Poucos cientistas vivenciaram a íntima relação entre o morar
e pensar como Albert Einstein, conforme pensam Daniele Manca e Gianmario Verona
no artigo "Em casa de Einstein". Quem se detém na saga de cada morada de Albert
Einstein flagra-se a dinâmica que envolveram a residência e o pensamento do
cientista. Cada mudança corresponde a uma nova configuração intelectual do
autor. E não foram poucos: quatorze endereços diferentes.
Einstein nasceu em Ulm, às margens do Danúbio, no sul da
Alemanha. Viveu depois em Munique, Milão, Pavia, Zurique, Berna, Praga, Berlim,
em um chalé inglês e, por fim, em Princeton. Casas grandes e pequenas,
apartamentos modestos e residências confortáveis, espaços centrais e periferias.
Einstein nunca pertenceu a um lugar, mas ao mundo.
A casa é o aconchego íntimo. Abriga a família, o idioma e
a cultura pátria. Com Einstein mundo líquido se antecipa: identidades digitais,
múltiplas moradas, deslocamentos contínuos, pertencimentos parciais e
fronteiras móveis. Cinco cidadanias, a natural renunciou e um tempo apátrida.
As mudanças de residências acompanhavam pari passu as
novas oportunidades acadêmicas junto com as nuances políticas. A nova morada
era uma resposta às tensões políticas
emergentes.
1. Ulm
e Munique: origens e formação inicial (1879–1894)
Ulm é seu local de nascimento de onde cedo se mudou para
Munique. Os conflitos mais marcantes foram as tensões com o sistema educacional
autoritário alemão. Enfrentou dificuldades econômicas severas de tal sorte que
decidiu mudar-se para Itália.
2. Milão
e Pavia: fuga e transição decisiva (1894–1895)
Residiu em Milão e Pavia. Neste endereço cortou os laços
umbilicais com a Alemanha renunciando inclusive a cidadania e tornando-se
apátrida. Foi um período de reflexão, amadurecimento,
longe das pressões políticas alemãs.
3. Zurique
(primeira fase): formação acadêmica (1896–1900)
Apesar de todos os esforços e entregas de currículos não
lograva ingressar no ensino universitário. Em Zurique, por exemplo, por não
conseguir o oque almejava chegou ao ponto de se conformar com o ensino médio. Sua
alma mater aconteceu no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ). Formou-se
em matemática e física. Aí encontrou outro ambiente intelectual: aberto e
cosmopolita. Identificou-se com os ideais liberais e obteve a cidadania suíça.
4. Berna:
trabalho e revolução científica (1902–1909)
Ao se transferir para Berna, consegue publicar alguns artigos que o alavancaram
definitivamente para a física. Foi em 1905, considerado o “Annus mirabilis”.
5. Zurique
(segunda fase): retorno difícil à academia (1909–1911).
A volta a Berlim teve como objetivo assumir um cargo
universitário, mas o reconhecimento intelectual não veio. Ao contrário, as
resistências às suas ideias persistiram. Foi um momento de insegurança
profissional e perseverança intelectual.
6. Praga:
reconhecimento condicionado (1911–1912).
Uma oferta de carreira universitária chegava casada
à aceitação da cidadania austro-húngara. Em que pese sua
brevidade nesta capital, abriu-lhe definitivamente as portas da universidade.
No entanto, o ambiente político e intelectual pairava sobre sua trajetória.
7. Berlim:
auge científico e ruptura política (1914–1933)
Em Berlim, então capital mundial da ciência, alcançou
reconhecimento pleno, mas também viveu o início da perseguição ideológica. A
ascensão do nazismo e a propaganda contra a chamada “ciência judaica” o
empurraram para o exílio.
8. Chalé
inglês: refúgio temporário (1933)
E foi para o exílio na Inglaterra. Einstein viveu em um
chalé em fuga direta do regime nazista. Essa moradia representou um abrigo
provisório, um espaço de transição entre a Europa que se fechava e e os Estados
unidos que se abriam.
9. Princeton:
exílio e estabilidade final (1933–1955)
Einstein estabeleceu-se em Princeton, nos Estados Unidos,
onde viveu inicialmente na Library Street, no campus universitário, entre 1933
e 1936. Posteriormente, adquiriu sua casa definitiva na Mercer Street, onde
permaneceu até sua morte, em 1955, aos 76 anos, o maior gênio da física de
século XX.