-humanos! E mais, estes tem esta culpa que passa de geração em geração. Todo homem nasce com a marca do pecado original. O problema está nisso: se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Este é o pecado original no pensamento apoiado na vulnerabilidade da natureza humana, da dor e do mal no homem e na sociedade. É um pecado de raiz, transmissível e geral aos seres humanos. O homem não se faz pecador, nasce com o carisma: “minha mãe me gerou em pecado”, diz o Salmo 51. Além disso, o pecado original é fonte de todos os demais pecados.

Tanto o judaísmo como o cristianismo originalmente não se preocuparam na crítica ao princípio do pecado e de suas consequências sociais. Aceitou como dogma sem crítica o pecado.

O que foi o pecado original que privou o homem do bem por nascimento. O pecado na concepção cristã foi motivado por outro que o levou ao pecado: a serpente, no caso. Como foi a experiência? Na doçura da prova foi junto o abrolho do prazer. O veneno perpassa o corpo até atingir a alma. Por isso, após a felicidade do pecado sobrevém a prostração do arrependimento. Aquela sensação de morte que começa nos pés e atinge o coração faz a alma exclamar pelo “De Profundis”. A miséria invade cada membro da alma fazendo o coração gemer e confessar que se é todo pecado, já foi gerado no pecado. Que desejo de ter as mãos limpas e o coração puro! Que desejo de poder, nem que fosse por um instante, voltar atrás no tempo e saltar aquele momento anterior.  Ano entanto, na consciência, palpita forte: “De Profundis, clamavi ad te, Domine!” (Salmo 129 ou 130). O veneno da serpente ofusca os olhos, embaça a mente, invade de torpor todo o corpo. Ele inocula a razão através da felicidade do coração. Ele se vê no último banco da igreja se ajoelhar, enfiar a cabeça entre as mãos, encher os olhos de lágrimas e tentar buscar a Deus. Nada encontra senão um dedo apontando o caminho da porta, o paraíso. A impureza, a vaidade, o orgulho, a ganância são terra jogada sobre o caixão do cadáver. Pasto para os vermes festejarem, estrume para porcos chafurdarem, putrefação para os corvos se deliciarem. O pecado causa o mal, primeiro na consciência. Ela fica com o olhar embaçado não mais vislumbrando o mal por trás do pecado. É um mal que atinge a alma através do corpo e vice-versa: o corpo através da alma. Isto se pode denominar de degradação do corpo que ficou corrompido e por sua vez corrompe a alma. A consciência embaçada pelo pecado não vê mais com nitidez o bem, pois foi corrompida e apossada pela mentira, ódio, ganância, soberba, impureza, avareza.

A tudo isso o cristianismo acena com a graça. A graça, porém, só faz sentido por causa do pecado. O catolicismo vai além. Exalta ao proclamar “feliz culpa que nos trouxe tão grande Salvador”.


Postagens mais vistas